terça-feira, 3 de março de 2026

Chico Teixeira: Fascismo continua fascismo

Até que ponto o fascismo se reinventa e permanece, no entanto, fascismo? O núcleo duro do fascismo reside na doutrina do "inimigo interno", um outro conveniente para justificar todos os atos brutais de destruição dos direitos e garantias civis. O militarismo, o nacionalismo excludente, o mito e o culto da personalidade - do Führer, Duce, Conductor ou do "Mito" -, o partido-Estado como máquina, a utopia regressiva de uma falsa idade do ouro perdida, todos estes elementos fundamentais ao constructo "fascismo" possuem uma conexão direta com a noção de "inimigo interno".

Historicamente, o povo judeu foi ressignificado contemporaneamente - através da reapropriação do fundo cristão medieval de ódio ao povo dito "Cristocida", embora o domínio da Justiça local fosse romano - como o Outro por excelência vaticinado ao sacrifício. O antissemitismo é, sempre, um alerta do fascismo que avança. Hoje o fascismo continua excludente, homicida e exterminacionista. Judeus continuam sendo o estranho/estranhado/estrangeiro, e por vezes a força do socioleto fascista - dito de forma redutora como "fakenews" -, acaba por contaminar a própria análise social.

Nem mesmo cientistas sociais e historiadores são imunes em face da novilíngua e seu caráter dissociativo da realidade. Em especial aqueles que não unem produção acadêmica com intervenção social, moldando sua atuação para o espetáculo das redes sociais. No entanto, outros grupos sociais foram somados ao núcleo de "inimigos internos", como negros, indígenas e latinos, apontados como os "feios", degenerados, os que comem animais domésticos e transmitem doenças contagiando a raça superior branca. O Brasil é, hoje, um laboratório de experimentação do (neo/pós/)fascismo.

O socioleto fascista busca normalizar o racismo, identificar o outro como a origem do comportamento criminoso e plantar a cizânia no campo antifascista. Ninguém tem a exclusividade da condição de vítima, embora o número de russos, chineses, judeus ou poloneses mereça destaque. Hoje todos que não sejam dolicocéfalos louros de olhos azuis correm o risco do carimbo de "inimigos", portanto aquele que deve ser separado, excluído e, quando possível, exterminado. Temos hoje que ampliar a luta antirracista: não há um racismo índice único ou uma luta específica.

O racismo é uma hidra de mil cabeças. O antissemitismo é um racismo. O "antipretismo", contra negros e pardos, é um racismo. O desprezo genocida aos povos indígenas, como foi feito contra os cinta-larga, os kren-akarore e os yanomamis, é produto do racismo. A Islamofobia é uma forma de racismo e o ódio ao povo LGBT é uma forma de racismo. Não existe, assim, uma luta específica contra "um" tipo de racismo.

Devemos, TODXS, nos unir na luta antifascista, sem perdão com os racistas. Tal luta deve começar nas escolas, nossa última trincheira. A história da escravidão, do genocídio indígena e do Holocausto são temas insuperáveis de uma Educação emancipadora. Ninguém terá um passe de imunidade perante supremacistas brancos ou brancos (auto)imaginários. A luta antirracista é uma tarefa de todos, imediata e sem trégua.

•        Democracia sim, mas só no nosso país. Por Thomas Milz

Quando Fidel Castro promoveu a Revolução em Cuba, ela veio acompanhada da promessa de eleições livres. Entretanto, após a vitória em 1959, ao ver as multidões em seus discursos em Havana, a ideia rapidamente desapareceu. Para que eleições, se todos já o aplaudiam, pensou o comandante, que gostava de agir como um caudilho.

Assim, a prometida democracia cubana se transformou em um regime de partido único, que não permite oposição e nem opiniões diferentes das do governo. Em outras palavras: uma ditadura. Desde 1959, ela tem se mantido no poder, contrariando a crença geral de que um regime não conseguiria sobreviver a décadas de crise.

Quando visitei Cuba pela primeira vez, há 35 anos, no meio do "período especial" após o colapso da União Soviética, já se dizia que o regime não duraria muito. Desde então, crises severas atingiram o país – e, ainda assim, o regime continua firme, mantendo a sociedade cubana sob um rígido controle. Mas será que mesmo agora, com os Estados Unidos fechando a torneira do petróleo?

"O nosso país é solidário ao povo cubano, que é vítima de um massacre de especulação dos Estados Unidos contra eles. Temos que encontrar, enquanto partido, um jeito de ajudar", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva há  alguns dias, em um evento do PT. Ele também criticou o embargo de petróleo imposto pelos EUA à ilha caribenha – o presidente americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas a todos os países que continuem fornecendo petróleo a Cuba.

