terça-feira, 3 de março de 2026

Do tarifaço à bolha de IA: os desafios da economia em 2026

A economia global enfrentou uma série de desafios em 2025, incluindo fortes tensões comerciais, crescimento desigual porém moderado e preocupações crescentes com níveis elevados de inflação e dívida em muitas partes do mundo. A expectativa é que vários desses problemas continuem em 2026.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o crescimento global desacelerará moderadamente, de 3,2% em 2025 para 2,9% em 2026. A entidade afirmou que a economia mundial mostrou resiliência este ano, mas continua frágil.

A administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o mundo em abril ao impor um novo regime abrangente de tarifas , com o objetivo de remodelar os fluxos do comércio global e reduzir os grandes déficits dos EUA. A medida provocou turbulência nos mercados, incerteza nos negócios e ajustes nas cadeias de suprimentos.

Desde então, Washington fechou acordos com muitos de seus parceiros comerciais. Ainda assim, a tarifa média dos EUA passou de 2,5%, quando Trump retornou à Casa Branca em janeiro de 2025, para 17,9%, o nível mais alto desde 1934, segundo cálculos do Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale.

<><> Tensões tarifárias entre EUA e China devem persistir

Espera-se que a Suprema Corte dos EUA anuncie sua decisão no próximo ano sobre se o presidente americano pode contornar o Congresso para impor tarifas, invocando uma emergência nacional. Muitos observadores acreditam que o tribunal superior confirmará as conclusões das instâncias inferiores de que as tarifas impostas por Trump são ilegais. Mesmo que os juízes derrubem as tarifas, a administração pode recorrer a outros meios legais para restabelecer parte das taxas. Portanto, as tarifas provavelmente continuarão sendo uma questão importante em 2026.

atrito comercial entre os EUA e a China , as duas maiores economias do mundo, também deve persistir. As tensões diminuíram desde que Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, se encontraram em outubro e concordaram com uma trégua de 12 meses na guerra comercial. Mas a trégua é frágil, e as questões econômicas e estratégicas subjacentes permanecem sem solução.

O acordo comercial entre EUA e China "é semelhante a um cessar-fogo, e não a um acordo de paz duradouro que encerraria a guerra comercial”, disse Rajiv Biswas, diretor executivo da empresa de análise de riscos Asia Pacific Economics, à DW.

"Os EUA e a China continuam presos em uma competição geoestratégica, que impulsiona a rivalidade em áreas-chave como tecnologia de defesa e indústrias avançadas de manufatura, como inteligência artificial (IA), computação quântica e robótica", destacou.

Biswas enfatiza que a luta pela supremacia tecnológica entre EUA e China provavelmente se estenderá no próximo ano.Haverá "uso crescente de tarifas, sanções e outras medidas econômicas em áreas-chave da rivalidade tecnológica, como equipamentos avançados de defesa, chips de IA, computação quântica e robótica", observou.

<><> Desequilíbrio comercial entre a China e o restante do mundo

Ainda assim, espera-se que a economia chinesa permaneça resiliente no próximo ano, expandindo cerca de 5%, em linha com as metas recentes do governo.

Mas os desafios estruturais profundos do país persistem, como "envelhecimento demográfico, declínio da produtividade marginal do capital e excesso de capacidade em muitos setores industriais, como aço, construção naval e produtos químicos", disse Biswas.

Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics, empresa global de pesquisa macroeconômica independente sediada em Londres, afirmou em uma nota que o modelo de crescimento da China "continua priorizando a oferta em detrimento da demanda, resultando em excesso crônico de capacidade e consumo persistentemente fraco".

Para enfrentar esses problemas, os líderes chineses prometeram recentemente impulsionar o consumo interno e estabilizar o vasto e problemático mercado imobiliário, entre outras medidas.

"Os formuladores de políticas estão se comprometendo a resolver o problema, mas o desequilíbrio continuará sendo uma característica marcante da economia chinesa em 2026", observou Shearing.

Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico no banco de investimento francês Natixis, disse que as tarifas de Trump afetarão mais as nações asiáticas em 2026. Ela atribuiu isso às tensões geopolíticas contínuas, à crescente fragmentação do comércio e à falta de maior integração regional para compensar as tarifas.

<><> Inflação e o dilema dos bancos centrais

A inflação permaneceu elevada em muitas partes do mundo, incluindo os EUA e a zona do euro, em parte devido às tarifas.

Novos aumentos nas barreiras comerciais ou interrupções nas cadeias de suprimentos podem acelerar a alta dos preços, apresentando um dilema para os bancos centrais: aumentar as taxas de juros para combater a inflação ou mantê-las baixas para apoiar o crescimento.

O aumento das taxas de juros pode prejudicar o crescimento e provocar um salto nos custos de serviço da dívida de países altamente endividados e financeiramente mais frágeis.

Muitas nações da zona do euro, como a França, são particularmente vulneráveis, já que seus governos têm enfrentado dificuldades para implementar cortes de gastos impopulares a fim de conter déficits e dívidas crescentes.

"As tensões fiscais que abalaram os investidores em vários momentos deste ano continuarão a assombrar os mercados em 2026. Agora é amplamente aceito que as finanças públicas de várias grandes economias avançadas estão em um caminho insustentável", escreveu Shearing.

A economia da Alemanha, a maior da União Europeia (UE), mas que luta para sair de uma longa recessão, deve receber um impulso no próximo ano com o aumento dos gastos governamentais em defesa e infraestrutura. Mas o sentimento empresarial continua pessimista. Institutos econômicos líderes reduziram recentemente suas previsões de crescimento para 2026. O instituto Ifo, por exemplo, agora prevê apenas 0,8% de expansão no próximo ano, ante 1,3% na previsão anterior. O governo alemão, no entanto, projeta crescimento de 1,3% em 2026.

<><> A temida bolha da IA

Espera-se que o boom da inteligência artificial (IA) continue no próximo ano. As grandes empresas de tecnologia dos EUA reservaram centenas de bilhões de dólares para construir e expandir a infraestrutura de IA, como centros de dados.

Esses investimentos devem contribuir significativamente para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos EUA, em comparação com outras regiões do mundo, dado o baixo nível de gastos em outros lugares.

Mas os investidores estão cada vez mais preocupados com as avaliações elevadas das empresas de tecnologia dos EUA, já que ainda é incerto se os enormes gastos em infraestrutura de IA serão, no fim das contas, lucrativos. Alguns temem que isso tenha se tornado uma bolha que pode estourar e causar um colapso nos mercados.

Garcia-Herrero disse à DW que a "revolução da IA é estrutural" e que a transformação tecnológica e a adoção continuarão em 2026.

Ela alertou, no entanto, que se essa bolha estourar e os gastos com IA caírem abruptamente, a economia e as famílias dos EUA sofrerão um grande impacto, provavelmente mergulhando a maior economia do mundo em recessão e reduzindo o crescimento global.

¨       A nova ordem internacional, a Venezuela e o Brasil. Por José Maurício Domingues

Estamos, nesta quadra histórica, passando por um processo de transição no seio da modernidade, para uma nova fase. A anterior se baseava em crenças neoliberais de liberdade de mercado e Estados fortes para manter a ordem, inclusive no caso da China, com um liberalismo internacional baseado no livre comércio e no multilateralismo, cristalizado no sistema das Nações Unidas (ONU), bem como, ainda que de forma limitada, no direito internacional. Evidentemente, os Estados Unidos, por um breve tempo excepcional, a única potência mundial após a derrota da União Soviética, se permitia jogar com as regras do sistema internacional, desconsiderando tudo isso quando lhe interessasse.

