O
recém adotado guia alimentar
A
virtude do recém adotado Guia Alimentar dos Estados Unidos 2025-2030 em
preconizar a redução no consumo de ultraprocessados foi ofuscada por duas
características preocupantes. A primeira é a ênfase reiterada na ampliação do
consumo de proteínas, em especial de origem animal, apresentada como eixo
central de uma alimentação saudável.
Essa
recomendação contrasta com evidências amplamente consolidadas de que a
população norte-americana já consome proteínas em quantidade muito superior às
suas necessidades fisiológicas. Além disso, parcela expressiva desse consumo
provém justamente de alimentos ultraprocessados como embutidos cárneos,
iogurtes altamente açucarados e refeições prontas para consumo, cuja associação
com desfechos negativos em saúde é bem documentada na literatura científica
contemporânea.
Reforçar
o protagonismo da proteína, sem considerar sua matriz alimentar, seu grau de
processamento e o padrão alimentar global, não enfrenta o problema central da
dieta norte-americana: cerca de 40% da população adulta vive com obesidade e
quase três quartos apresentam excesso de peso, condições associadas a altas
taxas de diabetes, doenças cardiovasculares e outras doenças crônicas, em um
contexto em que quase dois terços da ingestão calórica dos norte-americanos vêm
de ultraprocessados.
Os
gastos em saúde, decorrentes de um padrão alimentar que está na origem das
doenças que hoje mais matam no mundo (matam mais que a fome), são gigantescos.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação
(FAO/ONU) os custos ocultos do sistema agroalimentar (os prejuízos que ele
impõe à saúde e aos serviços ecossistêmicos) são superiores a tudo o que
humanidade gasta para se alimentar.
Ao
privilegiar a narrativa da prioridade proteica, o Guia norte-americano acaba
por obscurecer um ponto central da ciência nutricional contemporânea: não se
trata de um déficit populacional de proteínas, mas de uma combinação de
excessos calóricos, de produtos ultraprocessados e de alimentos de origem
animal, e que estão associados a ambientes alimentares que dificultam escolhas
saudáveis.
Nas
prateleiras dos supermercados, nas lojas voltadas a produtos para esportistas
amadores e até entre profissionais da nutrição prevalece uma espécie de
consenso de que a proteína animal é o componente básico de uma alimentação
saudável. Esta verdadeira obsessão proteica, ao deslocar o foco para o
nutriente isolado, reforça uma lógica reducionista que historicamente favorece
os interesses das grandes corporações e fragiliza as abordagens que preconizam
a diversidade como o fundamento de um padrão alimentar saudável.
Mas
além destes impactos sobre a saúde humana, recomendar o aumento no consumo de
produtos animais, em detrimento da diversificação das dietas com alimentos in
natura ou minimamente processados, preferencialmente de origem vegetal, tem
consequências desastrosas sobre os serviços ecossistêmicos, a começar pelo
clima.
O
sistema agroalimentar é responsável, hoje, por um terço das emissões globais de
gases de efeito estufa. 51% destas emissões vêm do metano, que tem um potencial
de aquecimento global 80 vezes superior ao do dióxido de carbono, num período
de vinte anos. E a principal fonte de emissão de metano no sistema
agroalimentar é a criação de gado bovino.
Embora
as criações concentracionárias de aves e suínos não sejam grandes emissoras
diretas de gases de efeito estufa, ao contrário do gado bovino, elas se apoiam
sobre o consumo de grãos, dependentes de fertilizantes nitrogenados que emitem
óxido nitroso, cujo potencial de aquecimento global é 270 vezes maior que o do
dióxido de carbono num horizonte de 100 anos. Isso para não falar de sua
dependência do consumo de antibióticos em larga escala.
Ignorar
essas evidências não é neutro: significa dissociar recomendações alimentares de
seus impactos ambientais, justamente em um contexto de crise climática
crescente.
Se o
atual padrão de consumo desses produtos (que já é altíssimo e que o Guia dos
EUA quer que seja aumentado) fosse indispensável para uma nutrição adequada,
talvez fosse o caso de sacrificar o sistema climático para beneficiar os
consumidores. Mas este não é o caso, o que significa que o Guia norte-americano
conduz a uma dupla perda: para a saúde pública e para o clima. Não há
fundamento científico na recomendação para que a população norte-americana “dê
prioridade aos alimentos proteicos a cada refeição”, como recomendado pelo
Guia.
E aqui
vem a segunda característica preocupante do Guia Alimentar dos EUA e que vai
muito além da alimentação e da nutrição. Três meses antes de sua publicação, o
comitê científico independente responsável por sua elaboração foi substituído
por um grupo do qual a maior parte dos membros declarou ter laços financeiros
com a indústria de carne bovina, suína e de produtos lácteos, como mostra o
artigo da prestigiosa revista científica BMJ (https://shorturl.at/kdpXE).
Ao
final de dezembro do ano passado o comitê editorial da Regulatory Toxicology
and Pharmacology “despublicou” um influente artigo, de 2001, que atestava a
segurança do glifosato. A perda de reconhecimento do artigo como científico
ocorreu porque seus autores não declararam ser funcionários da Monsanto (hoje
Bayer), produtora do agrotóxico. Além disso, a conclusão de que o glifosato e
Roundup não seriam carcinogênicos baseou-se em estudos fornecidos pela Monsanto
e não submetidos à regra básica da publicação científica que é a revisão pelos
pares.
A
ciência não existe numa torre de marfim e os cientistas mantêm relações vivas
com governos, organizações da sociedade civil e empresas. Mas há uma linha
clara que deveria separar o diálogo legítimo da interferência indevida. Quando
essa linha é ultrapassada, perde-se a capacidade de formular políticas públicas
baseadas em evidências e orientadas pelo interesse público e, assim,
compromete-se a contribuição do conhecimento qualificado para melhorar a vida
social.
Guias
alimentares são instrumentos estratégicos de saúde pública. Sua força reside na
clareza, na transparência e na independência científica. Experiências como a do
Guia Alimentar para a População Brasileira mostram que é possível formular
recomendações baseadas em evidências, focadas em padrões alimentares e no grau
de processamento dos alimentos, protegidas de interesses setoriais e alinhadas
à promoção da saúde e da sustentabilidade. Fragilizá-las em nome de narrativas
simplificadoras ou de pressões corporativas não é apenas um problema técnico: é
um retrocesso político e social.
Fonte:
Por Ricardo Abramovay, em A Terra é Redonda

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