“Talvez
seja o momento mais delicado da democracia estadunidense nos últimos dois
séculos”, diz embaixador
John
Feeley é um ex-diplomata estadunidense. Atende o telefone em Porto Rico e
parece calmo, mas a situação em seu país e no mundo o altera um pouco. Feeley
se formou em Ciências na Escola de Serviço Exterior da Universidade de
Georgetown, em 1983. Serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos,
de 1983 a 1990, e pilotou helicópteros de assalto anfíbios no Líbano, nãos anos
1980, após o atentado perpetrado em 1983 contra os fuzileiros navais, em
Beirute.
Foi
embaixador dos Estados Unidos no Panamá de 2015 até sua renúncia em 9 de março
de 2018. É também diretor-executivo do Centro de Integridade de Mídia das
Américas: “Nosso objetivo aqui é fortalecer o jornalismo de qualidade em todas
as Américas. Diante do avanço do autoritarismo, a ferramenta mais poderosa é a
verdade. Como dizia Thomas Jefferson, uma democracia não existe sem jornalistas
fortes”.
Feeley
é um observador e analista muito ativo na esfera política estadunidense. De
Porto Rico, o ex-embaixador opina e aborda a complexa situação de seu país e a
intrincada situação política global pendente das decisões e caprichos do
presidente dos Estados Unidos.
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Eis a entrevista.
·
O senhor fez parte do corpo diplomático dos Estados
Unidos em diversos cargos. Como caracterizaria este momento da história das
relações internacionais?
Em
perspectiva, vemos ciclos que costumam se expressar como momentos
revolucionários e contrarrevolucionários. Eu diria que hoje, nos Estados
Unidos e em boa parte do mundo, estamos atravessando um momento
contrarrevolucionário. Depois de 1945, com os Acordos de Bretton Woods,
que regulamentou as relações monetárias, financeiras e comerciais do mundo, a
criação da ONU e o
estabelecimento de uma ordem liberal – sob a
liderança estadunidense – conseguiu-se evitar uma conflagração
nuclear por mais de oito décadas.
No
entanto, com o tempo, as instituições democráticas deixaram de responder às
expectativas de seus cidadãos. Isto ocorreu sobretudo no Sul Global, mas também
na Europa e nos Estados Unidos. Após a queda do Muro de
Berlim, houve uma espécie de “coma democrático”. Ficamos concentrados na
criação de riqueza e descuidamos do trabalho contínuo requerido para sustentar
a democracia, como alguém que deixa de cuidar de um jardim.
·
Em sua avaliação, essa crise explica a emergência de
figuras que questionam abertamente a democracia, como alguns magnatas da
tecnologia?
Estamos,
sem dúvida, em um ponto de virada. Talvez este seja o momento mais delicado
da democracia estadunidense, nos últimos dois séculos. Embora soe
paradoxal, vivemos uma contrarrevolução porque a verdadeira revolução foi
construir uma democracia tão estável que a consideramos assentada.
Não acredito que a resposta seja simplesmente voltar à democracia de
20 ou 30 anos atrás. Precisamos reforçar um novo conceito democrático, mais
atento às reais necessidades das pessoas e menos capturado por corporações,
bilionários e os “tech brothers”. A brecha obscena de riqueza entre
esses setores e o resto da sociedade é uma profunda fonte de corrupção e, em
termos filosóficos, de ganância.
·
Como o senhor enxerga o papel histórico dos Estados
Unidos como “ordenador” do mundo, da América Latina ao Oriente Médio, e hoje
com casos como o da Venezuela?
Li que
alguém havia escrito uma frase em uma peça de roupa: “Roupa, você vai sentir
falta da era estadunidense”... É justo dizer que os Estados
Unidos sempre pregaram uma “boa nova”:
“democracia, transparência, anticorrupção, competitividade”.
E é verdade que muitas vezes não agiu de acordo com esses princípios. Isso é
inegável. Mas também havia - e acredito que ainda existe - uma vocação para a
liderança global, não necessariamente para ser o policial do mundo.
Hoje,
estamos em um momento diferente. O governo Trump se vê como o
novo xerife de um filme de faroeste: o caubói com chapéu e pistolas, onde rege
a lei do mais forte. Não acredito que isso beneficie os estadunidenses, nem o
resto do mundo. A verdadeira saída deveria ser uma refundação do compromisso cidadão
com seu próprio destino: autodeterminação, sim, mas com cidadãos
informados. Isto exige um grande investimento em educação cívica.
·
Voltou-se a falar dos Estados Unidos como um império.
