"Escala
6x1 é precariedade do trabalho", diz pesquisador do Ipea
A
escala de trabalho 6x1 — seis dias trabalhados para um de descanso — pode ser
considerada um forte indicador de precarização no mercado brasileiro,
especialmente por estar mais presente entre trabalhadores com menor
escolaridade e salários mais baixos. É o que afirma Felipe Vella Pateo, técnico
da Diretoria de Estudos Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea), ao analisar dados recentes sobre jornada e remuneração no país.
Segundo
o pesquisador, além de comprometer o convívio familiar e o tempo de descanso, o
modelo está associado a vínculos mais frágeis e maior rotatividade. Ele destaca
que, em 2023, trabalhadores com jornadas de 44 horas semanais tinham salário
médio de R$ 2,6 mil — menos da metade dos R$ 6,2 mil recebidos, em média, por
quem trabalha 40 horas. Para Pateo, esse cenário evidencia que as jornadas mais
longas tendem a recair justamente sobre quem já ocupa posições mais
vulneráveis.
Em meio
ao debate sobre possíveis mudanças na organização do trabalho, o especialista
avalia que o fim do 6x1 pode favorecer a formalização e não necessariamente
levar ao aumento do desemprego, sobretudo em um contexto de mercado aquecido.
Ele também pondera que, embora a negociação coletiva seja relevante, uma
sinalização legislativa ainda tem papel decisivo para induzir transformações —
e observa que a discussão sobre redução de jornada começa a ganhar maturidade
no país.
LEIA A
ENTREVISTA:
• A escala 6x1 é uma forma de precarização
do trabalho, ou depende do contexto?
Normativamente,
a escala 6x1 surge de uma combinação da jornada de 44 horas semanais e limite
de oito horas diárias, estabelecidos na Constituição, e o artigo 67 da
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que estabelece um descanso semanal de
24 horas consecutivas. O que a gente percebe é que esse tipo de escala de
trabalho atrapalha o convívio familiar e o período de descanso do trabalhador,
ao fazê-lo deslocar-se de casa no fim de semana. Considerando que os serviços
como educação funcionam cinco dias por semana, o ideal é que a jornada padrão
de trabalho considere liberar o fim de semana também para esse convívio
familiar.
• É possível identificar um perfil dos
trabalhadores que cumprem a jornada 6x1?
Os
dados mostram que a jornada de 44 horas está muito predominante entre
trabalhadores que têm até nível médio, enquanto entre técnicos e profissionais
de nível superior ela não é tão comum. Os dados de 2023 nos mostram ainda que o
salário contratual médio de um trabalhador com jornada de 44 horas semanais era
de R$ 2,6 mil, frente a R$ 6,2 mil para os trabalhadores com jornadas de 40
horas semanais.
• O que indica esse corte de renda?
Esse
dados demonstram que os trabalhadores submetidos a longas jornadas são aqueles
que já têm empregos mais precários, inclusive sujeitos à maior rotatividade.
Por todas essas razões, respondendo à primeira pergunta, é possível dizer, sim,
que a escala 6x1 é um indicador forte de precariedade do trabalho.
• O fim dessa jornada poderia gerar mais
empregos, ou é uma expectativa irreal?
O fim
dessa jornada tem dois elementos que contribuem para a geração de empregos
formais. De um lado, pode estar o desejo de parte dos empresários em manter
seus níveis de funcionamento e produção contratando mais trabalhadores para
recompor a perda de horas oferecidas. Por outro, os próprios trabalhadores que
porventura estejam na informalidade serão mais atraídos a migrar para vagas de
trabalho formal, aumentando a oferta de trabalho.
Esses
dois aspectos positivos podem compensar o aumento de custo do trabalho. O
empresário, por sua vez, pode aumentar a produtividade investindo em
tecnologias que reduzam a utilização da mão de obra. Seria uma forma de
contrabalançar a redução na geração de empregos.
• É possível, então, enxergar uma solução
ganha-ganha?
