O
apelo neofascista
No
streaming, no cinema ou na literatura, cenas espetaculares de ficção científica
têm ocupado parte significativa de nosso imaginário cultural e afirmado a
atratividade do colapso da sociedade tal como a conhecemos: um meteoro aniquila
grande parte da civilização, uma guerra de destruição total transforma o
cotidiano em caos, a ditadura das máquinas se implanta, alienígenas dominam a
humanidade ou um desastre climático faz a civilização moderna voltar à fase
mais crua da luta pela sobrevivência – todos esses enredos exemplificam a
irresistível sedução pelos escombros em nossa época.
A
distopia tem se mostrado a língua franca da sociedade contemporânea não apenas
na crítica sociológica e na ficção científica, mas também nos telejornais, nos
reality shows, nos portais de entretenimento ou no feed das redes sociais.
Quando buscamos nos informar ou mesmo nos distrair, somos arrebatados por um
mundo de violência, agressividade, corrupção, assédio e concorrência.
A
atmosfera pessimista se torna cotidiana em meio às ruínas da gramática liberal
e do otimismo oficial que eram norma até há pouco, e podemos notar que o
mal-estar vai se normalizando desde as palavras do cotidiano ou do
entretenimento até a linguagem de políticos que proclamam “acabar com tudo o
que está aí”.
A
sociedade neoliberal já não esconde a degradação que provoca e os seus efeitos
psíquicos – que incluem ansiedade, depressão, burnout, vícios, desmotivação,
culpa e sentimento de insuficiência – também podem justificar aflição nos
produtos culturais. Mas, além dos motivos realistas das representações, talvez
haja certo fascínio em constatar o pandemônio, a recessão econômica, a
insignificância humana, a destruição ambiental, o desalento dos sujeitos, a
crise política e os estilhaços da moralidade pública.
Anna
Kornbluh nomeou como “imediatez” a atual corrosão das instituições e símbolos
coletivos que têm levado à hostilidade competitiva desenfreada, aos discursos
de ódio, às humilhações públicas e às linguagens estéticas apelativas e
superficiais. A autora chama de “capitalismo tardio demais” esse estágio em que
as expectativas estéticas e ideológicas implodem, mas deveríamos também nos
questionar sobre o impacto político de tal reconfiguração do imaginário. Como
esse prazer da destrutividade tem seduzido as massas e o desejo fascista
renascido tem sido transformado em objeto de consumo?
O
fascismo histórico propagandeou o desenvolvimento da produção e a prosperidade
seletiva, ou seja, a expansão do capitalismo ensejou o contexto em que se
tornou possível fortalecer uma moral guerreira que celebrava a potência dos
grandes homens e aspirava à construção de impérios.
O
futurismo italiano fez a celebração afetada da máquina e da velocidade como
fins em si mesmos num contexto em que elas reverberavam o sentimento histórico
de ruptura e inovação. Coube aos líderes fascistas de então associar o impulso
e a euforia do progresso ao culto guerreiro à autoridade, o desprezo pelo
atraso aos outsiders e a potência científica à pseudociência racial que
desprezava a figura da alteridade para se engrandecer sem contradição.
O
desejo neofascista não comercializa exatamente os mesmos materiais ideológicos
pois já não se encontram disponíveis as ilusões ascendentes daquele contexto,
que se baseavam no processo de modernização, na crescente concentração urbana e
na potência industrial nascente. Hoje, o contraste entre passado, presente e
futuro se encontra esmaecido pela amnésia histórica pós-moderna e o projeto
neofascista tem assumido uma feição mais dispersa e niilista.
No
entanto, como sugere Franco Berardi, a completa dissolução dos laços de
solidariedade comunitários, o desenvolvimento de técnicas de controle e a
plastificação mercantil dos sujeitos parecem ter criado indivíduos mais
suscetíveis à dessensibilização fascista e reduzido o potencial de resposta à
sua desumanização.
Mas a
conquista do imaginário coletivo por tais forças destrutivas só se faz possível
quando a ordem anterior já foi consumida por suas próprias falhas e apenas a
perversidade de um líder autoritário sacia a ânsia por vingança contra a leis
do velho mundo. Dessa forma, a atomização e a deterioração social são chaves
para se compreender como os demagogos vendem seus produtos salvacionistas e, de
formas tão astutas quanto irracionais, capturam o desejo das massas. Os
momentos de crise do capitalismo, de instabilidade política, disfuncionalidade
do trabalho, queda da renda e degradação social são os momentos em que o
fascismo tende a florescer.
