terça-feira, 3 de março de 2026

Miguel do Rosário: O Neocalígula do Norte quer destruir o mundo

“Saquear, degolar, roubar — a essas coisas dão o falso nome de império; e onde fazem um deserto, chamam isso de paz.”

A frase é de Calgaco, chefe caledônio, antes de enfrentar as legiões romanas na Bretanha. Tácito a registrou no Agrícola, há quase dois mil anos. Das legiões de Roma às bombas de Washington, a gramática imperial não mudou uma vírgula.

Os Estados Unidos iniciaram uma ofensiva contra o Irã que pode se tornar uma das guerras mais sangrentas e devastadoras da história moderna.

O ataque, sem provocação alguma, foi covarde.

O Irã estava no meio de negociações diplomáticas, com sinais concretos de distensão.

Teerã reiterava que não desenvolvia armamento nuclear e atendia a praticamente todas as exigências de Washington. A decisão americana rompeu esse caminho de forma brutal.

A lógica por trás dessa política é cristalina. Israel não controla os Estados Unidos. É o contrário. Israel funciona como entreposto militar avançado de Washington no Oriente Médio.

Sua existência fortalece a projeção imperial americana e engorda diretamente a indústria bélica dos EUA. A voracidade não obedece a racionalidade geopolítica nem a interesse econômico nacional. Obedece ao setor que realmente manda em Washington, o complexo industrial-militar.

Donald Trump e o núcleo duro do Partido Republicano têm enorme responsabilidade, mas os tambores de guerra vêm sendo rufados há décadas pelos dois principais partidos americanos, com ajuda inclusive de parte da esquerda, já que figuras como Alexandria Ocasio-Cortez também embarcaram nos exageros e nas narrativas anti-iranianas plantadas na mídia ocidental. Trump, no entanto, é um caso à parte. Líder fraco e incapaz, fez a campanha mais fraudulenta da história americana, prometendo acabar com as “guerras eternas” e jurando ter encerrado sete ou oito conflitos. Mentira descarada. Seu segundo mandato já é o mais instável e belicoso da história recente.

A reação europeia rasga a máscara de uma vez. Diante de uma agressão flagrantemente ilegal, sem autorização do Conselho de Segurança e violando a Carta da ONU, não houve uma única condenação clara. Pelo contrário, as lideranças ocidentais se ajoelharam diante do Neocalígula do Norte.

Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, reagiram com declarações quase idênticas. Lamentaram os “acontecimentos perigosos”, reafirmaram sanções contra o Irã e chamaram o regime de “assassino”, sem uma única palavra contra os bombardeios americanos.

Emmanuel Macron afirmou que “o desencadeamento da guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irã traz graves consequências”, que “a escalada em curso é perigosa para todos” e que “ela deve cessar”. Acrescentou que “o regime iraniano deve compreender que não tem mais outra opção senão iniciar uma negociação de boa-fé” e que “os massacres perpetrados pelo regime islâmico o desqualificam”.

Keir Starmer resumiu a posição britânica dizendo que “o Irã jamais deve ser autorizado a desenvolver uma arma nuclear”.

Nenhuma palavra contra os bombardeios covardes. Apenas sanções ao agredido e cobertura diplomática ao agressor. O suicídio da Europa é um dos espetáculos mais patéticos da geopolítica contemporânea.

Isso tudo acontece depois de Israel protagonizar o genocídio em Gaza, expandir ocupações e violências na Cisjordânia, praticar prisões em massa, torturas e bombardear Líbano, Jordânia e Iêmen, sempre com o selo de aprovação americano e europeu. A indignação histérica contra a Rússia na Ucrânia revela-se agora naquilo que sempre foi, puro cinismo. A Rússia tinha e tem toda razão em temer pela própria segurança. Washington ataca quem quiser, quando quiser. Basta não se ajoelhar.

No plano global, o desgaste é abissal. Israel vive a pior crise de imagem de sua história. Nos próprios Estados Unidos, pesquisa Gallup divulgada em 27 de fevereiro de 2026 registra a virada histórica. Agora 41% dos americanos simpatizam mais com os palestinos, contra 36% com os israelenses. Em 2025, o placar era 46% a 33% a favor de Israel; em 2021, chegava a 58% a 25%.

