Para
enxergar o Irã sem os filtros da mídia
Início
de 2026, o governo dos Estados Unidos está deslocando para o Oriente Médio uma
frota de porta-aviões e outros armamentos em escala sem precedente fora de
tempo de guerra. O presidente Trump repete a ameaça de que o plano é invadir o
Irã, mas logo depois diz que prefere negociar. A imprensa do país imperial vem
em seu auxílio promovendo o pânico ao anunciar que a invasão é iminente. O
governo da república islâmica responde afirmando que pode causar danos
irreparáveis aos interesses dos Estados Unidos na região. Apesar de toda a
tensão atual há uma sensação de que já vimos esse filme. Os Estados Unidos
ameaçam atacar o país persa desde 1979 quando se deu a Revolução Iraniana. Por
que tanta hostilidade contra o Irâ?
A
resposta não é simples. Em primeiro lugar é preciso ter em vista a política
imperial, que sempre busca exercer influência sobre outros países e povos,
promover governos submissos e se apropriar de suas riquezas. No caso concreto,
os Estados Unidos se ofendem porque o povo do Irã derrubou uma dinastia
serviçal ao império, do xá Rheza Pahlavi, invadiu sua embaixada e manteve seus
diplomatas reféns por 444 dias. O poder foi assumido por clérigos radicais
muçulmanos xiitas e esse governo se opõe aos aliados do governo dos Estados
Unidos no Oriente Médio como a Arábia Saudita e Israel, apoia e arma os
movimentos palestinos como o Hamas, a Jihad Islâmica e o Hezbollah, partido
revolucionário do Líbano. Além do mais, o Irã em tese é uma presa extremamente
atraente para os apetites imperiais. País estrategicamente posicionado na Ásia
Ocidental, tem sete vizinhos, Afeganistão, Paquistão, Armênia, Azerbaijão,
Turcomenistão, Iraque e Turquia. Está próximo da Índia e da China. Detém o
litoral do Golfo Pérsico e domina o Estreito de Ormuz, por onde passam 20 por
cento do petróleo mundial. Tem enormes reservas de petróleo e é um importante
produtor. Presa atraente, mas não é fácil.
Os
governos e políticos ocidentais padecem de grande ignorância sobre o Irã.
Costumam confundi-lo com os povos árabes que vivem no Oriente Médio. Os
iranianos não são árabes. Seus 90milhões de habitantes são persas, falam a
língua persa, o farsi, e têm uma longa tradição que vem desde a Antiguidade. É
mais antigo do que qualquer nação ocidental, tem 2.500 anos e foi um grande
império, que se estendia por três continentes, Norte da África, os balcãs
europeus e tinha sede em Persépolis, na Ásia Central. Seu auge se deu sob o
governo de Ciro o Grande, generoso defensor dos direitos humanos, e se estendeu
entre 550 a 350 A.C. (antes de Cristo). Sua influência cultural, arquitetura,
arte, escrita, filosofia estendeu-se muito além de suas fronteiras, para
Europa, África, China e Índia. Exaurido por guerras com o Império Bizantino
sucumbiu à invasão árabe que se deu a partir de 633 D.C. (depois de Cristo).
Com o tempo, a maioria dos iranianos se converteu ao islamismo, do ramo xiita,
seguidores do Imã Ali, primo e genro do profeta Maomé, que é a religião
predominante até nossos dias. Embora tenha sido islamizado, o Irã não foi
arabizado. Os persas permaneceram persas.
Devido
à localização estratégica o país foi alvo de inúmeras invasões ao longo dos
séculos, começando pelos mongóis de Gengis Khan, no século 13. Mas sua cultura
permaneceu forte e se faz presente em todo o mundo muçulmano. O Xá Abhas, o
Grande, governou de 1588 a 1629. Construiu a sua capital, Isfahan, joia da
coroa da arquitetura islâmica. Fez acordos com os ingleses. Auxiliado por eles
retomou o Estreito de Ormuz, que havia sido ocupado por Portugal, e
restabeleceu sua presença no Golfo Pérsico. O período registra também o
crescimento do papel do clero xiita e perseguições aos sunitas, sufis, judeus,
cristãos e outros. Sofreu invasões, como em 1722, por um exército afegão de
Candaar. O chefe militar Nader conseguiu expulsar os invasores em 1729 e se
tornou Xá. Tinha sede de conquista, formou um exército de 375 mil soldados,
considerado o maior do mundo na época, conquistou territórios desde a Índia até
o Iraque. Ditador brutal, foi assassinado em 1747. O país caiu em um período de
anarquia, chefes militares formaram feudos, a população sofreu com a violência
e a fome.
