Quais
as consequências da guerra com o Irã para os preços do petróleo e a economia
global
Os
preços globais do petróleo subiram em meio
aos ataques lançados pelo Irã no Oriente Médio em resposta
ao bombardeio realizado pelos EUA e por
Israel contra
o país.
O
petróleo do tipo Brent, referência global para a cotação da commodity, saltou
10% quando os mercados asiáticos abriram no início da segunda-feira (2/3),
chegando a mais de US$ 82 o barril.
Os
valores cederam no decorrer da manhã, mas analistas alertam que o cenário pode
ser bem diferente no caso de um conflito prolongado.
Os
mercados reagiram inicialmente à notícia de que pelo menos três navios haviam
sido atacados no fim de semana perto do Estreito de Ormuz, via marítima que
fica ao sul do Irã e é parte do caminho por onde passam cerca de 20% do
petróleo e gás do mundo.
O Irã
alertou as embarcações para que não atravessassem a região e o tráfego de
navios foi praticamente paralisado na entrada do estreito.
O
Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO, na sigla em
inglês) informou que duas embarcações foram atingidas e que um "projétil
desconhecido" teria "explodido muito perto" de uma terceira.
Após a
alta inicial, a cotação cedeu para US$ 79 o barril, enquanto o tipo negociado
nos EUA, o WTI, registrava aumento de cerca de 7,6%, negociado a US$ 72,20.
"O
mercado não está em pânico", disse à BBC Saul Kavonic, chefe de pesquisa
de energia da MST Marquee.
"Há
mais clareza de que, até o momento, a infraestrutura de transporte e produção
de petróleo não tem sido um alvo principal de nenhum dos lados",
acrescentou.
"O
mercado vai ficar atento a eventuais sinais de retomada do tráfego pelo
Estreito de Ormuz, o que faria com que os preços do petróleo voltassem a
cair", completou Kavonic.
"As
cotações do petróleo neste momento não estão particularmente altas. Ainda estão
abaixo do patamar de dois anos atrás, então ainda não estamos no modo crise do
petróleo total ainda", avaliou Robin Mills, ex-executivo da multinacional
petrolífera Shell e diretor executivo da consultoria Qamar Energy, com sede em
Dubai.
No
domingo, o grupo Opep+, que reúne países produtores de petróleo, concordou em
elevar sua produção em 206 mil barris por dia para ajudar a amortecer eventuais
aumentos de preços.
Alguns
analistas alertam, contudo, que a medida pode ser insuficiente a depender da
evolução dos acontecimentos e que o cenário de preços pode mudar
substancialmente no caso de um conflito prolongado, que poderia levar a cotação
do petróleo a ultrapassar US$ 100, com um possível efeito cascata global sobre
a inflação e as taxas de juros.
"A
turbulência e os bombardeios no Oriente Médio certamente serão um catalisador
para interromper a distribuição de petróleo globalmente, o que inevitavelmente
levará a aumentos de preços de combustíveis", pontuou Edmund King,
presidente da Associação de Automóveis britânica (AA, na sigla em inglês).
"A
magnitude e a duração dependem de quanto tempo o conflito durar."
Subitha
Subramaniam, economista-chefe e chefe de estratégia de investimento da Sarasin
& Partners, lembra que, no cenário de aumento persistente do petróleo, o
impacto pode ir além dos combustíveis e se refletir em outros preços, como o de
alimentos, produtos agrícolas e commodities industriais, com impacto importante
sobre a inflação.
Em um
quadro como esse, bancos centrais poderiam elevar as taxas de juros ou
interromper ciclos de queda como o que acontece no Reino Unido, que tem visto a
inflação ceder mais recentemente.
"Eu
diria que, sabendo hoje que é improvável que esse conflito se encerre nas
próximas uma ou duas semanas, não temos muito como saber o impacto da duração
nos mercados de energia e de transporte marítimo", pontuou Subramaniam.