A maioria global, o Sul Global, assiste em estado de choque. O papel da mídia ocidental nesse processo é particularmente diabólico. Protestos legítimos no Irã foram infiltrados e transformados em provocação armada, com tiroteios, mortes de policiais e agentes de segurança, incêndios criminosos de hospitais e clínicas. Multiplicam-se as denúncias de que a escalada foi deliberadamente orquestrada por serviços de inteligência estrangeiros, Mossad e CIA, para fabricar a imagem de “repressão brutal” e justificar o massacre.

Em pronunciamento transmitido diretamente da Casa Branca, Trump deixou claro o objetivo real, sem disfarce.

“Há pouco tempo, as Forças Armadas dos Estados Unidos iniciaram grandes operações de combate no Irã… Vamos destruir seus mísseis e arrasar sua indústria de mísseis até o chão. Vamos aniquilar sua marinha… Ao grande e orgulhoso povo do Irã… Bombas cairão por todos os lados. Quando terminarmos, tomem o seu governo. Ele estará lá para ser tomado. Provavelmente será a única chance de vocês por gerações.”

Não se trata de “regime change”. Trata-se de destruição total, de transformar o Irã numa nova Líbia, numa nova Síria, um não-país devastado, um campo de ruínas. A Europa, em sua cegueira subserviente, nem percebe que isso significará milhões de refugiados iranianos batendo às suas portas, como aconteceu com iraquianos e líbios.

O Irã era, até ontem, um dos países mais estáveis do Oriente Médio. Vinha superando sanções unilaterais, covardes, e avançava na integração com a China via Nova Rota da Seda. Mas os Estados Unidos não querem infraestrutura, não querem prosperidade. Sua estratégia é apenas promover morte, destruição e sofrimento.

O objetivo, cada vez mais claro, é transformar todo o Sul Global numa grande Faixa de Gaza. E seus “aliados” que se cuidem, vide as ameaças constantes de anexação do Canadá e Groenlândia…

Esta guerra contra o Irã é também uma guerra contra a China e contra todo o Sul Global. O Irã é membro pleno dos BRICS e fornecedor estratégico de petróleo a Pequim. O conflito vai escalar porque a intenção americana parece ser provocar uma conflagração mundial de grandes proporções antes que a China complete seu ciclo de desenvolvimento tecnológico e militar. Ao final desse ciclo, Pequim terá superado os Estados Unidos em todos os aspectos decisivos. Washington sabe disso e quer desestabilizar o tabuleiro global enquanto ainda pode, saqueando o planeta o máximo possível enquanto ainda detém a supremacia das armas.

O contraste com o Sul Global não poderia ser mais gritante. Enquanto as lideranças europeias se ajoelham diante do agressor, praticamente todos os países do Sul Global foram assertivos na condenação aos ataques contra o Irã. O Brasil, por meio do Itamaraty, condenou expressamente os bombardeios e manifestou “grave preocupação com os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã”. A nota brasileira lembrou que os ataques ocorreram “em meio a um processo de negociação entre as partes, que é o único caminho viável para a paz”. O governo brasileiro apelou a todas as partes que “respeitem o Direito Internacional e exerçam máxima contenção”. É a voz da civilização contra a barbárie.

Para o Brasil, o recado é direto e urgente. A eleição presidencial de 2026 ganha importância geopolítica gigantesca. Não podemos nos alinhar a vampiros que não respeitam ninguém e destroem quem não se curva.

Nossa principal defesa é o que sempre foi, a doutrina da paz e o respeito intransigente ao direito internacional. A ONU precisa ser fortalecida e democratizada, o Conselho de Segurança ampliado, e o mundo precisa se unir numa grande coalizão contra o imperialismo sanguinário dos Estados Unidos.

O Neocalígula do Norte quer destruir o mundo. Cabe a nós, e à maioria global, impedir que ele consiga.

¨      A fúria do imperialismo: ataque pérfido ao Irã e diplomacia como farsa. Por José Reinaldo Carvalho

O mundo despertou neste sábado, 28 de fevereiro, sob a fúria de dois Estados bandidos. Um deles, os Estados Unidos da América, em plena decadência política, econômica e moral, mas ainda detentor da condição de maior superpotência militar. O outro, Israel -  criação artificial da benevolência ingênua dos vencedores da Segunda Guerra Mundial -,  que hoje se comporta tal qual seus algozes nazistas, fazendo-se merecedor da alcunha de nazi-sionistas e genocidas. Ambos, párias internacionais e inimigos da humanidade, revelaram, com atos agressivos contra uma nação soberana, seus desígnios malignos.

Enquanto a aurora despontava suavemente sobre Teerã, Isfahan e Tabriz, a morte chegava pelos céus, conduzida pela aliança macabra do imperialismo estadunidense e de seu fiel satélite no Oriente Médio, o regime sionista de viés fascistizante em Israel. Um crime hediondo que afronta a consciência e os direitos dos povos do mundo.

Trata-se de uma brutal e calculada agressão imperialista contra a soberania e o povo da República Islâmica do Irã. A operação militar, pomposamente intitulada "Epic Fury" (fúria épica) pela máquina de propaganda do Pentágono, representa a face mais sórdida, repugnante e violenta de uma política externa que sangra as nações que ousam desafiar os ditames de Washington e Tel Aviv. É, ainda, uma flagrante e inaceitável violação do Direito Internacional e da Carta da ONU, com a qual os chefes dos dois países agressores lançam ao lixo o princípio da soberania nacional para impor seus desígnios pela força das bombas.

Os ataques fundamentam-se em falsos pretextos de que o Irã representaria uma ameaça direta à segurança norte-americana e de seus aliados. Sustenta-se também na narrativa de que o país persa constitui uma ameaça existencial a Israel,  para justificar ações militares agressivas na região.

A finalidade imediata dessas ofensivas é a desestabilização política para derrubar o governo iraniano e promover o assassinato de sua liderança. Essa intenção torna-se explícita no discurso de Trump e Netanyahu quando autoridades afirmam o propósito de "decapitar o regime" de Teerã.

<><> Estratégia de Hegemonia Global

Sob uma perspectiva de longo prazo, o objetivo estratégico reside na consolidação da hegemonia estadunidense no Oriente Médio, nos marcos da estratégia de imposição de uma tirania global, utilizando o controle geopolítico da região como um dos pilares para a manutenção de seu poder absoluto em escala mundial.

O ataque ao Irã insere-se na execução de um plano mais amplo de reconfiguração do Oriente Médio, orientado pela imposição de uma hegemonia absoluta dos Estados Unidos e de Israel sobre a região. Ao desestabilizar um dos principais polos de resistência à sua influência, Washington e Tel Aviv buscam redesenhar o equilíbrio de forças, enfraquecer alianças adversárias e consolidar uma arquitetura regional subordinada aos seus interesses estratégicos, energéticos e militares. Trata-se, nessa perspectiva, não de um episódio isolado, mas de um movimento calculado para redefinir fronteiras de poder e estabelecer um novo arranjo geopolítico sob domínio incontestado.

A perfídia do ataque não se resume à violência, mas também revela hipocrisia. O governo dos Estados Unidos, por meio de sua principal figura, Donald Trump, escolheu o caminho da traição. Horas antes de as primeiras bombas devastarem bairros e instalações iranianas, o mesmo interlocutor que agora ordena o fogo declarava publicamente sua preferência pela via diplomática. O Irã, de boa-fé, mantinha-se engajado em negociações, acreditando seriamente na possibilidade de um entendimento pacífico. Essa postura demonstra a maturidade e o compromisso iranianos com a paz, em contraste absoluto com a conduta de seus agressores.

A “diplomacia” de Trump revela-se agora em sua essência: uma farsa, um teatro montado para enganar não apenas a contraparte nas mesas de negociação, mas, sobretudo, para iludir e anestesiar a opinião pública mundial e estadunidense. Enquanto palavras de paz eram sussurradas para consumo da imprensa, as garras do império já estavam preparadas para o golpe. Esse estratagema, a diplomacia da coerção e da pressão máxima, digno dos capítulos mais sombrios da dominação estrangeira, busca desarmar moral e politicamente a vítima para, em seguida, golpeá-la com maior crueldade.

Diante dessa escalada criminosa, a reação imediata e corajosa do Irã, com o lançamento de mísseis contra as bases da agressão, configura um exercício legítimo de autodefesa, direito inalienável de qualquer nação soberana. O fechamento de aeroportos e a mobilização militar em toda a região retratam o pânico que se abate sobre os aliados do imperialismo, agora temerosos do que consideram o justo fogo da resistência.

No cenário internacional, algumas vozes se levantam. A postura do Brasil, ao expressar “condenação e grave preocupação”, alinha-se solidariamente à vítima. A defesa do Direito Internacional equivale, nesse contexto, a um chamado pela paz. Por sua vez, a Rússia, com a clareza de quem conhece o expansionismo da OTAN, classificou os bombardeios como “agressão armada não provocada”. “A soberania nacional, a segurança e a integridade territorial do Irã devem ser respeitadas”, afirmou a chancelaria chinesa, que também exigiu a “suspensão imediata das operações militares, para evitar uma escalada das tensões, a retomada do diálogo e das negociações e a manutenção da paz e da estabilidade no Oriente Médio”. Países da região não respaldaram a ação estadunidense-sionista, preocupados com o risco de ampliação da guerra. Em sentido oposto, a União Europeia, a Alemanha, o Reino Unido e a França priorizaram a condenação ao Irã, apresentando-se como forças subordinadas ao sistema imperialista ocidental.

As consequências econômicas e geopolíticas da ação agressiva dos Estados Unidos e de Israel podem ser graves.

Para as forças progressistas mundiais, o essencial é defender a paz, a soberania nacional e uma nova governança livre dos laços de dominação imperialista. Acima de tudo, move essas forças a solidariedade a um povo irmão sob ataque, uma nação que luta para construir seu próprio destino, livre das amarras da dominação imperialista e sionista e da chantagem nuclear.

Este é um momento crítico. A humanidade se equilibra no fio da navalha. Que fique claro: a resistência do povo iraniano é também a resistência de todas as forças progressistas e amantes da paz no mundo. Cada bomba que explode em Teerã explode igualmente nos corações de todos os que lutam contra a opressão imperialista. O silêncio diante dessa barbárie é cumplicidade.

Os graves acontecimentos desencadeados neste 28 de fevereiro suscitam uma reflexão que deve conduzir, necessariamente, à ação. A luta antifascista está intrinsecamente ligada e subordinada à luta anti-imperialista. Não existe hoje “questão democrática”, “questão nacional” ou “questão desenvolvimentista” dissociada do enfrentamento ao imperialismo. Cabe aàs forças progressistas,  como tarefa simultaneamente estratégica e tática, assumir a prioridade da luta anti-imperialista. Isso implica prioridade absoluta, no plano internacional, à solidariedade internacionalista, incluindo ao Irã. Discussões vagas levam muitas forças políticas à armadilha de, em nome da “democracia” e dos “direitos humanos e individuais”, condenar e combater o “regime” do Irã, posição de cumplicidade com o inimigo da humanidade. 

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, encerrou seu discurso na madrugada deste sábado ao anunciar a guerra contra o Irã, evocando a suposta força militar inexpugnável de seu país. No entanto, a história demonstra que nada é absoluto ou invulnerável no cenário internacional. Tudo é marcado pela instabilidade e pela mudança. Os Estados Unidos vivem lancinantes e profundas contradições internas profundas e sofrem um desgaste crescente diante de nações e povos que valorizam a liberdade e a autodeterminação.

¨      EUA usaram negociações como ‘cortina de fumaça’ para atacar Irã, diz analista

Os Estados Unidos utilizaram as negociações sobre o programa nuclear iraniano como uma “cortina de fumaça” para executar, neste sábado (28/02), a ofensiva militar conjunta com Israel contra o Irã, que vinha sendo articulada gradativamente para ser posta em prática. A avaliação é de Bruno Lima Rocha, jornalista da Hispan TV Brasil, cientista político e professor de Relações Internacionais.

Em entrevista a Opera Mundi, o analista explicou que o modelo de planejamento para atacar a nação iraniana vem sendo gestado desde 2009, mas foi o presidente norte-americano Donald Trump quem assumiu a responsabilidade de implementá-lo

Lima Rocha chamou a atenção para o discurso do republicano logo após o início da agressão, dando ênfase ao trecho em que Trump afirma que seu objetivo é impedir Teerã de desenvolver seu programa nuclear — algo que as autoridades iranianas sempre reiteraram ter fins exclusivamente pacíficos, inclusive em declarações públicas nas últimas semanas.

“Trump revelou que a grande missão deste ataque é acabar com toda a capacidade de defesa de mísseis do Irã e com toda a sua Marinha. Portanto, quer deixar os céus do Irã à mercê de Israel e que a Marinha não possa defender suas águas territoriais no Golfo Pérsico, que equivalem a 20% do tráfego internacional de petróleo no mundo”, disse.

Segundo o professor, as negociações nunca estiveram de fato na mesa por parte dos Estados Unidos, já que “querem impor a sua vontade” — no caso, um impeditivo para o desenvolvimento de armas nucleares.

Entre os episódios mais graves registrados até agora está o bombardeio contra uma escola primária feminina, atribuído ao ataque inicial das forças norte-americanas e israelenses. Informações da imprensa local davam conta de pelo menos 85 meninas, entre idades de 7 e 12 anos, mortas na ofensiva. “Só sobraram as mochilas”, disse o docente.

Após a ofensiva de Washington e Tel Aviv, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) garantiu que sua retaliação continuaria ininterruptamente até a derrota do inimigo, lançando, assim, uma série de mísseis contra alvos militares e bases aéreas norte-americanas instaladas em países da região do Oriente Médio.

“Pode haver canal diplomático para intermediar e evitar que a resposta iraniana seja ainda maior, já que o país foi atacado e está sendo atacado? Pode haver. Mas enquanto o Irã for atacado, o Irã vai responder. Está no seu direito, tem a capacidade e vai exercê-la”, assegurou.

Para contextualizar o acontecimento deste sábado, Lima Rocha recordou a trajetória de hostilidades ocidentais contra o Irã nas últimas décadas.

O acordo nuclear assinado em 2015, durante o governo de Barack Obama, representou, segundo ele, o único entendimento formal entre as partes, mas foi unilateralmente rasgado por Trump em seu primeiro mandato. Desde então, sucederam-se tentativas de estrangulamento econômico, guerra por procuração por meio do Iraque, tentativas de desestabilização interna com as chamadas “revoluções coloridas” e, em junho do ano passado, uma guerra de 12 dias promovida pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, com financiamento norte-americano.

Mesmo diante do histórico de agressões, o analista avaliou que o Irã está preparado para sustentar um conflito de médio e longo prazo, com condições de suprimento, abastecimento logístico e silos de mísseis para uma guerra de defesa prolongada. A dúvida, segundo ele, reside na possibilidade de uma invasão territorial por parte das forças inimigas.

“De Trump a gente pode esperar tudo. A gente está em uma era em que Trump e Netanyahu rodam as cartas e o imponderável prepondera”, destacou Lima Rocha sobre a imprevisibilidade da atual gestão norte-americana.

<><> Dimensão do conflito

A dimensão geopolítica do conflito, no entanto, transcende as fronteiras iranianas. “Essa questão de reconfigurar o Oriente Médio — que a gente prefere chamar de Ásia Ocidental — é um eufemismo para acabar com a capacidade de resistência e soberania dos povos da região e tentar submetê-los aos desígnios do Ocidente e das monarquias árabes aliadas e traídas”, avaliou o analista, lembrando que Israel se alinha ao Ocidente nesse projeto.

As consequências de uma eventual derrota iraniana seriam profundas para todo o equilíbrio regional. “Se o Irã for derrotado, se a República acabar, as chances da resistência palestina, que já são pequenas, diminuem muito. O Iraque perde a soberania. O Iêmen vai ser governado por ex-membros da Al-Qaeda, como já foi”, alertou. O professor acrescentou que haveria ainda um avanço considerável da presença de Israel e dos Emirados Árabes na África, reduzindo drasticamente as capacidades de conter o avanço do imperialismo ocidental e seus aliados locais.

Para além das fronteiras regionais, Lima Rocha destacou que o episódio deste sábado se insere em uma disputa mais ampla: frear a integração econômica asiática e euroasiática entre China, Rússia, Irã e seus aliados. Na visão do analista, isso representa um desafio direto do mundo não ocidental para conter o projeto imperialista.

“Um imperialismo que, embora decadente, ainda tem muita capacidade militar e, justamente por ser decadente, está muito agressivo”, finalizou.

 

Fonte: Brasil 247/Opera Mundi

 

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