terça-feira, 3 de março de 2026

“Talvez seja o momento mais delicado da democracia estadunidense nos últimos dois séculos”, diz embaixador

John Feeley é um ex-diplomata estadunidense. Atende o telefone em Porto Rico e parece calmo, mas a situação em seu país e no mundo o altera um pouco. Feeley se formou em Ciências na Escola de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown, em 1983. Serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, de 1983 a 1990, e pilotou helicópteros de assalto anfíbios no Líbano, nãos anos 1980, após o atentado perpetrado em 1983 contra os fuzileiros navais, em Beirute.

Foi embaixador dos Estados Unidos no Panamá de 2015 até sua renúncia em 9 de março de 2018. É também diretor-executivo do Centro de Integridade de Mídia das Américas: “Nosso objetivo aqui é fortalecer o jornalismo de qualidade em todas as Américas. Diante do avanço do autoritarismo, a ferramenta mais poderosa é a verdade. Como dizia Thomas Jefferson, uma democracia não existe sem jornalistas fortes”.

Feeley é um observador e analista muito ativo na esfera política estadunidense. De Porto Rico, o ex-embaixador opina e aborda a complexa situação de seu país e a intrincada situação política global pendente das decisões e caprichos do presidente dos Estados Unidos.

<><> Eis a entrevista.

·        O senhor fez parte do corpo diplomático dos Estados Unidos em diversos cargos. Como caracterizaria este momento da história das relações internacionais?

Em perspectiva, vemos ciclos que costumam se expressar como momentos revolucionários e contrarrevolucionários. Eu diria que hoje, nos Estados Unidos e em boa parte do mundo, estamos atravessando um momento contrarrevolucionário. Depois de 1945, com os Acordos de Bretton Woods, que regulamentou as relações monetárias, financeiras e comerciais do mundo, a criação da ONU e o estabelecimento de uma ordem liberal – sob a liderança estadunidense – conseguiu-se evitar uma conflagração nuclear por mais de oito décadas.

No entanto, com o tempo, as instituições democráticas deixaram de responder às expectativas de seus cidadãos. Isto ocorreu sobretudo no Sul Global, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Após a queda do Muro de Berlim, houve uma espécie de “coma democrático”. Ficamos concentrados na criação de riqueza e descuidamos do trabalho contínuo requerido para sustentar a democracia, como alguém que deixa de cuidar de um jardim.

·        Em sua avaliação, essa crise explica a emergência de figuras que questionam abertamente a democracia, como alguns magnatas da tecnologia?

Estamos, sem dúvida, em um ponto de virada. Talvez este seja o momento mais delicado da democracia estadunidense, nos últimos dois séculos. Embora soe paradoxal, vivemos uma contrarrevolução porque a verdadeira revolução foi construir uma democracia tão estável que a consideramos assentada. Não acredito que a resposta seja simplesmente voltar à democracia de 20 ou 30 anos atrás. Precisamos reforçar um novo conceito democrático, mais atento às reais necessidades das pessoas e menos capturado por corporações, bilionários e os “tech brothers”. A brecha obscena de riqueza entre esses setores e o resto da sociedade é uma profunda fonte de corrupção e, em termos filosóficos, de ganância.

·        Como o senhor enxerga o papel histórico dos Estados Unidos como “ordenador” do mundo, da América Latina ao Oriente Médio, e hoje com casos como o da Venezuela?

Li que alguém havia escrito uma frase em uma peça de roupa: “Roupa, você vai sentir falta da era estadunidense”... É justo dizer que os Estados Unidos sempre pregaram uma “boa nova”: 

“democracia, transparência, anticorrupção, competitividade”. E é verdade que muitas vezes não agiu de acordo com esses princípios. Isso é inegável. Mas também havia - e acredito que ainda existe - uma vocação para a liderança global, não necessariamente para ser o policial do mundo.

Hoje, estamos em um momento diferente. O governo Trump se vê como o novo xerife de um filme de faroeste: o caubói com chapéu e pistolas, onde rege a lei do mais forte. Não acredito que isso beneficie os estadunidenses, nem o resto do mundo. A verdadeira saída deveria ser uma refundação do compromisso cidadão com seu próprio destino: autodeterminação, sim, mas com cidadãos informados. Isto exige um grande investimento em educação cívica.

·        Voltou-se a falar dos Estados Unidos como um império. Isso o incomoda?

