Eduardo
Vasco: Caiu o véu da democracia
Existe
um mito difundido pelos principais meios de propaganda imperialista (o
“jornalismo”) de que Donald Trump é uma anomalia fascista em um regime
democrático como o dos Estados Unidos. E por isso essa anomalia é repudiada
pelos representantes legítimos da democracia, como Kamala Harris e o Partido
Democrata. Ou pelos governos da Europa Ocidental. Emmanuel Macron se tornou o
grande baluarte da democracia europeia e da crítica ao unilateralismo
norte-americano, do qual os pretensos antifascistas e antiautoritários mundo
afora morrem de amores. O Partido Trabalhista britânico tem sido um paradigma
de governo de esquerda, que administra um império, luta contra os extremismos e
aplica a “censura do bem” na Internet. Até mesmo o conservador Friedrich Merz
seria um exemplo de direita civilizada. Todos se oporiam ao autoritarismo do
lunático Trump.
Pois
bem, todos abraçaram-se com Trump e colocaram-se às suas ordens.
"Tomaremos medidas para defender nossos interesses e os de nossos aliados
na região, potencialmente disparando mísseis e drones contra a sua origem"
– é o que diz a declaração conjunta dos três patetas em resposta à guerra
defensiva do Irã contra a agressão criminosa desencadeada pelos Estados Unidos
e por seu preposto apelidado de “Israel”. "Concordamos em trabalhar em
conjunto com os EUA e aliados na região sobre este assunto”, completou a nota
do trio europeu.
É claro
que um dos pretextos centrais dessa aliança com o líder antidemocrático,
misógino e extremista dos Estados Unidos é derrubar o regime antidemocrático,
misógino e extremista do Irã.
“Khamenei
era um ditador sanguinário que oprimiu seu povo, humilhou mulheres, jovens e
minorias, e foi recentemente responsável pela morte de milhares de civis em seu
país e na região. Portanto, só podemos nos satisfazer com sua morte”, disse a
porta-voz do governo francês – o mesmo governo que até agora buscava se
apresentar como amigo das nações africanas, asiáticas e latino-americanas,
fingindo se opor às agressões dos Estados Unidos para reciclar sua imagem
colonial após as tropas franceses serem enxotadas do Sahel.
Sir
Keir Starmer condenou o Irã por atacar países vizinhos onde estão cidadãos
britânicos, ignorando os ataques iniciais dos EUA e Israel e os cidadãos
britânicos que estão no Irã. Já está pronto o roteiro, o velho roteiro das
agressões imperialistas em larga escala: o culpado é o Irã, por bombardear seus
vizinhos, matar inocentes e violar os interesses dos países imperialistas na
região, que responderão em autodefesa e na defesa de seus aliados. “A única
maneira de parar a ameaça é destruir os lançadores e depósitos de mísseis” do
Irã, disse o primeiro-ministro.
O
político trabalhista, no auge de sua hipocrisia, garantiu que o Reino Unido não
vai participar de nenhuma “ação ofensiva”, mas apenas permitir a utilização de
suas instalações militares no Oriente Médio a pedido do governo americano. A
retórica dos falcões imperialistas – de ambos os lados do Atlântico – já está
manjada há décadas: bombardear o Irã, que está se defendendo da agressão de
Estados Unidos e Israel, não é “ação ofensiva”, apenas “autodefesa coletiva”. E
essa “autodefesa” será exercida com participação direta de Londres apenas se
suas instalações forem atacadas por Teerã.
Mas o
Irã já declarou publicamente que qualquer instalação utilizada pelos Estados
Unidos para atacá-lo é um alvo legítimo. E se o Irã atacar uma instalação
militar britânica, Starmer terá uma desculpa para mudar seu suposto plano
inicial e entrar de cabeça na guerra de agressão. Por isso, em seu
pronunciamento à nação, ele escolheu bem as palavras: “não vamos nos juntar a
ações ofensivas AGORA”.
Na
mesma noite, chega a notícia de um ataque de drone contra a base aérea
britânica de Akrotiri, no Chipre. Pode ser a Pearl Harbor ou a Tonkin de
Starmer.
Essa
postura, natural e esperada, das três grandes potências imperialistas da
Europa, comprova por A + B e pela enésima vez que não é só o governo dos
Estados Unidos e nem tampouco apenas Donald Trump o grande inimigo dos povos do
mundo.
