Miguel
do Rosário: O Neocalígula do Norte quer destruir o mundo
“Saquear,
degolar, roubar — a essas coisas dão o falso nome de império; e onde fazem um
deserto, chamam isso de paz.”
A frase
é de Calgaco, chefe caledônio, antes de enfrentar as legiões romanas na
Bretanha. Tácito a registrou no Agrícola, há quase dois mil anos. Das legiões
de Roma às bombas de Washington, a gramática imperial não mudou uma vírgula.
Os
Estados Unidos iniciaram uma ofensiva contra o Irã que pode se tornar uma das
guerras mais sangrentas e devastadoras da história moderna.
O
ataque, sem provocação alguma, foi covarde.
O Irã
estava no meio de negociações diplomáticas, com sinais concretos de distensão.
Teerã
reiterava que não desenvolvia armamento nuclear e atendia a praticamente todas
as exigências de Washington. A decisão americana rompeu esse caminho de forma
brutal.
A
lógica por trás dessa política é cristalina. Israel não controla os Estados
Unidos. É o contrário. Israel funciona como entreposto militar avançado de
Washington no Oriente Médio.
Sua
existência fortalece a projeção imperial americana e engorda diretamente a
indústria bélica dos EUA. A voracidade não obedece a racionalidade geopolítica
nem a interesse econômico nacional. Obedece ao setor que realmente manda em
Washington, o complexo industrial-militar.
Donald
Trump e o núcleo duro do Partido Republicano têm enorme responsabilidade, mas
os tambores de guerra vêm sendo rufados há décadas pelos dois principais
partidos americanos, com ajuda inclusive de parte da esquerda, já que figuras
como Alexandria Ocasio-Cortez também embarcaram nos exageros e nas narrativas
anti-iranianas plantadas na mídia ocidental. Trump, no entanto, é um caso à
parte. Líder fraco e incapaz, fez a campanha mais fraudulenta da história
americana, prometendo acabar com as “guerras eternas” e jurando ter encerrado
sete ou oito conflitos. Mentira descarada. Seu segundo mandato já é o mais
instável e belicoso da história recente.
A
reação europeia rasga a máscara de uma vez. Diante de uma agressão
flagrantemente ilegal, sem autorização do Conselho de Segurança e violando a
Carta da ONU, não houve uma única condenação clara. Pelo contrário, as
lideranças ocidentais se ajoelharam diante do Neocalígula do Norte.
Kaja
Kallas, chefe da diplomacia europeia, e Ursula von der Leyen, presidente da
Comissão Europeia, reagiram com declarações quase idênticas. Lamentaram os
“acontecimentos perigosos”, reafirmaram sanções contra o Irã e chamaram o
regime de “assassino”, sem uma única palavra contra os bombardeios americanos.
Emmanuel
Macron afirmou que “o desencadeamento da guerra entre os Estados Unidos, Israel
e o Irã traz graves consequências”, que “a escalada em curso é perigosa para
todos” e que “ela deve cessar”. Acrescentou que “o regime iraniano deve
compreender que não tem mais outra opção senão iniciar uma negociação de
boa-fé” e que “os massacres perpetrados pelo regime islâmico o desqualificam”.
Keir
Starmer resumiu a posição britânica dizendo que “o Irã jamais deve ser
autorizado a desenvolver uma arma nuclear”.
Nenhuma
palavra contra os bombardeios covardes. Apenas sanções ao agredido e cobertura
diplomática ao agressor. O suicídio da Europa é um dos espetáculos mais
patéticos da geopolítica contemporânea.
Isso
tudo acontece depois de Israel protagonizar o genocídio em Gaza, expandir
ocupações e violências na Cisjordânia, praticar prisões em massa, torturas e
bombardear Líbano, Jordânia e Iêmen, sempre com o selo de aprovação americano e
europeu. A indignação histérica contra a Rússia na Ucrânia revela-se agora
naquilo que sempre foi, puro cinismo. A Rússia tinha e tem toda razão em temer
pela própria segurança. Washington ataca quem quiser, quando quiser. Basta não
se ajoelhar.
No
plano global, o desgaste é abissal. Israel vive a pior crise de imagem de sua
história. Nos próprios Estados Unidos, pesquisa Gallup divulgada em 27 de
fevereiro de 2026 registra a virada histórica. Agora 41% dos americanos
simpatizam mais com os palestinos, contra 36% com os israelenses. Em 2025, o
placar era 46% a 33% a favor de Israel; em 2021, chegava a 58% a 25%.