Nós, diplomatas estadunidenses, não gostamos dessa palavra, talvez porque às vezes ela descreva a realidade muito bem. O imperialismo clássico envolvia colônias. Os Estados Unidos tiveram bem poucas: Panamá, Porto Rico, Filipinas e Cuba. Mais do que colônias, sempre buscaram influência: comercial, política, estratégica.

Nesse sentido, durante o século XX, praticaram um tipo de neoimperialismo que, no geral, considero majoritariamente benigno. Durante décadas, os Estados Unidos foram o principal provedor mundial de ajuda humanitária, o país que mais recursos dedicou a promover a democracia – também na Argentina – e o maior mercado aberto do mundo.

Nossa história não é totalmente coerente, mas continuo acreditando que, com todos os seus erros, os Estados Unidos foram uma força majoritariamente positiva. Dito isso, estamos apenas a pouco mais de um ano da vitória de Trump, em 2024, e penso que começamos mal, especialmente com políticas como as relacionadas à Venezuela, mais orientadas ao acesso ao petróleo do que a uma verdadeira agenda democrática.

·        Existe algum projeto de divisão do poder global com a Rússia e a China, por meio de suas esferas de influência?

É interessante porque Trump nunca usa esse termo explicitamente, mas tem uma compreensão instintiva das esferas de influência, baseada em um modelo quase mafioso. Sua visão de mundo se formou na Nova York dos anos 60, 70 e 80, onde a máfia organizava a economia ilegal e negociava territórios. Como em O Poderoso Chefão, os chefões se sentavam para dividir as regiões. No entanto, não vejo que Trump tenha feito algo equivalente com Xi Jinping e Vladimir Putin.

Putin age como se a Ucrânia fizesse parte de sua esfera; a China considera o mesmo em relação a Taiwan; e Trump parece assumir que todo o hemisfério ocidental, da Groenlândia à Terra do Fogo, pertence à esfera de influência estadunidense. Existem outros atores relevantes no cenário global: Europa, Japão, Coreia do Sul, Índia. Não são tão poderosos militarmente quanto os Estados Unidos, a Rússia e a China, mas têm voz e voto.

É verdade que esses três líderes podem imaginar o mundo em termos de esferas de influência, mas enquanto não houver um acordo explícito entre eles, como aconteceu em 1945, com Bretton Woods e a criação da ONU, não haverá regras claras para a nova ordem internacional.

·        Que futuro enxerga para o direito internacional e organizações como a ONU, com os Estados Unidos retirando seu financiamento dessas instituições?

As instituições internacionais estão na UTI. Por décadas, muitos países criticaram o intervencionismo estadunidense, algo com o que lidei em toda a minha carreira diplomática. Contudo, agora, o mundo começa a dimensionar quanto dinheiro o povo norte-americano direcionava para que esses sistemas funcionassem. É verdade, os Estados Unidos ajudaram a criar essas instituições em benefício próprio, mas Donald Trump não acredita que essa rede de organismos tenha servido aos interesses do cidadão estadunidense e, em termos históricos muito rápidos, decidiu se retirar de quase todos.

Um caso particularmente trágico é o da USAID. Já existem relatórios preliminares que mostram um aumento das mortes - crianças, gestantes, populações vulneráveis – em consequência direta do desmantelamento da ajuda humanitária. Isto é devastador. No entanto, deve servir de alerta para o resto do mundo: se não quisermos entrar em uma etapa prolongada regida pela lei do mais forte, os países menores deverão se coordenar e pressionar os Estados Unidos a recuperar uma liderança baseada em valores, cooperação e paz internacional.

·        Como o senhor imagina o futuro político de Trump? É possível um impeachment? O que vem pela frente, na linha de sucessão?

Um impeachment depende, em última instância, do eleitorado estadunidense. O procedimento é claro: começa na Câmara dos Representantes e depois segue para o Senado. Isso já aconteceu com Trump duas vezes: a Câmara dos Representantes avançou, mas o Senado o absolveu. As regras constitucionais não vão mudar.

No entanto, a composição do Congresso pode mudar nas eleições de meio de mandato de 2026. Se os democratas recuperarem as duas casas, um impeachment é muito provável. O próprio Trump reconheceu isso. Dito isso, basta que uma das casas permaneça nas mãos republicanas para bloqueá-lo. E é aí que aparece uma brecha: Trump já perdeu apoio dentro de seu próprio partido, como se viu na rejeição de vários senadores republicanos ao uso de poderes de guerra na Venezuela. Esse é um calcanhar de Aquiles sério.