Essa nova fase vai se desenhando com uma face retorcida em que o direito internacional e o multilateralismo são postos em xeque e a soberania nacional, sagrada desde o fim da Segunda Guerra Mundial, passa a ser relativizada mediante conquistas territoriais. Destacam-se as grandes potências e a força bruta, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, o genocídio palestino por Israel e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, sem falar das loucas ameaças de anexação da Groelândia pelo presidente Donald Trump.

O capitalismo é cada vez mais diretamente apoiado pelo Estado e se mostra ainda mais voraz por parte de certas empresas dos EUA. Enquanto isso, bem diferentemente da União Soviética, com seu projeto cosmopolita e internacionalista que rivalizava com o liberalismo de semelhante teor dos EUA, a China segue com sua política fundamentalmente nacionalista.

A modernidade sempre incluiu, do ponto de vista global, uma dualidade entre o Estado nacional, em sua multiplicidade, e uma ordem internacional que desde 1945 se delineou progressivamente, ainda que de modo imperfeito, como multilateral. Hoje o polo dos estados nacionais predomina, com gravíssimas consequências. Se a China se atém a seu nacionalismo (do que a falta de apoio por exemplo a Cuba é testemunho), embora aposte bastante no sistema multilateral de governança global (bloqueando em contrapartida qualquer coisa que se refira aos direitos humanos, em seu território e em outros países como o Irã), a Rússia, pressionada equivocadamente pelos europeus e pelos EUA, iniciou uma custosa aventura na Ucrânia e sonha em vão com retomar tempos de glória.

As grandes modificações se dão, surpreendentemente, por parte dos próprios EUA, o principal criador do sistema ONU no pós-1945. Como recentes documentos de política externa (notadamente o “National Security Strategy of the United States of America”, de novembro de 2025, e o “2026 National Defense Strategy: Restoring Peace Through Strengh for a New Golden Age of America”, de janeiro de 2026, mais claro quanto a intervenções militares) defendem de modo explícito, os polos do sistema internacional são o que importa, a Europa deve ser estabilizada e subordinada, a China contida, o poder dos EUA, ainda inconteste, apesar da ascensão da China, reafirmado. À América Latina reserva-se a definição de zona de direta e quase exclusiva influência. Além disso, segundo a nova doutrina, os EUA, de modo geral, não devem se importar com as características dos regimes políticos dos países com os quais negociam. Este é o caso, inclusive, da Venezuela pós-Maduro, cujos governantes autoritários neochavistas os EUA deixarão em paz desde que se adequem aos desígnios de Trump.

Há muitas questões envolvidas no caso venezuelano. O regime chavista atual, espécie de autocracia de estilo vertical soviético-cubano, com a institucionalização antidemocrática produzida pelo presidente Hugo Chávez, mesmo sendo derrotado em plebiscito que ele próprio convocou sobre o tema, é, ao contrário do que grande parte da esquerda tupiniquim professa, indefensável. Além do mais, adotou em larga medida o neoliberalismo e entregou as zonas mineiras do país, inconstitucionalizadas, à governança direta dos militares. Em contrapartida, o ataque de Trump rompe frontalmente não apenas com o multilateralismo como também com o direito internacional, reafirmando o polo de poder dos EUA, que se crê – e de fato se mostra – como o mais forte do mundo, como as tíbias reações da Rússia, da China e da Europa, mas igualmente dos países latino-americanos, demonstram. Quem poria o guizo no pescoço do gato?

Esse ataque deixa claro que a posição dos países latino-americanos é muito frágil. As tentativas de integração do subcontinente sul-americano, excluindo até o México, eram de cunho político, antes que econômico e social, o que aí sim poderia garantir uma teia de relações sustentável. Somos todos países exportadores de produtos primários, em princípio até mesmo competidores. Sobra o cambaleante Mercosul. A ascensão de governos de direita por toda parte – em larga medida por erros graves e repetidos das esquerdas – rompeu esses processos políticos. O sonho de fazer do Brasil um dos polos do sistema internacional, inclusive com assento no Conselho de Segurança da ONU, se evidencia como uma falácia. Num sistema de polos e grandes poderes, a América Latina cai sob a hegemonia dos EUA, com o Brasil jogando, no máximo, um papel de coadjuvante.

