O
“fim” das cotas raciais em Santa Catarina
Inaugurando
o ano eleitoral em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello (PL) sancionou
uma lei estadual que proibiria a adoção das “cotas raciais” em universidades
públicas do estado e em instituições privadas que recebam recursos do ente
estadual (lei 19722/2026).
Tais
ataques direcionados às reservas de vagas para populações negras e indígenas
não se apresentam, entretanto, como uma “novidade” do lamentável reacionarismo
catarinense, uma vez que eles têm ocorrido antes e depois da histórica
declaração sobre a constitucionalidade das “cotas raciais” pelo STF, em 2011.
Além de
refletir sobre as razões que posicionam reiteradamente as “cotas raciais” (e
não as “sociais”) sob essa seletiva mira ideológica, também buscamos sugerir,
ao final do texto, algumas estratégias de ação e discurso imaginadas para
reagir a este padrão repetido de ataques.
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Por que as “cotas raciais” são repetidamente atacadas?
A
política brasileira de ação afirmativa foi construída ao longo das duas
primeiras décadas do século XXI, apresentando-se, atualmente, como o maior
programa de reserva de vagas para o ensino superior do mundo. Desde o início
dos anos 2000, ela abrange duplamente as cotas “sociais” e “raciais”.
A
primeira dessas modalidades de ação afirmativa focaliza os egressos de escola
pública (com baixa renda ou não), independentemente de suas identificações
raciais, enquanto a segunda modalidade determina a reserva específica de vagas
para os candidatos “não brancos” (pretos, pardos e indígenas), igualmente
originados de estabelecimentos públicos de ensino médio.
Essa
sobreposição intencional entre as cotas “sociais” e “raciais” refletiu a
percepção crítica de que as desigualdades de acesso ao ensino superior seriam
reproduzidas tanto por fatores materiais (baixa renda familiar e precariedade
da educação pública) quanto por fatores simbólicos, referentes aos efeitos
psicossociais desestabilizadores que a discriminação racial pode exercer sobre
a subjetividade e a escolaridade de crianças e jovens “não brancos”.
Como
sabemos, a baixa renda familiar e a precariedade da educação pública afetam as
possibilidades de indivíduos e famílias realizarem os investimentos de longo
prazo necessários para acessar bons estabelecimentos de ensino superior. Assim,
quanto menor a renda de uma família, menor será a probabilidade de que seus
filhos consigam realizar tais investimentos de longo prazo.
Além
disso, quanto mais precária for a educação básica ofertada a essas crianças e
jovens pobres, menores serão as chances de que esses investimentos de longo
prazo, mesmo quando concluídos, possam assegurar o acesso dessas crianças e
jovens às melhores instituições de ensino superior, geralmente públicas em
nosso país.
Essas
privações de ordem material incidem sobre a escolarização de pessoas brancas e
negras de origem pobre. Entretanto, no caso dos indivíduos e famílias “não
brancos”, tais obstáculos materiais são reduplicados pelos efeitos negativos da
discriminação racial em ambientes escolares e extraescolares.
Em uma
sociedade profundamente desigual como a nossa, o efeito das restrições
materiais sobre a escolaridade dos pobres é evidente. Nesse contexto, o apoio
às “cotas sociais” costuma ser bastante amplo nos sucessivos levantamentos de
opinião realizados desde a implementação da “Lei de Cotas” (lei federal
12.711), em 2012.
Uma
situação diversa caracteriza, entretanto, o apoio declarado às “cotas raciais”
nessas mesmas pesquisas. Assim, em um levantamento realizado a partir de uma
amostra representativa da sociedade brasileira em 2024, o instituto Datafolha
afirmou que 83% dos respondentes declararam-se favoráveis às “cotas sociais”
enquanto as “cotas raciais” foram apoiadas por 42% dos indivíduos que
responderam a mesma pesquisa.
Com
base em tais dados, não seria razoável afirmar que poucos brasileiros e
brasileiras apoiam as “cotas raciais”. Afinal, a taxa de 42% dos indivíduos, em
uma amostra representativa da população nacional, certamente não é baixa. Ainda
assim, é necessário observar que essa taxa de apoio às cotas “raciais”
representou praticamente a metade da proporção dos entrevistados favoráveis às
“cotas sociais” (42% contra 83%, segundo a pesquisa mencionada).