Isso o incomoda?
Nós,
diplomatas estadunidenses, não gostamos dessa palavra, talvez porque às vezes
ela descreva a realidade muito bem. O imperialismo clássico envolvia
colônias. Os Estados Unidos tiveram bem
poucas: Panamá, Porto Rico, Filipinas e Cuba. Mais do que
colônias, sempre buscaram influência: comercial, política, estratégica.
Nesse
sentido, durante o século XX, praticaram um tipo de neoimperialismo que, no
geral, considero majoritariamente benigno. Durante décadas, os Estados
Unidos foram o principal provedor mundial de ajuda humanitária, o país que
mais recursos dedicou a promover a democracia – também na Argentina – e o maior
mercado aberto do mundo.
Nossa
história não é totalmente coerente, mas continuo acreditando que, com todos os
seus erros, os Estados Unidos foram uma força majoritariamente
positiva. Dito isso, estamos apenas a pouco mais de um ano da vitória
de Trump, em 2024, e penso que começamos mal, especialmente com políticas
como as relacionadas à Venezuela, mais orientadas ao
acesso ao petróleo do que a uma verdadeira agenda democrática.
·
Existe algum projeto de divisão do poder global com a
Rússia e a China, por meio de suas esferas de influência?
É
interessante porque Trump nunca usa esse termo explicitamente, mas
tem uma compreensão instintiva das esferas de influência, baseada em um modelo
quase mafioso. Sua visão de mundo se formou na Nova York dos anos 60,
70 e 80, onde a máfia organizava a economia ilegal e negociava territórios.
Como em O Poderoso Chefão, os chefões se sentavam para dividir as
regiões. No entanto, não vejo que Trump tenha feito algo equivalente
com Xi Jinping e Vladimir Putin.
Putin age
como se a Ucrânia fizesse parte
de sua esfera; a China considera o
mesmo em relação a Taiwan;
e Trump parece assumir que todo o hemisfério ocidental, da Groenlândia à Terra do
Fogo, pertence à esfera de influência estadunidense. Existem outros atores
relevantes no cenário global: Europa, Japão, Coreia
do Sul, Índia. Não são tão poderosos militarmente quanto os Estados
Unidos, a Rússia e a China, mas têm voz e voto.
É
verdade que esses três líderes podem imaginar o mundo em termos de esferas de
influência, mas enquanto não houver um acordo explícito entre eles, como
aconteceu em 1945, com Bretton Woods e a criação da ONU, não
haverá regras claras para a nova ordem internacional.
·
Que futuro enxerga para o direito internacional e
organizações como a ONU, com os Estados Unidos retirando seu financiamento
dessas instituições?
As
instituições internacionais estão na UTI. Por décadas, muitos países criticaram
o intervencionismo estadunidense, algo com o que lidei em toda a minha carreira
diplomática. Contudo, agora, o mundo começa a dimensionar quanto dinheiro o
povo norte-americano direcionava para que esses sistemas funcionassem. É
verdade, os Estados Unidos ajudaram a criar essas instituições em
benefício próprio, mas Donald Trump não acredita que essa rede de
organismos tenha servido aos interesses do cidadão estadunidense e, em termos
históricos muito rápidos, decidiu se retirar de quase todos.
Um caso
particularmente trágico é o da USAID. Já existem
relatórios preliminares que mostram um aumento das mortes - crianças,
gestantes, populações vulneráveis – em consequência direta do desmantelamento
da ajuda humanitária. Isto é devastador. No entanto, deve servir de alerta para
o resto do mundo: se não quisermos entrar em uma etapa prolongada regida pela
lei do mais forte, os países menores deverão se coordenar e pressionar
os Estados Unidos a recuperar uma liderança baseada em
valores, cooperação e paz internacional.
·
Como o senhor imagina o futuro político de Trump? É
possível um impeachment? O que vem pela frente, na linha de sucessão?
Um impeachment depende,
em última instância, do eleitorado estadunidense. O procedimento é claro:
começa na Câmara dos Representantes e depois segue para
o Senado. Isso já aconteceu com Trump duas vezes: a Câmara
dos Representantes avançou, mas o Senado o absolveu. As regras
constitucionais não vão mudar.
No
entanto, a composição do Congresso pode mudar nas eleições de meio de mandato
de 2026. Se os democratas recuperarem as duas casas, um impeachment é muito
provável. O próprio Trump reconheceu isso. Dito isso, basta que uma
das casas permaneça nas mãos republicanas para bloqueá-lo. E é aí que aparece
uma brecha: Trump já perdeu apoio dentro de seu próprio partido, como
se viu na rejeição de vários senadores republicanos ao uso de poderes de guerra
na Venezuela. Esse é um calcanhar de Aquiles sério.