Comprova
também a inexistência da dicotomia entre democracia e fascismo. Os pretensos
democratas são os gestores e mantenedores do fascismo. A década de 1930 o
demonstrou, com todo o aporte financeiro, político e propagandístico dos
grandes capitalistas mundiais a Adolf Hitler e com a cópia de seus métodos por
Churchill na Índia ou por Roosevelt e seus campos de concentração de japoneses
nos EUA e a dizimação instantânea de centenas de milhares em Hiroshima e
Nagasaki pelas bombas atômicas autorizadas por Truman.
Mas
Stálin festejava a “vitória da democracia e da paz” contra o fascismo.
Passados
oitenta anos, continua-se espalhando o velho mantra da luta existencial da
democracia contra o fascismo, mesmo depois de a democracia ter instalado
ditaduras fascistas na América Latina, empregado uma guerra terrorista na
Argélia, destruído o Vietnã, o Iraque e o Afeganistão.
O
genocídio em Gaza, realizado pelo fascista Netanyahu com a total cumplicidade,
armamento, financiamento e incentivo dos democratas americanos e europeus,
abriu os olhos de muita gente pelo mundo. A guerra imperialista coletiva dos
democratas e fascistas americanos e europeus vai jogar por terra esse mito de
uma vez por todas. Sobretudo quando os povos oprimidos do mundo todo, a começar
pelos do Oriente Médio, se levantarem em armas contra os verdadeiros tiranos
sanguinários que os escravizam em nome da defesa das minorias, dos direitos
humanos e da democracia.
¨
A farsa da guerra justa: uma resposta crítica ao
editorial do Estadão sobre o Irã. Por Daniel Samam
Em um
editorial recente intitulado "Ninguém vai chorar pelo Irã",
o jornal O Estado de S. Paulo adota uma postura de subserviência à narrativa
imperialista para justificar a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel
contra a nação persa. O texto, que ecoa a retórica da administração Trump,
apresenta o Irã como um "Estado pária" e celebra a violência como um
caminho para a liberdade do povo iraniano. No entanto, uma análise crítica e
aprofundada da questão geopolítica revela uma realidade muito mais complexa e
sombria, que o editorial convenientemente ignora.
O
posicionamento do jornal se baseia em uma série de premissas falsas e omissões
graves. Ao classificar o Irã como um "Estado pária", o editorial
ignora que a verdadeira razão do antagonismo é a recusa do país em se submeter
à arquitetura de segurança colonial imposta pelo Ocidente, ousando afirmar sua
autonomia política e estratégica em uma região que os EUA e Israel tratam como
seu protetorado. A justificativa da agressão pela suposta ameaça nuclear também
se mostra frágil, uma vez que o Irã não possui armas nucleares e aceita
verificação internacional, enquanto Israel, uma potência nuclear clandestina e
não inspecionada, jamais foi alvo de tal escrutínio. Por fim, a ideia de que a
guerra trará liberdade ao povo iraniano é uma falácia perigosa; a história
demonstra que bombardeios não produzem democracia, e que qualquer transição
política legítima deve ser interna e soberana, não imposta por potências
estrangeiras.
O
ataque coordenado de 28 de fevereiro de 2026, que resultou na morte de centenas
de civis, incluindo mais de 80 meninas em uma escola em Minab, é a mais recente
e brutal manifestação de uma guerra híbrida que os Estados Unidos travam contra
o Irã há décadas. Essa guerra inclui sanções econômicas que sufocam a
população, o assassinato de líderes como o general Qassem Soleimani em 2020 e
uma campanha de desinformação que busca deslegitimar o governo iraniano e
preparar o terreno para uma intervenção militar.
A
retórica da "guerra justa" e da "libertação" do povo
iraniano, repetida à exaustão pela mídia hegemônica, serve para mascarar os
verdadeiros interesses por trás da agressão: o controle geopolítico do Oriente
Médio e de seus vastos recursos energéticos. A história recente, especialmente
a desastrosa invasão do Iraque em 2003, já demonstrou que intervenções
militares imperialistas não levam à democracia, mas sim à destruição, ao caos e
ao fortalecimento de regimes autoritários.
É
fundamental ressaltar que a crítica à agressão imperialista não implica em uma
defesa do regime iraniano. O governo teocrático viola os direitos humanos. No
entanto, a solução para os problemas do Irã não virá de bombas estrangeiras,
mas da luta e da organização do próprio povo iraniano.
