Sara
York: O Censo Escolar 2025 revelou o que ninguém queria admitir
Com 46
milhões de matrículas e queda de 1,08 milhão em um ano, o Brasil entra numa
nova fase demográfica. Avança no tempo integral e melhora o registro de raça,
mas encara o desafio de não transformar retração numérica em encolhimento
simbólico...
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Em
2024, uma escola primária na província de Ehime, no Japão, manteve suas portas
abertas para apenas dois estudantes até a formatura no 6º ano. Houve cerimônia,
planejamento pedagógico, rotina completa. Depois, encerrou as atividades. A
cena circulou o mundo como exemplo de compromisso educacional em meio ao
declínio populacional japonês.
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Enquanto
isso, regiões da China como Pequim, Xangai, Jiangsu e Guangdong continuam
figurando entre as mais altas pontuações do PISA, avaliação coordenada pela
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico por meio do Programme
for International Student Assessment. Lá, escala e desempenho caminham juntos,
sustentados por forte cultura de exames e planejamento sistêmico.
O
Brasil, em 2025, encontra-se entre essas duas imagens. Nem escola quase vazia
preservada até o último dia, nem sistema que lidera rankings globais. O país
vive outra tensão. A dos números que encolhem.
Segundo
os dados preliminares do Censo Escolar 2025, coordenado pelo Instituto Nacional
de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Brasil registra 46
milhões de matrículas na educação básica, distribuídas em aproximadamente 178,8
mil escolas públicas e privadas. O dado impressiona pela magnitude, mas o que
chama atenção é a variação. Houve redução de cerca de 1,08 milhão de matrículas
em relação a 2024, queda de 2,29 por cento em apenas um ano.
Não se
trata de simples evasão, aliás o tema evasão tem sido tratado por trabalhos de
excelência com levantamentos e prognósticos, nesse momento trata-se de
transição demográfica. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística já
vinha sinalizando o encolhimento da população em idade escolar nos
levantamentos recentes. A base da pirâmide etária brasileira diminui. Estamos
caminhando para um planeta mais maduro em vários níveis e isso é discutido a
partri da taxa de fecundidade em abaixa nessa sequencia de nível de reposição
nos últimos anos. Menos crianças entram na escola e a pergunta não é se o
sistema vai mudar, é como preceder os dilemas?
O Censo
2025 aponta também movimentos estruturais positivos. O percentual de matrículas
em tempo integral alcançou 25,8 por cento, cumprindo a Meta 6 do Plano Nacional
de Educação. Um quarto dos estudantes da educação básica permanece na escola em
jornada ampliada. Em territórios vulneráveis, isso significa mais que carga
horária. O que significa proteção social, alimentação, acesso a atividades
culturais e esportivas. Fruto de muito esforço político e empenho de várias
vias (sociais, institucionais e governamentais)
Outro
avanço está na redução da distorção idade-série na rede pública entre 2021 e
2025, tanto no ensino fundamental quanto no médio. A defasagem sempre foi um
dos indicadores mais cruéis do sistema brasileiro, associada à repetência,
estigmatização e abandono. Sua queda sinaliza melhoria no fluxo escolar e maior
regularidade nas trajetórias.
A
professora Dra. Maria Luiza Sussekind (UNIRIO) afirma que “a ampliação das
matrículas em tempo integral e a redução da distorção idade-série aparecem como
avanços estatísticos, mas não podem ser automaticamente equiparados a melhoria
efetiva da qualidade educacional. Esses indicadores derivam de modelos
padronizados de política curricular que nem sempre respondem às desigualdades
territoriais e diferenças culturais, e podem, inclusive, produzir efeitos
indesejados em escolas do campo e comunidades tradicionais, quando não
contemplam a diversidade de contextos e necessidades formativas.”
Ainda
há um dado que pode alterar qualitativamente o debate público. A ausência de
declaração de cor e raça nos registros escolares caiu de 25,5 por cento em 2023
para 13,6 por cento em 2025. O campo tornou-se obrigatório nos registros
administrativos desde 2018, mas apenas agora os efeitos aparecem de forma mais
consistente. Isso significa maior precisão para analisar desigualdades
históricas.
Sem
dado racial confiável, a desigualdade é opinião. Com dado, ela se torna
evidência.
Até o
momento, os textos de divulgação pública não trazem cruzamentos detalhados por
gênero e raça distribuídos por estados e municípios. Para análises
aprofundadas, é necessário acessar microdados e painéis técnicos. A informação
existe e a interpretação exige rigor e é aqui que começa o ponto central.
A
redução de matrículas pode ser lida sob duas lógicas. A primeira é fiscal,
menos alunos, menos necessidade de investimento, fechamento de escolas,
enxugamento da rede. A segunda é pedagógica, menos alunos, possibilidade de
reduzir o tamanho das turmas, ampliar acompanhamento individualizado,
qualificar práticas docentes.
Qual
lógica prevalecerá?