Mas as palavras de Lula soaram mais como solidariedade ao governo cubano. Se o regime realmente representa a vontade dos cubanos, não há como saber, pois Fidel Castro e seus sucessores sempre se abstiveram de perguntar ao próprio povo através de eleições livres e justas. Enquanto isso, desde 2021 pelo menos 2 milhões de cubanos já votaram com os pés e deixaram a ilha. Eles não veem mais futuro em Cuba.

<><> Responsabilidade da esquerda latino-americana

Ainda mais dramática é a situação da Venezuela. Lá, 8 milhões de pessoas deixaram o país – aproximadamente um quarto dos habitantes do país. A repressão política e a miséria econômica os empurraram majoritariamente para os Estados Unidos, assim como foi com milhões de cubanos.

Mesmo assim, Lula critica a interferência dos EUA: "Precisamos dizer, em alto e bom som, que o problema da Venezuela tem que ser resolvido pelo povo da Venezuela e não pelos Estados Unidos ou por [Donald] Trump", afirmou.

Lula sabe muito bem que o povo venezuelano votou por mudança nas últimas eleições. Um resultado que foi simplesmente ignorado por Nicolás Maduro.  Por anos, Lula apoiou Maduro, que tinha assim liberdade para reprimir violentamente sua própria população. A exigência de que o povo venezuelano "resolva os problemas da Venezuela" é, portanto, pura hipocrisia.

Por décadas, Lula e o PT apoiaram tanto o regime cubano quanto o venezuelano, assim como a brutal ditadura na Nicarágua. Nunca pareceu interessar a Lula ou ao PT o fato de que as populações desses países eram oprimidas e tiveram sua vontade política esmagada pelas botas de militares corruptos. Afinal, eram velhos amigos da Guerra Fria, com quem se podia entoar as velhas canções revolucionárias de Che Guevara. Mas a Guerra Fria já acabou há muito tempo. O povo não quer nostalgia kitsch de Che Guevara, e sim comida e eleições livres.

A esquerda latino-americana precisar a assumir a responsabilidade por Trump estar lidando agora com esses problemas antigos. Nenhuma pressão foi feita para fortalecer a democracia nesses países. Nada foi feito para garantir os direitos da oposição. Em vez disso, a oposição era frequentemente tachada de "marionete do imperialismo americano".

Enquanto isso, no Brasil, o PT sempre reivindicou seus próprios direitos políticos – e com razão. Mas uma coisa é cobrar democracia em casa; outra é aplaudir ditaduras no exterior e até mesmo defendê-las abertamente. Os direitos de um brasileiro valem mais do que os de um cubano, um venezuelano ou um nicaraguense?

Caetano Veloso tem razão em Podres Poderes: "Será que nunca faremos senão confirmar/ A incompetência da América católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos?"

•        Marco Feliciano, as bruxas, o carnaval e o racismo religioso evangélico. Por Ricardo Nêggo Tom

Sobre a definição original do termo bacanal, é importante que se diga que ele se origina do latim bacchanalia, e se refere às festas realizadas em homenagem a Bacchus, ou Baco, o deus romano do vinho, dos prazeres e da embriaguez. Originalmente, eram rituais inicialmente femininos, focados em música, dança e vinho, tendo o seu sentido desvirtuado de acordo com conveniências humanas para satisfação de outros prazeres ou vontades. Por isso, quando nos referimos a bacanal nos dias de hoje, o termo nos remete, sobretudo, à satisfação do prazer carnal. Algo que acabou sendo inserido na festividade de Baco, mas sem fazer parte de sua essência. O que resultou numa tentativa de intervenção do império romano na continuidade do rito, sugerindo a sua proibição.

Do mesmo modo, o charlatanismo de pastores evangélicos foi inserido dentro de um cristianismo que, por essência, não continha as vigarices e as picaretagens que hoje são apresentadas como evangelho de Cristo e palavra de Deus. O que não pode nos levar a crer que todos que participam dele hoje em dia, sejam vigaristas e pilantras como muitos líderes. Líderes como o pastor parlamentar e deputado evangélico Marco Feliciano, que anda muito mais preocupado com os “demônios” do carnaval, do que com a situação política do país, da qual ele, como parlamentar, deveria cuidar para torná-la melhor. Depois de subir à tribuna da Câmara para fazer uma pregação religiosa contra a festa mais popular do país e classificá-la como um “bacanal a céu público”, ele agora está compartilhando vídeos em suas redes sociais contendo “alertas” aos cristãos sobre o sentido “maligno” da festa.

Em um dos vídeos, ele associa a sexta-feira 13 a uma data usada para fazer rituais demoníacos, e lembra que o carnaval deste ano teve início nesta mesma data. Feliciano também critica o desfile da Colorado do Brás, agremiação carnavalesca de São Paulo que abriu os desfiles do grupo especial com o enredo "A Bruxa está solta! Senhoras do saber renascem na Colorado", que falou sobre ancestralidade e ressignificação das "bruxas" como sábias e mulheres de poder. Segundo o pastor, a escola estava abrindo um portal para que espíritos de bruxas invadissem o país e possuíssem a todos que participassem do carnaval. Obtuso, como todo fundamentalista religioso, Marco Feliciano não conseguiu fazer a leitura correta do enredo que, entre outras coisas relacionadas ao universo feminino, traz um protesto contra a violência diabólica cometida contra as mulheres, e que vêm aumentando devido ao comportamento de homens possuídos pelo demônio do machismo e da misoginia.

