A
estética da caserna e a gestão da juventude pobre: militarização escolar,
desigualdades e autoritarismo
As
primeiras semanas do ano letivo na rede estadual de ensino de São Paulo
trouxeram à tona, mais uma vez, o debate sobre o projeto de militarização das
escolas públicas no Brasil. Em consonância com as experiências de estados como
Paraná, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a experiência
paulista está sendo implementada em 2026 em 100 escolas distribuídas em todo o
estado. Longe de se configurar como um elemento novo, o processo de
militarização é um projeto caro para a extrema direita brasileira e tem sido um
dos eixos fundamentais de uma política caracterizada pelo giro autoritário do
neoliberalismo ao longo das últimas décadas e que busca uma disputa da dimensão
cultural, isto é, transborda os limites da esfera econômica, penetrando em
estruturas sociais mais profundas, enraizando ideias antidemocráticas.
Em
2019, o governo Jair Bolsonaro havia implementado o Programa Nacional de
Escolas Cívico-Militares (PECIM) com o claro intuito de difusão de ideias
nevrálgicas para o bolsonarismo, como patriotismo e disciplina. Embora o
programa tenha sido encerrado logo no início do governo Lula, em 2023,
permaneceu resiliente, em especial, nos estados governados pela extrema
direita. Ainda antes disso, Goiás foi um estado precursor no projeto de
militarização de escolas públicas. Entre 2013 e 2018, o estado então governado
por Marconi Perillo já tinha 50 escolas públicas militarizadas. Nesse sentido,
São Paulo encontrava-se “atrasado” em relação aos estados que formam o
consórcio conservador. Uma ironia para o estado que comumente se autointitula
“locomotiva” do país.
Para
atuarem como monitores das unidades de ensino que adotaram o programa de
escolas cívico-militares, o projeto paulista contou com a contratação de 208
policiais aposentados (a maioria são praças) que receberão R$ 301,70 por
diária, totalizando cerca de R$ 6.000,00, caso completem a carga horária de 40
horas semanais, valor somado à aposentadoria regular que já recebem. Isso, por
si só, já aponta para uma enorme discrepância salarial se comparado ao piso que
os professores e professoras da rede recebem pela mesma carga horária. Soma-se
ainda o fato de que, ao contrário dos professores, os monitores não precisam
ter nenhuma formação específica para desenvolverem suas atividades em sala de
aula.
Desde a
proposição do programa pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em
2024, o argumento central do campo conservador alega que a militarização da
gestão escolar tende a melhorar a disciplina e, consequentemente, o desempenho
escolar dos estudantes. Assume-se, nesse sentido, uma correlação direta entre
baixo desempenho escolar e indisciplina — seja lá como ela é definida —,
reduzindo problemas estruturais da escola pública e das desigualdades sociais a
um único fator. Esse argumento baseia-se em premissas confusas que tratam como
causalidade correlações frágeis e, muitas vezes, falseadas por uma narrativa
ideologizada que escamoteia uma realidade marcada pela profusão de
determinações de diversas ordens, como abordaremos mais adiante.
Assim,
a tese defendida aqui é a de que a militarização das escolas públicas
representa um retrocesso democrático e uma nítida afronta aos direitos humanos,
uma vez que normaliza a violência simbólica e física, criminaliza a pobreza e
interdita qualquer possibilidade de um projeto pedagógico de emancipação,
suplantando-o por um projeto de controle e obediência, desviando recursos da
educação pública para o aparato repressivo do estado.
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Ilusão da eficiência e a reprodução das desigualdades
Assim
como outras empreitadas do campo conservador sobre a educação, o projeto de
militarização assenta-se sobre a lógica das soluções simples para problemas
complexos. Combate à indisciplina e à violência escolar estavam entre os motes
fundamentais dos defensores desse projeto. Sob o manto de uma suposta
eficiência administrativa e pedagógica, o modelo cívico-militar opera, na
realidade, como um sofisticado mecanismo de segregação social, ferindo
frontalmente o princípio da universalidade do direito à educação.
É
fundamental, inicialmente, desfazer a confusão deliberada entre este novo
arranjo e os tradicionais colégios militares. Enquanto estes últimos são
instituições ligadas diretamente às forças de segurança, como Polícias
Militares, Corpo de Bombeiros e Forças Armadas, e contam com dotação
orçamentária própria e robusta, em geral, das próprias corporações a que estão
submetidos, o modelo cívico-militar que vem sendo amplamente implementado em
vários estados nos últimos anos caracteriza-se pela transferência de parte da
administração escolar às corporações, notadamente as Polícias Militares. No
entanto, nesse arranjo, os recursos ainda são provenientes das Secretarias da
Educação e não passam, necessariamente, por uma hipertrofia de financiamento.
