Marcelo
Zero: Ucrânia - 4 anos de uma evitável e perigosa guerra
A
guerra na Ucrânia é apenas a expressão imediata e “quente” de um conflito que
foi basicamente engendrado pelos EUA e aliados já na década de 1990. Com
efeito, os EUA e alguns de seus aliados, principalmente os do Leste europeu,
nunca deixaram de considerar a Rússia como uma ameaça potencial à sua hegemonia
naquela região.
Considere-se
que Yeltsin e Putin, este último no início de seu primeiro governo, chegaram a
solicitar aos EUA que a Rússia fosse incluída num organismo de “segurança
pan-europeu”, ou mesmo na Otan. A bem da verdade, Putin fez exatamente essa
última solicitação, em 2000. Todos esses movimentos de aproximação,
ressalte-se, foram rejeitados, em última instância. Assim, na década de 90 e no
início deste século, a Rússia não se via como uma adversária da Europa. Ao
contrário, desejava ser incluída nela. Via-se essencialmente como um país
europeísta. Mesmo assim, os EUA e alguns aliados rejeitaram sistematicamente
tais pretensões da Rússia e mantiveram uma estratégia de exclusão daquele país
e de contínua expansão da Otan para o Leste. Tal estratégia pode ser resumida
pela seguinte frase: manter os americanos dentro; manter os russos fora e
manter os alemães subordinados Os EUA, em vez de se aproveitar da extinção da
URSS e do Pacto de Varsóvia para criar um ambiente cooperativo com a Rússia,
como bem argumenta Jeffrey Sachs, testemunha ocular de toda essa história,
preferiram investir na geração de uma agressiva hegemonia absoluta.
Zbigniew
Brzezinski, scholar extremamente influente, que fora assessor presidencial para
assuntos de segurança nacional no período de 1977 a 1981, concebeu, já em
meados da década de 1990, uma geoestratégia para a Eurásia que implicava, no
longo prazo, um novo conflito com a Rússia. De fato, a geoestratégia
concebida por Brzezinski propunha várias ações de longo prazo concomitantes que
conduziam a um acirramento das tensões na Eurásia. Em primeiro lugar, o
fortalecimento da Europa unida, sob a liderança dos EUA. Para tanto, Brzezinski
já sugeria, inclusive, a celebração de um tratado de livre comércio
transatlântico. Em segundo, o fortalecimento das novas nações independentes da
Ásia Central e do Leste Europeu, que surgiram após o colapso da União Soviética, e
a consequente expansão da OTAN até a Ucrânia (sim, isso já estava previsto
desde a década de 1990, nessa estratégia neocon). Em terceiro lugar, e
mais importante, a geoestratégia de Brzezinski previa o enfraquecimento ainda
maior da Rússia e o enquadramento de sua política externa nos imperativos
geopolíticos dos EUA e seus aliados. Brzezinski chegou a propor até mesmo uma
descentralização territorial da Rússia.
Brzezinski
propôs, de fato, um quase desmembramento territorial da Rússia, com a
constituição de três grandes repúblicas autônomas: a República da Rússia
Europeia, a República da Sibéria e a República do Extremo Leste. Segundo
Brzezinski, isso permitiria o melhor aproveitamento dos recursos naturais e das
potencialidades econômicas locais, já que essa nova conformação enfraqueceria o
poder burocrático de Moscou. Além disso, essa nova conformação tornaria a
Rússia “menos suscetível” a uma nova “mobilização imperial”. Naquela época,
essa geoestratégia parecia não só inteiramente factível como algo praticamente
inevitável.
A
Rússia, reduzida a cacos, economicamente, politicamente e militarmente, teria
de aceitar essas imposições. Não haveria alternativas. Zbigniew Brzezinski,
entretanto, aventou, em 1997, um cenário adverso, na sua obra “O Grande
Tabuleiro de Xadrez”.
Argumentou
ele que: “Potencialmente, o cenário mais perigoso seria uma grande coligação
entre a China, a Rússia e talvez o Irã, uma coligação 'anti-hegemônica' unida
não pela ideologia, mas por queixas complementares... Evitar esta contingência,
por mais remota que seja, exigirá uma demonstração de capacidade geoestratégica
dos EUA. habilidade nos perímetros oeste, leste e sul da Eurásia
simultaneamente.”