·
O senhor foi embaixador no Panamá até a chegada de Trump
ao poder. Por que renunciou?
Sou um
funcionário de carreira em segurança nacional. Minha lealdade sempre foi à
Constituição, não a um presidente. Servi tanto a governos republicanos quanto a
democratas. Durante a campanha de 2016, fiquei profundamente preocupado com a
retórica de Trump: seu discurso sobre migrantes, sobre alianças como
a OTAN, sobre a América Latina. Como servidor
público, permaneci em silêncio o máximo que pude. Até que não pude mais.
O ponto
de ruptura foi Charlottesville, quando ele disse
que havia “pessoas muito boas dos dois lados”. Vi com meus próprios
olhos neonazistas e supremacistas
brancos (naquela
manifestação de 2017, em que um carro dirigido por um supremacista atropelou
uma multidão que protestava contra esses grupos extremistas, com uma pessoa
morta e 19 feridas). Para mim, foi moralmente impossível continuar
representando um presidente a quem não podia servir com honestidade e lealdade,
por isso renunciei.
¨
O que Trump quer ao atacar o Irã e o que ele pode
conseguir
Pouco
após Israel lançar o que
chamou de "ataques preventivos" contra o Irã na manhã deste sábado (28/02), o presidente
dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou que as ações faziam parte de
uma ampla ofensiva conjunta
israelo-americana.
"Nosso
objetivo é defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime
iraniano", disse Trump num vídeo compartilhado nas redes sociais,
prometendo destruir as capacidades nucleares e militares do Irã. "Vamos
garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear", disse. Ao definir os
objetivos da ofensiva, Trump também disse que os EUA destruiriam o programa de
mísseis balísticos do Irã e suas forças navais.
Como a
campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã não parece ser de curto prazo
e limitada, analistas acreditam que o conflito pode continuar por semanas, se
não meses. E em meio à tensão, o resultado dos objetivos que Israel e os EUA
esperam alcançar permanece em aberto, e as consequências podem não ser as
desejadas.
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1º objetivo: Impedir o Irã de ter armas nucleares
Após a
guerra de 12 dias entre o Irã e Israel em junho de 2025, Trump declarou que os
EUA haviam "obliterado" as principais instalações nucleares do Irã e
que o regime fundamentalista não seria capaz de construir armas nucleares num
futuro próximo.
"Os
EUA estão conduzindo uma guerra cujo objetivo é, mais uma vez, destruir esse
programa, então acho que isso é um pretexto", avalia Marcus Schneider,
especialista da Fundação Friedrich Ebert (FES, na sigla em alemão) no Líbano.
"O
programa nuclear do Irã sofreu um revés na época devido aos ataques dos EUA;
alguns dizem que esse revés foi de alguns meses, outros, de alguns
anos", diz. "Mas acredito que ele não pode ser eliminado. É também
uma questão de conhecimento técnico, o que significa que, se o Irã tem o
conhecimento técnico para construir essas centrífugas e enriquecer [urânio],
então isso é algo que você não pode eliminar com a força aérea."
Shahin
Modarres, analista de segurança baseado na Itália, afirma que um Irã com armas
nucleares sempre será visto por Israel e pelos EUA como inaceitável.
"Impedir a militarização nuclear é, portanto, um objetivo estratégico, não
apenas uma preferência política", afirma.
Diba
Mirzaei, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), por sua
vez, vê um pretexto para justificar a guerra, argumentando que "atualmente
não há nenhum perigo prático emanando do Irã".
As
negociações entre os EUA e o Irã em Genebra esta semana sobre o programa
nuclear de Teerã não produziram resultados concretos antes do início dos
ataques.
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2º objetivo: Eliminação do programa de mísseis balísticos do Irã
Alguns
especialistas acreditam que os EUA e Israel consideram as capacidades
balísticas de Teerã uma ameaça maior do que seu programa nuclear. Na guerra de
12 dias do ano passado, o Irã demonstrou que seus mísseis poderiam causar danos
a Israel e às instalações militares dos EUA na região.
"Operacionalmente,
instalações de produção, locais de armazenamento e cadeias de aquisição de
combustível sólido são alvos possíveis – como demonstraram os recentes
ataques a infraestruturas relacionadas a mísseis", destaca Modarres.
