O
custo de tributar a tecnologia
Em um
momento de dólar em queda e oportunidade concreta de acelerar a modernização
produtiva, o Brasil opta por encarecer máquinas, infraestrutura digital e
insumos estratégicos que ainda não produz. A medida pode reforçar o caixa no
curto prazo, mas impõe custos diretos à indústria, à ciência e à capacidade
tecnológica do país. Este artigo examina, com base nos fatos e nas contradições
do cenário atual, se estamos protegendo a economia nacional ou dificultando, na
prática, a construção do nosso próprio futuro.
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O fato nu e cru
A frase
“o governo vai taxar eletrônicos” simplifica e distorce o que aconteceu. A
medida central foi a Resolução Gecex nº 852, de 4 de fevereiro de 2026, no
âmbito da Câmara de Comércio Exterior, com aplicação em duas datas, 6 de
fevereiro de 2026 e 1º de março de 2026. Ela não cria um imposto novo. Ela
eleva o Imposto de Importação (II) ao alterar o Anexo VI da Resolução Gecex nº
272/2021, atingindo 1.252 códigos NCM, concentrados principalmente em bens de
capital (BK) e bens de informática e telecomunicações (BIT).
Isso
importa porque o alvo não é apenas produto de prateleira. O alcance real recai
sobre a base material da economia tecnológica: máquinas e equipamentos,
componentes eletrônicos, insumos ligados a semicondutores, infraestrutura de
telecomunicações e tecnologia de processamento de dados. Em outras palavras, é
uma intervenção sobre meios de produção e infraestrutura que condicionam
produtividade, modernização e capacidade tecnológica.
O
desenho técnico segue “degraus” tarifários descritos na Nota Técnica nº
501/2026 do Ministério da Fazenda. Alíquotas reduzidas ou zeradas foram
realinhadas para faixas como 7%, 12,6% e 20%, com casos pontuais chegando a
25%, conforme o NCM. Na operação prática, a nova alíquota vale no registro da
Declaração de Importação (DI), o que afeta imediatamente contratos,
planejamento e custos de empresas que importam com ciclos longos e margens
apertadas.
Por
fim, mesmo com o discurso de “proteção da indústria”, a medida apresenta um
componente fiscal evidente no debate público, com estimativas divulgadas pela
equipe econômica e por agentes do mercado apontando para uma arrecadação
adicional em 2026 na ordem de R$ 14 bilhões. Portanto, não se trata apenas de
uma política industrial, mas de uma reconfiguração tributária de grande escala,
com impacto direto sobre a infraestrutura tecnológica e produtiva do país.
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O timing macroeconômico e a janela perdida
A
elevação do Imposto de Importação ocorre em um momento macroeconômico que
favoreceria o movimento inverso. Em 25 de fevereiro de 2026, o dólar comercial
fechou em cerca de R$ 5,12, um dos menores patamares dos últimos quase dois
anos. Esse nível cambial reduz o custo de importação de bens tecnológicos e,
historicamente, abre uma janela para países como o Brasil acelerarem a
modernização produtiva, ampliando acesso a máquinas, equipamentos e
infraestrutura digital.
Em
ciclos de desenvolvimento, momentos de câmbio mais baixo são utilizados para
internalizar capacidade produtiva, atualizar parque industrial e expandir
infraestrutura tecnológica. Não se trata de consumo imediato, mas de
investimento em meios que aumentam produtividade e autonomia no médio prazo. A
oportunidade é objetiva: comprar tecnologia mais barata para produzir melhor no
futuro.
A
elevação das tarifas nesse contexto atua em sentido contrário. O ganho cambial,
que tenderia a reduzir custos, é parcialmente neutralizado pela nova alíquota
na entrada. O efeito líquido depende do item, mas o resultado geral é claro:
parte do benefício da queda do dólar é absorvida pelo aumento do imposto. O que
o câmbio barateia, a política tarifária volta a encarecer.
Essa
contradição ganha peso quando se observa a natureza dos itens atingidos. Não
são, em sua maioria, bens supérfluos, mas elementos centrais da infraestrutura
produtiva e tecnológica. Isso significa que a medida incide justamente no
momento em que o país poderia, com menor custo relativo, dar um salto de
qualidade em sua capacidade técnica.
O
resultado é uma tensão entre condições externas favoráveis e uma decisão
interna que restringe esse potencial. Em termos estratégicos, configura-se uma
janela parcialmente desperdiçada, não por impossibilidade estrutural, mas por
escolha de política econômica em um momento em que o acesso à tecnologia
poderia ser ampliado.
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O impacto material na economia real
O
efeito decisivo dessa política aparece na mecânica concreta da economia. Ao
incidir sobre bens de capital e tecnologia, o aumento do Imposto de Importação
eleva o custo de investir, produzir e inovar. Não é um ajuste pontual. É uma
pressão sobre a base material da produtividade.