Mas foi
exatamente o que aconteceu. Brzezinski também não conseguiu prever a ascensão
de uma liderança nacionalista, como a de Putin, e o reerguimento econômico da
Rússia, com base na grande afluência em petróleo e gás, e no posterior
fortalecimento de algumas indústrias importantes, como siderurgia, indústrias
metais-mecânicas, de transporte etc. Nesse contexto, a Rússia não podia mais
ser pressionada facilmente, como tinha acontecido na era de Boris Yeltsin. Mesmo
assim, essa pressão continuou, apesar das seguidas advertências em contrário de
muitos analistas e políticos conservadores dos EUA. Dessa maneira, a
expansão da Otan para o Leste foi realizada de forma sustentada, apesar das
promessas em contrário feitas por James Baker a Gorbatchev (“nenhuma polegada
para o Leste”). Em 1999, Polônia, Hungria e República Tcheca foram incorporadas
à Otan, apesar dos protestos russos. Numa grande segunda onda, concluída em
2004, Letônia, Estônia, Lituânia, Eslováquia, Eslovênia, Bulgária e Romênia
também foram incorporadas, em meio a muitos protestos da Rússia. Em 2009, foi a
vez da Albânia e da Croácia. Em 2020, Montenegro e Macedônia do Norte também
foram incorporadas à Otan. Em 2024, foi a vez da Finlândia e da Suécia
aderirem, já no contexto da guerra. Dos 12 membros iniciais, a Otan passou a
contar com 32 membros.
Observe-se
que a Otan foi criada em 1949, pelo Tratado de Washington, já no contexto do
início da Guerra Fria. Seu grande objetivo era o de criar um pacto militar e
político que fizesse frente à influência da URSS na Europa. Sua existência se
justificava no quadro de um conflito geoestratégico que opunha os interesses
dos EUA e seus aliados da Europa Ocidental aos interesses da URSS e seus
aliados da Europa Oriental, corporificados, por seu turno, no Pacto de
Varsóvia. Finda a antiga Guerra Fria, após o colapso da URSS, o Pacto de
Varsóvia foi extinto em 1991. Não obstante, a Otan não só foi mantida como
consideravelmente expandida, apesar das promessas em contrário dos EUA.
Na
conferência da Otan em Bucareste, realizada em 2008, a Rússia esperava que o
organismo renunciasse a se expandir para a Ucrânia e para a Geórgia. Tal não
aconteceu, o que levou Putin a se retirar, furioso, da reunião. Angela Merkel,
que havia rejeitado a proposta no primeiro dia da reunião, acabou cedendo à
pressão dos EUA no segundo dia, atraindo outros votos europeus de países
indecisos. Na ocasião, Putin declarou que se a Ucrânia entrasse para a
Otan, ela o faria “sem a Crimeia e sem o Donbas”. Vejam bem, Putin antecipou o
que a Rússia faria há mais de 17 anos.
Pudera.
A eventual incorporação da Ucrânia à Otan poderia colocar tropas ou uma base
dessa organização a apenas cerca de 500 quilômetros de Moscou. Dessa
posição, um míssil hipersônico de alcance intermediário, que pode ser lançado
de plataformas móveis, poderia atingir a capital da Rússia em apenas 5 minutos,
gerando um tempo de resposta defensiva extremamente curto. Considere-se que os
EUA se retiraram do tratado com a Rússia, que regulava esse tipo de mísseis, no
primeiro governo Trump. Agora, imaginem se fosse o contrário. Imaginem um
cenário no qual a Rússia tivesse, por exemplo, incorporado ou tentado
incorporar o Canadá (membro da Otan) na OSTC, criando a possibilidade de
inserir tropas ou mísseis no sul de Québec, a apenas cerca de 500 quilômetros
de Nova Iorque. Será que os EUA assistiriam a tudo passivamente? Evidentemente
que não. Teriam reagido com extrema agressividade, como fizeram na crise dos
mísseis de Cuba, no início da década de 1960, que levou o mundo ao borde de uma
guerra nuclear.
Em
comparação, a reação de Putin era bastante razoável, embora firme. Queria que
os EUA firmassem um tratado de não-agressão com a Rússia e que a Ucrânia não
entrasse na Otan. Era, até 2022, uma aposta na paz e na negociação. Não
obstante, Biden e Blinken recusaram, acompanhando a posição de todos os
governos anteriores dos EUA, Democratas e Republicanos. Saliente-se que,
com a ascensão de um novo regime na Ucrânia, no qual grupos neonazistas têm
considerável influência, eclodiu uma guerra civil na região do Donbas, de
maioria russófona. Tal guerra civil já havia matado mais de 14 mil pessoas,
sendo cerca de 10 mil civis, a maioria russos, antes do surgimento do atual
conflito armado.