Na
Alemanha do século XX, a humilhante derrota na Primeira Guerra Mundial, a
recessão de 1929 e a esmagadora derrota das organizações de trabalhadores no
espaço de apenas uma década formaram o cenário de uma tempestade perfeita.
A
reversão dos projetos imperiais e modernizadores alemães, a traição do SPD, a
derrota dos conselhos operários e, em geral, a decadência da nação tornaram
possível tanto a captura da imaginação política pelo ressentimento quanto o
triunfo do ódio genocida proposto pelo partido nacional-socialista e por
Hitler. O colapso do país alimentou um ímpeto de destrutividade que chegaria
aos extremos da irracionalidade perversa em que a “Solução Final” se sobrepôs
ao esforço de guerra.
Nos
Estados Unidos do XXI, o declínio relativo de seu domínio econômico, a crise de
2008, o fracasso das correntes social-liberais e a impotência das forças de
resistência são processos em curso que criaram uma considerável base para
Donald Trump e o movimento MAGA (Make America Great Again).
A
corrosão das instituições e atual ascensão neofascista se deu de forma gradual,
com a dispersão e fragmentação dos movimentos sociais após o advento do
neoliberalismo e a derrota do socialismo real. A desmoralização coletiva se
mostrou um ingrediente mais decisivo do que o malogro de alternativas
revolucionárias.
Claramente,
os efeitos desse longo processo se fazem sentir hoje em todo o Ocidente e se
tornam mais sombrios à medida que não há oposição à vista, não há Stalingrado
e, na maior parte dos lugares, não há organizações de massa com projetos
concorrentes. Os mercadores do ódio passaram a deter o monopólio das
perspectivas antissistema num momento em que a demanda por alternativas não tem
previsão de parar de crescer.
A
agressividade aparece como solução mágica para todos os defeitos da miséria
social porque ela tanto promete atacar a insatisfação popular quanto pelo fato
de ser, em si, um entretenimento que aplaca a infelicidade. Um indivíduo forte
deve comandar para que todos os outros estejam protegidos contra a insatisfação
cristalizada na figura do outro.
O líder
autoritário é visto como capaz de colocar ordem no caos, de reproduzir na
sociedade como um todo a lógica patriarcal da família e de expurgar da
comunidade o indesejado personificado. O culto à personalidade e o masculinismo
se complementam no sentimento de que apenas o pater familias pode retomar o
equilíbrio social contra os dissidentes que seriam responsáveis pelo mal-estar
comunitário.
A
alquimia de todo fascismo é unir o individualismo e a comunidade, o mérito e o
pertencimento, conferindo sentido para o ressentimento através de uma
“ambiguidade estratégica”, de modo que a hierarquia separa a todos, mas que
haja unidade da maioria contra uma escória bem delimitada.
O grupo
étnico, a religião, a orientação sexual, a posição política são todas imagens
de alteridade que podem servir à demarcação clara de um antagonista
amedrontador o suficiente para justificar a destruição preventiva.
Naturalmente, o essencialismo que toma a identidade alheia como atestado de
propensões deletérias permite resguardar a identidade dominante como benigna,
representar perversamente a fratura social e, sobretudo, defender a propriedade
e os interesses de classe em meio às crises.
O apelo
do discurso neofascista reside em tal união entre o desejo regressivo e o
interesse material. O seu aspecto decisivo é o “pessimismo antropológico” que
desacredita a razão e reduz as relações humanas à concorrência entre as raças,
os povos e os indivíduos na lógica do darwinismo social. Todo universalismo é
ofensivo, porque o fascismo radicaliza a premissa liberal de que o egoísmo e a
competição são a base da natureza humana.
Como
poderia alguma conquista econômica, social ou científica ser benéfica para
todos quando a própria ideia de humanidade comum foi descartada e se compreende
que todos são competidores?
Uma vez
legitimada a assimetria e posta a desigualdade crescente, o processo de
essencialização é necessário: “Aqueles que se beneficiam das desigualdades são
frequentemente sobrecarregados por certas ilusões que os impedem de reconhecer
a contingência de seus privilégios. Quando as desigualdades se intensificam,
essas ilusões tendem a entrar em metástase. Que ditador, rei ou imperador não
suspeitou ter sido escolhido pelos deuses para a sua função? Que poder colonial
não alimentou ilusões de superioridade étnica, ou a superioridade de sua
religião, cultura ou modo de vida, superioridade que supostamente justifica
suas expansões e conquistas imperiais?”.
A
auto-organização dos trabalhadores é combatida justamente por expressar um
princípio de solidariedade que ameaça o núcleo do desejo autoritário e, na
verdade, “a aversão pelos sindicatos é um tema tão importante na política
fascista que o fascismo não pode ser totalmente compreendido sem um
entendimento disso”. Os liberais pensaram que o liberalismo, o nazifascismo e o
socialismo soviético foram projetos alternativos da modernidade, ou seja, a
derrota nazista e a implosão socialista seriam provas da superioridade de seu
sistema.
Deveríamos
compreender, no entanto, as tendências fascizantes, e também as socializantes,
como latências do capitalismo que se manifestam nos momentos de crise e apontam
para os princípios antagônicos da hierarquia ou do igualitarismo.
As
instituições oficiais da democracia liberal são o negativo do fascismo até o
momento em que a austeridade, a intransigência e as medidas de exceção se fazem
necessárias para proteger o “interesse nacional”, ou seja, quando o braço forte
do Estado se torna o fascio. Se é verdade que a esfera da circulação é o
“verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem” e “o reino exclusivo da
liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham”, sabemos bem que o
paraíso se transforma em inferno quando adentramos o terreno oculto da
produção, a ditadura do labor.
O lado
sombrio da utopia liberal é bem reconhecido pelos tiranos que buscam ampliá-lo
para a sociedade como um todo, tornando a fábrica o modelo da totalidade da
vida social: “No domínio da iniciativa privada (bem como das forças armadas), o
nacional-socialismo reconheceu uma estrutura autoritária familiar que sua
política poderia explorar para fins de propaganda […] Hitler enfatizou que os
industriais deveriam apoiar o movimento nazista, uma vez que as empresas já
funcionavam de acordo com o ‘princípio do líder’, o princípio do Führer”.
Dessa
forma, compreendemos que o neofascismo não é uma perspectiva estranha ao
liberalismo, mas um desdobramento específico de suas tensões internas. Os
discursos social-liberais também têm como pressuposto a fragmentação das
expectativas coletivas, mas, enquanto eles insistem em manter as aparências de
um mundo compartilhado e democrático, os líderes autoritários preferem
ritualizar a divisão. A hipocrisia dos primeiros encontra resposta no
charlatanismo dos últimos.
Slavoj
Žižek aponta que o desembaraço de personagens como Donald Trump produz o prazer
da obscenidade, a normalização do absurdo, como se as suas patologias lhe
permitissem maior desprendimento das diretrizes caducas de outro tempo. O seu
carisma provém dessa liberdade desregrada que evoca em gestos e palavras,
encenando uma independência que é a desconexão em relação a qualquer norma de
empatia.
Quando
Donald Trump fala de “imigrantes criminosos”, por exemplo, não pensa em
subdividi-los a partir de uma categoria universal, mas em fundir os dois
termos, afirmar que os imigrantes são essencialmente criminosos e legitimar a
política violenta do ICE (Serviço de Imigração e Controle) contra essas
minorias.
A
“permissividade pós-moderna” é o caráter vanguardista dos líderes neofascistas
e o seu caráter cômico se baseia na banalidade com que defendem a violência e a
“lei do mais forte”, enquanto acenam com vagas promessas de recompensas para
aqueles que se alinharem aos mais fortes. O seu humor já não é a quebra de
expectativas, mas o desengano com qualquer expectativa, a transformação das
ruínas em espetáculo. Eles transfiguram o caráter crítico da comédia em riso a
favor da ordem, mas a transgressão dos limites, o irracionalismo e o
individualismo parecem até aqui ter impedido sequer a sua coordenação como nos
partidos de massa do século XX.
O show
dos neofascistas é a gratificação imediatista no contexto de frustração
generalizada, onde performar a desarmonia coletiva é extravasar uma pulsão
agressiva que já não pode ser sublimada em meio à situação de precariedade
crescente.
O
descrédito de alternativas, o alargamento da fronteira dos discursos aceitáveis
e o prazer pelo abjeto e escatológico são todos sintomas mórbidos do crescente
autoritarismo que domina o cenário de colapso da antiga ordem social. O apelo
do neofascismo é a zombaria da miséria neoliberal, mas o seu objetivo é
transformar a comédia em terror.
Fonte:
Por Thomas Amorim, em A Terra é Redonda

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