O
Brasil já experimentou o fechamento massivo de escolas rurais nas últimas
décadas. Cada escola encerrada não é apenas prédio vazio, mas uma ruptura de
vínculo comunitário. Em muitos territórios, a escola é o último equipamento
público ativo.
Ao
mesmo tempo, a expansão do tempo integral e a melhoria nos registros raciais
indicam que o país pode estar entrando numa fase de maior sofisticação
administrativa. A base estatística se torna mais robusta. Isso permite avaliar
se políticas chegam de forma equitativa a diferentes grupos.
Mas
números não são neutros, como temos aprendido com nossos dados nacionais
comparados aos transnacionais e internacionais. Pensar a escola pública
brasileira exige reconhecer que ela opera também como espaço de aculturação. O
currículo oficial ainda privilegia matrizes eurocêntricas como fundamento
universal. Saberes indígenas aparecem como tradição, os saberes
afro-brasileiros são frequentemente tratados como manifestação cultural,
raramente como epistemologia. Saberes periféricos urbanos ou atrelados a gênero/sexo
dificilmente entram como teoria social legítima.
A
violência simbólica descrita por Pierre Bourdieu ajuda a compreender esse
mecanismo. A dominação se instala quando o estudante internaliza a hierarquia
que o desautoriza. O jovem negro que não encontra intelectuais negros no
currículo aprende silenciosamente que sua história não é fundadora. O estudante
indígena que vê sua cosmologia tratada como passado aprende que seu povo não
ocupa o presente. O adolescente periférico cuja linguagem é constantemente
corrigida aprende que sua forma de falar é erro.
Quando
cruzarmos, nos próximos meses, dados de rendimento, abandono e distorção com
raça e território, talvez encontremos padrões que revelam mais do que
dificuldades individuais. Revelam estruturas.
A
evasão no ensino médio, por exemplo, não pode ser analisada apenas como
abandono. À luz da Sociologia do Conflito, trata-se de choque entre
temporalidades. A escola organiza o tempo na lógica da promessa. Estude hoje
para colher amanhã. A periferia vive na lógica da urgência. Trabalhe hoje para
sobreviver amanhã.
O
diploma continua sendo promessa de mobilidade, mesmo diante de uma infinidade
de midiativistas e influencer que produzem com critérios ignorados pelos
grandes operadores e tecnocratas da intelectualidade. Mas a crença nessa
promessa depende de experiências concretas, em territórios onde diplomados
permanecem desempregados ou subempregados, a narrativa meritocrática se
fragiliza absurdamente. Tenho percebido que por ser doutora em Educação e
bolsista FAPESP produzo algum lastro, ainda insignificante, diante dos
herdeiros do neo/liberalismo produzido nas estradas super pavimentadas do mundo
acadêmico. Mas, o que mais?Sucesso passa a significar autonomia imediata, renda
própria, apoio à família precisa ser deslocado da narrativa do vencedor.
Os 46
milhões de estudantes matriculados em 2025 vivem nessa encruzilhada. Entre a
promessa institucional e a urgência material, entre a universalidade proclamada
e a experiência localizada. O que devo fazer, agradar o mundo meritocrático ou
acreditar na onda crescente das contra-narrativas?
O
Brasil não é o Japão, que enfrenta declínio populacional radical, nem a China
que organiza com excelência a estatística em larga escala, enquanto vive sua
própria inflexão histórica. A queda de 1,08 milhão de matrículas em um único
ano não é detalhe, é um sinal de que a escola brasileira precisará redefinir
seu tamanho, sua função e sua narrativa.
Se a
redução demográfica for tratada apenas como ajuste orçamentário, perderemos
oportunidade histórica, se for lida como chance de qualificar a experiência
escolar, ampliar tempo integral com equidade racial e territorial, fortalecer
vínculo comunitário e descentralizar epistemologias, podemos transformar
retração em maturidade sistêmica.
Assim o
Censo Escolar 2025 deixa de ser apenas uma planilha para se tornar um potente
espelho, mostrando um país que encolhe na base etária, mas pode crescer em
qualidade, ele mostra um sistema que melhora seus registros raciais e avança no
tempo integral. Tempo integral ainda problemático e que precisa enfrentar
desigualdades estruturais profundas.
Entre
números que diminuem e desafios que persistem, a pergunta que permanece é
intelectual e política. O que significa sustentar uma escola pública no século
XXI?
Se for
apenas manter matrículas, perderemos o sentido. Se for sustentar um projeto de
país, mesmo quando os números caem, talvez possamos aprender algo com aquela
escola quase vazia em Ehime.
Lembrando
que a educação não é quantidade, doutorado continuidade e compromisso
civilizatório. E que 2026 torne-se o ano em que decidimos qual compromisso
queremos assumir para os próximos anos. Ano eleitoral é mais sobre nós e muito
menos sobre “eles", afinal estamos nós nesse mesmo grande barco.
Fonte:
Brasil 247

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