Em um
momento de crescimento da economia e bom desempenho do mercado de trabalho,
como o atual, a combinação entre os fatores tende a ser positiva. Na
experiência histórica de redução de jornada feita pela Constituição de 1988,
não houve aumento de desemprego. Como o nível de emprego da economia hoje está
considerado em um patamar positivo, a manutenção desse já seria considerado um
ótimo resultado.
• Flexibilização e negociação coletiva são
caminhos melhores do que uma eventual proibição?
A
negociação coletiva depende da força das organizações dos trabalhadores, o que
não é uma realidade para todos os setores econômicos. Nesse sentido, uma
sinalização legislativa ainda é muito importante para induzir as mudanças na
realidade do mercado de trabalho.
• O trabalhador brasileiro está mais
cansado hoje do que há uma década? O que mudou?
Após um
período de crescimento do emprego com carteira assinada, é natural que os
trabalhadores comecem a apresentar mais reivindicações sobre condições de
trabalho como a jornada. Quanto mais aquecida a economia, maior tende a ser
essa pressão por melhorias trabalhistas, entre elas o direito ao tempo com a
família.
• Manter o 6x1 é uma necessidade
econômica, ou uma resistência cultural do mercado de trabalho brasileiro?
Não há
hoje evidências de que a escala 6x1 seja uma necessidade econômica generalizada
na economia brasileira. Por outro lado, a redução de jornada induz a novos
hábitos, inclusive de consumo e lazer. É muito difícil fazer previsões, pois
tudo depende do impulso que a sociedade dará ao tema e a pressão dos diferentes
setores interessados sobre o poder legislativo. Há indícios de que o debate
está amadurecendo.
• Escala 6x1: redução da jornada entra em
debate decisivo
A
proposta de emenda à Constituição (PEC) 221/2019 que prevê o fim da escala 6x1
e a reorganização da jornada de trabalho já consta na Comissão de Constituição
e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados e conta com a sinalização positiva do
presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), para tramitar de forma
célere. O aval político reforça a prioridade do tema na agenda legislativa de
2026 e intensifica a mobilização de parlamentares — da base governista e da
oposição —, entidades empresariais e centrais sindicais em torno da matéria.
Um dos
autores da proposta que propõe a diminuição da jornada, o deputado Reginaldo
Lopes (PT-MG) chegou a afirmar que a bancada do PT e o governo vão trabalhar
para buscar maioria e aprovar o texto ainda no primeiro semestre. "Esse
debate é o mais importante do século 21 para os trabalhadores. Estamos vivendo,
pós-pandemia da covid-19, uma pandemia de saúde mental. Chegou a hora. Os
trabalhadores brasileiros pedem mais um dia de descanso, e nós acreditamos que
isso fortalece cada vez mais a produtividade e a competitividade da economia
brasileira", destacou.
"O
direito ao descanso não é luxo. É um direito do trabalhador", emendou o
parlamentar, que defende a jornada 5×2 (trabalhar cinco dias e folgar dois), de
40 horas semanais, para todos os trabalhadores do setor público e do setor
privado.
A
deputada Érika Hilton (PSol-SP), também autora da medida, defende que a
proposta representa uma resposta concreta a uma demanda social crescente. Ao
Correio Braziliense, a parlamentar afirmou que a mudança não se resume à
redistribuição de dias de trabalho, mas à necessidade de reduzir efetivamente a
jornada semanal. Segundo ela, manter as atuais 44 horas concentradas em menos
dias, conforme parlamentares de oposição têm proposto, significaria
"maquiar o problema", ampliando o desgaste diário sem garantir ganhos
reais de saúde física e mental.
Para
Hilton, dois dias de descanso por semana são condição mínima de dignidade e
alinham o Brasil a uma tendência internacional de revisão das jornadas
excessivas.