Em vez
de aplaudir a violência e a barbárie, como faz o Estadão, a comunidade
internacional e a sociedade civil devem condenar veementemente a agressão dos
Estados Unidos e de Israel, exigir o fim das sanções e apoiar uma solução
pacífica e negociada para o conflito. A paz e a estabilidade no Oriente Médio
só serão alcançadas com o respeito à soberania das nações, à autodeterminação
dos povos e ao direito internacional, e não com a imposição da vontade do mais
forte.
¨
Nosso problema não é o povo. Por Mário Maurici
Às
vezes, a gente tem que chamar a Casa Grande pelo nome. O texto “Brasileiro
trabalha menos que a média mundial”, publicado pela Folha de S.Paulo, no dia 21
de fevereiro de 2026, mostra que a elite brasileira mudou muito pouco desde o
século XIX.
Ao
resgatar uma tradição ultrapassada de interpretação do país, a qual já não
dispõe de nenhuma credibilidade científica, mas que tem inegável utilidade
prática para fins de justificar a desigualdade e a injustiça social, o jornal
foi criticado pelos próprios leitores. Ao atribuir os problemas econômicos do
Brasil à falta de apego do brasileiro pelo trabalho, o texto se filiou a uma
visão tradicional e preconceituosa, segundo a qual os problemas estruturais do
país seriam o resultado da indolência, do misticismo e da malandragem do povo
brasileiro.
Essa
interpretação, embora hoje em dia procure disfarçá-lo, deita profundas raízes
racistas e eugenistas. Segundo essa interpretação, o povo brasileiro seria o
resultado de uma mistura de “raças inferiores”: o português (considerado um
europeu inferior, que prefere o comércio à produção), o indígena e o negro.
É
possível aferir que, longe de ser uma excrescência, essa tenha sido uma
explicação hegemônica do país até o final de nosso último período ditatorial.
Recentemente, causou polêmica a revelação de trechos de uma carta, escrita em
1938, de Monteiro Lobato para o amigo Godofredo Rangel. Neles, o escritor tece
elogios à organização racista americana Ku Klux Klan por “manter o negro em seu
lugar”. Para Lobato, “a mestiçagem do negro” seria a grande responsável por
destruir “a capacidade construtiva” do povo brasileiro.
Embora
houvesse à época quem combatesse esse tipo de concepção (algumas das melhores
páginas da vertente mais crítica de nosso modernismo, na produção de um Mário
de Andrade ou de um Oswald de Andrade, consistem na valorização irônica da
malandragem, da preguiça e do messianismo popular), Monteiro Lobato não era o
único a pensar assim, naquele final da década de 1930.
Basta
lembrar que, entre o final do século XIX e começo do século XX, o Estado
brasileiro criou uma série de políticas de “branqueamento”, com a intenção de
"europeizar" a população brasileira por meio da imigração massiva de
brancos, acreditando que as características negras e indígenas, responsáveis
por nosso atraso, desapareceriam em poucas gerações.
Após o
final da Segunda Guerra Mundial, os herdeiros dessa ideologia eugenista
trocaram a palavra “raça” pela palavra “cultura”, mantendo intocada a estrutura
do argumento. Em agosto de 2018, o general Mourão, então candidato à
vice-presidência do Brasil, afirmou publicamente que o Brasil havia herdado “a
indolência, que vem da cultura indígena”, e a “malandragem, oriunda do
africano”. Ele também associou a “herança de privilégios” à colonização
portuguesa.
Retomando
a mesma tradição interpretativa, o texto da Folha de S.Paulo publicado no dia
22 de fevereiro de 2026 alega que a suposta preferência do povo brasileiro pelo
“lazer” em detrimento do trabalho seria um traço “cultural”. Nas palavras do
próprio texto: “o que provavelmente explica o desvio brasileiro é uma questão
cultural” —explica o especialista consultado pelo jornal— “uma preferência por
maior quantidade de lazer”.
Como já
fazia Arthur de Gobineau, o pai do racismo científico, o texto publicado pela
Folha de S.Paulo procura ocultar seu preconceito com uma armadura tecnicista.
Não se trataria de opinião do jornal ou do jornalista, mas da mera divulgação
objetiva dos resultados de uma pesquisa. O levantamento foi realizado pelo
economista Daniel Duque, do FGV Ibre, a partir de um banco de dados global de
horas trabalhadas de autoria dos economistas Amory Gethin, do Banco Mundial, e
Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.
A
premissa do levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo é bastante discutível:
em linhas gerais, o economista conclui que quem é menos produtivo, caso do
Brasil, deve trabalhar mais. Em vários momentos o jornal se refere à baixa
produtividade do trabalhador brasileiro e chega a insinuar que a produtividade
deriva direta e exclusivamente da habilidade individual ou do esforço de cada
trabalhador individual, o que é um erro crasso de interpretação.