No fim
do século XVIII o país foi reunificado pelo Xá Aga Maomé Cã Cajar e viveu um
período de recuperação e paz. Mas teve que enfrentar novos desafios provocados
por interferências e rivalidade entre britânicos, russos e franceses. Em 1800 a
Grã-Bretanha enviou uma missão com 500 homens ao Irã e o Xá assinou um tratado
comercial e um acordo de armas com os britânicos. A Rússia anexou a província
iraniana da Georgia, o Xá pediu ajuda aos britânicos que recusam por estarem
aliados à Rússia contra os franceses. O Xá se aproximou dos franceses com os
quais assinou um tratado, a França tornando-se protetora e parceira comercial.
Mas logo fez as pazes com a Rússia e o Irã ficou desprotegido. Em 1809 os
britânicos enviaram nova missão para reconquistar o controle do Irã. Prometeram
apoio contra intervenção de qualquer potência europeia, mas em 1812 quando os
britânicos foram chamados para arbitrar um tratado do Irã com a Rússia sobre
terras disputadas no Cáucaso, os britânicos favoreceram a Rússia. O Irã teve
que entregar Baku, Tblisi, Darband e Ganja para a Rússia e a marinha iraniana
foi excluída de entrar no Mar Cáspio. Os iranianos perderam a confiança nos
ingleses e nas outras potências europeias. O Irã se percebeu como peão no que
ficou conhecido como o “Grande Jogo”.
No
início da década de 1870, endividado e sem alternativa, o Irã deu enormes
concessões econômicas aos britânicos alienando estradas, telégrafos, moinhos,
fábricas, extração de minerais, florestas e obras públicas. Esse acordo foi
descartado um ano depois devido à indignação popular e pressão da Rússia. Em
1890, pela primeira vez os clérigos xiitas perceberam sua força na sociedade
iraniana. Um empresário britânico recebeu o controle total sobre a produção,
venda e exportação de tabaco por 50 anos. Os comerciantes e os clérigos xiitas
somaram forças e resistiram ao acordo e o Xá foi obrigado a voltar atrás. A
concessão mais lamentável se deu em 1901 com a concessão pelo Xá de direitos
exclusivos de perfuração de petróleo a um empresário britânico. Foi o primeiro
passo na tomada dos recursos petrolíferos do Irã pelo Reino Unido. Ao mesmo
tempo, crescia na opinião pública iraniana a desconfiança sobre a credibilidade
das atitudes dos governos estrangeiros e com a natureza exploradora de suas
empresas. Nenhum deles seria confiável. E crescente frustração pública com os
fracassos dos governantes em defender a soberania da Nação. Somada ao
descontentamento pela elevada inflação resultou em 1906 na Revolução
Constitucionalista que conquistou uma assembleia constituinte que produziu uma
Constituição, fortaleceu o Parlamento tornando o governo mais representativo da
sociedade e reduzindo os poderes do Xá. O islamismo xiita conseguiu mais
espaços, tornando-se religião oficial.