Nesse
sentido, o menor apoio às “cotas raciais” revela a persistente insensibilidade
de amplas frações da sociedade brasileira quantos aos efeitos negativos que a
discriminação racial pode exercer sobre a subjetividade e a escolaridade de
crianças e jovens “não brancos” no país. Tais propensões à invisibilização da
existência e dos efeitos do racismo não nos surpreendem quando consideramos que
nossa moderna identidade nacional foi forjada, ao longo de todo o século XX, a
partir da ideologia da “democracia racial”, ou seja, através da falsa
consciência sobre o caráter supostamente amistoso e harmonioso de nossas
relações raciais.
Racionalizada
e difundida por instituições do Estado e da cultura brasileira de massas, o
mito da “democracia racial” moldou, então, percepções e consciências a partir
da falsa crença de que a fonte das desigualdades e injustiças brasileiras seria
de natureza puramente socioeconômica, e não racial.
A força
inercial dessa velha ideologia – ultrapassada no campo intelectual, mas ainda
ativa no campo político – parece repor continuamente as oportunidades políticas
de atacar as “cotas raciais”, apresentando-as como um suposto “privilégio” que
inviabilizaria o princípio meritocrático no país.
Assim,
ao combinar as ideologias da “democracia racial” e da “meritocracia” (“as cotas
raciais desvirtuam a meritocracia, uma vez que vivemos numa democracia
racial”), esse tipo de produção discursiva torna-se capaz de reatualizar as
principais habilidades políticas da extrema direita no Brasil e no mundo,
dividindo, polarizando e escandalizando indivíduos e famílias que ocupam
diferentes posições do espaço social brasileiro, conforme veremos abaixo.
Para
compreender a rentabilidade política dessa estratégia divisiva, não basta
apontarmos apenas para a mórbida sobrevivência do mito da “democracia racial”
em tais atos e discursos.
Também
é necessário examinar um dos terrenos movediços em que nós, da esquerda, não
cansamos de nos afundar… Refiro-me aqui à irresistível força moral e emocional
que o ideal meritocrático costuma assumir nas “histórias profundas”, isto é,
nas narrativas que pessoas e famílias, de diferentes origens sociais, recontam
para si e para os outros, buscando encontrar sentido e explicação para suas
conquistas e fracassos no sistema educacional, no mercado de trabalho ou no
universo do empreendedorismo.
Movidos
pelo imperativo psíquico de proteger uma “imagem de si” razoavelmente positiva
e segura, tanto as pessoas e grupos dominantes, como as que ocupam posições
socialmente inferiorizadas, buscam mobilizar (ainda que diferentemente) a noção
de “mérito” para atribuir sentido e explicação a suas aventuras e desventuras
no espaço social.
Nas
camadas dominantes, indivíduos e famílias tendem a superestimar seu “esforço”,
“disciplina” ou “talento” (individuais ou coletivos) como forma de justificar
suas altas posições sociais.
Como
sabemos, tais disposições comportamentais revelam-se geralmente como
“necessárias”, mas raramente como “suficientes” para moldar percursos
socioeconômicos bem-sucedidos, uma vez que a acumulação e a transmissão
familiar dos capitais cultural e econômico, a branquitude e os múltiplos
efeitos do capital social conformam, junto a outros fatores contingenciais, uma
verdadeira loteria social dos nascimentos que, a cada geração, redistribui
desigualmente as probabilidades e chances de “sucesso” socioeconômico entre as
múltiplas clivagens de classe, raça e gênero que estratificam nossas
sociedades.
Por
outro lado, pessoas e grupos em posições desprivilegiadas tendem inversamente a
realçar ou a fantasiar o papel de “leis”, “políticas”, “governos” ou “partidos”
que teriam prejudicado suas chances de “sucesso”, impedindo a concorrência
justa pelas posições sociais que eles desejavam.
Logo, o
ideal meritocrático pode ser compreendido como uma poderosa força moral e
emocional mobilizada para narrar as “histórias profundas” tanto de pessoas e
grupos localizados em posições elitizadas quanto daqueles que ocupam posições
socialmente inferiorizadas. Nesse contexto, gritar contra as “cotas raciais”,
em nome de um ideal vago de “meritocracia”, revela-se como uma produção
discursiva capaz de ativar importantes gratificações psíquicas e fortes
identificações políticas em pessoas e grupos desigualmente posicionados na
estrutura social.
Nas
posições privilegiadas, a chance de protestar contra as “cotas raciais”
reatualiza as formas de sublimação dos medos e fantasias que todo e qualquer
grupo dominante nutre (individual e coletivamente) sobre a possibilidade de ver
suas posições e privilégios serem contestados ou ameaçados por membros dos
grupos dominados.