Em seu
clássico A Riqueza das Nações (1776), Adam Smith utiliza o
exemplo de uma fábrica de alfinetes para ilustrar como a divisão do trabalho
aumenta drasticamente a produtividade. Smith constata que um artesão isolado,
ainda que extremamente habilidoso, mal produz um alfinete por dia, enquanto dez
trabalhadores especializados, sem o mesmo conhecimento do artesão individual,
dividindo o processo em cerca de 18 tarefas diferentes e repetitivas, podiam
produzir até 48 mil alfinetes por dia.
Ou
seja, já na segunda metade do século XVIII se sabia que a organização do
trabalho e o desenvolvimento técnico eram as chaves para o aumento da
produtividade, e não apenas a habilidade individual de cada trabalhador. Um
país que formasse profissionais altamente qualificados e que, por ter se
desindustrializado, por exemplo, não fosse capaz de criar produtos complexos e
de alto valor agregado, veria esses profissionais irem embora do país (fenômeno
conhecido como “fuga de cérebros”) ou ocuparem empregos que não demandassem
nenhuma expertise técnica, com menor remuneração.
Talvez
devido ao pragmatismo da cultura anglo-saxã, que impede a reflexão aprofundada
sobre os fenômenos sociais, a pesquisa estadunidense não contabilizou como hora
trabalhada o tempo que os trabalhadores gastam no deslocamento entre suas casas
e o trabalho. Conforme demonstrou o jornalista Luis Nassif, em artigo crítico
ao texto da Folha de S.Paulo, quando se contabilizam essas horas gastas no
trajeto entre a casa e o batente, constata-se que o tempo despendido pelo
brasileiro com o trabalho está no mesmo patamar da média mundial.
O texto
da Folha de S.Paulo tampouco menciona a idade e o tempo de trabalho mínimo para
a aposentadoria, certamente outro descuido do levantamento feito pelo
economista brasileiro (se causado por indolência ou por inépcia, não se pode
dizer com certeza). O texto também insinua que, nos países desenvolvidos, o
povo só teria começado a reduzir a jornada de trabalho após enriquecer, mas
que, aqui no Brasil, devido à cultura da preguiça e do hedonismo, o povo
escolheu abandonar o caminho da virtude e do esforço precocemente, numa espécie
de versão econométrica da fábula da cigarra e da formiga.
Fato é
que, já no final do texto, cansado de defender o indefensável, o jornalista
finalmente entrega o jogo: trata-se de um alerta sobre as consequências
econômicas de uma eventual aprovação do projeto de lei que prevê a redução da
jornada de trabalho, com o fim do chamado 6x1, regime de trabalho em que o
trabalhador só dispõe de um único dia da semana para ficar com sua
família.
Está
cada vez mais difícil para a nossa elite esconder que o verdadeiro problema do
Brasil não é a indolência, a malandragem ou o misticismo do povo, mas a
concentração de poder, dinheiro e prestígio nas mãos de um pequeno grupo de
poderosos. O verdadeiro problema do país, a verdadeira chaga, é a desigualdade,
em todas as suas dimensões, mas sobretudo no que tange à distribuição da
riqueza.
Não é
por acaso que o grande exemplo de trabalho e esforço, segundo o levantamento do
economista brasileiro, seriam os Emirados Árabes, país em que um pequeno número
de nobres que não trabalham (pois são membros das famílias reais dos diferentes
principados) goza dos frutos do esforço de uma multidão de trabalhadores,
grande parte deles estrangeiros com o passaporte retido, que não raro se veem
submetidos a condições análogas à escravidão.
Quem
conhece as agruras dos trabalhadores rurais, que levantam antes do nascer do
sol para produzir alimento; quem mora nas periferias das grandes metrópoles
brasileiras e já frequentou uma estação de trem ou um terminal de ônibus lotado
às 5 da manhã; quem conhece a luta do nosso povo, sabe que o brasileiro não tem
medo do batente. Pelo contrário: somos um povo resiliente, criativo e
esforçado.
Como
escreveu Machado de Assis, “o país real, esse é bom, revela os melhores
instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco”. O texto da Folha de
S.Paulo, cujo teor de preconceito chega a ser caricato, reveste-se do caráter
ridículo dos discursos de personagens da TV brasileira como Odete Roitman e
Caco Antibes, e mostra que o vaticínio do bruxo do Catete segue atualíssimo.
Fonte:
Brasil 247

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