Essas mulheres que não tinham voz e nem vez, e que quando se rebelavam contra a submissão imposta pelo patriarcado que Feliciano defende como autoridade divina, era considerada uma herege. Uma desajustada. Uma louca. Uma puta. Uma bruxa passível de punição na fogueira santa da hipocrisia cristã. A bruxa está solta significa que as mulheres não vão mais se calar diante da opressão masculina. Elas agora podem e devem estar onde elas quiserem. E nem as religiões abraâmicas, que sempre reservaram a elas um olhar de inferiorização, e um lugar de subalternidade dentro de seus templos, irão conseguir detê-las. Sendo assim, precisamos demonizar o feminismo e a libertação das mulheres da nossa estrutura patriarcal. E que seja no carnaval, com uma escola de samba denunciando os crimes históricos cometidos contra os seus direitos e à sua existência.

Marco Feliciano é apenas mais um ignorante (não burro) alçado por seus fiéis – a maioria tão ignorantes quanto ele - à condição de guia de ovelhas sem cérebro, sem rumo e sem sentido de vida próprio. Pessoas que entregam sua liberdade de raciocínio nas mãos de lobos, esperando que eles as conduzam à salvação eterna. Lobos que pregam o pânico moral como evangelho de Cristo. A falsa espiritualidade como conhecimento oculto. O racismo religioso como doutrina salvífica. A demonização de culturas não cristãs como salvação da alma. Que isto é método, muitos sabem. No entanto, é preciso combater sistematicamente esta tentativa de domínio cultural, social e econômico através da religião. Da igreja evangélica neopentecostal, que quer ganhar almas para o seu projeto de poder. Não para Jesus. Um projeto que deseja instituir um bacanal gospel na sociedade, regado a cargos públicos, emendas parlamentares, e poder sobre tudo e todos.

Essa tentativa de destruir o carnaval por parte dos evangélicos é antiga. Porém, é preciso lembrar que o gospel foi instituído como patrimônio cultural brasileiro. Assim sendo, os interesses neopentecostais no fim da folia de Momo têm um sentido muito mais amplo do que apenas rivalizar religiosamente com a festa. Agora, eles querem ocupar o lugar desta festa. Exagero? Os ataques cometidos por eles contra a cultura e a educação, além do aparelhamento das forças de segurança do Estado para a ampliação bélica do seu projeto, não deveriam nos deixar duvidar. Enquanto avançam sobre os parlamentos brasileiros, eles trazem consigo pessoas prontas para disseminarem o caos espiritual e o pânico moral na sociedade. As ameaças de castigo divino, e, até mesmo, de uma nova pandemia enviada por Deus como prova de sua rejeição ao carnaval, já estão sendo atualizadas com sucesso.

O curioso é que o “Deus verdadeiro” de muitos evangélicos nunca enviou um castigo sobre situações e acontecimentos históricos da humanidade, que provocaram dor, sofrimento e muitas mortes. Os escravocratas não foram castigados com uma pandemia quando sequestravam seres humanos no continente africano, e os submetiam a violência do açoite e a desumanização de sua existência. Não vejo uma pandemia ou qualquer tipo de castigo se abater sobre Israel, apesar do genocídio cometido contra o povo palestino. E sobre os EUA, que financiam guerras e promovem a morte de milhares de inocentes? Nada. Nem uma disenteria Deus manda contra o imperialismo sanguinário. Deve ser porque “Deus verdadeiro” dessa gente não gosta de nada que não seja essencialmente branco, ou que não tenha sido tornado branco. Como o Jesus palestino, que passou pela harmonização racial católica para ser melhor aceito como salvador da humanidade.

Feliciano, e tantos outros pastores e líderes evangélicos, precisam responder judicialmente pelo racismo religioso que propagam. É um crime previsto por lei, que não pode isentar de responsabilidade judicial o comportamento criminoso de pessoas que se protegem sob a liberdade de culto religioso prevista na Constituição. Até porque, além de não respeitarem a crença religiosa de outras pessoas, boa parte deles também desejam que a Constituição do país seja substituída pela Bíblia. Algo que, caso se concretizasse, obrigaria a confecção de um novo conjunto de leis para o país. Do contrário, faltariam presídios para abrigar aqueles que quisessem obedecer integralmente a essa nova “Constituição”. Ou iríamos naturalizar o apedrejamento de mulheres, o genocídio dos considerados “infiéis”, e o incesto em situações permitidas por Deus? Está repreendido em nome de Momo! Evoé?

 

Fonte: Brasil 247

 

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