A
Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou que três petroleiros foram
"atingidos por mísseis e estão em chamas". As embarcações seriam do
Reino Unido e dos EUA, que não se manifestaram sobre o assunto.
A
Organização Marítima e de Transporte Marítimo do Reino Unido informou que
"múltiplos incidentes de segurança" foram relatados no Golfo Pérsico
e no Golfo de Omã e aconselhou os navios a "navegarem com cautela".
Pelo
menos 150 petroleiros lançaram suas âncoras em águas abertas do Golfo e na área
do Estreito de Ormuz, de acordo com a plataforma de rastreamento de navios
Kpler, que também mostrou, por outro lado, que algumas embarcações iranianas e
chinesas passaram pela área nesta segunda.
"Devido
às ameaças do Irã, o estreito está efetivamente fechado", disse Homayoun
Falakshahi, da Kpler, à BBC News.
"As
embarcações tomaram a precaução de não entrar. Os riscos são muito altos e os
custos de seguro dispararam."
Falakshahi
avalia que os EUA provavelmente tentariam proteger as rotas de navegação para
permitir o tráfego de navios — o que, se eficaz, impediria uma disparada no
preço do petróleo. Se o estreito permanecesse fechado por um longo período,
entretanto, os preços poderiam subir "muito, muito mais".
Sem dar
detalhes, a UKMTO comunicou que duas embarcações foram atingidas por projéteis
desconhecidos, causando incêndios, e que um projétil desconhecido
"explodiu muito próximo" de uma terceira embarcação.
Um
quarto incidente na área também foi relatado à UKMTO, que informou que houve
evacuação da tripulação e não deu detalhes sobre as causas.
A
empresa privada de segurança marítima Vanguard Tech divulgou que incidentes
foram relatados — que coincidem com os detalhes fornecidos pela UKMTO —
envolvendo navios com bandeira de Gibraltar, Palau, Ilhas Marshall e Libéria.
O grupo
dinamarquês de transporte marítimo de contêineres Maersk afirmou em comunicado
no domingo (1/3) que suspenderá as viagens pelo Estreito de Bab el-Mandeb e
pelo Canal de Suez e redirecionará os navios ao Cabo da Boa Esperança, ao sul
do continente africano.
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Quais são os principais grupos de oposição no Irã e o que
querem para o futuro do país
O
Exército de Israel lançou no sábado (28/2) uma série de ataques contra o Irã, com a participação
dos Estados Unidos. Nestes ataques, morreu o líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026).
A
notícia foi divulgada primeiramente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e, depois, pelo
governo do Irã.
Trump
declarou que "esta é a maior oportunidade que tem o povo iraniano de
recuperar seu país".
A
mensagem do presidente americano, publicada na rede Truth Social, durou oito
minutos. Ele afirmou que, após os ataques, os iranianos devem buscar a mudança
do regime.
Estes
acontecimentos dramáticos ocorrem semanas depois dos protestos em massa verificados em
diferentes cidades do Irã, clamando exatamente pela mudança do regime do país.
Estas
manifestações foram violentamente reprimidas pelo governo de Teerã. Calcula-se
que cerca de 3 mil pessoas tenham morrido nas mãos do governo iraniano.
O Irã tem mais de 90 milhões de
habitantes. E, desde 1979, o país é uma teocracia — um sistema que reúne a
religião e a política.
A
autoridade máxima da nação não é o presidente, mas o líder supremo, o aiatolá.
E o regime controla rigorosamente as atividades políticas, os meios de
comunicação e as liberdades civis.
Ainda
assim, a oposição ao regime nunca desapareceu, embora esteja muito fragmentada,
segundo os especialistas. Grande parte está no exílio, mas ainda existem
poderosas vozes oposicionistas vivendo dentro do país.
"Os
protestos não tinham uma liderança reconhecível. Os principais dissidentes
dentro do Irã foram amplamente perseguidos, aprisionados e silenciados",
declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o pesquisador Juan
Moscoso del Prado, do Centro de Economia e Geopolítica Global da Esade
(EsadeGeo), uma instituição universitária com sede na Espanha.