A
maioria global, o Sul Global, assiste em estado de choque. O papel da mídia
ocidental nesse processo é particularmente diabólico. Protestos legítimos no
Irã foram infiltrados e transformados em provocação armada, com tiroteios,
mortes de policiais e agentes de segurança, incêndios criminosos de hospitais e
clínicas. Multiplicam-se as denúncias de que a escalada foi deliberadamente
orquestrada por serviços de inteligência estrangeiros, Mossad e CIA, para
fabricar a imagem de “repressão brutal” e justificar o massacre.
Em
pronunciamento transmitido diretamente da Casa Branca, Trump deixou claro o
objetivo real, sem disfarce.
“Há
pouco tempo, as Forças Armadas dos Estados Unidos iniciaram grandes operações
de combate no Irã… Vamos destruir seus mísseis e arrasar sua indústria de
mísseis até o chão. Vamos aniquilar sua marinha… Ao grande e orgulhoso povo do
Irã… Bombas cairão por todos os lados. Quando terminarmos, tomem o seu governo.
Ele estará lá para ser tomado. Provavelmente será a única chance de vocês por
gerações.”
Não se
trata de “regime change”. Trata-se de destruição total, de transformar o Irã
numa nova Líbia, numa nova Síria, um não-país devastado, um campo de ruínas. A
Europa, em sua cegueira subserviente, nem percebe que isso significará milhões
de refugiados iranianos batendo às suas portas, como aconteceu com iraquianos e
líbios.
O Irã
era, até ontem, um dos países mais estáveis do Oriente Médio. Vinha superando
sanções unilaterais, covardes, e avançava na integração com a China via Nova
Rota da Seda. Mas os Estados Unidos não querem infraestrutura, não querem
prosperidade. Sua estratégia é apenas promover morte, destruição e sofrimento.
O
objetivo, cada vez mais claro, é transformar todo o Sul Global numa grande
Faixa de Gaza. E seus “aliados” que se cuidem, vide as ameaças constantes de
anexação do Canadá e Groenlândia…
Esta
guerra contra o Irã é também uma guerra contra a China e contra todo o Sul
Global. O Irã é membro pleno dos BRICS e fornecedor estratégico de petróleo a
Pequim. O conflito vai escalar porque a intenção americana parece ser provocar
uma conflagração mundial de grandes proporções antes que a China complete seu
ciclo de desenvolvimento tecnológico e militar. Ao final desse ciclo, Pequim
terá superado os Estados Unidos em todos os aspectos decisivos. Washington sabe
disso e quer desestabilizar o tabuleiro global enquanto ainda pode, saqueando o
planeta o máximo possível enquanto ainda detém a supremacia das armas.
O
contraste com o Sul Global não poderia ser mais gritante. Enquanto as
lideranças europeias se ajoelham diante do agressor, praticamente todos os
países do Sul Global foram assertivos na condenação aos ataques contra o Irã. O
Brasil, por meio do Itamaraty, condenou expressamente os bombardeios e
manifestou “grave preocupação com os ataques realizados por Estados Unidos e
Israel contra alvos no Irã”. A nota brasileira lembrou que os ataques ocorreram
“em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho
viável para a paz”. O governo brasileiro apelou a todas as partes que
“respeitem o Direito Internacional e exerçam máxima contenção”. É a voz da
civilização contra a barbárie.
Para o
Brasil, o recado é direto e urgente. A eleição presidencial de 2026 ganha
importância geopolítica gigantesca. Não podemos nos alinhar a vampiros que não
respeitam ninguém e destroem quem não se curva.
Nossa
principal defesa é o que sempre foi, a doutrina da paz e o respeito
intransigente ao direito internacional. A ONU precisa ser fortalecida e
democratizada, o Conselho de Segurança ampliado, e o mundo precisa se unir numa
grande coalizão contra o imperialismo sanguinário dos Estados Unidos.
O
Neocalígula do Norte quer destruir o mundo. Cabe a nós, e à maioria global,
impedir que ele consiga.
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A fúria do imperialismo: ataque pérfido ao Irã e
diplomacia como farsa. Por José Reinaldo Carvalho
O mundo
despertou neste sábado, 28 de fevereiro, sob a fúria de dois Estados bandidos.