As
potências estrangeiras não estavam satisfeitas. Em 1907 Reino Unido e Rússia
assinam acordo dividindo o Irã em duas partes, zona russa e zona britânica,
desconsiderando a soberana do país. O Parlamento foi impotente para impedir
isso. Em 1908 os britânicos iniciaram a exploração de petróleo sem nada pagar
ao Irã que tinha a economia arruinada. Em 1908 o Xá e os ricos seus apoiadores,
com incentivo da Rússia deram um golpe militar contra o Parlamento bombardeando
o prédio e matando 250 pessoas. A reação popular promoveu uma guerra civil por
dois anos e o Xá foi obrigado a abdicar. Em 1914, quando a Primeira Guerra
Mundial estourou a Inglaterra decidiu incorporar o Irã inteiro ao Império
Britânico. Pagou 600 mil dólares ao primeiro-ministro para fazer passar a
proposta no Parlamento. Mas o país inteiro se levantou contra e ele teve que
renunciar. O país seguiu atribulado pela insatisfação popular e pelas
intervenções das potências europeias. Em 1921começou a ascensão da dinastia
Pahlavi. Reza Khan lidera tropa do Exército que toma o controle de Teerã. Passa
a liderar o Exército, pressiona o Parlamento e se torna primeiro-ministro. Em
1926 o Parlamento o coroa como Xá. Ele adota o nome Pahlavi, nome de uma antiga
escrita persa. Forma um Estado centralizado forte e usa o petróleo como receita
importante com burocracia eficaz e grande exército permanente. Fez acordo com a
Anglo Persian Oil recebendo apenas 16% dos royalties, essa era uma quantia
considerável devido ao grande volume da produção. Sempre fardado comanda um
regime militar repressivo com milhares de prisioneiros políticos e execução de
adversários. Busca ocidentalizar o país até mesmo obrigando as pessoas a usarem
roupas ocidentais, as mulheres eram obrigadas a remover o xador, vestido que
cobre o corpo e o cabelo. Ultrajando os clérigos xiitas e aterrorizando as
mulheres que, sem as roupas tradicionais se sentiam nuas. O projeto do Xá era
quebrar o poder da hierarquia religiosa o que lhe rendeu a inimizade dos
clérigos.
Na 2ª.
Guerra Mundial o Xá resolveu apoiar a Alemanha nazista. Em agosto de 1941 país
foi invadido por uma força conjunta de britânicos e soviéticos. Seu exército,
tão poderoso para reprimir o povo, só resistiu por três dias. Foi obrigado a
abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlavi com condição de que
britânicos e soviéticos pudessem ocupar o norte e o sul do país. O período
entre 1941 e 1953 registra um breve período de governo constitucional renovado,
o Parlamento voltou a funcionar e o Tudeh, um novo partido socialista vai
conquistando a classe trabalhadora. O governo alegou que o Tudeh apoiava
secessionistas incentivados pela URSS e lançou uma repressão generalizada. O
partido foi proibido, seus jornais fechados muitos de seus líderes presos e
outros fugiram para o exterior. Apesar disso, a população havia elevado seu
nível de consciência política e clamava pela nacionalização da Anglo-Iranian
Oil Company.
No
vácuo político deixado pelo extinto Tudeh surgiu Mohammad Mossadegh, defensor
da Constituição e da soberania nacional e independência diante da dominação
estrangeira. Eleito primeiro-ministro tentou encontrar equilíbrio entre as
potências europeias. Denunciou antigas concessões de petróleo concedidas a
britânicos e russos bem como negociações em curso com empresas dos Estados
Unidos. Atendeu a pressão popular pela nacionalização da indústria do petróleo
insistindo que era direito inalienável do país ter controle total sobre sua
produção, venda e exportação.
Em 1951
Mossadegh uniu diferentes forças políticas para formar uma Frente Nacional.
Teve o apoio do aiatolá Kashani, o membro mais ativo politicamente do clero.
Foi autorizado pelo Parlamento a nacionalizar o petróleo. Seu governo criou a
National Iranian Oil Company, NIOC. Quando a empresa inglesa recusou entregar
suas instalações e operações ele ordenou que a NIOC assumisse seus poços,
oleodutos, refinarias e escritórios. A Anglo Oil Company retirou seu pessoal
técnico e congelou os ativos do Irã em Bancos ingleses. Mossadegh fechou a
embaixada inglesa e rompeu relações diplomáticas com a Grã-Bretanha.Tratou de
se fortalecer politicamente e enfraquecer o Xá. Em cadeia de Radio e TV e disse
à Nação que precisava do controle dos militares para impedir que o Xá e os
britânicos minassem seu plano de nacionalizar o petróleo. A população inundou
as ruas por três dias em protestos contra o Xá, que foi obrigado a ceder. O
primeiro-ministro, que os iranianos consideravam incorruptível, devolveu ao
Estado terras ilegalmente apropriadas pelo Xá e o proibiu de se comunicar com
embaixadas. Buscou o controle dos militares. Comprou apenas armas defensivas e
expurgou 136 oficiais militares. Transferiu 15 mil militares para a polícia e
cortou o orçamento militar em 15%.
