Mitos
e verdades sobre treino e ciclo menstrual
O
conceito sincronização de treinos com o ciclo menstrual para potencializar
resultados se popularizou no TikTok. Mas nem sempre o que é tendência tem base
científica.
Há pelo
menos 40 anos pesquisadores investigam se alterações hormonais em mulheres
influenciam força, fadiga e recuperação. Com o tempo, esses estudos chegaram às
academias e às redes sociais, muitas vezes simplificados em regras como
"pegue leve durante a menstruação" ou "treine mais forte no meio
do ciclo menstrual".
O ciclo
menstrual é um ritmo mensal de hormônios. Ao longo do mês, o nível de dois
hormônios principais – estrogênio e progesterona – sobe e desce, moldando como
muitas mulheres se sentem, se movimentam e se recuperam.
Profissionais
do esporte costumam dividir o ciclo em quatro fases:
• Semana um: durante a menstruação, também
chamada de "período menstrual"
• Semana dois: dias que antecedem a
ovulação
• Semana três: após a ovulação
• Semana quatro: antes do início do
próximo período menstrual
Dependendo
da fase, treinadores podem sugerir cargas de exercício maiores ou menores. Mas
o que a ciência realmente diz sobre sincronizar os treinos com o ciclo
menstrual e para quem essa prática pode ser útil?
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Ganho de massa muscular e o ciclo menstrual
Em um
artigo publicado em 2024, pesquisadores analisaram estudos de 1960 a 2023 para
entender a influência das fases do ciclo menstrual no desempenho de força
muscular. Eles encontraram 707 estudos, mas focaram em apenas 22 que atendiam
critérios rigorosos, entre eles, incluir mulheres com ciclo regular e medir a
força em fases claramente definidas.
Em
média, as mulheres tiveram desempenho levemente melhor na segunda semana do
ciclo, quando o estrogênio está em ascensão, mas a diferença foi pequena. Os
resultados também variaram bastante entre indivíduos. Muitos efeitos apareceram
em ambientes laboratoriais controlados e entre atletas treinadas ou de alto
desempenho, em que até ganhos marginais importam.
Outro
estudo, também de 2024, não encontrou diferenças significativas na síntese de
proteína muscular – processo que repara e constrói músculos – entre diferentes
semanas do ciclo. Ou seja: o corpo consegue ganhar força e desenvolver massa
muscular em qualquer momento do mês.
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Exercícios ao longo do mês: ajuste a carga, não o hábito
Treinos
não são apenas levantamento de peso. Eles misturam força, exercícios de cardio
e movimento, o que permite pequenas adaptações ao longo do ciclo menstrual.
Na
primeira semana, por exemplo, estrogênio e progesterona estão em seus níveis
mais baixos. Essa fase costuma ser associada a menor tolerância ao exercício.
Cólica, enxaqueca, fluxo intenso e baixa energia podem afetar o desempenho.
"Níveis
baixos de estrogênio e progesterona têm uma leve associação com queda de
desempenho", diz Natalie Crawford, endocrinologista reprodutiva e
professora de saúde hormonal na Universidade do Texas. Na primeira semana,
portanto, ela recomenda evitar treinos até o ponto de exaustão. O ideal, em vez
disso, é focar em exercícios leves e de baixa intensidade.
Na
segunda semana, o estrogênio sobe e a progesterona continua baixa. Muitas
mulheres se sentem mais energizadas e com mais foco nessa fase do ciclo.
"A capacidade de treinar intensamente é maior", diz Ana Mendes,
personal trainer radicada na Holanda.
O
estrogênio favorece o funcionamento do coração e dos músculos, ajudando na
força e na resistência. "Esse costuma ser um bom momento para corridas
mais longas, treinos intervalados de alta intensidade ou cargas mais
pesadas", acrescenta Crawford.
Nas
semanas três e quatro, depois da ovulação, o estrogênio cai e a progesterona
sobe. "É mais uma fase de manutenção. Algumas mulheres lidam bem, outras
perdem força", diz Mendes, que costuma sugerir cargas mais leves, ritmo
mais lento ou treinos restaurativos durante essas semanas.
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Por que ouvir os sintomas é melhor que seguir o calendário
Grande
parte dos estudos analisados pela DW considera o ciclo regular como padrão. Mas
entre 14% e 25% das mulheres têm ciclos irregulares – o que torna difícil
sincronizar treinos pelo calendário. "Tenha com cautela com o ciclo
sincronizado", afirma Emilia Villegas, consultora na área de hormônios e
bem-estar que reside na Holanda.
Villegas
trabalha com mulheres com ciclos irregulares e em perimenopausa, quando o ciclo
pode sofrer mudanças bruscas. Em vez de datas, ela incentiva observar sintomas:
níveis de energia, qualidade do sono, humor, ansiedade, ondas de calor. Com o
tempo, surgem padrões.
Para
mulheres com ciclos ausentes ou imprevisíveis, o rastreamento de sintomas
costuma ser mais útil do que seguir o calendário. Também é uma forma de
identificar estresse excessivo no treinamento. "Se o ciclo fica irregular,
é um sinal para reavaliar descanso, alimentação e carga de treino", diz
Villegas.
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O que a ciência diz
A
ciência mostra que a capacidade de ganhar força e massa muscular não depende de
uma semana específica do ciclo menstrual. O progresso é gradual, e a coerência
vale mais do que sincronização dos treinos.
A
sincronização do ciclo menstrual com os treinos não é um "truque
hormonal" nem garante ganhos maiores. Mas pode ajudar mulheres a ajustarem
expectativas, evitarem sobrecarga e treinarem de forma mais sustentável.
"Trata-se
de ouvir o próprio corpo e ajustar o que você faz", destaca Crawford.
"Qualquer exercício é melhor do que nenhum. E tudo bem se sincronizar não
funcionar para você."
Mendes
segue a mesma linha. Em dias de pouca energia, ela não cancela o treino; apenas
ajusta. "Se reduzo a carga, aumento as repetições", afirma.
Compreender
mudanças recorrentes de energia pode ajudar mulheres a treinar com
inteligência, evitar burnout e manter a motivação.
Fonte:
DW Brasil

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