A
colocação, em 2021, de mísseis e tropas da Otan na Romênia e na Bulgária, a
negativa dos EUA em negociar um pacto de não-agressão e a neutralidade da
Ucrânia, a ameaça do regime Kiev de se retirar dos Memorandos de Budapeste (que
asseguram a desnuclearização do território ucraniano) e o recrudescimento dos
bombardeios contra o Donbas foram as gotas d`água para uma Rússia cansada de
promessas não cumpridas e historicamente traumatizada por episódios de quase
extermínio. Tal contextualização geopolítica do atual conflito não é restrita,
repito, à esquerda, a setores da esquerda ou a “anti-imperialistas”. Como
bem advertiram muitos analistas e políticos conservadores dos EUA, como
Kissinger, McNamara, George Kennan, John Matlock etc. etc., a injustificada
expansão da Otan, combinada com a guerra civil ocasionada pela “revolução
laranja”, a qual rompeu com o delicado equilíbrio político interno na Ucrânia,
teria sido considerada uma “questão existencial” por qualquer governo russo,
não apenas pelo de Putin.
William
Burns, atual diretor da CIA e antigo embaixador dos EUA na Rússia, assinalou,
em memorando à secretária de Estado, Condoleezza Rice, datado de 2008,
que: “a entrada da Ucrânia na Otan é a mais brilhante de todas as luzes
vermelhas para a elite russa (não apenas Putin). Em mais de dois anos e meio de
conversas com os principais atores russos, desde os funcionários mais graduados
do Kremlin até os críticos liberais mais perspicazes de Putin, ainda não
encontrei ninguém que veja a Ucrânia na Otan como algo aquém de um desafio
direto à existência da Rússia”. William Perry, Secretário de Defesa de
Clinton, chegou a pensar em renúncia, quando seu chefe decidiu fazer uma
primeira expansão da Otan. Até Biden, em 1997, reconheceu que tal expansão
geraria reações hostis na Rússia.
QUADRO
ATUAL
A
guerra na Ucrânia, tudo indica, está praticamente resolvida, do ponto de vista
militar. É preciso enfatizar, antes de tudo, que a Rússia nunca teve e não tem
condições econômicas e militares de fazer uma guerra de ocupação da Ucrânia e,
muito menos, de desencadear uma política imperial no Leste europeu ou na Europa
como um todo. Isso é devaneio ideológico de gente como Dugin, repetido,
no Ocidente, por gente paranoica que quer justificar uma guerra sem fim contra
a Rússia. Ou que intenta entender o complexo jogo da geopolítica a partir de
premissas moralistas ou pseudomoralistas, dividindo o mundo, de forma simplória
e maniqueísta, entre países bons e países malvados. Entre autocracias, ou
supostas autocracias, e democracias, ou supostas democracias. A esse respeito,
deve-se entender que Putin, independentemente dos julgamentos de valor
negativos que são frequentemente feitos no Ocidente a respeito de seu governo,
goza de grande popularidade na Rússia. Com efeito, segundo o Instituto
Levada-Center, muito citado pela mídia ocidental, que faz pesquisas de opinião
sistemáticas sobre a política russa, a popularidade de Putin se mantém muito
alta, desde o final do século passado.
De
acordo com esse instituto, desde agosto de 1999, quando começaram as medições,
a aprovação pessoal de Putin não cai abaixo de 60%. Não bastasse, qualquer
outro governo russo teria reagido de forma semelhante a essa contínua pressão
geoestratégica do Ocidente. Essa é a realidade. Pois bem, a operação
militar da Rússia na Ucrânia envolveu, inicialmente, cerca de 180 mil homens.
Uma real guerra de ocupação teria de envolver mais de 500 mil homens, pelo
menos.
A
guerra na Ucrânia é, na realidade, o que militarmente se chama guerra de
atrito, ou desgaste, que objetiva, do ponto de vista da Rússia:
- Assegurar a
neutralidade do território ucraniano.
- Assegurar o
controle da Crimeia e dos 4 oblasts já conquistados (antes eram apenas 2).
- Assegurar que a
Ucrânia tenha um governo que não seja hostil a Moscou e às minorias
russófonas (como era o de Yanukovich, deposto por um golpe apoiado por
Washington).
