O
calor extremo pode fazer você envelhecer mais rápido do que deveria, alerta um
novo estudo
Quem
mora em cidades onde as temperaturas costumam ir acima dos 32°C, não está
apenas suando por conta do calor: a pessoa provavelmente também está
envelhecendo mais rápido do que aquelas que vivem em climas mais frios. Essa é
a conclusão de um número crescente de pesquisas que sugerem que a exposição
prolongada ao calor intenso pode acelerar o envelhecimento biológico em nível
celular, às vezes de maneiras comparáveis ao tabagismo ou ao consumo excessivo
de álcool.
“Nosso
estudo descobriu que pessoas que vivem em áreas de calor extremo tinham idades
biológicas até 14 meses mais avançadas do que aquelas que vivem em regiões
muito mais frias”, diz Eun Young Choi, gerontologista da USC Leonard Davis
School of Gerontology, em Los Angeles, na Califórnia, e coautora de um dos
estudos mais recentes sobre o tema. Ainda mais impressionante é que esse efeito
se manteve mesmo levando-se em conta renda, estilo de vida e condições de
saúde.
Mas o
calor extremo não é apenas uma ameaça à longevidade. Ele também pode prejudicar
a qualidade de vida e aumentar o risco de doenças crônicas, pois o corpo se
esforça para se manter fresco.
“A
exposição prolongada ao calor extremo pode afetar vários sistemas orgânicos”,
explica Amit Shah, geriatra da Mayo Clinic (organização de saúde sem fins
lucrativos dos Estados Unidos que é referência mundial em prática clínica,
educação e pesquisa). O sistema cardiovascular, por exemplo, precisa trabalhar
mais para desviar o sangue para a pele para liberar calor, forçando o coração a
bater mais rápido.
Já o
sistema nervoso, por sua vez, pode ficar superestimulado, provocando sintomas
como tonturas, confusão e lapsos de memória. Os rins se esforçam para conservar
água, aumentando o risco de desidratação e danos renais. E o sistema
imunológico pode inundar o corpo com substâncias químicas inflamatórias,
imitando uma resposta infecciosa.
Embora
essas reações tenham como objetivo nos proteger em curtos períodos, elas se
tornam prejudiciais quando a exposição é constante. “É como ter um motor de
carro que está sempre superaquecendo”, diz Adedapo Iluyomade, cardiologista
preventivo do Miami Cardiac & Vascular Institute (maior centro de cuidados
cardiovasculares e vasculares da Flórida, nos Estados Unidos). “Eventualmente,
o estresse constante faz com que as peças se desgastem mais rápido do que
deveriam.”
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Como o calor envelhece prematuramente
Mas os
danos causados pelo calor não se limitam aos órgãos principais. Os cientistas
estão agora descobrindo como as altas temperaturas podem alterar até o
funcionamento dos nossos genes. O calor crônico atua como um fator de estresse
biológico, provocando inflamação, danos oxidativos e distúrbios hormonais. “Com
o tempo, essas respostas repetidas ao estresse térmico podem alterar o
comportamento dos seus genes”, diz Iluyomade. “Portanto, em vez de apenas
ajudar o corpo a se adaptar conforme necessário, o calor crônico pode desgastar
sistemas importantes e acelerar o declínio relacionado à idade.”
Isso
acontece, em parte, por meio de um processo conhecido como envelhecimento
epigenético — uma forma de envelhecimento interno que pode ultrapassar sua
idade cronológica.
O
estudo publicado no jornal científico estadunidense “Science Advances”, em
2025, que tem Choi como co-autora, examina como o calor extremo afeta os idosos
usando uma ferramenta chamada relógio epigenético, que estima a idade biológica
com base na metilação do DNA — “marcas” químicas que regulam a atividade dos
genes.
Essas
“mudanças epigenéticas podem persistir muito tempo depois que um fator de
estresse ambiental, como o calor extremo, tiver terminado”, explica Choi. “Em
alguns casos, o corpo ‘lembra’ do estresse de uma forma que não é útil — ou até
mesmo prejudicial — mais tarde na vida.”
Em
outras palavras, “quando seu corpo passa por pequenas doses de estresse, ele
geralmente se adapta e desenvolve resiliência”, diz Tochi Iroku-Malize,
presidente de medicina familiar e especialista em cuidados paliativos e
hospitais da Northwell Health, em Nova York. “Mas com estresse crônico ou
extremo, como o causado pela exposição repetida ao calor, essa memória pode se
tornar desadaptativa.