"E,
embora existam outros grupos minoritários e controversos no exterior, nenhum
deles conta com legitimidade doméstica", prossegue ele. "Por isso,
não há forças alternativas claras de governo."
"O
Irã é um país complexo e, embora seu regime atravesse um momento de fraqueza
interna e externa, é um sistema com bases sólidas e ainda conserva ampla base
social, depois de ter esmagado e aprisionado toda a oposição e a dissidência
interna", explicam os analistas Haizam Amirah Fernández e Rosa Meneses, do
Centro de Estudos Árabes Contemporâneos (Cearc), com sede em Madri, na Espanha.
Ambos
recordam que, durante as mobilizações, não houve sinais de fraturas internas,
exceto por uma tímida convocação do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian,
para que se "ouvisse os manifestantes".
"Isso
significa que a liderança política e o poderio militar continuam se entendendo
e se apoiando um ao outro", prosseguem eles.
"Sem
figuras dentro do país que possam liderar a mudança, os ativistas em prol dos
direitos humanos e os líderes políticos no exílio estão dando voz, no exterior,
a centenas de milhares de iranianos que pedem uma reviravolta nas ruas."
Mas os
ataques de sábado (28/2) colocam esta unidade à prova. E estes são os quatro
principais grupos de oposição iranianos:
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Reza Pahlavi e os monarquistas
Em
2018, um grupo de 40 ativistas políticos iranianos radicados fora do país se
associou ao ex-príncipe herdeiro Reza Pahlavi, fundando um grupo de oposição
que apoiava a política de "máxima pressão" do governo Trump em
relação ao Irã.
Durante
os protestos, foram ouvidos mais do que nunca os cânticos exigindo o retorno de
Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã. Ele se encontra exilado nos Estados
Unidos.
"Eles
pedem o seu retorno, para que reúna a oposição e lidere a transição para um
Estado secular", explica Ali Dashti da BBC News Persa.
"Agora,
com as manifestações sendo produzidas por toda a nação, ele voltou a se
apresentar como alternativa, no caso de mudança de regime."
Em
2022, Reza Pahlavi apresentou um plano de 100 dias para um governo interino no
país.
"Não
se trata de restaurar o passado", declarou ele aos jornalistas.
"Trata-se de garantir um futuro democrático para todos os iranianos."
Reza
Pahlavi não vive no país há quase meio século. Nascido em Teerã, ele é o filho
mais velho do último líder da dinastia Pahlavi, o xá Mohammad Reza Pahlavi
(1919-1980).
O xá
governou o país com apoio dos Estados entre 1941 e 1979, quando foi derrubado
pela Revolução Islâmica.
Desde
então, o herdeiro se transformou em um dos mais reconhecidos críticos do
aiatolá Khamenei e promove a transição democrática do seu país.
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MKO: os mujahedins do povo iraniano
Acredita-se
que o MKO seja um dos maiores grupos da oposição iraniana no exílio.
Eles
têm dinheiro e influência, "mas a maioria das pessoas dentro do Irã os
odeia", segundo Dashti.
"Existem
provas de que seus membros participaram da guerra Irã-Iraque (1980-1988), mas
pelo lado dos iraquianos. Fala-se que eles 'têm sangue nas suas mãos', mas
muitos os reconhecem como o mais forte grupo opositor iraniano", explica o
jornalista da BBC News Persa.
Pouco
depois da Revolução de 1979, o grupo se voltou contra o governo, que proibiu a
participação nas eleições do seu líder, Massoud Rajavi, e começou uma luta
armada para derrubar o regime.
Rajavi
não é visto em público há anos, gerando rumores sobre sua morte. Seus
partidários se referem à sua esposa, Maryam Rajavi, como "presidente do
Irã no exílio".