Há,
entretanto, setores mais radicais na Rússia, os quais consideram Putin muito
moderado, que desejam também o domínio do Sul da Ucrânia (inclusive de Odessa).
Isso transformaria a Ucrânia em um país mediterrâneo, sem acesso ao Mar Negro,
que passaria a ser, ao seu Norte, um mar russo. A Turquia vê com verdadeiro
pavor essa perspectiva. No entanto, parece evidente que essa outra
expansão encontraria forte resistência nos EUA e em outros países. Putin,
que é bastante pragmático, sabe que tem de negociar algo razoável. Sabe
também que, com Trump, poderia haver uma paz que lhe seria bastante
favorável. Não porque Trump seja “putinista” ou outro desvario do
gênero.
A
realidade é que:
- A Ucrânia está
derrotada, na prática. A Ucrânia tem um problema sério de reposição de
seus exércitos. Após ter perdido cerca de 500 mil homens (entre mortos e
incapacitados), encontra dificuldades incontornáveis para incorporar novos
conscritos. Caça nas ruas até mesmo idosos para mandar para a frente. A
média de idade do exército ucraniano já chega a 41 anos. Esse é um
problema demográfico insuperável. No início da década de 1990, a Ucrânia
tinha um pouco mais de 50 milhões de habitantes. Mas a emigração e a taxa
de fecundidade das mulheres ucranianas, que se mantêm abaixo da taxa de
reposição de 2,1%, desde meados da década de 80, fizeram a população se
reduzir para 42 milhões, antes do início da guerra. Depois da guerra, com
a fuga de refugiados para outros países, a população diminuiu para 36
milhões. A Academia Nacional de Ciência da Ucrânia prevê que,
independentemente do conflito, a população da Ucrânia cairá para 25
milhões até 2050. Na realidade, a Ucrânia vive uma catástrofe demográfica
crescente, que a impede de constituir forças armadas mais robustas. Trump,
no espetáculo midiático do Salão Oval, disse isso na cara de Zelensky. Foi
rude e agressivo, mas, nesse ponto, apenas falou a verdade. A única
maneira de contornar esse obstáculo estrutural seria pelo envio de um bom
número de tropas estrangeiras ao território ucraniano. Enviar mais armas
não bastaria. Porém, esse seria um movimento muito perigoso, que poderia
conduzir, sim, a uma Terceira Guerra Mundial. Algo que Trump também disse,
praticamente aos berros, na cara de Zelensky.
- Trump não vê a
segurança da Ucrânia e da própria Europa como uma prioridade. E sempre
desconfiou da Otan. A vê como algo dispendioso e inútil, que não beneficia
os interesses dos EUA, como deveria. Vem dizendo isso desde seu primeiro
mandato. Acha que a Europa tem de arcar com sua própria segurança e
pressiona para que países europeus invistam cerca de 5% de seu PIB em
defesa.
- Trump não quer
dispêndios inúteis e, estrategicamente, quer concentrar os esforços dos
EUA na contenção da China e do Irã e no controle do continente americano,
o seu “quintal” histórico. Também apoia a pretensão de Israel de se
expandir em outras áreas do Oriente Médio.
- Nesse sentido,
uma paz com a Rússia poderia liberar recursos econômicos e militares para
essas prioridades. Ademais, uma paz com a Rússia poderia, na avaliação do
MAGA, enfraquecer a aliança entre Rússia e China e o próprio BRICS. Seria
algo como fazer o que Kissinger fez, mas em sentido inverso. Na década de
1970, Kissinger atraiu a China para enfraquecer o bloco comunista e a
União Soviética. Agora, Trump intentaria o oposto: atrair a Rússia para
enfraquecer a China e as alianças do Sul Global. Se vai funcionar, é algo
muito duvidoso. Não obstante, tem lá sua lógica.
A
questão central é que, sem o auxílio substancial dos EUA, a Ucrânia está
perdida, mesmo com a ajuda prometida pela Europa. Sem os EUA, a Ucrânia acabará
perdendo a rede cibernética, satelital e de inteligência que permite a
coordenação ofensiva e defensiva das suas tropas. Seria como ficar sem cérebro
e olhos. Zelensky sabe disso. Por tal razão, mesmo depois da humilhação
histórica no Salão Oval, intenta salvar o acordo sobre minérios. Contudo, Trump
não está disposto a dar as garantias que Zelensky quer, inclusive no que se
refere à devolução dos territórios conquistados pela Rússia. Não quer investir
mais numa guerra perdida. Além disso, a Rússia, país continental, tem mais
“bons negócios” a oferecer a Trump que a Ucrânia. Nas negociações bilaterais
entre Trump e Putin, que precederam a humilhação de Zelensky, isso foi tratado.