O
impacto não é linear. O II se soma a IPI, PIS/COFINS e ICMS, criando um efeito
cumulativo. Na prática, aumentos na entrada podem resultar em elevações
significativas no preço final, frequentemente estimadas por agentes do setor
entre 30% e 60%, dependendo da cadeia tributária envolvida. Isso pesa mais em
equipamentos de alto valor, como servidores, sistemas de armazenamento,
hardware de alto desempenho e máquinas industriais.
Esse
encarecimento atinge diretamente o investimento produtivo. Empresas que
planejavam modernizar operações passam a rever custos e prazos. Em setores
intensivos em tecnologia, como indústria avançada, logística, telecomunicações
e serviços digitais, o preço do equipamento é determinante. O resultado tende a
ser adiamento de investimentos, redução de escala ou cancelamento de projetos.
O
efeito é mais forte nas pequenas e médias empresas, que têm menor capacidade de
absorver custos e acesso mais restrito a crédito. Grandes grupos conseguem
antecipar importações, negociar volumes e repassar preços. Os menores operam
sem margem de manobra. Isso cria um viés de concentração econômica, no qual os
mais estruturados se adaptam e os demais recuam.
Há
também impacto direto sobre infraestrutura digital e científica. Data centers,
universidades, centros de pesquisa e projetos de inovação dependem de
equipamentos sem equivalente nacional. O aumento de custo limita expansão,
atualização e capacidade operacional, afetando desde políticas públicas até
pesquisa aplicada.
Por
fim, o efeito se espalha pela cadeia. Mesmo quando o bem não é de consumo
final, ele entra na produção de outros bens e serviços. O aumento de custo
tende a ser repassado, reduzindo eficiência e pressionando preços.
Em
síntese, a medida eleva o custo sistêmico da economia, afetando investimento,
produtividade e capacidade tecnológica de forma ampla e duradoura.
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O nó soberanista
No
centro dessa política está uma contradição objetiva. Não há soberania possível
quando se encarece o acesso aos instrumentos que a tornam viável. A questão não
é importar ou não importar. A questão é distinguir entre o que o país já produz
com capacidade real e o que ainda depende de cadeias globais complexas.
Setores
como semicondutores, computação avançada, redes e automação foram construídos
ao longo de décadas de investimento intensivo, com coordenação estatal e
integração internacional. O Brasil ainda não possui base produtiva capaz de
substituir, em escala e competitividade, grande parte dos bens atingidos.
Existe produção local em alguns segmentos, mas ela é limitada e fragmentada,
não cobrindo os elos de maior complexidade tecnológica e valor agregado. O
ponto, portanto, não é a ausência total de produção, mas a insuficiência
estrutural. Nesse contexto, elevar tarifas sobre itens sem equivalente nacional
efetivo não protege a indústria. Ele encarece o acesso à tecnologia e reduz a
capacidade de aprendizado produtivo.
O
efeito é concreto. Ao dificultar a aquisição de equipamentos e insumos
críticos, a política pode retardar a modernização e limitar a absorção
tecnológica. Isso cria um paradoxo. Em vez de reduzir a dependência, pode
prolongá-la, pois torna mais difícil o próprio processo de construção de
autonomia.
Experiências
internacionais mostram um padrão claro. Políticas bem-sucedidas de
industrialização combinam proteção seletiva, temporária e vinculada a metas de
capacitação tecnológica. Quando a proteção é ampla e descolada de capacidade
real, ela se transforma em custo permanente, sem gerar transformação
estrutural.
Há
ainda uma dimensão estratégica adicional. Em uma economia orientada por dados,
computação e infraestrutura digital, a soberania depende da capacidade de
processar, armazenar e desenvolver tecnologia. Ao elevar o custo de servidores,
redes e componentes, a medida incide diretamente sobre esse núcleo.
O ponto
central é simples. Proteger o que existe é diferente de dificultar a criação do
que ainda precisa existir. Se a política não diferencia essas duas dimensões,
ela corre o risco de apresentar soberania como objetivo e produzir o efeito
inverso na prática.
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O mapa de poder: vencedores, perdedores e a política das exceções
A
medida não afeta todos da mesma forma. Ao elevar o custo de entrada de
tecnologia, ela reorganiza interesses e redefine a distribuição de poder
econômico.
De um
lado estão os grandes grupos, com acesso a crédito, escala de importação e
capacidade de negociação. Esses agentes conseguem antecipar compras, diluir
custos e repassar aumentos ao preço final. Também têm mais condições de acessar
mecanismos administrativos que aliviam impactos. Para eles, a política é um
ajuste gerenciável.
Do
outro lado estão pequenas e médias empresas, startups, laboratórios e parte
relevante do setor produtivo que depende de tecnologia importada para operar.
Esses atores não têm margem para absorver aumentos abruptos. O impacto pode
significar adiamento de projetos, perda de competitividade e retração de
atividade.
Entre
esses polos aparece um elemento central: a política das exceções. Regimes
especiais, cotas e mecanismos como o ex-tarifário funcionam como válvulas de
ajuste. Em tese, corrigem distorções. Na prática, introduzem seletividade. Nem
todos conseguem acessar esses instrumentos com a mesma facilidade. Estrutura,
informação e capacidade de articulação passam a ser decisivas.
