João
dos Reis Silva Júnior: Futuro escasso
2008
não chegou como data; chegou como ruptura de atmosfera. Primeiro veio o rumor,
depois a queda, depois a sensação difusa de que algo havia mudado de lugar no
mundo – não os edifícios, não as cidades, não os mercados em si, mas o modo
como o futuro se apoiava sobre o presente. O colapso dos mercados hipotecários
norte-americanos, a sequência de falências que atravessou o Atlântico e a
propagação quase instantânea da instabilidade pela economia mundial foram
vistos, descritos e medidos.
Ainda
assim, algo escapava. O que ruía não era apenas riqueza; era a duração que
sustentava a expectativa de crescimento (Harvey, 2011; Chesnais, 2016). Ruía a
confiança silenciosa de que o tempo econômico seguiria avançando de forma
previsível, como se a expansão fosse a condição natural do capitalismo
(Arrighi, 1994).
Durante
décadas, acreditou-se que crises eram interrupções: falhas momentâneas numa
engrenagem orientada para a expansão. Um tropeço, uma queda, um ajuste – e o
movimento seguiria adiante. Depois de 2008, essa narrativa começou a perder
aderência. A instabilidade deixou de parecer acidente; tornou-se clima. O
capitalismo não havia entrado em crise: passava a funcionar através dela
(Streeck, 2016; Tooze, 2018).
Nos
anos anteriores, a expansão parecia contínua. Capitais atravessavam fronteiras
com velocidade crescente, cadeias produtivas se alongavam pelo planeta,
mercadorias viajavam, moedas circulavam, expectativas se ampliavam (Guttmann,
2008; Rey, 2015). Para muitos países dependentes, aquele período foi vivido
como um intervalo respirável. A China crescia, as commodities valorizavam-se, a
liquidez internacional parecia inesgotável (Ocampo, 2017). Programas sociais
expandiam-se, o consumo avançava e tornou-se plausível imaginar que o
crescimento poderia adquirir estabilidade.
Então o
intervalo se fechou.
Depois
de 2008, o crescimento tornou-se mais lento, irregular e incerto (Tooze, 2018).
O comércio desacelerou, os preços das commodities oscilaram, os fluxos de
capitais tornaram-se mais sensíveis ao medo do que à esperança
(Bresser-Pereira, 2016; Rey, 2015). O endividamento público cresceu como
resposta à crise e passou a exigir disciplina permanente (Streeck, 2018).
Surgia um novo ambiente histórico: menos promessa, mais vigilância; menos
horizonte, mais gestão de riscos.
A
austeridade deixou de ser exceção e tornou-se princípio permanente de governo
(Blyth, 2015). O fundo público reorganizou-se em torno da confiança dos
mercados e da solvência da dívida (Chesnais, 2016; Gabor, 2021). Aquilo que
depende de continuidade – ciência, educação, políticas sociais, planejamento –
passou a viver sob a lógica da intermitência (Streeck, 2018).
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O tempo das políticas públicas começou a encolher
Projetos
que exigem décadas passaram a conviver com ciclos curtos. A instabilidade
tornou-se ambiente. A industrialização perdeu fôlego e a reprimarização ganhou
espaço (Palma, 2019; Marini, 1973; Bambirra, 1978). A pandemia de 2020 não
inaugurou nova época; acelerou a anterior (Tooze, 2021). A dependência passou a
revelar nova dimensão: tornou-se experiência histórica do tempo (Rosa, 2019).
No
México, o futuro chega sempre sob a forma de contrato. No Chile, o futuro
oscila permanentemente ao ritmo dos ciclos. No Brasil, o futuro permanece
visível, porém continuamente adiado. Na Argentina, o futuro chega comprimido
pela urgência do presente.
No
México, a integração produtiva com os Estados Unidos transformou o crescimento
em sincronização externa (Gallagher, 2017; Blecker, 2014). A economia mexicana
respira em compasso estreito com o mercado norte-americano. A reorganização
recente das cadeias globais e o nearshoring reforçaram essa posição (Dussel
Peters, 2022). O horizonte econômico passou a depender de negociações
comerciais recorrentes. O futuro existe – mas chega sob a forma de contrato.