O
presidente russo Vladimir Putin afirmou que a Rússia estava pronta para
trabalhar com empresas americanas para explorar depósitos de minerais
de terras raras na Rússia e em partes da Ucrânia ocupadas pela Rússia, enquanto
seu enviado especial para investimento e cooperação econômica com países
estrangeiros, Kirill Dmitriev, disse à CNN que o país estava aberto à
cooperação econômica em questões como energia (óleo, gás natural e carvão). "Quero
enfatizar que certamente temos muito mais desses recursos do que a
Ucrânia", disse Putin sobre os depósitos de terras raras da
Rússia, em uma entrevista com o correspondente da mídia estatal Pavel Zarubin. "A
Rússia é um dos países líderes, quando se trata de reservas de metais raros. A
propósito, quanto a novos territórios, também estamos prontos para atrair
parceiros estrangeiros - há certas reservas lá também", disse
Putin, em uma aparente referência às áreas ocupadas pela Rússia na Ucrânia.
Não
sabemos o que foi efetivamente tratado ou prometido, mas, para usar a metáfora
de Trump, nesse aspecto, e em vários outros, a Rússia tem muito mais “cartas”
que a Ucrânia. Trump trata com desdém o mundo inteiro. Mas é implacável com
“fracos” e “derrotados”. E pobres. A ordem para suspender a ajuda militar à
Ucrânia já saiu da Casa Branca. Desde o início da Guerra, os EUA enviaram US$
188 bilhões de ajuda à Ucrânia para despesas militares, dos quais Us$ 164
bilhões vieram de legislações aprovadas pelo Congresso. Porém, desde que Trump
assumiu seu segundo mandato, nenhuma legislação específica de ajuda à Ucrânia
foi aprovada. A última legislação, nesse sentido, é de abril de 2024. O
dinheiro está minguando. Embora Trump tenha autorizado recentemente que a
Europa compre armas dos EUA para enviar à Ucrânia, a ajuda que está chegando,
intermitente, não é suficiente para o esforço de guerra ucraniano. Assim, além
do gravíssimo problema demográfico e de insuficiência de homens (especialmente
de homens jovens), há a questão da disparidade de equipamentos, que está se
acentuando, principalmente em artilharia e força aérea. Os drones ucranianos
não são suficientes para compensar esse desequilíbrio fundamental.
A
Rússia já conquistou 23% do território ucraniano e segue, aos poucos, mas
persistentemente, fazendo avanços, especialmente nas partes do Donbas ainda em
mãos dos ucranianos, Nesse contexto, os analistas sérios não veem perspectivas
positivas para a Ucrânia. Isso ficou claro quando o Grupo de Contato de Defesa
da Ucrânia, uma aliança europeia que apoia o esforço de guerra, reuniu-se em
Bruxelas em fevereiro de 2025. Já naquela ocasião, conforme o NYT, Hegseth, o
Secretário de Defesa (ou da Guerra, como queiram), expôs as posições do governo
Trump sobre esse conflito. “Devemos começar reconhecendo que retornar às
fronteiras da Ucrânia anteriores a 2014 é um objetivo irrealista.”, começou
dizendo Hegseth, para surpresa dos europeus. Em seguida, afirmou: “Os Estados
Unidos não acreditam que a adesão da Ucrânia à Otan seja um resultado realista
de um acordo negociado.”
Por
fim, Hegseth, segundo testemunhas, teria também dito que “as tropas americanas
não se juntariam a uma força de paz após um acordo para encerrar a guerra”. Enfim,
os EUA de Trump não continuariam a apoiar os esforços irrealistas de Zelensky e
da Europa.
Boris
Pistorius, o ministro da defesa da Alemanha, teria reagido de forma furiosa,
segundo as testemunhas consultadas pelo “The NYT”. “Não acho sensato descartar
a adesão da Ucrânia à OTAN e fazer concessões territoriais aos russos antes
mesmo do início das negociações”, afirmou, iracundo, o ministro da Defesa,
Boris Pistorius.
Em vão.