Um deles, os Estados Unidos da América, em plena decadência política, econômica
e moral, mas ainda detentor da condição de maior superpotência militar. O
outro, Israel - criação artificial da benevolência ingênua dos vencedores
da Segunda Guerra Mundial -, que hoje se comporta tal qual seus algozes
nazistas, fazendo-se merecedor da alcunha de nazi-sionistas e genocidas. Ambos,
párias internacionais e inimigos da humanidade, revelaram, com atos agressivos
contra uma nação soberana, seus desígnios malignos.
Enquanto
a aurora despontava suavemente sobre Teerã, Isfahan e Tabriz, a morte chegava
pelos céus, conduzida pela aliança macabra do imperialismo estadunidense e de
seu fiel satélite no Oriente Médio, o regime sionista de viés fascistizante em
Israel. Um crime hediondo que afronta a consciência e os direitos dos povos do
mundo.
Trata-se
de uma brutal e calculada agressão imperialista contra a soberania e o povo da
República Islâmica do Irã. A operação militar, pomposamente intitulada
"Epic Fury" (fúria épica) pela máquina de propaganda do Pentágono,
representa a face mais sórdida, repugnante e violenta de uma política externa
que sangra as nações que ousam desafiar os ditames de Washington e Tel Aviv. É,
ainda, uma flagrante e inaceitável violação do Direito Internacional e da Carta
da ONU, com a qual os chefes dos dois países agressores lançam ao lixo o
princípio da soberania nacional para impor seus desígnios pela força das
bombas.
Os
ataques fundamentam-se em falsos pretextos de que o Irã representaria uma
ameaça direta à segurança norte-americana e de seus aliados. Sustenta-se também
na narrativa de que o país persa constitui uma ameaça existencial a Israel,
para justificar ações militares agressivas na região.
A
finalidade imediata dessas ofensivas é a desestabilização política para
derrubar o governo iraniano e promover o assassinato de sua liderança. Essa
intenção torna-se explícita no discurso de Trump e Netanyahu quando autoridades
afirmam o propósito de "decapitar o regime" de Teerã.
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Estratégia de Hegemonia Global
Sob uma
perspectiva de longo prazo, o objetivo estratégico reside na consolidação da
hegemonia estadunidense no Oriente Médio, nos marcos da estratégia de imposição
de uma tirania global, utilizando o controle geopolítico da região como um dos
pilares para a manutenção de seu poder absoluto em escala mundial.
O
ataque ao Irã insere-se na execução de um plano mais amplo de reconfiguração do
Oriente Médio, orientado pela imposição de uma hegemonia absoluta dos Estados
Unidos e de Israel sobre a região. Ao desestabilizar um dos principais polos de
resistência à sua influência, Washington e Tel Aviv buscam redesenhar o
equilíbrio de forças, enfraquecer alianças adversárias e consolidar uma
arquitetura regional subordinada aos seus interesses estratégicos, energéticos
e militares. Trata-se, nessa perspectiva, não de um episódio isolado, mas de um
movimento calculado para redefinir fronteiras de poder e estabelecer um novo
arranjo geopolítico sob domínio incontestado.
A
perfídia do ataque não se resume à violência, mas também revela hipocrisia. O
governo dos Estados Unidos, por meio de sua principal figura, Donald Trump,
escolheu o caminho da traição. Horas antes de as primeiras bombas devastarem
bairros e instalações iranianas, o mesmo interlocutor que agora ordena o fogo
declarava publicamente sua preferência pela via diplomática. O Irã, de boa-fé,
mantinha-se engajado em negociações, acreditando seriamente na possibilidade de
um entendimento pacífico. Essa postura demonstra a maturidade e o compromisso
iranianos com a paz, em contraste absoluto com a conduta de seus agressores.
A
“diplomacia” de Trump revela-se agora em sua essência: uma farsa, um teatro
montado para enganar não apenas a contraparte nas mesas de negociação, mas,
sobretudo, para iludir e anestesiar a opinião pública mundial e estadunidense.
Enquanto palavras de paz eram sussurradas para consumo da imprensa, as garras
do império já estavam preparadas para o golpe. Esse estratagema, a diplomacia
da coerção e da pressão máxima, digno dos capítulos mais sombrios da dominação
estrangeira, busca desarmar moral e politicamente a vítima para, em seguida,
golpeá-la com maior crueldade.
Diante
dessa escalada criminosa, a reação imediata e corajosa do Irã, com o lançamento
de mísseis contra as bases da agressão, configura um exercício legítimo de
autodefesa, direito inalienável de qualquer nação soberana. O fechamento de
aeroportos e a mobilização militar em toda a região retratam o pânico que se
abate sobre os aliados do imperialismo, agora temerosos do que consideram o
justo fogo da resistência.