Em
julho de 1953, sob sua influência o Parlamento estava debatendo como substituir
a monarquia por uma república democrática. Os britânicos tinham muito a perder
com a nacionalização do petróleo iraniano, do qual a economia inglesa tinha
grande dependência. Trataram de alarmar seus aliados dos Estados Unidos dizendo
que se isso acontecesse, a Indonésia, a Venezuela e o Iraque, grandes
produtores de petróleo, seguiriam o mesmo caminho com consequências terríveis
para a economia dos dois países. Partiram para a propaganda de guerra
aterrorizando a opinião pública chamando Mossadegh de “maluco, fanático, louco,
desequilibrado, selvagem” e outros tantos nomes apelativos, A CIA e MI6
começaram a planejar o golpe em fim de 1952. Estavam amplamente infiltrados
entre os militares iranianos. Em julho de 1953, Foster Dulles, secretário de
Estado dos Estados Unidos apresentou o plano aos formuladores de políticas e
anunciou: “É assim que nos livraremos de Mossadegh”.
Em 15
de agosto o Xá emitiu um decreto demitindo Mossadegh e nomeando
primeiro-ministro o general Zahedi. Mossadegh se negou a renunciar e transmitiu
uma mensagem de que o Xá, encorajado por “elementos estrangeiros” havia tentado
um golpe. No dia seguinte aconteceram grandes manifestações em apoio a
Mossadegh e à Frente Nacional. Provocadores da CIA na multidão atacaram
clérigos e mesquitas forçando Mossadegh a condenar a violência. Em 19 de
agosto, gangues e soldados pagos pela CIA, em trajes civis, encenaram uma
contramanifestação agressiva pró Xá e anti-Mossadegh que levou a turbulência
nas ruas ao clímax. A multidão que chegou a Teerã e foi decisiva na derrubada
era uma multidão mercenária. Foi paga com dólares estadunidenses. Em meio ao
caos 32 tanques Sherman entraram na cidade e cercaram prédios importantes,
inclusive a casa de Mossadegh. Em seguida os líderes do golpe transmitiram uma
proclamação do Xá nomeando o general Zahedi como novo primeiro-ministro. A luta
continuou por mais seis horas. Ficando sem munição, as tropas leais a Mossadegh
se renderam. Estima-se que houve 300 mortos.
O
presidente Eisenhower disse ao povo estadunidense que o povo iraniano havia
“salvado o dia” por causa de sua “repulsa ao comunismo e seu profundo amor por
sua monarquia”. Na verdade, o Xá e os militares ficaram fortemente
identificados com os interesses imperialistas. Em contraste, Mossadegh é
considerado pelo povo um líder nacionalista como Ghandi, da Índia, Sukarno, da
Indonésia e Nasser, do Egito. A repressão foi brutal. Mossadegh permaneceu
preso por três anos e o resto da vida em prisão domiciliar. Até os dias de
hoje, milhares de estudantes se reúnem no dia da sua morte para prestar
homenagem. Todos os partidos e organizações seculares que se opuseram ao Xá
foram desmantelados e banidos. A única instituição importante que manteve
alguma independência e ainda falava com autoridade moral sobre os problemas do
povo foi o clero xiita, preparando o cenário para a Revolução Islâmica de 1979.
O Xá
Mohamaad Reza governou com punho de ferro. Estado forte, centralizado e
militarizado, Tinha dinheiro. O Irã estava recebendo 50% da receita anual da
cada vez maior produção de petróleo. Destinou grande parte dessa riqueza a sua
prioridade, o exército. O Irã tornou-se o maior comprador de armas do mundo.
Construiu a maior marinha do Golfo Pérsico, a maior força aérea da região e o
quinto maior exército do mundo. Também construiu um serviço de segurança
aterrorizante, 5 mil homens, além de recrutar um em cada 450 homens adultos
como informantes. Torturou, matou e desapareceu com dissidentes políticos.
Estima-se entre 25 a 100 mil prisioneiros políticos e a maior taxa de pena de
morte do planeta. O Xá tornou-se megalomaníaco, dizia que recebia mensagens
religiosas de Deus e do Iman Ali. Lançou ataques suicidas contra os
comerciantes dos bazares e contra o clero xiita. Seus tribunais processaram 180
mil comerciantes, aplicaram 250 mil multas e 8 mil penas de prisão.
