terça-feira, 3 de março de 2026

A imprensa e os motivos por que as estatísticas de feminicídio insistem em não cair

Nas primeiras semanas do ano eu estava na fila do caixa de um supermercado em Porto Alegre (RS) quando ouvi o comentário de uma jovem que fez-me sentir ofendido como repórter. Pelas vestes que usava, era uma típica garota de classe média gaúcha, portanto, uma pessoa bem-informada. Ela comentou o seguinte com uma amiga: “Esse monte de feminicídio é porque a imprensa fica fazendo sensacionalismo dos crimes e acaba encorajando os malucos”. Claro que, na hora, não levantei a bandeira da liberdade de imprensa nem armei uma discussão. Fiquei na minha. Aprendi na lida de repórter que é necessário levar este tipo de comentário para a redação e debatê-lo com os colegas. Fiz isso entre 1979 e 2014, tempo que trabalhei em jornal. Atualmente, levo o assunto para ser debatido em uma ampla e bem organizada rede de colegas repórteres que tenho espalhados pelo Brasil, países vizinhos e em outros cantos do mundo. Formei esta rede depois que sai da redação porque continuo rodando pelas estradas em busca de histórias para contar em livros-reportagem, palestras e outras plataformas. Vamos conversar sobre o assunto.

A imprensa não faz sensacionalismo na cobertura dos casos de feminicídio. O que acontece é que são crimes de grande violência, em que a simples divulgação da notícia causa um enorme impacto – há vários casos disponíveis na internet. Além disso, eles ocorrem com assustadora frequência. No ano passado, no Brasil, houve um recorde de agressões contra mulheres, como foi revelado no Fórum de Segurança Pública: 37,5% das brasileiras sofrerem violência, somando mais de 21 milhões de vítimas. Foi o pior ano desde 2017. Nas conversas que tive com os colegas repórteres por conta do comentário que ouvi na fila do supermercado chegamos à conclusão que podemos melhorar a cobertura dos casos fornecendo ao leitor informações sobre os motivos que levam as estatísticas de feminicídio a insistirem em não cair, como na maioria dos outros crimes. A questão é a seguinte. Existe um discurso de violência contra a mulher consolidado no Brasil que circula há muitos anos. Sou testemunha disso. Por motivos que vou explicar aqui, fui criado em um ambiente de muita violência contra a mulher. Nasci e vivi até os 18 anos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Rio Pardo e Encruzilhada do Sul, no Vale do Rio Pardo, no Rio Grande Sul. Onde fui testemunha de muitas surras e mortes de mulheres. Daí vem o meu interesse por este tipo de crime. Na redação, fiz muitas matérias sobre o assunto. E desde que montei o meu blog, Histórias Mal Contadas, sempre que tenho uma oportunidade “bato na pauta”, como foi o caso do post de 4 de setembro de 2018 chamado Procurados vivos ou mortos. No post, destaco o caso da professora Cláudia Hartleben, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que desapareceu na noite de 9 de abril de 2015, num caso em que, apesar do tempo que já se passou, ainda existem “pistas quentes” que podem levar à solução. Dos centros urbanos ao mais longínquo rincão do Brasil, a cultura da violência contra as mulheres sobrevive.

Em termos de história, são recentes as leis de proteção às mulheres. A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) foi um avanço na prevenção da violência doméstica. A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015), promulgada há pouco mais de uma década, tornou o crime autônomo (elementos e tipo penal próprios), com penas de 20 a 40 anos. Um colega me lembrou que até março de 2021 era permitida a tese da “defesa da honra”, que assim pode ser traduzida: o marido que flagrasse a esposa o traindo podia “defender” a sua honra. Frequentemente, matando a mulher e não sendo punido pelo crime. A tese foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Nas décadas de 60 e 70, época da minha adolescência no interior gaúcho, os júris que envolviam crimes “contra a honra” eram muitos concorridos. O colega me alertou que a rearticulação da extrema direita ao redor do mundo deu uma importante sobrevida à cultura da violência contra a mulher no Brasil, derrubando vários avanços que as mulheres haviam conseguido em favor da sua liberdade individual. Ele citou como exemplo o primeiro mandato (2017 – 2021) do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos. Na ocasião, foi implementada uma política antiaborto, derrubando direitos adquiridos há mais de meio século pelas mulheres – matérias na internet. No Brasil, durante o governo (2019 – 2022) do presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, a pauta de costumes, criada e divulgada pelos parlamentares governistas, atacou direitos adquiridos das mulheres, como o aborto em caso de estupro – matérias na internet. Além disso, parlamentares ligados à extrema direita têm pregado a submissão das mulheres aos seus companheiros.

Para arrematar a nossa conversa. Não estou defendendo que temos que anexar às nossas matérias sobre feminicídio uma tese histórica sobre a cultura de violência contra a mulher. Mas que devemos adicionar aos textos uma explicação dos motivos pelos quais essa cultura persiste e resiste aos avanços da legislação e das novas tecnologias da comunicação, que facilitam a circulação das informações. Em 2026 haverá eleição para deputados (federal e estadual), senadores, governadores e presidente da República. Uma ótima oportunidade para lançar luzes nos cantos escuros da persistência da cultura de violência contra a mulher.

 

Fonte: Por Carlos Wagner, no Observatório da Imprensa

 

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