Na
literatura sobre relações raciais, esses sentimentos coletivos de ansiedade e
insegurança costumam ser denominados como o “medo branco”: uma força emocional
e coletiva, recorrentemente estimulada por elites brancas, que pode movimentar
discursos e práticas (explicitamente reacionários e potencialmente agressivos)
voltados à manutenção do status quo, duplamente social e racial, em países de
longo passado escravista, como o Brasil e os EUA.
Já para
indivíduos e famílias brancas em posições desprivilegiadas, a situação é
diferente. Para eles, a universidade pública costuma ser enxergada como um
destino educacional estranho e distante. Não parece haver aqui, portanto, um
“medo branco” de que esses tradicionais espaços (as universidades públicas) de
reconversão dos capitais “não meritocráticos” (porque herdados da família) em
capitais “meritocráticos” (porque incorporados pelos indivíduos) seja invadido
por pessoas e grupos “não brancos”, uma vez que esses brancos pobres também
estão geralmente excluídos das instituições universitárias de excelência no
país.
Entre
as pessoas e famílias brancas em posições desprivilegiadas, portanto, não
parece haver propriamente um “medo branco”, mas sim um “ressentimento branco”.
Afinal, nesse quadrante do espaço social, o protesto contra as “cotas raciais”
pode canalizar sentimentos de desamparo e raiva com relação a “leis”,
“governos” ou “partidos” que supostamente focalizariam suas políticas sociais
sobre as clivagens de raça, gênero e sexualidades em relação às quais esses
brancos (pobres ou de classe média baixa) não se sentem pertencentes.
Logo,
para esses grupos, a oposição às “cotas raciais” pode equivaler a uma catarse
de seus sentimentos de raiva e desamparo, ideologicamente distorcidos pela
polarização racial implicitamente estimulada pelo discurso da extrema direita.
Em
suma, portanto, torna-se possível afirmar que a extrema direita poupa as “cotas
sociais” com o objetivo de contestar repetidamente a existência das “cotas
raciais”, em função de seu menor apoio popular. Tal estratégia busca reabilitar
a velha ideologia da “democracia racial”, acusando as “cotas raciais” de
inviabilizarem a meritocracia no país.
Exercitando
tal discurso – antes e depois da histórica afirmação da constitucionalidade das
“cotas raciais” pelo STF em 2011 – a extrema direita brasileira busca se
apropriar, de tempos em tempos, dessa modalidade específica de ação afirmativa
como um mote para dividir, polarizar e escandalizar indivíduos e famílias
desigualmente localizados no espaço social brasileiro, explorando o peso moral
e emocional assumido pelo ideal meritocrático nas “histórias profundas” dessas
pessoas e grupos familiares.
Mas, em
tal contexto, como poderíamos diminuir progressivamente a rentabilidade desse
tipo de estratégia? Na conclusão do texto, apresentamos três agenciamentos
discursivos voltados à promoção da política brasileira de ação afirmativa. Tais
sugestões foram concebidas tanto a partir de nossa análise sobre a
rentabilidade política dos ataques às “cotas raciais”, quanto através de nossa
participação em uma iniciativa de extensão universitária, voltada à difusão de
informações e orientações sobre as ações afirmativas em colégios estaduais da
região metropolitana de Florianópolis.
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O que fazer?
Para
concluir o texto, discutiremos os seguintes pontos que nos parecem relevantes
para modular nossas ações e discursos voltados à defesa e promoção da política
brasileira de cotas para o ensino superior:
(i) A
necessidade de frisar incessantemente que existem cotas “sociais” e “raciais”,
que atendem tanto a estudantes “brancos” quanto aos “não brancos”.
Tanto
as campanhas de difamação das ações afirmativas, quanto o amplo desconhecimento
sobre a política de cotas, frequentemente observado entre estudantes de
colégios estaduais, tornam necessária a exposição clara e contínua dos
critérios e regras criados por essa importante política pública. Nesse aspecto,
representações visuais (como diagramas, mapas mentais e, eventualmente, vídeos
gerados por inteligência artificial) podem ser bastante úteis para a
comunicação pública dessas regras e critérios.
(ii) A
necessidade de explicar que, embora as privações materiais possam alcançar
tanto os estudantes brancos quanto os “não brancos”, as populações “não
brancas” (isto é, os pretos, pardos e indígenas) sofrem historicamente com
diferentes formas de discriminação racial (dentro e fora da escola) que
justificam a existência das “cotas raciais”.