"É
uma oposição muito poderosa, devido aos seus contatos com figuras de alto
perfil do governo dos Estados Unidos e de outros países, como a Alemanha, o
Reino Unido e a Espanha", afirma Dahsti.
"De
tempos em tempos, eles realizam conferências, à qual comparecem políticos
ativos e ou que já tiveram muita relevância."
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Os reformistas
Este
grupo é formado por ex-funcionários, clérigos críticos e políticos que pedem
mudanças graduais do lado de dentro, mas sua margem de manobra é muito
limitada.
Com o
tempo, o grupo sofreu uma grande ruptura entre os que acreditam que reformar o
Irã não será suficiente e querem mudar o país por completo e os que pensam que
o país só precisa de algumas reformas.
Entre
os que endureceram sua visão e defendem um Estado secular e democrático, que
separe as questões religiosas das civis, estão seus ex-líderes.
Um
deles é o ex-primeiro-ministro Mir-Hossein Mousavi, que se encontra em prisão
domiciliar desde fevereiro de 2011.
O
ex-presidente do Parlamento iraniano e ex-candidato a presidência Mehdi
Karroubi, muçulmano erudito, também faz parte deste grupo. Como Mousavi, ele
foi colocado em prisão domiciliar em 2011 e libertado em 2025.
Também
se destaca neste grupo Mostafa Tajzadeh, que foi vice-ministro do Interior do
governo do ex-presidente Mohammad Khatami (1997-2005). Suas principais críticas
são dirigidas ao aiatolá Khamenei.
No
outro lado do espectro, surgem figuras muito midiáticas do país, como o
acadêmico Mohammad Fazeli, os ex-presidentes Hassan Rouhani (2013-2021) e
Mohammad Khatami e o jornalista Abbas Abdi.
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Movimento 'Mulher, Vida e Liberdade'
A
inflação do Irã atinge 50% e a moeda local, o rial, já sofreu desvalorização de
68% no mercado paralelo este ano.
Os
cortes de eletricidade, a falta de água e a perda de
poder aquisitivo se estenderam a todas as classes sociais.
Estes
fatores geraram grande descontentamento entre os cidadãos iranianos, que
protagonizaram protestos cíclicos nos últimos 20 anos.
Em
2009, a sociedade saiu às ruas com a Revolução Verde, que foi violentamente
reprimida. O mesmo ocorreu em 2011 e 2019, com igual reação por parte do
governo.
A morte
sob custódia policial da jovem Mahsa Amini (1999-2022), detida por não vestir o
véu "adequadamente", gerou uma nova explosão de manifestações.
"A
mão de ferro brutal voltou a se fechar sobre os ativistas, na sua maioria
jovens de uma geração que não se identificava com os valores e as imposições
ideológicas da República Islâmica", recordam os analistas do Centro de
Estudos Árabes Contemporâneos (CEAC).
Foi
naquele momento que surgiu o movimento "Mulher, Vida e Liberdade",
reunindo vários grupos pequenos e distintos que têm em comum ideias de
esquerda.
O
movimento surgiu de forma espontânea, descentralizada e muito forte entre
mulheres, jovens e minorias.
"Aqui
encontramos, por exemplo as associações feministas, os jovens, os partidos das
etnias curdas e os baluch,
uma das minorias étnicas e religiosas mais importantes do Irã", explica
Dashi. "Estes dois últimos grupos buscam maior autonomia, não
necessariamente a secessão.
Moscoso
del Prado destacou que os líderes das manifestações no interior do país eram
"uma geração jovem, de menos de 30 anos, que representam a metade da
população iraniana, muitos deles mulheres e com nível superior."
"São
a mesma geração que liderou os protestos pelos direitos das mulheres em
2022", explica ele. "Os dois episódios tiveram forte repercussão e
apoio entre a diáspora iraniana que mora nas capitais europeias e nos Estados
Unidos."
Agora,
a questão é qual será o papel da fragmentada oposição iraniana com os novos
ataques americanos e israelenses ao Irã.
Fonte:
BBC News Persa

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