E essa
memória epigenética inadequada não é apenas teórica. “Encontramos alterações
generalizadas e duradouras na metilação do DNA, particularmente em genes
relacionados à inflamação, metabolismo, função imunológica e reparo celular”,
diz Choi. “Com o tempo, isso pode atrapalhar a forma como o corpo responde a
desafios futuros, como infecções, tensão cardiovascular ou processos normais de
envelhecimento.”
Um
estudo publicado na “Environment International” chegou a conclusões semelhantes
após analisar o sangue de mais de 900 adultos. “Pessoas expostas a temperaturas
médias mais altas ao longo de meses e anos tinham células sanguíneas que
pareciam biologicamente mais velhas”, diz Wenli Ni, coautora do estudo e
epidemiologista ambiental da Harvard T.H. Chan School of Public Health. “Isso
indica aos médicos em áreas mais quentes que eles podem precisar olhar além da
insolação e da desidratação, pois viver no calor pode aumentar gradualmente os
riscos de problemas relacionados à idade.”
Ainda
assim, permanecem importantes ressalvas. “Embora esses estudos sejam
convincentes, eles são observacionais”, observa Iluyomade. “Não podemos provar
definitivamente que o calor causa essas mudanças — apenas que há uma forte
associação.” Medir a exposição individual também é um desafio, pois pessoas que
passam a maior parte do tempo em ambientes com ar condicionado em climas
quentes podem enfrentar menos riscos do que aquelas que passam mais tempo ao ar
livre em áreas menos quentes. “Também ainda não sabemos com que rapidez esses
efeitos adversos se acumulam — ou se podem ser revertidos”, acrescenta Choi.
Nem
todos são igualmente vulneráveis. “Pessoas que vivem em regiões quentes e secas
há gerações geralmente desenvolvem adaptações fisiológicas — como transpiração
mais eficiente e melhor regulação do fluxo sanguíneo”, diz Choi. Mas mesmo em
comunidades bem adaptadas, as taxas de demência e mortes cardiovasculares
aumentam durante ondas de calor, sugerindo que a adaptação tem limites.
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É possível evitar o envelhecimento precoce causado pelo calor?
A boa
notícia é que os efeitos nocivos do calor são evitáveis. Embora seja impossível
evitar alguma exposição ao calor se você mora em climas especialmente quentes,
muitos dos impactos biológicos adversos do calor podem ser reduzidos por meio
de estratégias comportamentais e ambientais. “O ar condicionado não é um luxo
em climas extremamente quentes, é uma necessidade para a saúde, especialmente
para adultos com mais de 50 anos”, diz Iluyomade. “Mesmo resfriar um cômodo
pode oferecer proteção significativa.”
O
momento da exposição também é fundamental. “Evite ficar ao ar livre entre 10h e
16h”, aconselha Ni. “Procure sombra, use chapéu e dê ao seu corpo uma pausa do
calor intenso ao ar livre.” Manter-se hidratado é igualmente importante.
“Quando você sente sede durante a exposição ao calor, já é tarde demais”,
alerta Iluyomade.
Para os
mais vulneráveis — idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas —, o apoio
da comunidade desempenha um papel fundamental. “Os vizinhos ficam de olho nas
pessoas vulneráveis e garantem que seus entes queridos tenham os recursos
necessários para se protegerem da exposição ao calor”, afirma Amruta
Nori-Sarma, vice-diretora do Centro para o Clima, Saúde e Meio Ambiente Global
da Faculdade de Medicina de Harvard..”
O
planejamento urbano também é essencial. “Mesmo pequenas mudanças — como
adicionar assentos com sombra nos pontos de ônibus ou plantar mais árvores —
podem ter um grande impacto”, diz Choi. “Cada pedaço de verde resfria o
ambiente e ajuda todos a se manterem mais saudáveis”, concorda Ni.
Em
última análise, não se trata apenas de manter o conforto, mas de proteger a
saúde a longo prazo em um mundo em aquecimento. “Embora estejamos aprendendo
que o calor pode acelerar silenciosamente o envelhecimento em nível molecular,
isso não significa que o resultado seja definitivo”, enfatiza Choi. “Com um
planejamento mais inteligente, uma comunidade mais forte e hábitos diários que
priorizam o resfriamento e a hidratação, podemos ajudar todos a permanecerem
resilientes, mesmo com o aumento contínuo das temperaturas globais.”
Fonte:
National Geographic Brasil

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