Consideramos,
primeiramente, que a exposição das justificativas da política brasileira de
ação afirmativa deveria integrar efetivamente o próprio currículo escolar do
ensino médio, sendo abordada, em caráter transversal, junto aos conteúdos de
história e cultura africana e afro-brasileira, já previstos pela Lei 10.639 de
2003.
Ademais,
também acreditamos que a produção e a difusão de relatos e depoimentos sobre
episódios de “racismo escolar” poderiam sensibilizar/conscientizar frações da
sociedade civil com relação às consequências da discriminação racial sofrida
por crianças e adolescentes “não brancos” no país.
Dessa
maneira, tais relatos e depoimentos podem combater tanto os efeitos
dissimuladores da ideologia da “democracia racial”, quanto os sentimentos de
vergonha e de constrangimento que, compreensivelmente, desincentivam negros e
indígenas a tornarem públicas as experiências de discriminação que afetaram
suas infâncias e adolescências nas instituições de ensino.
(iii) A
necessidade de argumentar que as cotas são uma política verdadeiramente
“meritocrática”, uma vez que elas não “acabam” com a concorrência por vagas e
empregos públicos. Com efeito, elas tornam essa competição mais justa ao
possibilitar que indivíduos concorram com outros candidatos que possuam
condições socioeconômicas parecidas com as suas.
A
pertinência de tal argumento emerge à luz da força emocional e moral que o
ideal de “mérito” costuma assumir nas “histórias profundas” de indivíduos e
famílias localizados em diferentes posições do espaço social. É verdade que, do
ponto de vista sociológico, nós temos excelentes argumentos e evidências para
demonstrar que a meritocracia se afigura como uma ilusão social,
ideologicamente constitutiva das sociedades capitalistas e republicanas.
Politicamente,
entretanto, defender as “cotas” afirmando que a “meritocracia” seria “pura
ilusão” – como muitas pessoas e organizações de esquerda o fazem – não parece
ser um argumento dos mais persuasivos uma vez que, no plano político, esse tipo
de discurso costuma insultar “os de cima” e, não raramente, constranger “os de
baixo”, dada a intensidade moral e emocional assumida pelo ideal meritocrático
nas consciências e na moralidade de diferentes camadas sociais.
A
rigor, tal escolha discursiva também não faz justiça aos próprios beneficiários
das ações afirmativas, dado que eles possuem “mérito” inegável em terem sido
legitimamente aprovados nas regras de concorrência estabelecidas pela política
de ação afirmativa.
Quando
o governador Jorginho Mello afirma que as “cotas raciais” acabam com a
“meritocracia”, é ele quem demonstra sua mal intencionada ignorância quanto ao
fato de que, no exame vestibular para a carreira de medicina da UFSC no campus
de Florianópolis, por exemplo, cada um dos cotistas negros e de baixa renda –
que ingressaram no curso em 2025 – tiveram que estudar e se esforçar bastante
para superar o desempenho dos outros 25 candidatos com os quais eles
concorreram nessa modalidade específica de cota.
Graças
à política de ação afirmativa, portanto, esses 26 candidatos (negros e pobres)
puderam enfrentar uma concorrência mais justa, não sendo forçados à competição
irrealista com egressos de colégios de elite, cujas condições econômicas e
psicossociais são absolutamente singulares no contexto brasileiro.
Assim,
a todo ano, milhares de candidatos e candidatas inscritos nas “cotas sociais”
ou “raciais” de nossos institutos e universidades públicas adquiriram os mesmos
direitos à competição justa desde a consolidação da política brasileira de ação
afirmativa, há mais de uma década.
Nesse
sentido, concluímos o texto com a sensação de que a defesa contundente do maior
programa de ação afirmativa para o ensino superior do mundo não pode ser
confiada unicamente à “política institucionalista”, composta pelas notas de
repúdio que buscam influenciar os embates jurídicos contra os reacionarismos da
extrema direita nas instâncias superiores. Sobretudo, em um país no qual,
francamente, os bancos Master da vida preocupam mais nossos altos magistrados
do que os direitos sociais…
Portanto,
além da necessária mobilização desse repertório formal de ação coletiva,
consideramos prudente deslocar mais investimentos e atenções para a “política
substantiva”, composta pelas formas de ação, mobilização e discurso
incessantemente criadas e recriadas pelas iniciativas de extensão
universitária, pelos coletivos negros e demais movimentos sociais efetivamente
comprometidos com a democratização das oportunidades educacionais no Brasil do
século XXI. A extrema direita pode espernear, mas as cotas (“sociais” e
“raciais”) devem continuar!
Fonte:
Por Eduardo Vilar Bonaldi, em Outras Palavras

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