Enquanto os colégios militares tradicionais, muitas vezes, constituem “ilhas de
excelência” acessíveis majoritariamente aos filhos dos membros das forças de
segurança, via processos seletivos rigorosos, as escolas militarizadas
estaduais são impostas às comunidades, não raro, periféricas como uma solução
mágica, porém precária. Não se trata, portanto, de estender a qualidade de
ensino das escolas militares tradicionais à rede pública, mas de importar uma
estética de caserna para gestão da juventude pobre, substituindo o investimento
pedagógico pela contenção comportamental.
Além
disso, o modelo de militarização empregado em São Paulo e outros estados parte
da mesma lógica subjacente ao projeto de privatização das unidades de ensino.
Isto é, parte-se da premissa — característica do gerencialismo neoliberal — de
separação entre gestão administrativa e gestão pedagógica. Essa lógica
desconsidera que em um espaço escolar, todas as dimensões são essencialmente
pedagógicas, da limpeza à merenda, da segurança patrimonial à avaliação em sala
de aula.
Nesse
contexto, a adesão de parcelas da sociedade ao programa revela uma dinâmica de
classe perversa, conforme a contribuição do sociólogo Décio Saes, autor de
República do capital, nos revela. O suporte da classe média a esse modelo não
deriva necessariamente de uma preocupação com a democratização do ensino.
Trata-se, antes, de um anseio por distinção social. Ao apoiar a militarização,
esses setores buscam uma privatização simbólica do espaço público,
transformando a escola, que deveria ser o locus da diversidade e do encontro
democrático, em um ambiente excludente, desenhado para apartar seus filhos
daqueles considerados “indesejáveis” ou “indisciplinados”. A escola pública,
nessa perspectiva, deixa de ser um direito republicano para tornar-se um instrumento
de reafirmação de hierarquias sociais.
Essa
lógica segregacionista é corroborada, ironicamente, pelos próprios critérios de
implementação do programa no estado de São Paulo. Desmentindo a narrativa
oficial de que a militarização viria para “salvar” as instituições em situação
de maior vulnerabilidade ou degradação, observa-se que muitas das unidades
selecionadas para receber o projeto já ostentavam índices educacionais
satisfatórios e contavam com comunidades escolares estruturadas. Tal
constatação evidencia que o objetivo não é enfrentar as raízes do fracasso
escolar nas regiões mais desassistidas, mas sim criar vitrines ideológicas para
o governo, onde a “ordem” pode ser exibida com facilidade, enquanto as
desigualdades estruturais que assolam a maior parte da rede permanecem
intocadas e invisibilizadas.
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Controle dos corpos e o cerceamento da subjetividade juvenil
A
transposição da hierarquia militar para o interior dos muros escolares instaura
uma perigosa normalização do autoritarismo, operando uma confusão deliberada
entre as dimensões formativa e conformativa da escola, perigosamente articulada
à lógica repressiva do quartel. Ao importar a doutrina de segurança pública
para a sala de aula, o modelo cívico-militar tende a tratar o estudante
considerado “indisciplinado” sob a ótica do “inimigo interno”, figura típica do
combate à criminalidade, mas estranha e nociva ao processo pedagógico. Trata-se
de um processo de desumanização do outro, como se esses “elementos perigosos”
fossem entraves ao desenvolvimento, ao sucesso das unidades escolares nos
rankings e sistemas de avaliação externa em larga escala. Essa dinâmica ergue
uma barreira de medo e intimidação que, na prática, blinda a corporação e
silencia a comunidade escolar, dificultando a publicização e a devida apuração
de casos de assédio moral e sexual, transformando o ambiente de proteção em um
espaço de vulnerabilidade sob a vigilância das fardas.
O
espaço escolar possui múltiplos sentidos na vida de quem o frequenta, seja para
as crianças e os adolescentes, seja para todos os demais membros da comunidade
escolar. Em que pese a recorrente ideia de “crise da escola”, por vezes
relativizada em sua importância e retirada da centralidade da sociabilidade
infantojuvenil, bem como atacada em sua forma e conteúdo pelos setores mais
conservadores da sociedade, permanece significativa a relevância desse espaço
para a formação e/ou conformação de identidades.
Não por
acaso, há uma diferença substancial entre formação e conformação escolar,
sobretudo no processo de escolarização da adolescência (anos finais do Ensino
Fundamental e Ensino Médio), foco dos programas das escolas cívico-militares.
A
formação estudantil pressupõe a participação ativa do sujeito-estudante na
produção e apropriação de saberes formais, científicos, empíricos e
filosóficos, assim como na circulação de conhecimentos tácitos, informais,
relacionais e artísticos, em permanente interlocução com os saberes docentes —
curriculares e experienciais —, configurando-o como sujeito autônomo e
efetivamente partícipe do processo educativo.