Seu
apelo pelos direitos das mulheres, de votar, de iniciar o divórcio, de viajar
sem permissão de um homem foi ferozmente contestado pelo clero. Declarou-se
líder espiritual e político. Substituiu o calendário muçulmano por um antigo
calendário persa. Assumiu o controle da Faculdade de Teologia da Universidade
de Teerã e de outras instituições de ensino religioso. Pensava ser amado, mas
era rejeitado pela intelectualidade, pela classe trabalhadora que apoiara
Mossadegh e o via como um fantoche americano e britânico. A classe média
conservadora de comerciantes, proprietários de terras e os clérigos haviam
cortado seus laços com ele. A dinastia Pahlavi havia chegado ao fim. A
Revolução islâmica de 1979 que levou ao poder uma teocracia fundamentalista foi
uma combinação complexa de nacionalismo, populismo e radicalismo religioso.
Enfraquecidas pela repressão do Xá as forças progressistas foram superadas pelo
clero xiita, a única força política que fora tolerada pela ditadura. A tomada
do poder teve um caráter popular. Imensas massas armadas foram as ruas e
cercaram os quartéis tornando os militares impotentes apesar da repressão
sangrenta. Mantido no exílio por 15 anos e sempre criticando o regime o aiatolá
Khomeini havia se tornado muito popular. Assume o poder contrariando as forças
progressistas e defende que não haja separação entre Igreja e Estado. Forma-se
um governo provisório, mas em paralelo cria um Conselho Guardião formado por
religiosos. As forças seculares acusam violação da soberania popular e de consagrar
o clero como “classe dominante”. Os Estados Unidos dão asilo ao Xá e os
iranianos se revoltam. 400 estudantes invadem a embaixada estadunidense em
Teerã e fazem os diplomatas de reféns por 444 dias. Khomeini recusa intervir. O
primeiro-ministro Barzaghan renuncia. Khomeini venceu. Uma Constituição
islâmica foi aprovada em dezembro de 1979.
Em 1980
o Iraque de Saddam Hussein invade o Irã, que tem um exército forte herdado do
Xá e reage duramente. Foi uma guerra brutal que iria durar por oito anos com
cerca de 400 mil mortos somando os dois lados. Os Estados Unidos procuram se
aproveitar jogando um contra o outro, vendendo armas aos dois beligerantes. Por
iniciativa do governo dá-se uma islamização da sociedade enquanto acontece uma
centralização da economia com empresas passando à posse do Estado (sem esquecer
o petróleo, cuja produção e venda estavam nacionalizadas). Importantes
benefícios foram dados à classe trabalhadora. Ao mesmo tempo ocorreu um aumento
da repressão a outros credos religiosos e a qualquer manifestação de oposição
ou descontentamento. Toda publicação tornou-se alvo de censura. Direitos das
mulheres foram suprimidos. Em dois anos cerca de 500 oponentes foram
executados. Os prisioneiros políticos contavam-se aos milhares.
Logo
após o fim da guerra contra o Iraque, em 1988, o aiatolá Khomeini autorizou
outra rodada de execuções em massa. Um expurgo político sem precedente,
estimado em pelo menos duas mil execuções de prisioneiros políticos. A
organização Human Rights Watch considerou um crime contra a humanidade. Com a
morte de Khomeini em 1989, seu sucessor Ali Khamenei tentou enfrentar a crise
econômica restabelecendo laços com o Ocidente. Um acordo com empresa
estadunidense de petróleo, de 1 bilhão de dólares, foi barrado pelo governo de
Bill Clinton. O programa de energia nuclear iraniano provoca sanções dos
Estados Unidos e outros países ocidentais. Em 2002 o presidente Bush declarou o
Irã como fazendo parte do “eixo do mal” junto com Coreia do Norte e Iraque.
Em 2005
o populista conservador Ahmadinejad vence as eleições e irá governar num clima
repressivo e de agravamento das relações com os Estados Unidos, tendo sempre
como motivo ou pretexto o programa de energia nuclear iraniano. Sua reeleição
em 2009 é acusada de fraude. Surge o movimento “onde está meu voto?” Seu líder
Mega Aghan Soltan foi morto a tiros. E o movimento cresce e enfrenta a
repressão por vinte meses, culminando com a proposta de fim da República
Islâmica.
