Irã
já se preparava há tempos para possível ataque, mas rumo da guerra é perigoso e
imprevisível
Este é
um momento decisivo para a República Islâmica do Irã.
Na
manhã de sábado (28/2), começaram a circular relatos sobre o destino do líder
supremo, Ali Khamenei, depois que ficou
claro que sua residência foi alvo da primeira onda de ataques.
As
imagens de satélite mostraram danos significativos ao complexo com sua
residência.
A
primeira resposta do Irã foi afirmar que ele havia sido levado para um local
seguro.
Em
seguida, surgiram informações de que o clérigo de 86 anos falaria na televisão
estatal, mas isso não ocorreu.
No
início da noite, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu,
afirmou em pronunciamento televisionado que "há muitos indícios" de
que o líder supremo "já não se encontra mais".
Uma
série de reportagens na imprensa de Israel e dos Estados Unidos, citando autoridades
não identificadas, afirmou haver provas convincentes de que ele estava morto.
Ao
mesmo tempo, autoridades iranianas continuavam a negar a informação.
Mas
então, horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciar a notícia
em sua rede social, uma apresentadora da TV estatal iraniana anunciou, em
lágrimas, a morte da "montanha inabalável da proteção islâmica", que
"bebeu o doce e puro gole do martírio".
Foi
declarado um período de luto de 40 dias e, ao amanhecer do segundo dia de
guerra, começaram a surgir atos pró-governo para lamentar sua morte.
No
entanto, durante a noite também circularam rapidamente vídeos que mostravam
cenas de celebração em algumas cidades do Irã e manifestações de alegria em
comunidades iranianas em vários países, que saudavam o fim de seu governo
linha-dura e expressavam esperança de que isso marcasse o fim do regime
islâmico.
São
momentos decisivos na conturbada história da República Islâmica do Irã, mas
seus clérigos e comandantes mais poderosos vinham se preparando para isso.
As
mentes estavam concentradas nos 12 dias de guerra, em junho passado. Só na
primeira noite, na primeira onda de ataques, Israel conseguiu assassinar nove
cientistas nucleares e vários chefes de segurança. Nos dias seguintes, outros
cientistas de alto escalão e ao menos 30 comandantes de destaque foram mortos.
Ficou
claro que o aiatolá também poderia estar na mira.
Na
ocasião, foi noticiado que Ali Khamenei, que passou a guerra em seu bunker
especial, elaborava listas de autoridades de segurança que poderiam assumir
imediatamente para evitar qualquer vácuo nos postos mais altos.
Ainda
antes das hostilidades do ano passado, também foi reportado que ele havia
instruído a Assembleia de Peritos, órgão formado por cerca de 88 clérigos
encarregados de escolher o líder supremo, a estar preparada para qualquer
eventualidade. O jornal americano The New York Times escreveu que ele teria
escolhido "três clérigos de alto escalão" como possíveis substitutos
caso fosse assassinado.
Há anos
circulam especulações sobre quem poderia sucedê-lo, entre eles seu filho
Mojtaba.
O líder
supremo não foi a única autoridade morta no primeiro dia de bombardeios e
ataques direcionados. Os que permanecem no cargo ou tiveram de assumir funções
mais altas tentarão enviar ao mundo a mensagem de que continuam firmemente no
comando e de que a sucessão ocorrerá sem rupturas.
O fim
dos 36 anos de governo do aiatolá, porém, representa um choque para seus
apoiadores, sobretudo para seus assessores e aliados na Guarda Revolucionária
Islâmica (IRGC), encarregada de defendê-lo e de proteger a revolução islâmica
dentro e fora do país.
A BBC
verificou vídeos que mostram grupos celebrando as notícias de sua morte nas
ruas de Teerã e Karaj.
Desconfiado
do Ocidente, especialmente dos EUA, e hostil a Israel, Khamenei governou com
mão firme, reprimindo pedidos de reforma e sucessivas ondas de protestos.
Nos
últimos anos, marcados por confrontos militares diretos com Israel e os EUA e
por crescentes demandas internas por mudanças, ele enfrentou seus maiores
desafios.
Durante
a nossa permanência em Teerã no início deste mês, o país parecia diferente. A
dor e a indignação após a repressão de segurança, a mais severa de sua
história, que matou milhares de iranianos, ainda estavam vivas.
Com o
fim abrupto do período de Khamenei no poder, as atenções se voltam para o seu
sucessor e para a possibilidade de que a mudança no topo também sinalize uma
nova direção para a república islâmica, que completa 47 anos.
