quarta-feira, 4 de março de 2026

Eduardo Vasco: Caiu o véu da democracia

Existe um mito difundido pelos principais meios de propaganda imperialista (o “jornalismo”) de que Donald Trump é uma anomalia fascista em um regime democrático como o dos Estados Unidos. E por isso essa anomalia é repudiada pelos representantes legítimos da democracia, como Kamala Harris e o Partido Democrata. Ou pelos governos da Europa Ocidental. Emmanuel Macron se tornou o grande baluarte da democracia europeia e da crítica ao unilateralismo norte-americano, do qual os pretensos antifascistas e antiautoritários mundo afora morrem de amores. O Partido Trabalhista britânico tem sido um paradigma de governo de esquerda, que administra um império, luta contra os extremismos e aplica a “censura do bem” na Internet. Até mesmo o conservador Friedrich Merz seria um exemplo de direita civilizada. Todos se oporiam ao autoritarismo do lunático Trump.

Pois bem, todos abraçaram-se com Trump e colocaram-se às suas ordens. "Tomaremos medidas para defender nossos interesses e os de nossos aliados na região, potencialmente disparando mísseis e drones contra a sua origem" – é o que diz a declaração conjunta dos três patetas em resposta à guerra defensiva do Irã contra a agressão criminosa desencadeada pelos Estados Unidos e por seu preposto apelidado de “Israel”. "Concordamos em trabalhar em conjunto com os EUA e aliados na região sobre este assunto”, completou a nota do trio europeu.

É claro que um dos pretextos centrais dessa aliança com o líder antidemocrático, misógino e extremista dos Estados Unidos é derrubar o regime antidemocrático, misógino e extremista do Irã.

“Khamenei era um ditador sanguinário que oprimiu seu povo, humilhou mulheres, jovens e minorias, e foi recentemente responsável pela morte de milhares de civis em seu país e na região. Portanto, só podemos nos satisfazer com sua morte”, disse a porta-voz do governo francês – o mesmo governo que até agora buscava se apresentar como amigo das nações africanas, asiáticas e latino-americanas, fingindo se opor às agressões dos Estados Unidos para reciclar sua imagem colonial após as tropas franceses serem enxotadas do Sahel.

Sir Keir Starmer condenou o Irã por atacar países vizinhos onde estão cidadãos britânicos, ignorando os ataques iniciais dos EUA e Israel e os cidadãos britânicos que estão no Irã. Já está pronto o roteiro, o velho roteiro das agressões imperialistas em larga escala: o culpado é o Irã, por bombardear seus vizinhos, matar inocentes e violar os interesses dos países imperialistas na região, que responderão em autodefesa e na defesa de seus aliados. “A única maneira de parar a ameaça é destruir os lançadores e depósitos de mísseis” do Irã, disse o primeiro-ministro.

O político trabalhista, no auge de sua hipocrisia, garantiu que o Reino Unido não vai participar de nenhuma “ação ofensiva”, mas apenas permitir a utilização de suas instalações militares no Oriente Médio a pedido do governo americano. A retórica dos falcões imperialistas – de ambos os lados do Atlântico – já está manjada há décadas: bombardear o Irã, que está se defendendo da agressão de Estados Unidos e Israel, não é “ação ofensiva”, apenas “autodefesa coletiva”. E essa “autodefesa” será exercida com participação direta de Londres apenas se suas instalações forem atacadas por Teerã. 

Mas o Irã já declarou publicamente que qualquer instalação utilizada pelos Estados Unidos para atacá-lo é um alvo legítimo. E se o Irã atacar uma instalação militar britânica, Starmer terá uma desculpa para mudar seu suposto plano inicial e entrar de cabeça na guerra de agressão. Por isso, em seu pronunciamento à nação, ele escolheu bem as palavras: “não vamos nos juntar a ações ofensivas AGORA”.

Na mesma noite, chega a notícia de um ataque de drone contra a base aérea britânica de Akrotiri, no Chipre. Pode ser a Pearl Harbor ou a Tonkin de Starmer.

Essa postura, natural e esperada, das três grandes potências imperialistas da Europa, comprova por A + B e pela enésima vez que não é só o governo dos Estados Unidos e nem tampouco apenas Donald Trump o grande inimigo dos povos do mundo.