Na verdade, o avanço do Brasil só pode se dar em uma situação de respeito ao multilateralismo e ao direito internacional, por mais frágil que este seja, uma vez que não há força ou agente capaz de garantir seu cumprimento. A esquerda que aposta na política de polos, em geral compartilhando também uma admiração pelo autoritarismo chinês, russo, venezuelano e até mesmo iraniano, está profundamente equivocada. É como se o Brasil fosse tornar-se, juntamente com China e Rússia, em contraposição aos EUA, um novo polo do sistema internacional.

Isso é uma ilusão: o Brasil não consegue influenciar de forma sustentada sequer a América Latina. De todo modo, não deve o Brasil, com um ufanismo defasado, querer-se como hegemônico no continente. Ele deve se apresentar como uma força de colaboração e coesão entre todos, da Argentina ao México, descartando, além do mais, o tipo de políticas calcadas na atuação das Odebrechts da vida.

Assim, a afirmação do multilateralismo e, a despeito de sua fragilidade, do direito internacional – inclusive no sentido de rejeitar qualquer ruptura da soberania nacional, afora em casos extremos de maltrato dos povos por seus Estados ou por outros – deve nortear a política do Brasil no mundo. Isso inclui uma clara postura anti-imperialista, que voltou abertamente com Trump. Essa perspectiva deve ser combinada, sempre, com nossa tradição de política externa independente, sem que nos subordinemos a nenhum polo, ao mesmo tempo em que negociamos avanços para o país e para a ordem planetária. No momento, isso requer ainda uma estratégia cautelosa e defensiva, porém firme, ao menos até o fim do governo Trump, embora quem o suceda, republicano ou democrata, provavelmente não mude a essência da nova estratégia e da nova política externa estadunidense, se bem que possa suavizar seu comportamento.

De todo modo, o multilateralismo não está morto. É o que o Tratado União Europeia-Mercosul, o novo acordo global sobre os oceanos e mesmo a luta contra a mudança climática demonstram, não obstante a ausência e rejeição dos EUA. O Brics pode ser um elemento desse multilateralismo renovado e relevante para o Brasil, embora suas reais potencialidades (econômicas e de governança global) sejam bem menores do que as expectativas e esperanças nele depositadas, inclusive porque é em larga medida parte de um projeto de hegemonia global por parte da China (como sua ampliação – na marra – há não muito tempo deixou claro).

Para o Brasil é ainda mais problemática a situação na medida em que estamos, queiramos ou não, a mitiguemos ou até mesmo a superemos parcialmente, sob o que os EUA consideram como sua zona de influência. Acima de tudo, junto a uma política externa independente, recuperar uma ONU fortalecida – contra a manobra de criação de um Conselho da Paz imperial como proposto por Trump –, contando com seus órgãos auxiliares, entre outros para a saúde, o clima, os direitos humanos – fortalecido e sem compromissos – e o desenvolvimento, com uma governança distinta e ampliada do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, deve ser um projeto da esquerda brasileira e inclusive mundial.

Apesar de deslizes (como ser o único presidente de país democraticamente governado a comparecer extemporaneamente a uma cerimônia na Rússia) e equívocos na perspectiva de alguns formuladores da política externa (que saudaram o fim do multilateralismo e a política de polos de grandes poderes), o governo do presidente Lula da Silva vem se mexendo bem em situação tão delicada. Sem confrontar Trump, reafirma suas perspectivas, aposta no multilateralismo e no direito internacional, dentro de suas possibilidades, e avança em negociações mundo afora.

A situação é difícil, mas não desesperadora. É preciso proteger-se e abrir espaços para virar o jogo e retomar o projeto de uma ordem global cosmopolita e justa, emprestando uma inflexão decisiva a esta nova fase da modernidade.

 

Fonte: DW Brasil/Correio da Cidadania

 

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