A posição dos EUA foi mantida. Ainda segundo o The New York Times, houve uma
reunião entre estadunidenses e ucranianos em Jeddah, Arábia Saudita, em março
de 2025. Marco Rubio, nessa ocasião, teria estendido um grande mapa da Ucrânia
sobre uma mesa. O mapa mostrava a linha de contato entre os dois exércitos — a
linha que divide o país entre os territórios controlados pela Ucrânia e pela
Rússia.
“Quero
saber quais são suas condições mínimas; o que vocês precisam para sobreviver
como país?”, teria perguntado Rubio aos ucranianos.
Mike
Waltz, então Conselheiro para Segurança Nacional de Trump, teria entregado a
Rustem Umerov, o Ministro da Defesa da Ucrânia, um marcador azul escuro e dito:
“Comece a desenhar”. Umerov, ainda segundo as testemunhas consultadas pelo The
New York Times, “traçou a fronteira norte da Ucrânia com a Rússia e a
Bielorrússia, depois seguiu a linha de contato através das regiões de Kharkiv,
Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia e Kherson. Em seguida, circulou a usina nuclear
de Zaporizhzhia, a maior da Europa. De acordo com uma autoridade ucraniana, o
Sr. Umerov alertou que os ocupantes russos estavam deixando de fazer a
manutenção da usina, arriscando um “desastre nuclear”. A Ucrânia queria
recuperá-la”. Por último, “ele apontou para Kinburn Spit, uma faixa de praia e
prado salgado que se projeta no Mar Negro. Recuperar o controle da faixa,
explicou ele, permitiria que os navios ucranianos entrassem e saíssem dos
estaleiros de Mykolaiv.” Em outras palavras, os ucranianos bem sabiam, desde
aquela época, que para negociar a paz, teriam de estar dispostos a renunciar a
cerca de, pelo menos, 20% do seu antigo território e a desistirem também de
entrar para a Otan.
De lá
para cá, essas condições, que enfraquecem a posição de Zelensky e dos seus
apoiadores europeus, não se alteraram, em substância. Na realidade, se tornaram
até mais rígidas, em alguns casos. O domínio de todo o Donbas por Moscou, mesmo
as áreas que ainda não foram conquistadas pelos russos, já teria sido aceito
como fato pelos EUA. E, à medida que o tempo passa, a Rússia, como já
comentado, vai avançando sobre o território ucraniano e os exércitos desse
último país sofrem mais perdas, que não podem mais ser repostas. O tempo
joga contra a Ucrânia. Zelensky e a Europa, que têm delírios sobre a suposta
vontade de Putin de estabelecer um domínio sobre todo o continente, numa
tentativa de reerguer o “antigo Império Russo”, estão sem perspectivas
realistas de manter suas posições, tanto no terreno militar quanto no político.
Isso não significa, contudo, que o “realismo” de Trump em relação à guerra na
Ucrânia não tenha limites geopolíticos. Embora suas prioridades
estratégicas estejam, nesse momento, em outros pontos do planeta, Trump e o
Deep State jamais admitiriam que a Rússia se transformasse, de novo, numa nova
União Soviética, um rival de peso capaz de se opor aos interesses dos EUA na
Eurásia. Nunca houve e nem haverá uma divisão de áreas de influências
restritas, como afirmaram alguns. O MAGA pode ser isolacionista, mas Trump não
é. É o contrário do isolacionismo. Intenta impor os interesses dos EUA pela
força em todo o mundo. Intenta impor uma desordem hobbesiana ao mundo inteiro.
O “Make America Great Again” implica impor os interesses dos EUA em todo o
mundo, sem a admissão de rivais que possam fazer frente ou questionar o grande
Hegemon. Isso está escrito com todas as letras na Nova Estratégia de Segurança
Nacional de Trump.
Trump
aceitaria uma paz na Ucrânia, com relativa expansão territorial da Rússia sobre
áreas russófonas, desde que esse país adote uma atitude cooperativa, em relação
aos interesses dos EUA, principalmente os econômicos. O que parece já ter sido
acordado entre os dois líderes. O mais importante, no entanto, é que essa
guerra, que era perfeitamente evitável, com um mínimo de racionalidade e
negociação, termine logo. Afinal, é um conflito com grande potencial de
expansão geográfica e até mesmo, no limite, de nuclearização. É um jogo de soma
negativa, que ameaça o planeta. E bravatas europeias não a resolverão.
Fonte:
Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário