Evangélicas
nas mãos de seus violadores
Circula
nas redes sociais o vídeo de uma mulher que tenta explicar uma agressão sofrida
pelo companheiro. Na gravação, ela afirma que houve “uma discussão”, que não é
algo recorrente e que o episódio foi uma “fatalidade”, ocorrida porque ela
teria dito algo que “ligou muito ele” e que “não deveria ter falado”.
A
narrativa não é isolada. Ela segue uma estrutura conhecida nos estudos sobre
violência doméstica.
Segundo
a pesquisadora Dra. Dayana Brunetto, da Universidade Federal do Paraná, a fala
reforça precisamente o enunciado clássico do agressor, aquele que desloca a
responsabilidade e sugere que a mulher provocou o ato violento. Para ela, a
análise precisa ser criteriosa, porque o discurso da vítima não surge de forma
espontânea ou individualizada, mas dentro de um sistema simbólico que transfere
a culpa da agressão para a conduta feminina.
Há três
movimentos claros nesse tipo de declaração, recorrentes nas análises.
O
primeiro é a minimização. A agressão vira “discussão”, a violência é tratada
como acidente, e o termo “fatalidade” dilui a intencionalidade.
O
segundo é a relativização pela frequência. Ao afirmar que “não é sempre”, a
agressão é enquadrada como exceção tolerável, não como ruptura de um limite
inegociável.
O
terceiro é a autoincriminação implícita. Ao dizer que falou algo que não
deveria, a mulher assume parte da responsabilidade pelo comportamento do
agressor. A violência deixa de ser ato unilateral e passa a ser apresentada
como reação.
Brunetto
observa que, em contextos religiosos evangélicos, a igreja exerce um efeito de
poder singular sobre essas mulheres. Paradoxalmente, é muitas vezes no espaço
buscado como acolhimento que a narrativa da autoridade masculina é reiterada. O
marido aparece como senhor do lar, e a mediação pastoral pode priorizar a
preservação do casamento em detrimento da segurança.
Em
entrevista ao Programa TECHTALK, a pastora baiana Gicélia Cruz trouxe elementos
que tensionam esse cenário por dentro do próprio campo religioso. Ela afirmou
que a Bíblia narra um tempo anterior à escravização do povo negro, que
estruturou países como o Brasil, sugerindo que a leitura bíblica precisa ser
historicizada e não pode ser usada como justificativa para opressões modernas.
Ao
comentar o trecho bíblico que contrapõe a mulher sábia e a mulher tola — aquela
que edifica o lar e aquela que não o faz —, Gicélia propôs uma interpretação
deslocada da submissão. Para ela, a mulher sábia é aquela que utiliza os
instrumentos da lei dos homens para sua proteção. Acionar a Justiça, buscar
delegacias especializadas e conhecer seus direitos não seria sinal de rebeldia,
mas de sabedoria. Já a mulher tola seria aquela que permanece presa a promessas
vazias e esperanças desmedidas, sustentadas por homens que reiteradamente
falham.
A
pastora também conclamou as mulheres da Bahia a participarem da Marcha das
Mulheres Evangélicas, marcada para 7 de março de 2026, na Praça do Campo
Grande, em Salvador. O ato ocorre em um momento em que as lutas femininas, em
diferentes espaços sociais e religiosos, ganham novo fôlego contra a misoginia.
Dados
recentes ajudam a compreender o contexto dessa dinâmica.
Levantamentos
da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Fórum Brasileiro de Segurança
Pública, atualizados em 2025, indicam que cerca de 40% das mulheres que sofrem
violência doméstica no Brasil se declaram evangélicas, percentual superior à
representação desse grupo na população geral, estimada em torno de 31%.
Outra
pesquisa aponta que mulheres evangélicas levam, em média, o dobro do tempo para
denunciar o agressor quando comparadas a mulheres sem religião. Entre os
fatores citados estão o receio de romper com a doutrina do matrimônio, a
pressão comunitária e o medo de desobedecer lideranças espirituais.
A
Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em
parceria com o Instituto Nexus, em 2025, mostra ainda que 69% das mulheres
evangélicas procuram a igreja como primeiro espaço de apoio após a agressão. A
família aparece com 58%, e a delegacia, com menos de 30%.
Isso
revela uma tensão estrutural. A igreja pode ser rede de proteção, mas também
pode funcionar como espaço de mediação que reforça a manutenção do vínculo
conjugal.
Brunetto
destaca que cursos e formações difundidos nos últimos anos por lideranças
religiosas e figuras públicas conservadoras reforçam a ideia da boa esposa que
edifica o lar. Nesses discursos, a submissão feminina é frequentemente
associada à responsabilidade de não provocar a ira do marido. A consequência
simbólica é clara: a mulher passa a ser vista como gestora das emoções
masculinas.
Ao
mesmo tempo, a leitura proposta por Gicélia Cruz insere outra possibilidade no
debate interno ao campo evangélico. Se a sabedoria é agir com prudência e
proteção, então buscar amparo jurídico e romper ciclos de violência pode ser,
justamente, um ato de fé aliado à responsabilidade civil.
A
pesquisadora propõe ainda uma reflexão sobre a plasticidade dos discursos.
Narrativas semelhantes atravessam fronteiras ideológicas. Em um contexto de
avanço conservador, certos enunciados circulam tanto em ambientes religiosos
quanto em espaços que se autodeclaram progressistas. Mulheres que se
identificam como feministas, quando expostas à violência, podem mobilizar
estruturas discursivas muito próximas às observadas em contextos evangélicos
tradicionais.
Isso
indica que o problema não se restringe à religião. Trata-se de uma gramática
social profundamente enraizada, que transforma agressão em reação e culpa
feminina em explicação plausível. Quando uma mulher afirma publicamente que não
deveria ter falado, o que se evidencia não é apenas a defesa do agressor. É a
internalização de uma lógica que disciplina a fala feminina e naturaliza a
violência como consequência previsível de um suposto excesso.
O vídeo
que circula nas redes é um caso concreto. Mas a estrutura que o sustenta é
coletiva. E, enquanto a responsabilidade continuar sendo deslocada da mão que
agride para a boca que fala, o ciclo permanecerá intacto.
Fonte:
Por Sara York, em Brasil 247

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