Comprova também a inexistência da dicotomia entre democracia e fascismo. Os pretensos democratas são os gestores e mantenedores do fascismo. A década de 1930 o demonstrou, com todo o aporte financeiro, político e propagandístico dos grandes capitalistas mundiais a Adolf Hitler e com a cópia de seus métodos por Churchill na Índia ou por Roosevelt e seus campos de concentração de japoneses nos EUA e a dizimação instantânea de centenas de milhares em Hiroshima e Nagasaki pelas bombas atômicas autorizadas por Truman.

Mas Stálin festejava a “vitória da democracia e da paz” contra o fascismo.

Passados oitenta anos, continua-se espalhando o velho mantra da luta existencial da democracia contra o fascismo, mesmo depois de a democracia ter instalado ditaduras fascistas na América Latina, empregado uma guerra terrorista na Argélia, destruído o Vietnã, o Iraque e o Afeganistão.

O genocídio em Gaza, realizado pelo fascista Netanyahu com a total cumplicidade, armamento, financiamento e incentivo dos democratas americanos e europeus, abriu os olhos de muita gente pelo mundo. A guerra imperialista coletiva dos democratas e fascistas americanos e europeus vai jogar por terra esse mito de uma vez por todas. Sobretudo quando os povos oprimidos do mundo todo, a começar pelos do Oriente Médio, se levantarem em armas contra os verdadeiros tiranos sanguinários que os escravizam em nome da defesa das minorias, dos direitos humanos e da democracia.

¨      A farsa da guerra justa: uma resposta crítica ao editorial do Estadão sobre o Irã. Por Daniel Samam

Em um editorial recente intitulado "Ninguém vai chorar pelo Irã", o jornal O Estado de S. Paulo adota uma postura de subserviência à narrativa imperialista para justificar a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel contra a nação persa. O texto, que ecoa a retórica da administração Trump, apresenta o Irã como um "Estado pária" e celebra a violência como um caminho para a liberdade do povo iraniano. No entanto, uma análise crítica e aprofundada da questão geopolítica revela uma realidade muito mais complexa e sombria, que o editorial convenientemente ignora.

O posicionamento do jornal se baseia em uma série de premissas falsas e omissões graves. Ao classificar o Irã como um "Estado pária", o editorial ignora que a verdadeira razão do antagonismo é a recusa do país em se submeter à arquitetura de segurança colonial imposta pelo Ocidente, ousando afirmar sua autonomia política e estratégica em uma região que os EUA e Israel tratam como seu protetorado. A justificativa da agressão pela suposta ameaça nuclear também se mostra frágil, uma vez que o Irã não possui armas nucleares e aceita verificação internacional, enquanto Israel, uma potência nuclear clandestina e não inspecionada, jamais foi alvo de tal escrutínio. Por fim, a ideia de que a guerra trará liberdade ao povo iraniano é uma falácia perigosa; a história demonstra que bombardeios não produzem democracia, e que qualquer transição política legítima deve ser interna e soberana, não imposta por potências estrangeiras.

O ataque coordenado de 28 de fevereiro de 2026, que resultou na morte de centenas de civis, incluindo mais de 80 meninas em uma escola em Minab, é a mais recente e brutal manifestação de uma guerra híbrida que os Estados Unidos travam contra o Irã há décadas. Essa guerra inclui sanções econômicas que sufocam a população, o assassinato de líderes como o general Qassem Soleimani em 2020 e uma campanha de desinformação que busca deslegitimar o governo iraniano e preparar o terreno para uma intervenção militar.

A retórica da "guerra justa" e da "libertação" do povo iraniano, repetida à exaustão pela mídia hegemônica, serve para mascarar os verdadeiros interesses por trás da agressão: o controle geopolítico do Oriente Médio e de seus vastos recursos energéticos. A história recente, especialmente a desastrosa invasão do Iraque em 2003, já demonstrou que intervenções militares imperialistas não levam à democracia, mas sim à destruição, ao caos e ao fortalecimento de regimes autoritários.

É fundamental ressaltar que a crítica à agressão imperialista não implica em uma defesa do regime iraniano. O governo teocrático viola os direitos humanos. No entanto, a solução para os problemas do Irã não virá de bombas estrangeiras, mas da luta e da organização do próprio povo iraniano.