·        O senhor foi embaixador no Panamá até a chegada de Trump ao poder. Por que renunciou?

Sou um funcionário de carreira em segurança nacional. Minha lealdade sempre foi à Constituição, não a um presidente. Servi tanto a governos republicanos quanto a democratas. Durante a campanha de 2016, fiquei profundamente preocupado com a retórica de Trump: seu discurso sobre migrantes, sobre alianças como a OTAN, sobre a América Latina. Como servidor público, permaneci em silêncio o máximo que pude. Até que não pude mais.

O ponto de ruptura foi Charlottesville, quando ele disse que havia “pessoas muito boas dos dois lados”. Vi com meus próprios olhos neonazistas e supremacistas brancos (naquela manifestação de 2017, em que um carro dirigido por um supremacista atropelou uma multidão que protestava contra esses grupos extremistas, com uma pessoa morta e 19 feridas). Para mim, foi moralmente impossível continuar representando um presidente a quem não podia servir com honestidade e lealdade, por isso renunciei.

¨      O que Trump quer ao atacar o Irã e o que ele pode conseguir

Pouco após Israel lançar o que chamou de "ataques preventivos" contra o Irã na manhã deste sábado (28/02), o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, confirmou que as ações faziam parte de uma ampla ofensiva conjunta israelo-americana.

"Nosso objetivo é defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano", disse Trump num vídeo compartilhado nas redes sociais, prometendo destruir as capacidades nucleares e militares do Irã. "Vamos garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear", disse. Ao definir os objetivos da ofensiva, Trump também disse que os EUA destruiriam o programa de mísseis balísticos do Irã e suas forças navais.

Como a campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã não parece ser de curto prazo e limitada, analistas acreditam que o conflito pode continuar por semanas, se não meses. E em meio à tensão, o resultado dos objetivos que Israel e os EUA esperam alcançar permanece em aberto, e as consequências podem não ser as desejadas.

<><> 1º objetivo: Impedir o Irã de ter armas nucleares

Após a guerra de 12 dias entre o Irã e Israel em junho de 2025, Trump declarou que os EUA haviam "obliterado" as principais instalações nucleares do Irã e que o regime fundamentalista não seria capaz de construir armas nucleares num futuro próximo.

"Os EUA estão conduzindo uma guerra cujo objetivo é, mais uma vez, destruir esse programa, então acho que isso é um pretexto", avalia Marcus Schneider, especialista da Fundação Friedrich Ebert (FES, na sigla em alemão) no Líbano.

"O programa nuclear do Irã sofreu um revés na época devido aos ataques dos EUA; alguns dizem que esse revés foi de alguns meses, outros, de alguns anos", diz. "Mas acredito que ele não pode ser eliminado. É também uma questão de conhecimento técnico, o que significa que, se o Irã tem o conhecimento técnico para construir essas centrífugas e enriquecer [urânio], então isso é algo que você não pode eliminar com a força aérea."

Shahin Modarres, analista de segurança baseado na Itália, afirma que um Irã com armas nucleares sempre será visto por Israel e pelos EUA como inaceitável. "Impedir a militarização nuclear é, portanto, um objetivo estratégico, não apenas uma preferência política", afirma.

Diba Mirzaei, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), por sua vez, vê um pretexto para justificar a guerra, argumentando que "atualmente não há nenhum perigo prático emanando do Irã".

As negociações entre os EUA e o Irã em Genebra esta semana sobre o programa nuclear de Teerã não produziram resultados concretos antes do início dos ataques.

<><> 2º objetivo: Eliminação do programa de mísseis balísticos do Irã

Alguns especialistas acreditam que os EUA e Israel consideram as capacidades balísticas de Teerã uma ameaça maior do que seu programa nuclear. Na guerra de 12 dias do ano passado, o Irã demonstrou que seus mísseis poderiam causar danos a Israel e às instalações militares dos EUA na região.

"Operacionalmente, instalações de produção, locais de armazenamento e cadeias de aquisição de combustível sólido são alvos possíveis – como demonstraram os recentes ataques a infraestruturas relacionadas a mísseis", destaca Modarres.