No
cenário internacional, algumas vozes se levantam. A postura do Brasil, ao
expressar “condenação e grave preocupação”, alinha-se solidariamente à vítima.
A defesa do Direito Internacional equivale, nesse contexto, a um chamado pela
paz. Por sua vez, a Rússia, com a clareza de quem conhece o expansionismo da
OTAN, classificou os bombardeios como “agressão armada não provocada”. “A
soberania nacional, a segurança e a integridade territorial do Irã devem ser
respeitadas”, afirmou a chancelaria chinesa, que também exigiu a “suspensão
imediata das operações militares, para evitar uma escalada das tensões, a
retomada do diálogo e das negociações e a manutenção da paz e da estabilidade
no Oriente Médio”. Países da região não respaldaram a ação estadunidense-sionista,
preocupados com o risco de ampliação da guerra. Em sentido oposto, a União
Europeia, a Alemanha, o Reino Unido e a França priorizaram a condenação ao Irã,
apresentando-se como forças subordinadas ao sistema imperialista ocidental.
As
consequências econômicas e geopolíticas da ação agressiva dos Estados Unidos e
de Israel podem ser graves.
Para as
forças progressistas mundiais, o essencial é defender a paz, a soberania
nacional e uma nova governança livre dos laços de dominação imperialista. Acima
de tudo, move essas forças a solidariedade a um povo irmão sob ataque, uma
nação que luta para construir seu próprio destino, livre das amarras da
dominação imperialista e sionista e da chantagem nuclear.
Este é
um momento crítico. A humanidade se equilibra no fio da navalha. Que fique
claro: a resistência do povo iraniano é também a resistência de todas as forças
progressistas e amantes da paz no mundo. Cada bomba que explode em Teerã
explode igualmente nos corações de todos os que lutam contra a opressão
imperialista. O silêncio diante dessa barbárie é cumplicidade.
Os
graves acontecimentos desencadeados neste 28 de fevereiro suscitam uma reflexão
que deve conduzir, necessariamente, à ação. A luta antifascista está
intrinsecamente ligada e subordinada à luta anti-imperialista. Não existe hoje
“questão democrática”, “questão nacional” ou “questão desenvolvimentista”
dissociada do enfrentamento ao imperialismo. Cabe aàs forças progressistas,
como tarefa simultaneamente estratégica e tática, assumir a prioridade da
luta anti-imperialista. Isso implica prioridade absoluta, no plano
internacional, à solidariedade internacionalista, incluindo ao Irã. Discussões
vagas levam muitas forças políticas à armadilha de, em nome da “democracia” e
dos “direitos humanos e individuais”, condenar e combater o “regime” do Irã,
posição de cumplicidade com o inimigo da humanidade.
Donald
Trump, presidente dos Estados Unidos, encerrou seu discurso na madrugada deste
sábado ao anunciar a guerra contra o Irã, evocando a suposta força militar
inexpugnável de seu país. No entanto, a história demonstra que nada é absoluto
ou invulnerável no cenário internacional. Tudo é marcado pela instabilidade e
pela mudança. Os Estados Unidos vivem lancinantes e profundas contradições
internas profundas e sofrem um desgaste crescente diante de nações e povos que
valorizam a liberdade e a autodeterminação.
¨
EUA usaram negociações como ‘cortina de fumaça’ para
atacar Irã, diz analista
Os Estados Unidos utilizaram as
negociações sobre o programa nuclear iraniano como uma “cortina de fumaça” para
executar, neste sábado (28/02), a ofensiva militar conjunta com Israel contra
o Irã, que vinha sendo articulada
gradativamente para ser posta em prática. A avaliação é de Bruno Lima Rocha,
jornalista da Hispan TV Brasil, cientista político e professor de
Relações Internacionais.
Em
entrevista a Opera Mundi, o analista explicou que o modelo de planejamento
para atacar a nação iraniana vem sendo gestado desde 2009, mas foi o presidente
norte-americano Donald Trump quem assumiu a responsabilidade de implementá-lo
Lima
Rocha chamou a atenção para o discurso do republicano logo após o início da
agressão, dando ênfase ao trecho em que Trump afirma que seu objetivo é impedir
Teerã de desenvolver seu programa nuclear — algo que as autoridades iranianas
sempre reiteraram ter fins exclusivamente pacíficos, inclusive em declarações
públicas nas últimas semanas.