No
Chile, a estabilidade institucional convive com a volatilidade dos preços do
cobre e do lítio (Ffrench-Davis, 2010; Bridge, 2014; Svampa, 2019). A economia
oscila entre expansão e ajuste. A disciplina fiscal protege, mas limita a
transformação produtiva (Palma, 2019). O futuro move-se em ciclos pendulares.
No
Brasil, o futuro permanece promessa recorrente. O país continua a acreditar no
crescimento, mas encontra dificuldade em sustentar continuidade (Ocampo, 2017;
Palma, 2019). A reprimarização reaparece como tendência estrutural (Marini,
1973). O futuro não desaparece; torna-se mais distante.
Na
Argentina, inflação e restrição externa comprimem o horizonte econômico
(Prebisch, 1949; Chesnais, 2016). O tempo acelera. O futuro é continuamente
adiado.
No
Uruguai, a estabilidade institucional convive com forte dependência do ambiente
externo (Rey, 2015). A dependência manifesta-se sobretudo como dependência
econômica.
A
América Latina não sofre da ausência de oportunidades, mas da dificuldade de
sustentar continuidade (Ocampo, 2017). Entre abundância de recursos e escassez
de duração, surge a pergunta decisiva: será possível transformar oportunidades
recorrentes em trajetórias persistentes?
A
dependência do século XXI tornou-se disputa pelo tempo. Projetos estruturais
exigem décadas; políticas econômicas operam em ciclos curtos (Streeck, 2018). A
desigualdade global tornou-se desigualdade na capacidade de sustentar o longo
prazo.
A
questão decisiva não é se haverá crescimento. A questão é se haverá tempo
suficiente para transformá-lo em trajetória.
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Chile – o futuro que oscila
O Chile
costuma aparecer nas comparações regionais como sinônimo de estabilidade.
Durante décadas, a palavra foi repetida quase automaticamente: disciplina
fiscal, metas de inflação, previsibilidade institucional. Um país que parecia
ter aprendido a atravessar crises sem grandes rupturas (Ffrench-Davis, 2010).
E, de
fato, atravessou. A crise de 2008 atingiu o país, mas não o derrubou. Houve
queda da demanda externa, volatilidade nos preços das commodities,
desaceleração do crescimento — nada inesperado para uma economia aberta. A
recuperação veio relativamente rápido e reforçou a imagem de resiliência. A
ideia de “modelo chileno” ganhou fôlego outra vez.
Mas a
estabilidade não eliminou a dependência. Apenas a tornou menos dramática. A
economia chilena continua profundamente ligada ao que acontece fora de suas
fronteiras. O cobre nunca deixou de ser central, e nos últimos anos o lítio
passou a ocupar lugar semelhante. A transição energética global devolveu ao
subsolo chileno uma importância estratégica inesperada. Baterias, mobilidade
elétrica, armazenamento de energia — parte do futuro tecnológico do capitalismo
depende desses minerais (Bridge, 2014; Svampa, 2019).
Isso
trouxe novas expectativas. Mais investimento, mais interesse internacional,
mais projeções otimistas. Outra vez a sensação de oportunidade. E, outra vez, a
ambiguidade. Porque o Chile permanece concentrado nas etapas iniciais das
cadeias produtivas. Extrai, exporta, abastece. As fases de maior valor agregado
continuam concentradas nas economias centrais. O país ocupa posição essencial,
mas não decisiva.
O
resultado é um movimento pendular bastante conhecido. Quando os preços das
commodities sobem, surgem crescimento, expansão fiscal, sensação de abertura de
possibilidades. Quando caem, retornam o ajuste, a cautela, a contenção do gasto
público (Palma, 2019). A disciplina macroeconômica ajuda a amortecer esses
ciclos. Mas não consegue eliminá-los.
Talvez
por isso as mobilizações sociais de 2019 tenham causado surpresa fora do país.
Para quem observava apenas os indicadores macroeconômicos, parecia improvável
que tensões tão profundas estivessem se acumulando. Crescimento não havia
faltado. Estabilidade também não. Mas estabilidade não resolve tudo.
O Chile
segue sendo exemplo de previsibilidade institucional. Ao mesmo tempo, continua
profundamente sensível às oscilações do mercado mundial de minerais. Entre
regras estáveis e preços instáveis, o país vive num equilíbrio delicado. O
futuro existe. Mas, no Chile, ele oscila.
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Brasil – o futuro que se adia
O
Brasil tem uma relação antiga com o futuro. Não apenas econômica; quase
afetiva. Durante décadas repetiu-se, com uma mistura de esperança e ironia, que
o país era “o país do futuro”. A frase atravessou gerações, crises, planos
econômicos, mudanças de moeda. O futuro parecia sempre atrasado, mas nunca
cancelado.
Nos
anos que antecederam 2008, essa sensação voltou a ganhar força. O crescimento
chinês elevava a demanda por minério de ferro, soja, petróleo. O emprego
crescia, o consumo se expandia, o crédito se ampliava. Havia um certo
entusiasmo discreto no cotidiano: aeroportos cheios, universidades ampliando
vagas, famílias fazendo planos mais longos (Ocampo, 2017).
Não era
euforia. Era algo mais silencioso: a sensação de que, desta vez, talvez desse.
E então o ritmo começou a mudar. Primeiro veio a desaceleração, quase
imperceptível. Depois a instabilidade política, a queda do crescimento, a
sensação difusa de que o tempo havia encurtado. Planos começaram a ficar mais
curtos. Projetos passaram a ser feitos com cautela. A política econômica
reorganizou-se em torno de uma preocupação permanente com dívida pública,
inflação e confiança dos mercados (Streeck, 2018; Chesnais, 2016).
O tema
deixou de ser o que construir e passou a ser o que preservar. A linguagem
econômica invadiu o cotidiano. Juros, déficit, teto de gastos, credibilidade
fiscal. Expressões técnicas começaram a aparecer nas conversas comuns. O
orçamento público passou a ser tratado como limite antes de ser tratado como
possibilidade.
Isso
mudou o tempo das políticas públicas. Programas de infraestrutura, ciência,
tecnologia e educação passaram a conviver com interrupções frequentes.
Iniciativas surgiam, eram revistas, redesenhadas, suspensas. O planejamento de
longo prazo tornou-se difícil de sustentar.
Ao
mesmo tempo, a estrutura produtiva mudava silenciosamente. A indústria perdia
espaço relativo, enquanto a exportação de commodities ganhava centralidade
(Palma, 2019). O país que havia sonhado com fábricas e tecnologia voltava a
depender, em grande medida, daquilo que nasce da terra (Marini, 1973).
Há algo
de profundamente ambivalente nisso. O Brasil possui alguns dos maiores estoques
de recursos naturais do planeta. Ferro, bauxita, petróleo, nióbio. A abundância
é evidente. Mas abundância não garante continuidade. A pandemia intensificou
essa sensação de encurtamento. O gasto público cresceu para enfrentar a
emergência sanitária e, logo depois, retornaram as pressões por ajuste. A
recuperação econômica apoiou-se novamente nas exportações de commodities. O
ciclo recomeçou.
O país
continuou a esperar. O futuro não desapareceu. Apenas passou a chegar mais
devagar.
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Argentina – o futuro que chega com pressa
Se o
Brasil aprendeu a esperar, a Argentina aprendeu a viver com pressa. É uma
diferença de ritmo que aparece rápido para quem observa a região. Há países que
planejam décadas; a experiência argentina, muitas vezes, parece organizada em
torno de meses. Não por escolha. Por necessidade.
A
relação com a moeda ajuda a entender esse ritmo. Em contextos de inflação
elevada e volatilidade cambial, o futuro deixa de ser um espaço confortável de
planejamento e passa a ser território de risco. Poupar torna-se difícil,
projetar torna-se incerto, prometer torna-se perigoso. O tempo econômico
encurta-se (Kindleberger; Aliber, 2011; Streeck, 2018).
A crise
de 2008 chegou a um país que ainda carregava a memória recente do colapso de
2001. O boom das commodities trouxe algum alívio, alguma recomposição de
reservas, uma sensação breve de respiro (Ocampo, 2017). Mas o núcleo do
problema permaneceu: a necessidade constante de dólares.