Em 2013
assume um presidente reformista, Hassan Rouhan, que promoveu mais liberdade.
Foi reeleito em 2017 com uma votação contra o domínio dos aiatolás. O poder
secular e o poder religioso se confrontam num ambiente de abertura política.
Mas o aiatolá continua a ser o líder supremo, controla os militares (cuja elite
forma a Guarda Revolucionária) o judiciário, imprensa, rádio, TV, as agências
policiais de repressão.
Numa
demonstração de capacidade científica, técnica e habilidades pessoais o Irã
desenvolve ainda mais seu programa de energia nuclear e enriquecimento de
urânio. Os Estados Unidos e seus aliados ocidentais retaliam assassinando seus
cientistas, aplicando pesadas sanções, produzindo crise na economia, inflação,
escassez de alimentos e outros bens como gasolina refinada. O alvo principal é
o programa de energia nuclear. São feitas exigências absurdas, como o fim do
programa, consideradas inaceitáveis pelo Irã. As pressões têm resultado
contrário, porque o Irã acelera ainda mais o programa e chega a três meses de
poder produzir a bomba nuclear. Em 2015 o governo Obama recua e aceita que o
Irã continue desenvolvendo o enriquecimento do urânio desde que não chegue ao
ponto de poder produzir uma bomba e que seja rigorosamente fiscalizado pela
Agência Internacional de Energia Atômica, controlada pelas potências
ocidentais. Esse acordo, chamado 5+1 porque firmado com os Estados Unidos e as
potências europeias alivia as sanções que haviam provocado grandes sofrimentos
à população, que manifestava fortemente sua insatisfação, mantendo o governo
entre dois fogos.
100
bilhões de dólares congelados foram liberados, o país compra aviões da Boeing e
Airbus. A francesa Total investe na exploração de um grande campo de gás, a
Citroen volta a fabricar carros no Irã. Um dos mais interessantes resultados do
isolamento do Irã promovido pelas potências ocidentais foi o crescimento de seu
relacionamento com a China. Grande compradora de petróleo, ela tornou-se seu
principal parceiro comercial, fornecendo equipamentos, bens de consumo e armas.
A Índia também estreitou relações e é o segundo parceiro comercial. Com a
Rússia foram restabelecidas relações estratégicas na área militar, envolvendo
armas de última geração, transações no setor de petróleo e fornecimento de
equipamentos. As sanções ocidentais acabaram por jogar o Irã nos braços de seus
adversários estratégicos. O foco da
estratégia internacional do Irá é a defensiva ativa. Não ataca ninguém, mas se
atacado se defenderá. Apoia com recursos e armas os seus aliados, como o xiita
Hezbollah no Líbano, os palestinos Hamas e Jihad Islâmica, os houthis no Iêmen
(como apoiava a Síria, enquanto Assad governava), que estão em confronto com os
Estados Unidos e Israel. Por isso, o Irã é permanentemente ameaçado por Israel,
e é hostilizado por Arábia Saudita e Emirados Árabes, todos armados até os
dentes pelos Estados Unidos.
Em 2017
o presidente recém-eleito Donald Trump rompeu o acordo com o Irã sobre o seu
programa nuclear, que chamou de “o pior acordo já negociado”. Em seu segundo
governo, em 2025 Trump lançou um ataque militar contra o Irã bombardeando as
instalações do programa nuclear. Chegou mesmo a declarar que havia destruído
totalmente o programa, o que não era verdade. O Irã continuou desenvolvendo o
processo de enriquecimento do urânio, sempre alegando que é para fins
pacíficos. No início de 2026 o governo Trump mantém tensas negociações com o
Irã, faz exigências de encerramento do programa nuclear e ultimamente também
para paralisar a produção de mísseis de alcance continental e grande potência
que o Irã desenvolveu — e do qual deu uma didática, mas moderada demonstração
ao lançar contra Israel alguns desses misseis na ocasião que era bombardeado
pelos Estados Unidos. As defesas de Israel foram impotentes para contê-los.
No
momento atual o governo Trump deslocou formidável frota militar para o Oriente
Médio, ameaça um iminente ataque ao Irã como instrumento de pressão para que a
República Islâmica capitule e aceite os termos de um acordo humilhante. Em 22
de fevereiro de 2026 pode-se repetir: não vai ser fácil.
Fonte:
Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário