Medicina
4.0 - Entre algoritmos e decisões vitais
Para
compreender o que é ser médico faz mister irmos para seus primórdios, sua base,
seu locus nascendi, e entender o desenvolvimento dessa arte que chamamos de
medicina.
Não
querendo me prolongar muito na arqueologia do desenvolvimento do papel de
médico, vou me ater no entanto na única e verdadeira observação que considero
indispensável: não há como dissociar a medicina e o médico da constituição de
um sujeito ético.
Então,
devemos analisar como formamos esse sujeito ético, o médico, que irá aprender a
medicina em alguma instituição de ensino, dentro da nossa realidade
contemporânea informacional, imerso na infosfera.
Lá no
começo, com Hipócrates, foi possível sair do clã dos Asclepíades e ensinar a
medicina fora dos templos, pautados pelo famoso Juramento de Hipócrates, que
conferia o novo ethos no período clássico: primun non nocere!
Acompanhar
o mestre às casas daqueles que padeciam, observar suas feridas e dores, menos
diagnosticar e mais restituir a saúde do corpo através de receitas, dietas e
cuidados, respeitando a physis e o tempo da clínica, seu kairós, perfaziam a
prática dos hipocráticos. Imerso na teoria dos humores, sem detalhes
anatômicos, sem bioquímica, sem microscopia, sem antibióticos, observando os
ciclos febris e o efeito de purgantes, o médico ia destrinchando os sinais do
corpo e apaziguando o sofrimento do seu paciente. Não significava cura
propriamente, mas, trazia alento e respeito à ananke physeos.
Ao
longo dos tempos, o progresso técnico em todas as esferas humanas foi
sensacional e quase ininterrupto, progredindo de forma exponencial e na
medicina não foi diferente. Do surgimento das vacinas à cirurgia robótica,
vidas sendo salvas como nunca antes, dobrando a expectativa de vida da
população ao final do séc. XX. Mesmo assim, a ética dos hipocráticos continuou
como faceta estruturante daquilo que se chama “ser médico”. Nenhuma faculdade
de medicina até hoje, que se tenha notícia no mundo ocidental, pauta seu ensino
sem as considerações éticas implícitas e indispensáveis à prática médica.
Mas
obviamente a preponderância da pauta técnica, ainda mais recentemente com a
aplicação em vias de fato da Inteligência Artificial no âmbito da vida humana,
vem tomando um espaço não desprezível na formação médica, colocando-se como
indiscutível e necessária no mercado de trabalho competitivo atual: é a
medicina 4.0 entrando no palco do ensino.
Corte
para uma cena:
Estamos
diante de uma paciente com diagnóstico de câncer de pulmão, uma caiçara, com
vida dedicada aos filhos, o fogão à lenha era sua lida diária. Foi internada
com falta de ar e já usava oxigênio suplementar em casa. Há uma dúvida no que é
possível fazer em termos terapêuticos, pois a doença vem se agravando, porém os
médicos têm em mãos uma biópsia que sugere um crescimento tumoral possivelmente
benigno.
A falta
de ar foi maior e ela precisou ser intubada e respira agora com ajuda da
ventilação mecânica. Não consegue ficar sem esse auxílio. Chama-se a família e
se explica o mau prognóstico: “gostaríamos de poder extrair o tumor, mas
tecnicamente isso não é possível e ela não sobreviveria a uma cirurgia tão
invasiva, ela está muito fraca e sem os recursos físicos necessários para
aguentar o trauma da operação”.
Aqui a
cautela se apresenta. Cada médico avalia, de acordo com sua sensibilidade o
melhor a ser feito a partir de agora. A forma de comunicar, a conversa, o toque
e a delicadeza são fundamentais. A finitude diante dos olhos é também espelho
para quem cuida. Segundo Berardi, a sensibilidade é a capacidade de interpretar
e entender aquilo que não pode ser expresso em signos verbais ou digitais. Essa
percepção intuitiva de cada qual que vai se deparar com situações desse tipo,
procurando sempre fazer o melhor para o paciente, como deveria ser ensinada?
Fazer
bons diagnósticos não é a completude do ensino médico. Máquinas e auxílios
acadêmicos provenientes da interface com a internet e computadores proporcionam
informação de forma prática e rápida. Para se obter uma informação crítica, um
último artigo de revisão, uma equação que ajude a prescrever uma medicação, uma
diretriz, um protocolo e etc… são bem vindos, mas não exaure a totalidade da
prática da medicina e não abarca a dimensão ética de sua pragmática.
A
medicina 4.0 está aí como produto de marketing das faculdades de medicina, quem
não tem corre o risco de ser arcaica na sua proposta de ensino. A dita “quarta
revolução industrial” promete fazer a medicina entrar em uma nova fronteira
antecipando benefícios econômicos e técnicos, mas também colocando em xeque o
papel do médico no futuro. Mas é possível ensinar coisas como empatia e
humanismo aprendendo com uma máquina? Então pergunta-se, quais são os reflexos
da Inteligência Artificial na formação do médico?