“Trump
revelou que a grande missão deste ataque é acabar com toda a capacidade de
defesa de mísseis do Irã e com toda a sua Marinha. Portanto, quer deixar os
céus do Irã à mercê de Israel e que a Marinha não possa defender suas águas
territoriais no Golfo Pérsico, que equivalem a 20% do tráfego internacional de
petróleo no mundo”, disse.
Segundo
o professor, as negociações nunca estiveram de fato na mesa por parte dos
Estados Unidos, já que “querem impor a sua vontade” — no caso, um impeditivo
para o desenvolvimento de armas nucleares.
Entre
os episódios mais graves registrados até agora está o bombardeio contra uma escola primária
feminina,
atribuído ao ataque inicial das forças norte-americanas e israelenses.
Informações da imprensa local davam conta de pelo menos 85 meninas, entre
idades de 7 e 12 anos, mortas na ofensiva. “Só sobraram as mochilas”, disse o
docente.
Após a
ofensiva de Washington e Tel Aviv, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã
(IRGC, na sigla em inglês) garantiu que sua retaliação continuaria
ininterruptamente até
a derrota do inimigo, lançando, assim, uma série de mísseis contra alvos
militares e bases aéreas norte-americanas instaladas em países da região do
Oriente Médio.
“Pode
haver canal diplomático para intermediar e evitar que a resposta iraniana seja
ainda maior, já que o país foi atacado e está sendo atacado? Pode haver. Mas
enquanto o Irã for atacado, o Irã vai responder. Está no seu direito, tem a
capacidade e vai exercê-la”, assegurou.
Para
contextualizar o acontecimento deste sábado, Lima Rocha recordou a trajetória
de hostilidades ocidentais contra o Irã nas últimas décadas.
O
acordo nuclear assinado em 2015, durante o governo de Barack Obama,
representou, segundo ele, o único entendimento formal entre as partes, mas foi
unilateralmente rasgado por Trump em seu primeiro mandato. Desde então,
sucederam-se tentativas de estrangulamento econômico, guerra por procuração por
meio do Iraque, tentativas de desestabilização interna com as chamadas
“revoluções coloridas” e, em junho do ano passado, uma guerra de 12 dias
promovida pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com
financiamento norte-americano.
Mesmo
diante do histórico de agressões, o analista avaliou que o Irã está preparado
para sustentar um conflito de médio e longo prazo, com condições de suprimento,
abastecimento logístico e silos de mísseis para uma guerra de defesa
prolongada. A dúvida, segundo ele, reside na possibilidade de uma invasão
territorial por parte das forças inimigas.
“De
Trump a gente pode esperar tudo. A gente está em uma era em que Trump e
Netanyahu rodam as cartas e o imponderável prepondera”, destacou Lima Rocha
sobre a imprevisibilidade da atual gestão norte-americana.
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Dimensão do conflito
A
dimensão geopolítica do conflito, no entanto, transcende as fronteiras
iranianas. “Essa questão de reconfigurar o Oriente Médio — que a gente prefere
chamar de Ásia Ocidental — é um eufemismo para acabar com a capacidade de
resistência e soberania dos povos da região e tentar submetê-los aos desígnios
do Ocidente e das monarquias árabes aliadas e traídas”, avaliou o analista,
lembrando que Israel se alinha ao Ocidente nesse projeto.
As
consequências de uma eventual derrota iraniana seriam profundas para todo o
equilíbrio regional. “Se o Irã for derrotado, se a República acabar, as chances
da resistência palestina, que já são pequenas, diminuem muito. O Iraque perde a
soberania. O Iêmen vai ser governado por ex-membros da Al-Qaeda, como já foi”,
alertou. O professor acrescentou que haveria ainda um avanço considerável da
presença de Israel e dos Emirados Árabes na África, reduzindo drasticamente as
capacidades de conter o avanço do imperialismo ocidental e seus aliados locais.
Para
além das fronteiras regionais, Lima Rocha destacou que o episódio deste sábado
se insere em uma disputa mais ampla: frear a integração econômica asiática e
euroasiática entre China, Rússia, Irã e seus aliados. Na visão do analista,
isso representa um desafio direto do mundo não ocidental para conter o projeto
imperialista.
“Um
imperialismo que, embora decadente, ainda tem muita capacidade militar e,
justamente por ser decadente, está muito agressivo”, finalizou.
Fonte:
Brasil 247/Opera Mundi

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