Não
obstante, a ideia por detrás da conformação estudantil refere-se, em geral, à
adaptação passiva à realidade e à naturalização do status quo, produzindo
disposições de conformismo e aquiescência apática diante do mundo que se
apresenta. Trata-se de uma atitude de resignação frente às dores sociais, às
desigualdades, às injustiças e à exploração do trabalho e dos recursos, em
oposição direta ao espírito crítico que deveria orientar uma formação ativa.
Refere-se, portanto, àquilo que Émile Durkheim denominava de educação moral,
processo pelo qual os indivíduos aderem “voluntariamente” às normas morais da
sociedade. Na leitura crítica da educação promovida pelas perspectivas
marxistas, revela-se que o caráter voluntário dessa submissão consentida é
produto de um complexo sistema de coerção impregnado pela ideologia das classes
dominantes.
A
disciplinarização excessiva pretendida pelas escolas cívico-militares, expressa
no controle dos conteúdos, das práticas pedagógicas e do trabalho docente, bem
como na tentativa de regular corpos e mentes dos estudantes, configura uma
pedagogia orientada à disciplinarização para o trabalho. Trata-se do
amaciamento e da dominação da subjetividade da força de trabalho em
(con)formação, com vistas à neutralização do ímpeto de rebeldia e da vocação
para a contestação e o desafio, disposições subjetivas próprias dessa etapa da
vida. Evidentemente, esse não é um processo simples nem plenamente realizável;
afirmar a captura total da subjetividade seria incorrer em uma leitura
antidialética da realidade social. Há, nesses contextos, resistências
permanentes e formas cotidianas de enfrentamento da opressão. Não por acaso, a
reafirmação de identidades, características e expressões culturais
historicamente combatidas e invisibilizadas tende a suscitar reações
contundentes. A reflexão proposta busca, portanto, compreender os sentidos
políticos e sociais que estruturam o projeto cívico-militar de escolarização.
O
autoritarismo exercido sobre os alunos, que se manifesta no controle rigoroso
dos corpos, dos modos de vestir, dos adornos, dos afetos e das formas de
expressão, constitui um dos pilares centrais desse tipo de unidade escolar.
Opera-se, assim, um controle objetivo e subjetivo das identidades, que busca
universalizar comportamentos e reduzir a pluralidade das manifestações humanas
a uma amálgama homogênea e pasteurizada. Conforme aponta Henri Acselrad3, o
autoritarismo se expressa por meio do silenciamento das resistências, do
afastamento do debate público e pela imposição da lógica privada (nesse caso,
militar) à esfera pública.
Diante
disso, torna-se evidente que a militarização das escolas públicas no Brasil não
responde a uma crise pedagógica. Trata-se, antes e acima de tudo, de um projeto
político-ideológico de contenção social e esvaziamento democrático. Ao tratar
questões complexas, como a vulnerabilidade social, evasão e violência escolar,
por meio da lente monolítica e autoritária da caserna, o Estado interdita
espaços de garantia de direitos básicos e fundamentais com possibilidade
emancipadora e assume uma postura de tutela repressiva sobre a juventude,
especialmente a periférica. A substituição do diálogo pela ordem e da reflexão
crítica pela obediência cega não resolve os problemas aos quais o projeto de
militarização se propõe a resolver e agudiza desigualdades, reforça clivagens
baseadas em noções superficiais do senso comum e drena recursos escassos para
financiar uma estrutura de vigilância em detrimento da valorização docente e da
melhoria da infraestrutura escolar.
Dentro
dos estreitos limites da institucionalidade burguesa, o modelo cívico-militar
representa uma afronta direta aos direitos humanos e aos princípios
constitucionais da gestão democrática, da liberdade de aprender e ensinar e do
próprio direito à educação. Ele opera na lógica da conformação estrita,
buscando produzir corpos e mentes dóceis, aptos a aceitar bovinamente as
hierarquias, estruturas e relações sociais, distanciando, cada vez mais, a
educação pública de qualquer perspectiva que tenha como horizonte a formação de
indivíduos autônomos e críticos, capazes de transformar sua realidade. A
insistência nesse modelo revela o temor das elites diante da potência criativa
e contestadora da escola pública, espaço que, por sua própria natureza
contraditória, isto é, por ser um campo no qual a luta de classes se expressa,
deveria ser um terreno fértil para a diversidade e para a construção de
mecanismos de contra-hegemonia a partir das classes subalternas.
Superar
esse cenário exige, urgentemente, a desmilitarização do imaginário social,
tanto no que se refere à escola pública quanto no que se refere a outras
dimensões da vida social, e a retomada do compromisso com uma educação popular
e de formação do ser humano integral, em todas as suas potencialidades. Uma
escola que bate continência para a autoridade jamais ensinará seus estudantes a
questionarem as injustiças do mundo.
Fonte:
Por Igor Figueiredo e Ricardo Normanha, no Blog da Boitempo

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