Outro
corte de cena:
Em uma
Unidade de Terapia Intensiva, à mercê de algumas decisões de vida e de morte, o
paciente é um corpo sem sujeito ou um sujeito dessubjetivado. Na ausência de
alguém que se interesse por sua história de vida, seus projetos interrompidos,
seu lugar na família e seu temor ou horror diante da solidão de uma cama de
UTI, o paciente/sujeito está desprovido de autonomia e identidade própria.
Ao seu
redor ele ouve apitos que não fazem sentido, outros barulhos constantes, vozes
que muitas vezes não entende, onde ele não vê a luz do sol entrar, não sabendo
ao certo se é dia ou noite, sendo controlado por monitores e câmeras, sob o
torpor de medicações ou sentindo alguma dor física. Como ensinar o médico em
formação para a percepção desse entorno que se coloca como a “quase-essência”
de casos do seu dia-a-dia utilizando-se de máquinas que carecem de espírito?
O
treinamento e o conhecimento onde aplicamos nossa habilidade de saber o que
deve ser feito, a conduta certa a ser tomada, se encontra agora em um espaço
mais distante, uma sala ao lado, ou um balcão em separado, onde se pode ver os
traçados do eletrocardiograma, as curvas de pressão e a oximetria do paciente.
Nessa
conexão do médico treinado em captar essa informação, concatenando dados,
visualizando os monitores e interpretando sinais computacionais é que surge o
campo propício para a constituição de um médico maquínico. O pensamento se
torna um mecanismo semelhante ao da máquina. É o médico que se concentra em
absorver, na tentativa de interpretar todos os sinais magnéticos, os fluxos e
as estatísticas numéricas de registros biológicos na tela de um monitor e na
rede de informática que lhe entrega os sinais do paciente além de uma série de
resultados de exames laboratoriais e estatísticas.
Vejamos
que na medicina moderna já estamos lidando com uma proliferação de sinais e
signos com os quais o médico precisa interagir e decifrar, buscando estabelecer
uma conexão, muitas vezes procurando um sentido de causa e efeito. A
subjetividade médica em formação tenta se alinhar com a subjetividade das
máquinas que lhe auxiliam e são indissociáveis, formando um construto
operacional maquínico. Nessa formatação não há a possibilidade de uma
intersubjetividade à la Jacob Levy Moreno: falta um “outro”.
Não
irei fazer um juízo de valor sobre faculdades médicas que desejam estar
atualizadas naquilo que de melhor existe em termos de tecnologia. A verdade é
que a tecnologia moderna digital e as plataformas médicas online, estão se
tornando cada vez mais prevalentes, para o bem ou para o mal: a vindoura
medicina 4.0. Apenas acredito que devemos nos perguntar então que médico
estarão formando, como forma de provocação para aprofundamento da discussão em
pauta: serão ainda hipocráticos esses egressos?
Pergunto
mais, precisamos de “mais medicina” ou de “mais cuidado”? À primeira vista não
precisariam ser tópicos excludentes, mas o contexto atual exige um esforço de
discernimento. Sabemos desde muito que é pela prevenção que evitamos a maioria
das doenças e que é pelo fortalecimento do sistema básico de saúde e da
melhoria das condições de vida da população no geral que oferecemos o que se
produziu de melhor em termos de saúde. A medicina preventiva não é só mais
barata, ela também é a melhor abordagem a ser ensinada e aplicada quando
almejamos cuidar do povo.
Contudo,
estamos chegando ao ponto em que daqui a pouco tempo será possível que um robô
faça diagnósticos melhores que os humanos, pois já conseguem fazer cirurgias
menos lesivas com cortes milimetricamente precisos pelo auxílio da robótica. Se
para chegar em alguns diagnósticos fazemos roteiros, algoritmos e pontuações,
seria ingênuo desacreditar na primeira afirmação acima. O que nos faz
argumentar que com o aumento da utilização da Inteligência Artificial na
medicina, treinamento específico nessa área deverá se impor.
Qual
será o lugar do médico e da medicina na sociedade da informação? Um dos
criadores da Inteligência Artificial, Kai-Fu Lee, fez uma pergunta intrigante:
“quando as máquinas podem fazer tudo que podemos, o que significa ser humano?”
Ele mesmo, após ser diagnosticado com um linfoma avançado parou para
ressignificar aquele crescimento dentro de si e afirmar a centralidade do amor
na experiência humana em detrimento da busca pela superação do cérebro humano
que ele almejava como cientista da computação.
Para
Kai-Fu Lee, em contrapartida ao valor econômico e a prosperidade em escala
inigualável alcançada pela humanidade a partir da “nova eletricidade”, a
própria inteligência artificial, resta aos humanos a procura por profissões que
ainda não estão sujeitas à automação e que exijam mais inteligência emocional.