"No
entanto, o know-how tecnológico não pode ser destruído com bombas", diz
ele, acrescentando que a erradicação completa do programa de mísseis do regime
iraniano "é improvável, mas uma degradação severa e uma limitação de longo
prazo da capacidade são possíveis".
Schneider
concorda: "É uma indústria nacional, o que significa que não se trata de
mísseis balísticos importados. O Irã está em posição, como provou desde o
fim da última guerra, de produzi-los por conta própria. É claro que é
possível destruir o arsenal, mas a questão é quanto tempo isso levará e quem
será prejudicado no processo".
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3º objetivo: Destruição das forças navais do Irã
Para
Schneider, é mais viável para os EUA aniquilar a Marinha do Irã do que suas
capacidades de mísseis. "É claro que isso é militarmente possível. Mas é
preciso entender que o Irã também têm muitos barcos pequenos – as
chamadas lanchas rápidas. Portanto, acho que não é algo que possa ser alcançado
em uma semana", diz o analista.
Modarres
destaca que há um precedente histórico para esse tipo de operação.
"Durante a Operação Louva-a-Deus (1988), os EUA causaram graves danos às
capacidades navais do Irã. Se a liberdade de navegação – especialmente
no Estreito de Ormuz, que é um ponto
crítico para o abastecimento energético global – for ameaçada, os EUA
poderão justificar uma ação naval em grande escala. O objetivo estratégico
disso seria garantir a abertura das rotas marítimas", enfatiza Modarres.
Sara
Kermanian, pesquisadora de relações internacionais da Universidade de Sussex,
no Reino Unido, compartilha dessa opinião: "Os Estados Unidos poderiam
causar graves danos às forças navais ativas do Irã no curto prazo, degradando
significativamente sua capacidade de interromper o tráfego marítimo".
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4º objetivo: Mudança de regime
Não
está claro como Trump pretende alcançar esse objetivo por meio de sua mais
recente campanha militar, já que Washington não deu indícios de que iniciará
operações terrestres dentro do Irã. Mas relatos de ataques aéreos israelenses e
americanos contra alvos militares e governamentais dentro do Irã mostram que a
campanha visa enfraquecer substancialmente o regime.
"Quando
terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será seu. Esta será
provavelmente a sua única chance por gerações", disse Trump em seu
discurso neste sábado. "Por muitos anos, vocês pediram a ajuda dos Estados
Unidos, mas nunca a receberam."
Modarres
diz que novos protestos em massa contra o regime linha-dura do líder
supremo Ali Khamenei, semelhantes aos de
janeiro, são prováveis, mas exigiriam um evento desencadeador poderoso.
"Dada a memória da repressão, é improvável que haja uma revolta espontânea
sem que haja um enfraquecimento estrutural do regime. Declarações que sugerem
oportunidades podem funcionar mais como sinais estratégicos do que como
compromissos firmes", avalia.
Schneider
diz que derrubar o regime exigiria tropas terrestres. "Acho bastante
fantasioso imaginar que Trump pretenda fazer isso apenas com o poder aéreo e
acredite que a população iraniana se levantará em meio a uma guerra e agirá
contra esse regime brutal", diz.
"Se
o objetivo real é a mudança de regime, então presumo que
esta guerra irá durar mais tempo, possivelmente vários meses. E a grande
questão que se coloca é a da resiliência do regime", sublinha.
Modarres
diz que a oferta de imunidade de Trump aos membros da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla
em inglês) "é uma estratégia clássica que visa incentivar a deserção da
elite e acelerar a fragmentação interna".
"Sua
eficácia aumentará se a pressão militar e econômica sustentada enfraquecer a
coesão do regime. A rendição institucional da IRGC só seria plausível em
condições de um colapso sistêmico profundo", afirma.
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E se o objetivo de derrubar o regime não for alcançado?
Kermanian
avalia que, se o objetivo de Trump de derrubar o regime não for cumprido, as
consequências de curto prazo para os cidadãos podem ser graves.
"Um
Estado ferido, mas intacto, pode responder com repressão intensificada,
especialmente se perceber que segmentos da sociedade acolheram a pressão
externa. Muito dependerá, então, de se a escalada será seguida por um acordo
negociado que reestruture as relações e, pelo menos, alivie as sanções, ou se o
confronto continuará em ciclos de sanções, conflitos por procuração e ataques
periódicos", diz ela, acrescentando que, na ausência de um acordo, o Irã
poderia entrar num período prolongado e mais severo de militarização e desgaste
econômico.
Fonte:
Entrevista com John Feeley, para Hector Pavon, em Clarín-Revista Ñ - tradução
do Cepat, em IHU/DW Brasil

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