"No entanto, o know-how tecnológico não pode ser destruído com bombas", diz ele, acrescentando que a erradicação completa do programa de mísseis do regime iraniano "é improvável, mas uma degradação severa e uma limitação de longo prazo da capacidade são possíveis".

Schneider concorda: "É uma indústria nacional, o que significa que não se trata de mísseis balísticos importados. O Irã está em posição, como provou desde o fim da última guerra, de produzi-los por conta própria. É claro que é possível destruir o arsenal, mas a questão é quanto tempo isso levará e quem será prejudicado no processo".

<><> 3º objetivo: Destruição das forças navais do Irã

Para Schneider, é mais viável para os EUA aniquilar a Marinha do Irã do que suas capacidades de mísseis. "É claro que isso é militarmente possível. Mas é preciso entender que o Irã também têm muitos barcos pequenos – as chamadas lanchas rápidas. Portanto, acho que não é algo que possa ser alcançado em uma semana", diz o analista.

Modarres destaca que há um precedente histórico para esse tipo de operação. "Durante a Operação Louva-a-Deus (1988), os EUA causaram graves danos às capacidades navais do Irã. Se a liberdade de navegação – especialmente no Estreito de Ormuz, que é um ponto crítico para o abastecimento energético global – for ameaçada, os EUA poderão justificar uma ação naval em grande escala. O objetivo estratégico disso seria garantir a abertura das rotas marítimas", enfatiza Modarres.

Sara Kermanian, pesquisadora de relações internacionais da Universidade de Sussex, no Reino Unido, compartilha dessa opinião: "Os Estados Unidos poderiam causar graves danos às forças navais ativas do Irã no curto prazo, degradando significativamente sua capacidade de interromper o tráfego marítimo".

<><> 4º objetivo: Mudança de regime

Não está claro como Trump pretende alcançar esse objetivo por meio de sua mais recente campanha militar, já que Washington não deu indícios de que iniciará operações terrestres dentro do Irã. Mas relatos de ataques aéreos israelenses e americanos contra alvos militares e governamentais dentro do Irã mostram que a campanha visa enfraquecer substancialmente o regime.

"Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será seu. Esta será provavelmente a sua única chance por gerações", disse Trump em seu discurso neste sábado. "Por muitos anos, vocês pediram a ajuda dos Estados Unidos, mas nunca a receberam."

Modarres diz que novos protestos em massa contra o regime linha-dura do líder supremo Ali Khamenei, semelhantes aos de janeiro, são prováveis, mas exigiriam um evento desencadeador poderoso. "Dada a memória da repressão, é improvável que haja uma revolta espontânea sem que haja um enfraquecimento estrutural do regime. Declarações que sugerem oportunidades podem funcionar mais como sinais estratégicos do que como compromissos firmes", avalia.

Schneider diz que derrubar o regime exigiria tropas terrestres. "Acho bastante fantasioso imaginar que Trump pretenda fazer isso apenas com o poder aéreo e acredite que a população iraniana se levantará em meio a uma guerra e agirá contra esse regime brutal", diz.

"Se o objetivo real é a mudança de regime, então presumo que esta guerra irá durar mais tempo, possivelmente vários meses. E a grande questão que se coloca é a da resiliência do regime", sublinha.

Modarres diz que a oferta de imunidade de Trump aos membros da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) "é uma estratégia clássica que visa incentivar a deserção da elite e acelerar a fragmentação interna".

"Sua eficácia aumentará se a pressão militar e econômica sustentada enfraquecer a coesão do regime. A rendição institucional da IRGC só seria plausível em condições de um colapso sistêmico profundo", afirma.

<><> E se o objetivo de derrubar o regime não for alcançado?

Kermanian avalia que, se o objetivo de Trump de derrubar o regime não for cumprido, as consequências de curto prazo para os cidadãos podem ser graves.

"Um Estado ferido, mas intacto, pode responder com repressão intensificada, especialmente se perceber que segmentos da sociedade acolheram a pressão externa. Muito dependerá, então, de se a escalada será seguida por um acordo negociado que reestruture as relações e, pelo menos, alivie as sanções, ou se o confronto continuará em ciclos de sanções, conflitos por procuração e ataques periódicos", diz ela, acrescentando que, na ausência de um acordo, o Irã poderia entrar num período prolongado e mais severo de militarização e desgaste econômico.

 

Fonte: Entrevista com John Feeley, para Hector Pavon, em Clarín-Revista Ñ - tradução do Cepat, em IHU/DW Brasil

 

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