terça-feira, 3 de março de 2026

Viena troca vagas para carros por mais áreas verdes

Procurar vaga para estacionar em uma grande cidade é tarefa que pode levar muito tempo. Os moradores de Los Angeles, por exemplo, gastam mais de 80 horas por ano procurando onde parar o carro. A situação não é muito melhor em Londres, Paris, Frankfurt e outras áreas metropolitanas.

Embora os estacionamentos possam parecer pequenos quando vistos individualmente, eles desempenham um papel fundamental na configuração da paisagem urbana. A maioria das cidades americanas dedica pelo menos 25% de sua área edificável a eles; algumas, até mais.

Esse uso do solo não apenas molda a aparência de uma cidade, como também leva à cobertura de grandes áreas urbanas com asfalto, que absorve muito calor. Assim, as cidades ficam mais quentes no verão. Superfícies impermeabilizadas impedem a infiltração da água no solo, aumentando o risco de inundação durante chuvas fortes.

Por isso, muitas municipalidades estão questionando quanto espaço desejam destinar ao estacionamento de carros no futuro.

<><> Viena inova

Viena também é conhecida pelo trânsito congestionado e pela frustrante busca por vagas de estacionamento. A capital austríaca está lidando com o problema de uma maneira bastante incomum: em vez de criar novas vagas, está removendo cada vez mais. Em primeiro lugar, o concreto será desmontado e transformado em espaços verdes refrescantes. Em segundo lugar, espera-se que isso incentive mais pessoas a optarem por meios de transporte alternativos.

Mais de 350 projetos têm como foco a conversão de asfalto em espaços públicos e parques. Mesmo em uma praça central e bem conhecida, a Neuer Markt, muitas vagas de estacionamento foram retiradas. Essa praça fica próxima a diversas atrações turísticas populares. Antes, ela tinha espaço para muitos carros. Agora, a praça é uma área só para pedestres, com árvores e bancos.

Uma das principais artérias viárias de Viena também foi transformada em uma rua para bicicletas: 140 vagas de estacionamento deram lugar a canteiros com plantas e 1,3 quilômetro de ciclovias.

As medidas de requalificação urbana também abriram caminho para os chamados "oásis da vizinhança". Nesses projetos, os moradores podem solicitar às administrações distritais a conversão de vagas para carros individuais. Essas vagas são então transformadas em jardins comunitários, áreas de piquenique ou parques infantis.

Outra mudança: não existem mais vagas de estacionamento gratuitas em Viena. Em 2022, foi implementado um sistema de gestão de estacionamento em toda a cidade, e desde então todas as vagas de estacionamento na rua são pagas. Não residentes só podem estacionar por um total de duas horas.

<><> Forte apoio a mais áreas verdes

Como estacionar no centro de Viena se tornou mais difícil, a cidade criou alternativas ao tráfego de carros , como estacionamentos "park and ride" para quem usa transporte público. Esses grandes estacionamentos oferecem tarifas diárias acessíveis e estão diretamente conectados ao sistema de transporte público, igualmente acessível, eficiente e rápido.

Para obter o apoio público a essas mudanças, é crucial que os moradores se mantenham ativos, afirma Ina Homeier, do escritório de planejamento urbano de Viena. "Precisamos envolver as pessoas. Precisamos perguntar: como você gostaria que fosse o seu bairro? Você o quer sem árvores, mas cheio de carros, ou prefere algo diferente?"

A expansão das zonas de estacionamento pago gera para os cofres de Viena 180 milhões de euros (R$ 1,1 bilhão) anualmente. A cidade investe esse dinheiro diretamente em sua infraestrutura cicloviária. E o plano está claramente funcionando: hoje, os vienenses usam 37% menos carros em comparação com a década de 1990.

Pesquisas mostram que mais de dois terços da população apoiam a redução do número de vagas de estacionamento e a criação de mais áreas verdes. No entanto, é preciso convencer mais pessoas, afirma Homeier.

<><> Mais espaço para as pessoas

"Recuperar parte do espaço que cedemos aos carros é uma questão politicamente muito delicada", afirma o jornalista americano Henry Grabar, autor do livro Paved Paradise: How Parking Explains the World ("Paraíso Asfaltado: Como Estacionamentos Explicam o Mundo", em tradução livre). Isso porque muitos motoristas – "e muitos não têm outra opção", acrescenta Grabar – veem isso como um ataque aos seus meios de subsistência e à sua mobilidade.

Isso é especialmente verdade nos EUA, um país obcecado por carros, onde 92% dos domicílios possuem pelo menos um veículo. Lá, os motoristas são um importante grupo político que influencia a política local e o planejamento urbano, tornando reformas como as de Viena um verdadeiro desafio.

No entanto, muitas cidades americanas estão tentando reduzir suas vagas de estacionamento. A cidade de Dallas, no Texas, transformou recentemente um grande estacionamento no centro da cidade em um parque público de 3,7 hectares. Cidades como Nova York e São Francisco experimentaram reformulações durante a pandemia de coronavírus: vagas de estacionamento foram inicialmente convertidas em áreas temporárias e, posteriormente, permanentes para restaurantes colocarem suas mesas.

Aumentar as taxas de estacionamento não só reduz a procura por vagas, como também pode impulsionar a receita da cidade.

"Muitas cidades com orçamentos limitados estão agora reconhecendo as oportunidades que isso representa", diz Dana Yanocha, pesquisadora do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento na cidade de Washington. "As ruas são essencialmente um dos ativos mais valiosos que as cidades possuem."

<><> Alternativas ao carro

Segundo Yanocha, outras grandes cidades americanas, como San Jose (Califórnia) e Austin (Texas), também começaram a revogar regulamentações municipais que exigem um número mínimo de vagas de estacionamento para os novos edifícios. Isso permite que as construtoras criem mais espaço para moradias ou outras comodidades, ajudando a mudar as expectativas em relação ao uso de carros na cidade.

Essa mentalidade só pode ser mudada se existirem alternativas reais, enfatiza a urbanista vienense Ina Homeier. Isso se aplica particularmente ao tema dos carros, porque muitas pessoas acreditam ter o direito de possuir um. "É preciso oferecer uma alternativa mais barata e melhor."

 

Fonte: DW Brasil


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