Independentemente
de quem assuma, o objetivo central permanecerá o mesmo: garantir a
sobrevivência de um sistema que mantenha os clérigos e as poderosas forças de
segurança no poder.
Uma
guerra que está longe de terminar já se desenrola de forma imprevisível e
perigosa.
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'Pânico e desespero' em Dubai e Abu Dhabi: como cidades
símbolos de luxo e segurança foram 'arrastadas' para conflito com o Irã
Até
poucos dias atrás, as imagens de drones interceptados no céu, destroços caindo
na rua e prédios pegando fogo estavam fora do radar de quem vive e visita
algumas das cidades mais prósperas do Oriente Médio, como Dubai e Abu Dhabi,
nos Emirados Árabes Unidos, e Doha, no Catar.
Mas
tudo isso passou a ser realidade desde o sábado (28/2), quando os EUA e Israel
realizaram ataques contra o Irã, matando o líder
supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Os
iranianos revidaram, atingindo não só o território israelense e militares
americanos, mas também alvos nos Emirados Árabes, no Catar, no
Bahrein, no Kuwait, em Omã, no Iraque e na Jordânia.
Segundo
o Irã, esses países se tornaram alvo dos ataques porque possuem bases ou
presença militar americana.
"Todos
os territórios ocupados e as bases criminosas dos Estados Unidos na região
foram atingidos pelos potentes impactos dos mísseis iranianos. Esta operação
continuará sem descanso até que o inimigo seja derrotado de forma
decisiva", afirmou a Guarda Revolucionária do Irã.
Ali
Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã defendeu
o direito do país de revidar e disse não estar mirando os países vizinhos, mas
o que seria "solo americano".
"Aos
países da região: não estamos buscando atacá-los. Mas quando as bases
localizadas em seu país são usadas contra nós, e quando os Estados Unidos
realizam operações na região contando com essas forças, então atacaremos essas
bases. Pois essas bases não fazem parte do território desses países; na
verdade, são solo americano", disse Larijani.
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Áreas civis atingidas
Mas
imagens que ganharam as redes sociais e agências de notícias mostraram que os
drones e mísseis do Irã alcançaram muito além de instalações militares.
Só os
Emirados Árabes Unidos, um dos mais atingidos, receberam até a tarde deste
domingo 67 mísseis e 541 drones iranianos, segundo o governo.
Desses
drones, 35 caíram em território do país, resultando em três mortes.
Uma
dessas mortes ocorreu na área do aeroporto de Abu Dhabi, atingido por destroços
de um drone.
Já o
aeroporto de Dubai, o segundo mais movimentado do mundo em tráfego de
passageiros, foi danificado no que o governo chamou de "incidente"
que deixou quatro funcionários feridos.
Com os
ataques, o espaço aéreo da região está fechado e centenas de voos foram
cancelados, deixando milhares de turistas ainda sem perspectiva de voltar a
seus países, inclusive o Brasil.
Um
deles é Ricardo Ferreira, assessor artístico brasileiro que está sem sair de
seu quarto de hotel em Abu Dhabi, capital emiradense a pouco mais de 100 km de
Dubai.
Ferreira
estava a trabalho nos Emirados Árabes com mais 16 pessoas e tinha a volta
programada de Dubai para São Paulo na manhã deste domingo (1º/3). Agora, ele
não faz mais ideia de quando conseguirá retornar.
O
brasileiro, que disse nunca ter imaginado passar por algo parecido nos Emirados
Árabes, ouviu estrondos e viu caças e mísseis atravessando o céu de Abu Dhabi
no sábado, sem saber que estava em meio a ataques do Irã.
"Fomos
pegos totalmente de surpresa, porque a gente estava sem informação nenhuma. A
gente não tinha ideia de que isso estava para acontecer ou poderia
acontecer", relata.
O grupo
só começou a entender o que estava acontecendo quando recebeu notícias de
familiares e da imprensa brasileira.
"Conforme
foi passando o tempo, nós fomos ouvindo mais explosões, ficamos sabendo dos
destroços que atingiram um dos hotéis mais famosos daqui. Aí sim que começou
mais o pânico, mais o desespero", relata.
Na
famosa ilha artificial em forma de palmeira Palm Jumeirah, em Dubai, a região
do hotel cinco estrelas Fairmont foi atingida por uma grande explosão no
sábado.
Destroços
de um drone também provocaram um pequeno incêndio na fachada do icônico hotel
em forma de vela Burj Al Arab.
Segundo
Ferreira, há fila na porta do hotel de turistas que não conseguiram voar em
busca de hospedagem.
A
situação também pegou de surpresa quem mora em Dubai.