Em vez de aplaudir a violência e a barbárie, como faz o Estadão, a comunidade internacional e a sociedade civil devem condenar veementemente a agressão dos Estados Unidos e de Israel, exigir o fim das sanções e apoiar uma solução pacífica e negociada para o conflito. A paz e a estabilidade no Oriente Médio só serão alcançadas com o respeito à soberania das nações, à autodeterminação dos povos e ao direito internacional, e não com a imposição da vontade do mais forte.

¨      Nosso problema não é o povo. Por Mário Maurici

Às vezes, a gente tem que chamar a Casa Grande pelo nome. O texto “Brasileiro trabalha menos que a média mundial”, publicado pela Folha de S.Paulo, no dia 21 de fevereiro de 2026, mostra que a elite brasileira mudou muito pouco desde o século XIX. 

Ao resgatar uma tradição ultrapassada de interpretação do país, a qual já não dispõe de nenhuma credibilidade científica, mas que tem inegável utilidade prática para fins de justificar a desigualdade e a injustiça social, o jornal foi criticado pelos próprios leitores. Ao atribuir os problemas econômicos do Brasil à falta de apego do brasileiro pelo trabalho, o texto se filiou a uma visão tradicional e preconceituosa, segundo a qual os problemas estruturais do país seriam o resultado da indolência, do misticismo e da malandragem do povo brasileiro.

Essa interpretação, embora hoje em dia procure disfarçá-lo, deita profundas raízes racistas e eugenistas. Segundo essa interpretação, o povo brasileiro seria o resultado de uma mistura de “raças inferiores”: o português (considerado um europeu inferior, que prefere o comércio à produção), o indígena e o negro.

É possível aferir que, longe de ser uma excrescência, essa tenha sido uma explicação hegemônica do país até o final de nosso último período ditatorial. Recentemente, causou polêmica a revelação de trechos de uma carta, escrita em 1938, de Monteiro Lobato para o amigo Godofredo Rangel. Neles, o escritor tece elogios à organização racista americana Ku Klux Klan por “manter o negro em seu lugar”. Para Lobato, “a mestiçagem do negro” seria a grande responsável por destruir “a capacidade construtiva” do povo brasileiro.

Embora houvesse à época quem combatesse esse tipo de concepção (algumas das melhores páginas da vertente mais crítica de nosso modernismo, na produção de um Mário de Andrade ou de um Oswald de Andrade, consistem na valorização irônica da malandragem, da preguiça e do messianismo popular), Monteiro Lobato não era o único a pensar assim, naquele final da década de 1930.

Basta lembrar que, entre o final do século XIX e começo do século XX, o Estado brasileiro criou uma série de políticas de “branqueamento”, com a intenção de "europeizar" a população brasileira por meio da imigração massiva de brancos, acreditando que as características negras e indígenas, responsáveis por nosso atraso, desapareceriam em poucas gerações.

Após o final da Segunda Guerra Mundial, os herdeiros dessa ideologia eugenista trocaram a palavra “raça” pela palavra “cultura”, mantendo intocada a estrutura do argumento. Em agosto de 2018, o general Mourão, então candidato à vice-presidência do Brasil, afirmou publicamente que o Brasil havia herdado “a indolência, que vem da cultura indígena”, e a “malandragem, oriunda do africano”. Ele também associou a “herança de privilégios” à colonização portuguesa.

Retomando a mesma tradição interpretativa, o texto da Folha de S.Paulo publicado no dia 22 de fevereiro de 2026 alega que a suposta preferência do povo brasileiro pelo “lazer” em detrimento do trabalho seria um traço “cultural”. Nas palavras do próprio texto: “o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão cultural” —explica o especialista consultado pelo jornal— “uma preferência por maior quantidade de lazer”.

Como já fazia Arthur de Gobineau, o pai do racismo científico, o texto publicado pela Folha de S.Paulo procura ocultar seu preconceito com uma armadura tecnicista. Não se trataria de opinião do jornal ou do jornalista, mas da mera divulgação objetiva dos resultados de uma pesquisa. O levantamento foi realizado pelo economista Daniel Duque, do FGV Ibre, a partir de um banco de dados global de horas trabalhadas de autoria dos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.

A premissa do levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo é bastante discutível: em linhas gerais, o economista conclui que quem é menos produtivo, caso do Brasil, deve trabalhar mais. Em vários momentos o jornal se refere à baixa produtividade do trabalhador brasileiro e chega a insinuar que a produtividade deriva direta e exclusivamente da habilidade individual ou do esforço de cada trabalhador individual, o que é um erro crasso de interpretação.

Em seu clássico A Riqueza das Nações (1776), Adam Smith utiliza o exemplo de uma fábrica de alfinetes para ilustrar como a divisão do trabalho aumenta drasticamente a produtividade. Smith constata que um artesão isolado, ainda que extremamente habilidoso, mal produz um alfinete por dia, enquanto dez trabalhadores especializados, sem o mesmo conhecimento do artesão individual, dividindo o processo em cerca de 18 tarefas diferentes e repetitivas, podiam produzir até 48 mil alfinetes por dia.

Ou seja, já na segunda metade do século XVIII se sabia que a organização do trabalho e o desenvolvimento técnico eram as chaves para o aumento da produtividade, e não apenas a habilidade individual de cada trabalhador. Um país que formasse profissionais altamente qualificados e que, por ter se desindustrializado, por exemplo, não fosse capaz de criar produtos complexos e de alto valor agregado, veria esses profissionais irem embora do país (fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”) ou ocuparem empregos que não demandassem nenhuma expertise técnica, com menor remuneração. 

Talvez devido ao pragmatismo da cultura anglo-saxã, que impede a reflexão aprofundada sobre os fenômenos sociais, a pesquisa estadunidense não contabilizou como hora trabalhada o tempo que os trabalhadores gastam no deslocamento entre suas casas e o trabalho. Conforme demonstrou o jornalista Luis Nassif, em artigo crítico ao texto da Folha de S.Paulo, quando se contabilizam essas horas gastas no trajeto entre a casa e o batente, constata-se que o tempo despendido pelo brasileiro com o trabalho está no mesmo patamar da média mundial. 

O texto da Folha de S.Paulo tampouco menciona a idade e o tempo de trabalho mínimo para a aposentadoria, certamente outro descuido do levantamento feito pelo economista brasileiro (se causado por indolência ou por inépcia, não se pode dizer com certeza). O texto também insinua que, nos países desenvolvidos, o povo só teria começado a reduzir a jornada de trabalho após enriquecer, mas que, aqui no Brasil, devido à cultura da preguiça e do hedonismo, o povo escolheu abandonar o caminho da virtude e do esforço precocemente, numa espécie de versão econométrica da fábula da cigarra e da formiga. 

Fato é que, já no final do texto, cansado de defender o indefensável, o jornalista finalmente entrega o jogo: trata-se de um alerta sobre as consequências econômicas de uma eventual aprovação do projeto de lei que prevê a redução da jornada de trabalho, com o fim do chamado 6x1, regime de trabalho em que o trabalhador só dispõe de um único dia da semana para ficar com sua família. 

Está cada vez mais difícil para a nossa elite esconder que o verdadeiro problema do Brasil não é a indolência, a malandragem ou o misticismo do povo, mas a concentração de poder, dinheiro e prestígio nas mãos de um pequeno grupo de poderosos. O verdadeiro problema do país, a verdadeira chaga, é a desigualdade, em todas as suas dimensões, mas sobretudo no que tange à distribuição da riqueza.

Não é por acaso que o grande exemplo de trabalho e esforço, segundo o levantamento do economista brasileiro, seriam os Emirados Árabes, país em que um pequeno número de nobres que não trabalham (pois são membros das famílias reais dos diferentes principados) goza dos frutos do esforço de uma multidão de trabalhadores, grande parte deles estrangeiros com o passaporte retido, que não raro se veem submetidos a condições análogas à escravidão.

Quem conhece as agruras dos trabalhadores rurais, que levantam antes do nascer do sol para produzir alimento; quem mora nas periferias das grandes metrópoles brasileiras e já frequentou uma estação de trem ou um terminal de ônibus lotado às 5 da manhã; quem conhece a luta do nosso povo, sabe que o brasileiro não tem medo do batente. Pelo contrário: somos um povo resiliente, criativo e esforçado.

Como escreveu Machado de Assis, “o país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”. O texto da Folha de S.Paulo, cujo teor de preconceito chega a ser caricato, reveste-se do caráter ridículo dos discursos de personagens da TV brasileira como Odete Roitman e Caco Antibes, e mostra que o vaticínio do bruxo do Catete segue atualíssimo.

 

Fonte: Brasil 247

 

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