Uma
consultora de projetos em Inteligência artificial, Sol Rashidi, criou critérios
para decidir o que ainda deve ficar exclusivamente nas mãos dos seres humanos,
em qualquer área de atuação. Se a iniciativa é de alto risco e alta
complexidade é melhor que as decisões recaiam sobre os humanos, mas se a tarefa
é de baixo risco e baixa complexidade pode ser delegada aos robôs. Parece uma
obviedade, mas que deve ser levada à sério quando a “Inteligência Artificial
Geral” chegar. Decisões críticas poderão escapar ao controle humano.
Na
medicina já estamos diante de quase isso, se considerarmos que do ponto de
vista individual uma decisão terapêutica ou diagnóstica pode representar um
risco significativo para o paciente. Estudos sobre a perspectiva de pacientes
do uso da inteligência artificial através de plataformas médicas /chatbots
revelam que, até o presente, a maioria ainda prefere receber recomendações
diretamente de um médico.
Considerando
que estamos na era da “medicina de precisão”, é compreensível que o auxílio de
plataformas que contabilizam dados e atualizam o conhecimento médico se torne
cada vez mais indispensáveis. No entanto, devemos admitir e lembrar que empatia
e atendimento humanizado são insubstituíveis, podendo impactar no uso de
algoritmos e plataformas informacionais no atendimento ao paciente.
Isso é
tão verdadeiro que mesmo hoje muitos laboratórios e clínicas diagnósticas tomam
cuidado e recomendam que agentes médicos e não-médicos envolvidos na realização
de exames se eximam de fazer comentários sobre seus resultados, deixando para o
clínico responsável conversar com o paciente sem intermediários, evitando
mal-entendidos e falta de acolhimento com certos diagnósticos difíceis. Nada
mais prudente e humano.
Uma
outra questão importante, e que foi muito cara aos médicos hipocráticos, é a
questão da responsabilidade pelas ações e resultados da prática médica. Quem há
de se responsabilizar no caso de um erro relacionado à Inteligência Artificial?
Na
relação médico-paciente fatores múltiplos estão envolvidos no processo de
decisão em relação às condutas médicas. A aliança terapêutica influencia na
adesão do paciente ao tratamento, a empatia e o respeito às crenças individuais
são fundamentais para o sucesso de uma abordagem que almeja a saúde integral e
não apenas física. O que fazer quando o computador, através de dados analisados
pela Inteligência Artificial, sugerir que o prognóstico de um caso é muito ruim
e isso ser colocado digitalmente para o paciente e ele optar pela eutanásia?
Recentemente
houve um caso em que o ChatGPT foi implicado no suicídio de um adolescente que
mantinha uma conversa com o computador que imitava a “empatia humana”, e ao que
parece, os diálogos do jovem com a máquina haviam durado meses até seu fim
trágico! Nenhum algoritmo interno da Inteligência Artificial foi capaz de
barrar ou alterar o curso dos eventos. Restou aos pais processarem a OpenAI.
Talvez
por temer situações como essa, pesquisas sobre a percepção dos pacientes em
relação à Inteligência Artificial indicam que muitos ainda não confiam
completamente na tecnologia, principalmente os mais idosos e com menor grau de
escolaridade (digital gap), e que esperam que um humano propriamente esteja à
frente das decisões médicas e que possam inclusive desfazer uma recomendação
dada como certa pelo computador.
Uma das
habilidades que os médicos aprendem a desenvolver durante o ensino na faculdade
é que existem maneiras diversas de fazer o que é certo; são caminhos
alternativos que guiam o paciente pelo seu percurso em direção à cura ou de
como ir sobrevivendo com os desafios de carregar uma doença ao longo da vida
que ainda lhe resta.
Importante
salientar que o uso e aplicação da Inteligência Artificial na área da saúde tem
sido um dos campos de pesquisa que mais cresce na medicina de hoje. Muitos
desses estudos visam aumentar a confiança das pessoas nos diagnósticos baseados
em dados gerados pela Inteligência Artificial.
A
velocidade com que a tecnologia avança não deve fazer com que se perca de vista
nossa habilidade de reflexão sobre os dilemas éticos que se impõe à profissão
de médico, tomando-se cuidado e atenção para não sermos atropelados por
interesses econômicos que procuram vender a tecnologia de forma acrítica.
Interessante ver em um jornal de grande circulação uma matéria que diz: “novas
tecnologias ajudam a agilizar diagnósticos, desburocratizar rotinas e garantem
mais tempo para o médico se dedicar ao paciente”.
A
tecnologia sendo vendida como um instrumento que potencializa o cuidado e a
redução do tempo gasto pelo emprego de algoritmos usados em exames com
aplicação da Inteligência Artificial é o suprassumo da ideologia neoliberal na
medicina: mais eficiência, mais produtividade, menos atrito de corpos!
Dedicação ao paciente não é uma questão de tempo, é uma questão de princípio
ético.
A
formação do médico enquanto um sujeito ético deve estar sempre no foco das
faculdades de medicina, apesar e com todos os avanços tecnológicos atuais e que
porventura ainda venham a existir. Fato este que coloca o Juramento de
Hipócrates como núcleo a-histórico, imóvel e atemporal do que chamamos de “ser
médico”.
Fonte:
Por Maria Luiza Pires, em A Terra é Redonda

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