Isso
gera dois efeitos. Primeiro, tendência à concentração econômica, pois os mais
estruturados se adaptam melhor ao novo ambiente. Segundo, um espaço onde
decisões técnicas convivem com pressões setoriais e disputas de interesse.
Mesmo dentro de regras formais, o acesso diferencial cria assimetria.
Do
ponto de vista do desenvolvimento, isso levanta um problema claro. Uma política
que pretende fortalecer a economia nacional pode, se mal calibrada, reduzir a
diversidade produtiva e concentrar capacidade em poucos atores.
O ponto
decisivo não é apenas a alíquota. É entender quem consegue operar dentro da
política e quem fica limitado por ela. É nesse nível que a economia revela sua
dimensão concreta de poder.
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O risco político em 2026
Em ano
eleitoral, a economia é julgada pela experiência concreta das pessoas. Medidas
que encarecem, direta ou indiretamente, o acesso à tecnologia tendem a gerar
reação imediata, independentemente da complexidade técnica.
A
tradução social da medida já está dada. Embora incida majoritariamente sobre
bens de capital, ela circula como “taxação de eletrônicos”. Essa simplificação
conecta a política ao cotidiano. Computadores, celulares e serviços digitais
são parte central do trabalho, da renda e da vida social. Qualquer percepção de
aumento de custo nesse campo produz insatisfação rápida e difusa.
Há um
fator sociológico relevante. Jovens, profissionais de tecnologia, trabalhadores
digitais e parte da classe média urbana dependem diretamente desses bens. Para
esses grupos, tecnologia não é consumo acessório. É condição de inserção
econômica. Uma política percebida como obstáculo a esse acesso tende a gerar
desgaste justamente em segmentos estratégicos.
Para o
campo progressista, o risco é mais sensível. Trata-se de um campo
historicamente associado à ampliação de direitos e acesso. Quando uma política
é interpretada como restrição, surge uma contradição narrativa. Essa
contradição pode ser explorada de forma simples e eficaz por adversários.
O
contexto reforça esse efeito. A combinação entre dólar em queda e aumento de
imposto cria um desalinhamento entre expectativa e realidade. A percepção tende
a ser de oportunidade perdida ou de decisão mal calibrada.
Não se
trata de prever resultado eleitoral. Trata-se de reconhecer um padrão.
Políticas que afetam o custo de vida percebido, especialmente em áreas centrais
como tecnologia e trabalho, tornam-se variáveis políticas relevantes. Quando
não há narrativa clara e resultados visíveis no curto prazo, o custo político
tende a crescer.
Nesse
ponto, decisões econômicas deixam de ser apenas técnicas e passam a operar como
fatores de risco político estrutural.
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A saída estratégica melhor do que a taxação
Se o
objetivo é fortalecer soberania e desenvolvimento, a alternativa não está em
elevar tarifas de forma ampla, mas em diferenciar com precisão o que deve ser
protegido e o que precisa ser acessível. O próprio arcabouço institucional já
oferece instrumentos para isso.
O
primeiro eixo é direto. Para itens sem produção nacional equivalente, a
política racional é redução automática e desburocratizada do Imposto de
Importação, usando mecanismos como o ex-tarifário com critérios claros e prazo
rápido. A lógica é objetiva. Não se tributa o que é necessário para construir
capacidade produtiva futura.
O
segundo eixo é a proteção seletiva e temporária. Tarifas devem incidir apenas
onde há capacidade doméstica comprovada, escala mínima e potencial de expansão.
Essa proteção precisa estar vinculada a metas, com prazo definido e revisão
periódica. Sem isso, a tarifa se transforma em custo permanente sem retorno
estrutural.
O
terceiro eixo é a exigência de contrapartidas concretas. Setores protegidos
devem assumir compromissos verificáveis de investimento em pesquisa, formação
de mão de obra, transferência tecnológica e ampliação de capacidade produtiva.
Sem contrapartida, a política tende a transferir renda sem gerar
desenvolvimento.
Há
ainda um ponto estratégico. Ciência, educação e infraestrutura pública precisam
ser blindadas. Universidades, centros de pesquisa, hospitais e projetos de
inovação não podem operar sob a mesma lógica de custo que o mercado. O acesso
desses setores à tecnologia deve ser facilitado para garantir base de formação
e avanço tecnológico.
Por
fim, a política tarifária precisa estar integrada a uma estratégia mais ampla.
Isso inclui financiamento, compras públicas, inserção em cadeias globais e
construção gradual de capacidade nacional. Nenhum país construiu autonomia
apenas elevando tarifas. O caminho sempre combinou proteção seletiva com acesso
ampliado à tecnologia e aprendizado contínuo.
A
questão central é decidir como acelerar a construção de capacidade nacional sem
penalizar o presente. Se esse equilíbrio não for alcançado, o risco é claro. Um
instrumento que poderia apoiar o desenvolvimento passa a atuar como freio sobre
a própria trajetória que se pretende construir.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

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