A
moradora Becky Williams disse à BBC ter visto cerca de 15 mísseis
"lançados atrás da minha casa ontem", referindo-se aos mísseis
disparados pelas autoridades dos Emirados para interceptar projéteis iranianos.
"É
possível ouvir as interceptações acontecendo no ar."
Satya
Jaganathan, que mora perto do porto de Dubai atingido por explosões, diz que a
situação "ainda está relativamente calma, já que há apenas barulhos altos
a cada poucas horas".
"Mas
é inquietante porque este não é o Dubai ao qual estamos acostumados".
Na
noite deste domingo, um alerta no celular pediu para que as pessoas procurassem
abrigo e ficassem longe de janelas diante da possibilidade de mais ataques.
Nas
últimas semanas, líderes do Golfo Pérsico vinham tentando mediar conversas para
que a situação não escalasse entre Estados Unidos e Irã. Mas os esforços não
adiantaram.
Ainda
não se sabe com certeza quais eram os objetivos do Irã com os ataques aos
Emirados Árabes Unidos, que são um de seus maiores parceiros comerciais.
Mas o
país tem presença militar americana, especialmente na base aérea Al Dhafra, ao
sul de Abu Dhabi, que abriga aeronaves da Força Aérea americana e sistemas de
defesa antimísseis. Além disso, o porto de Jebel Ali, em Dubai, um dos mais
movimentados da região, recebe navios da Marinha dos EUA.
Na
vizinhança, também foram registrados ataques à base da marinha americana no
Bahrein, onde drones e destroços de um míssil interceptado atingiram prédios na
capital Manama.
Também
houve explosões em Doha, capital do Catar, onde mísseis direcionados à base
aérea de Al Udeid, a maior base militar americana na região, foram
interceptados.
O
luxuoso aeroporto da capital catari, frequentemente eleito um dos melhores do
mundo e um dos maiores hubs globais de conexões entre Oriente e Ocidente, teve
todos os voos suspensos.
O
Ministério das Relações Exteriores do Catar afirmou que o ataque feito por um
vizinho "não pode ser aceito sob qualquer justificativa ou pretexto",
ressaltando que o Catar sempre se manteve distante de conflitos regionais.
A base
americana do país já havia sido alvo do Irã em junho do ano passado, quando o
Irã revidou os ataques que destruíram instalações nucleares no país.
Já o
Ministério da Defesa do Kuwait afirmou que sua força aérea interceptou e
destruiu 97 mísseis balísticos e 283 drones desde que o Irã lançou contra o
país, segundo a agência oficial de notícias.
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Escalada 'grave e perigosa'
Segundo
análise de Frank Gardner, correspondente de Segurança da BBC, uma linha
vermelha foi cruzada no Golfo Pérsico diante dos ataques do Irã aos seus
vizinhos.
Para
ele, é difícil imaginar como as famílias que governam esses Estados árabes
poderão retomar relações minimamente normais com a atual liderança iraniana,
caso ela sobreviva a esta guerra.
Para
Gardner, a escalada na região "é mais grave e perigosa do que qualquer
outra coisa anterior".
Neste
domingo, representes de países reunidos no Conselho de Cooperação do Golfo se
reuniram para discutir os danos causados por ataques iranianos aos países
integrantes do bloco, que, segundo o grupo, incluíram alvos em instalações
civis e áreas residenciais.
O
conselho, formado por Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita, Omã,
Catar e Kuwait, condenou os ataques e acusou o Irã de violar sua soberania e o
direito internacional.
Em
comunicado, o grupo instou o Irã a interromper os ataques e ressaltou a
importância da diplomacia e do diálogo. No entanto, também advertiu que tomará
"todas as medidas necessárias" para defender sua segurança.
Enquanto
os desdobramentos do conflito seguem rasgando o céu do Oriente Médio,
influenciadores e milionários que escolheram Dubai como casa nos últimos anos
seguem compartilhando conteúdo, dessa vez com menos luxo.
O
criador de conteúdo britânico Will Bailey atualizava seus seguidores filmando
os rastros de fumaça deixados por mísseis e foguetes interceptadores no
horizonte de Dubai.
"Aquilo
estava a poucos metros de nós", diz ele em um vídeo gravado perto do hotel
Fairmont
À
agência AFP, a jornalista Emma Ferey, cujo romance de 2024, Emirage,
retrata a cena de influenciadores nos Emirados Árabes, disse que "é
possível perceber ansiedade" entre eles.
"Mesmo
sabendo que falar de política — ou pior, geopolítica — significa correr o risco
de perder seguidores."
Fonte:
BBC News Persa

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