A
defesa da proposta encontra respaldo em parte da opinião pública, como mostra a
pesquisa da Nexus, divulgada na última quinta-feira, que indica que 73% dos
brasileiros apoiam o fim da escala 6x1, desde que não haja redução salarial. O
levantamento também mostra que 84% defendem ao menos dois dias de descanso
semanal. O apoio, no entanto, diminui de forma significativa quando se cogita
eventual diminuição proporcional de salários, revelando que a renda permanece
como fator decisivo para a população.
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Mudança gradual
Na
outra ponta do debate, o deputado Joaquim Passarinho (PL-PA), presidente da
Frente Parlamentar do Empreendedorismo, adota postura cautelosa. Em entrevista
ao Correio, ele classificou a proposta como uma matéria "sensível" e
afirmou que o ponto central é saber "quem paga a conta" (Leia mais na
página 8). Para o parlamentar, uma mudança abrupta pode gerar aumento de custos
para empresas, especialmente micro e pequenos empreendedores, com possível
repasse aos consumidores em produtos e serviços essenciais.
Passarinho
defende uma redução gradual da jornada — de 44 para 40 horas semanais ao longo
de quatro anos, com corte de uma hora por ano — como alternativa mais segura
para evitar choques econômicos.
Ele
também questiona a tese de que "trabalhadores mais descansados
necessariamente produzirão mais". Em setores como comércio, transporte,
saúde e combustíveis, argumenta, "a produtividade está diretamente ligada
à demanda do público, e não apenas ao tempo de descanso do empregado".
A
deputada federal Caroline De Toni (PL-SC), que preside a Frente Parlamentar
pelo Livre Mercado (FPLM), chegou a protocolar um requerimento de apensamento
da PEC 40/2025 — que propõe carga horária de até 44h semanais em jornada diária
ou flexível baseada em horas trabalhadas — à PEC 221/2019, garantindo a
tramitação conjunta da proposta que amplia a liberdade de organização da
jornada de trabalho.
A
iniciativa, segundo a De Toni, busca assegurar que o Congresso analise
alternativas com visões distintas, sendo de um lado com maior intervenção
estatal e do outro, mais autonomia para trabalhadores negociarem seus horários
e aumentarem sua renda.
"O
Congresso não pode ignorar o debate sobre o futuro do trabalho. A PEC 40/25
moderniza as relações laborais, fortalece a liberdade de negociação, amplia a
segurança jurídica e reconhece a realidade de quem trabalha e de quem gera
empregos. Garantir esse debate é ampliar oportunidades e renda para os
brasileiros", pontuou a parlamentar.
• Empresariado mira alternativas
De
autoria do deputado Maurício Marcon (PL-RS), a PEC 40/2025 prevê remuneração
por hora trabalhada, maior flexibilidade de horários, acordos individuais ou
coletivos, manutenção do limite constitucional de 44 horas semanais e segurança
jurídica para trabalhadores e empregadores.
"Defender
a PEC 40 é defender a liberdade do trabalhador de escolher, negociar e
construir melhores oportunidades para sua própria renda. O trabalhador
brasileiro não pode ser refém de modelos engessados que limitam suas
possibilidades. Liberdade nas relações de trabalho significa mais autonomia,
mais formalização e mais chances reais de crescimento para quem vive do próprio
esforço", defendeu Marcon, que também é membro da FPLM.
O
posicionamento dos parlamentares da oposição converge com o de federações
empresariais que vêm se manifestando contra mudanças abruptas. O Centro da
Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), estado que concentra um dos maiores
fluxos da indústria no país, afirmou que a jornada de trabalho exige análise
técnica e respeito às especificidades regionais.
Em nota
enviada ao Correio, a entidade destacou que, na Zona Franca de Manaus, os
custos logísticos elevados e a complexidade da cadeia produtiva exigem
previsibilidade regulatória. Segundo o Cieam, alterações que elevem o custo
unitário da produção sem ganho equivalente de produtividade podem comprometer
investimentos e a geração de empregos formais.
