A
imprensa e os motivos por que as estatísticas de feminicídio insistem em não
cair
Nas
primeiras semanas do ano eu estava na fila do caixa de um supermercado em Porto
Alegre (RS) quando ouvi o comentário de uma jovem que fez-me sentir ofendido
como repórter. Pelas vestes que usava, era uma típica garota de classe média
gaúcha, portanto, uma pessoa bem-informada. Ela comentou o seguinte com uma
amiga: “Esse monte de feminicídio é porque a imprensa fica fazendo
sensacionalismo dos crimes e acaba encorajando os malucos”. Claro que, na hora,
não levantei a bandeira da liberdade de imprensa nem armei uma discussão.
Fiquei na minha. Aprendi na lida de repórter que é necessário levar este tipo
de comentário para a redação e debatê-lo com os colegas. Fiz isso entre 1979 e
2014, tempo que trabalhei em jornal. Atualmente, levo o assunto para ser debatido
em uma ampla e bem organizada rede de colegas repórteres que tenho espalhados
pelo Brasil, países vizinhos e em outros cantos do mundo. Formei esta rede
depois que sai da redação porque continuo rodando pelas estradas em busca de
histórias para contar em livros-reportagem, palestras e outras plataformas.
Vamos conversar sobre o assunto.
A
imprensa não faz sensacionalismo na cobertura dos casos de feminicídio. O que
acontece é que são crimes de grande violência, em que a simples divulgação da
notícia causa um enorme impacto – há vários casos disponíveis na internet. Além
disso, eles ocorrem com assustadora frequência. No ano passado, no Brasil,
houve um recorde de agressões contra mulheres, como foi revelado no Fórum de
Segurança Pública: 37,5% das brasileiras sofrerem violência, somando mais de 21
milhões de vítimas. Foi o pior ano desde 2017. Nas conversas que tive com os
colegas repórteres por conta do comentário que ouvi na fila do supermercado
chegamos à conclusão que podemos melhorar a cobertura dos casos fornecendo ao
leitor informações sobre os motivos que levam as estatísticas de feminicídio a
insistirem em não cair, como na maioria dos outros crimes. A questão é a
seguinte. Existe um discurso de violência contra a mulher consolidado no Brasil
que circula há muitos anos. Sou testemunha disso. Por motivos que vou explicar
aqui, fui criado em um ambiente de muita violência contra a mulher. Nasci e
vivi até os 18 anos nas cidades de Santa Cruz do Sul, Rio Pardo e Encruzilhada
do Sul, no Vale do Rio Pardo, no Rio Grande Sul. Onde fui testemunha de muitas
surras e mortes de mulheres. Daí vem o meu interesse por este tipo de crime. Na
redação, fiz muitas matérias sobre o assunto. E desde que montei o meu blog,
Histórias Mal Contadas, sempre que tenho uma oportunidade “bato na pauta”, como
foi o caso do post de 4 de setembro de 2018 chamado Procurados vivos ou mortos.
No post, destaco o caso da professora Cláudia Hartleben, da Universidade
Federal de Pelotas (UFPel), que desapareceu na noite de 9 de abril de 2015, num
caso em que, apesar do tempo que já se passou, ainda existem “pistas quentes”
que podem levar à solução. Dos centros urbanos ao mais longínquo rincão do
Brasil, a cultura da violência contra as mulheres sobrevive.
Em
termos de história, são recentes as leis de proteção às mulheres. A Lei Maria
da Penha (Lei nº 11.340/2006) foi um avanço na prevenção da violência
doméstica. A Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015), promulgada há pouco mais de
uma década, tornou o crime autônomo (elementos e tipo penal próprios), com
penas de 20 a 40 anos. Um colega me lembrou que até março de 2021 era permitida
a tese da “defesa da honra”, que assim pode ser traduzida: o marido que
flagrasse a esposa o traindo podia “defender” a sua honra. Frequentemente,
matando a mulher e não sendo punido pelo crime. A tese foi considerada
inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Nas décadas de 60 e 70,
época da minha adolescência no interior gaúcho, os júris que envolviam crimes
“contra a honra” eram muitos concorridos. O colega me alertou que a
rearticulação da extrema direita ao redor do mundo deu uma importante sobrevida
à cultura da violência contra a mulher no Brasil, derrubando vários avanços que
as mulheres haviam conseguido em favor da sua liberdade individual. Ele citou
como exemplo o primeiro mandato (2017 – 2021) do atual presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump (republicano), 79 anos. Na ocasião, foi implementada uma
política antiaborto, derrubando direitos adquiridos há mais de meio século
pelas mulheres – matérias na internet. No Brasil, durante o governo (2019 –
2022) do presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, a pauta de costumes, criada e
divulgada pelos parlamentares governistas, atacou direitos adquiridos das
mulheres, como o aborto em caso de estupro – matérias na internet. Além disso,
parlamentares ligados à extrema direita têm pregado a submissão das mulheres
aos seus companheiros.
Para
arrematar a nossa conversa. Não estou defendendo que temos que anexar às nossas
matérias sobre feminicídio uma tese histórica sobre a cultura de violência
contra a mulher. Mas que devemos adicionar aos textos uma explicação dos
motivos pelos quais essa cultura persiste e resiste aos avanços da legislação e
das novas tecnologias da comunicação, que facilitam a circulação das
informações. Em 2026 haverá eleição para deputados (federal e estadual),
senadores, governadores e presidente da República. Uma ótima oportunidade para
lançar luzes nos cantos escuros da persistência da cultura de violência contra
a mulher.
Fonte:
Por Carlos Wagner, no Observatório da Imprensa

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