Dólares
para estabilizar preços. Dólares para financiar importações. Dólares para
sustentar crescimento. Quando o cenário internacional deixou de ser favorável,
a velha tensão voltou. A economia reencontrou seus limites no balanço de
pagamentos. O tempo das políticas passou a ser medido pela disponibilidade de
divisas. O horizonte encurtou de novo (Prebisch, 1949; Marini, 1973).
Em
ambientes de inflação elevada, o presente ganha peso. Decisões tornam-se mais
imediatas, mais defensivas. Contratos tornam-se difíceis de sustentar.
Investimentos recuam. A preferência pela liquidez cresce. O tempo acelera.
Nos
últimos anos, o setor energético passou a aparecer como promessa de alívio.
Reservas relevantes de gás e petróleo não convencionais reacenderam
expectativas. Exportações poderiam crescer. Divisas poderiam entrar. O país
poderia ganhar tempo.
Mas
ganhar tempo não é o mesmo que mudar o ritmo da história. Sem coordenação
produtiva consistente, o excedente energético tende a funcionar como respiro
temporário. A dependência muda de base material, mas preserva sua forma
estrutural (Palma, 2019). A pandemia aprofundou essa compressão temporal. A
necessidade de proteção social ampliou o gasto público, enquanto a volatilidade
financeira global reforçou a seletividade dos fluxos de capital (Gabor, 2021).
O
dilema tornou-se claro: estabilizar com custo social elevado ou proteger
socialmente sob risco de ampliar desequilíbrios monetários. A economia segue em
movimento. Mas o relógio parece sempre correr mais rápido do que os planos.
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O peculiar Uruguai – a dependência sobretudo econômica
Se a
Argentina vive com pressa e o Brasil vive de expectativa, o Uruguai vive de
atenção. É uma diferença sutil, mas importante. Em economias pequenas, o mundo
nunca está longe. Uma mudança no comércio internacional, uma oscilação cambial
nos países vizinhos, uma alteração no custo global do dinheiro – tudo chega
cedo demais e quase ao mesmo tempo (Ocampo, 2017; Rey, 2015).
Talvez
por isso o país tenha desenvolvido uma espécie de prudência estrutural. Ao
longo das últimas décadas, construiu reputação de previsibilidade institucional
rara na região: disciplina fiscal, estabilidade monetária, baixa volatilidade
política. Nada disso elimina a dependência. Apenas muda sua forma.
Diferentemente
de boa parte da região, o Uruguai não atravessa ciclos recorrentes de crises
monetárias nem rupturas institucionais profundas. Estado e sociedade
amadureceram lado a lado, quase no mesmo compasso, o que favoreceu a construção
de políticas públicas mais estáveis, contínuas e previsíveis.
É
justamente aí que reside sua peculiaridade. A dependência uruguaia não se
manifesta principalmente como instabilidade política ou desorganização
macroeconômica. Manifesta-se, sobretudo, como dependência econômica externa.
O país
permanece fortemente vinculado ao comércio internacional, ao desempenho dos
parceiros regionais e às condições financeiras globais. O mercado interno é
pequeno, a escala produtiva é limitada e a margem para políticas industriais de
grande porte é reduzida. O crescimento ocorre, mas tende a ser cauteloso,
condicionado e sensível ao ambiente externo.
A
política econômica organiza-se como gestão permanente de vulnerabilidades.
Preservar a confiança internacional torna-se prioridade constante. Em economias
pequenas, credibilidade funciona quase como um ativo estratégico: difícil de
construir, fácil de perder, essencial de proteger (Streeck, 2018).
O tempo
econômico uruguaio parece dividido em dois ritmos. Um ritmo longo,
institucional, feito de regras estáveis e previsibilidade. E um ritmo curto,
externo, marcado por preços internacionais, juros globais e ciclos regionais. O
primeiro tenta amortecer o segundo – mas não consegue eliminá-lo.
O
Uruguai tornou-se especialista em atravessar ondas. Não porque as ondas
deixaram de existir, mas porque aprendeu a conviver com elas. Sua dependência é
menos dramática. Mas não é menor. É, sobretudo, econômica.
Fonte:
A Terra é Redonda

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