A
Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo
(FecomércioSP) divulgou estudo apontando que a redução abrupta da jornada
poderia elevar em até 22% o custo da hora trabalhada. A federação estima,
ainda, risco de eliminação de até 1,2 milhão de postos formais e alerta que
micro e pequenas empresas — responsáveis por cerca de 80% dos novos empregos —
teriam maior dificuldade de absorver o impacto. Para a entidade, a negociação
coletiva é o instrumento mais adequado para ajustar jornadas às realidades
setoriais, evitando rigidez legal uniforme.
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Centrais sindicais
No
campo sindical, a reação tem sido firme contra as versões consideradas
moderadas da proposta. Ricardo Patah, presidente da União Geral dos
Trabalhadores (UGT) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, destaca que
parte do Congresso tenta preservar as 44 horas semanais sob nova formatação. Em
artigo recente, ele criticou propostas que se extinguem formalmente à escala
6x1, mas ampliam a jornada diária, classificando a estratégia como
"retrocesso disfarçado". Para o dirigente, a redução deve caminhar para
40 horas semanais efetivas, com dois dias de descanso garantidos e
fortalecimento da negociação coletiva.
Patah
também rebate a narrativa de que a redução da jornada prejudicaria
automaticamente o mercado de trabalho. Segundo ele, a nova geração de
trabalhadores não aceita jornadas consideradas abusivas e busca maior
equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
• Fim da escala 6x1 deve elevar
produtividade, defende Boulos
O
ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos,
afirmou que o fim da escala de trabalho
6x1 — que prevê apenas um dia de descanso por semana — é uma medida urgente e
capaz de melhorar não apenas a qualidade de vida dos trabalhadores, mas também
a produtividade. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Bom Dia,
Ministro, do Canal Gov.
Segundo
Boulos, a revisão da jornada de trabalho é uma das prioridades do governo
federal com foco no ciclo político de 2026. A proposta em discussão prevê a
adoção de uma escala máxima de 5x2, com carga semanal de até 40 horas, sem
redução salarial. Atualmente, a legislação brasileira permite jornadas de até
44 horas semanais.
“O
debate está avançando muito bem no Congresso. Na semana passada, estive com o
presidente da Câmara, Hugo Motta, ao lado do ministro do Trabalho e Emprego,
Luiz Marinho, e há um ambiente favorável para que a proposta seja votada ainda
neste semestre”, afirmou o ministro. De acordo com ele, o objetivo é oferecer
uma resposta concreta às demandas dos trabalhadores por melhores condições
laborais.
Durante
a entrevista, Boulos destacou ainda que a mudança não deve ser vista como um
entrave ao desempenho econômico. Para sustentar o argumento, citou experiências
internacionais em que a redução da jornada foi acompanhada por ganhos de
produtividade. Entre os exemplos mencionados, está a Islândia, que adotou uma
jornada de 35 horas semanais e registrou crescimento econômico e aumento da
produtividade. Também foram citados casos nos Estados Unidos e no Japão, onde
empresas que testaram semanas de quatro dias observaram resultados positivos.
No
Brasil, o ministro ressaltou dados de um estudo da Fundação Getulio Vargas
(FGV), divulgado em 2024, que analisou 19 empresas que reduziram a jornada de
trabalho. Segundo o levantamento, 72% dessas companhias registraram aumento de
receita, enquanto 44% apresentaram melhora no cumprimento de prazos. “Isso
mostra que a redução da jornada não significa queda de desempenho. Em muitos
casos, ocorre exatamente o contrário”, disse.
Além do
debate sobre a escala de trabalho, Boulos abordou outros temas tratados pela
Secretaria-Geral da Presidência, como o avanço das discussões sobre a regulação
dos aplicativos de entrega, com foco na ampliação da proteção social dos
entregadores, e a proposta de participação popular no orçamento federal,
batizada de Orçamento do Povo.
Para o
ministro, a revisão da jornada de trabalho faz parte de uma agenda mais ampla
de valorização do trabalho no país. “Trata-se de uma questão de dignidade.
Queremos um modelo que respeite os trabalhadores e, ao mesmo tempo, fortaleça a
economia brasileira”, concluiu.
Fonte:
Correio Braziliense

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