terça-feira, 3 de março de 2026

Fernando Capotondo: O chá virou negócio — e a China não deixa esfriar

"Não me interessa a imortalidade, apenas o sabor do chá". A frase resume o espírito do "Poema das Sete Xícaras de Chá", que o mestre Lu Tong escreveu nos tempos da dinastia Tang (618-907 d.C.), um dos períodos mais brilhantes da história chinesa. Recluso durante anos nas montanhas de Henan, o poeta descobriu que o imenso prazer que sentia diante de uma xícara, quase fervendo como se preparava então, lhe dava uma sensação de transcendência que nenhuma outra experiência terrena conseguia proporcionar.

Mais de mil anos depois, enquanto os versos de Lu continuam definindo a alma da cultura chinesa, o país decidiu apostar forte na reindustrialização dos extratos do chá — polifenóis, catequinas, óleos essenciais e compostos bioativos —, como ingredientes centrais de um circuito produtivo que opera longe daquelas xícaras fumegantes do passado.

Produtos químicos de uso cotidiano, soros antioxidantes, detergentes biodegradáveis, suplementos metabólicos, bebidas, cosméticos e alimentos saudáveis são apenas alguns dos setores que se beneficiarão com essa expansão do uso das matérias-primas e componentes do chá, segundo as previsões do Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação e outros 4 departamentos governamentais. Para os especialistas chineses, a imagem do chá já não remete a camponeses curvados em uma plantação interminável, mas a um biotecnologista de jaleco em um laboratório silencioso.

Como repete o governo em seus documentos oficiais, a meta é fortalecer a inovação científico-tecnológica do chamado "chá inteligente", um sistema produtivo que hoje utiliza sensores 5G nas áreas de cultivo, robôs coletores com visão artificial e códigos QR que permitem ao consumidor saber de qual encosta veio seu chá e até quais fertilizantes foram usados no cultivo. "A cerimônia do chá agora conversa com a nuvem e ninguém parece se escandalizar", admitem de Pequim, nessa mistura tão chinesa de orgulho tecnológico e melancolia cultural.

No ano passado, os números acompanharam essa nova tendência. A China foi um dos principais fornecedores de extratos de chá, em um mercado global avaliado entre 3 e 4,7 bilhões de dólares, com uma taxa de crescimento anual entre 7,7% e 8,2% até 2030, segundo estimativas do setor levantadas pelo Tea Extracts Market. Esses números dialogam com o protagonismo que a China tem hoje no cenário internacional, como produtora de quase 45% do chá mundial, com 75% do volume concentrado em chá verde, 20% em chá preto e 5% no chamado oolong.

Nada disso ocorre por iluminação tardia de algum funcionário. Por trás da digitalização dos cultivos e da diversificação dos extratos está presente a "mão visível" de um rígido planejamento estatal que conduz todos os setores da economia. Precisamente nesse contexto se insere o recente anúncio das "Diretrizes para a Melhoria e Atualização da Indústria do Chá 2026-2030", que pretende alcançar nesse período nada menos que 1,5 trilhão de yuans, o equivalente a cerca de 217 bilhões de dólares.

O plano estabelece uma série de metas que têm como ponto de partida o ano de 2025, quando a indústria do chá na China atingiu um valor de US$ 145 bilhões em toda a sua cadeia industrial, com mais de 60 milhões de pessoas empregadas no setor e receitas das empresas de processamento superiores a 17 bilhões de dólares. Como meta intermediária para 2028, a intenção é desenvolver 5 setores industriais com receitas anuais de quase US$ 15 bilhões cada, e um grupo de empresas líderes com lucros superiores a 7 bilhões de dólares. Em qualquer outro país, seria um programa de várias décadas. Na China, apenas um lustro.

Para atingir esses objetivos, o documento estrutura 19 tarefas-chave em torno de 6 áreas estratégicas, que buscarão impulsionar a criação de fábricas inteligentes com inteligência artificial e fomentar a "segunda transformação" de produtos voltados para os consumidores mais jovens.

No Fórum Internacional de Consumo Haihe, realizado no ano passado em Tianjin, o cofundador da Chi Forest, Wang Pu, contou uma anedota reveladora. Em 2023, sua empresa de bebidas saudáveis lançou um produto com ingredientes da medicina tradicional que, só nos primeiros meses, conseguiu vender cerca de 14 milhões de dólares, tornando-se "um dos novos produtos de crescimento mais rápido" do mercado, segundo reconheceu o empresário à agência de notícias Xinhua.

No mesmo cenário, o diretor-geral do Boston Consulting Group, Roger Hu, explicou que até a hidratação pode se tornar uma boa estratégia de posicionamento: "Se partirmos do princípio de que um consumidor bebe 8 copos de água por dia para se manter alerta, relaxar, socializar e encurtar distâncias, não é absurdo propor que cada um desses copos pode ser ocupado por uma versão diferente de chá — engarrafado, com gás, enriquecido com ingredientes funcionais ou apresentado como alternativa saudável às bebidas açucaradas". E o mercado sabe disso.

Do lado de fora, as possibilidades também parecem ilimitadas, como vem demonstrando o desembarque de diferentes marcas no mercado americano, com estética pop e filas de clientes que já não distinguem turistas de consumidores locais, enquanto a concorrência observa. A MIXUE Ice Cream & Tea se instalou há meses em Hollywood, a Heytea passou de 2 para 35 lojas em apenas um ano, a Molly Tea abriu 5 unidades e a Chagee inaugurou outras 2 na área de Los Angeles em menos de 3 meses.

Por trás dessa expansão comercial — tão silenciosa quanto eficaz — se desenha uma narrativa diferente da que costuma circular em muitos países do Ocidente, onde o chá chinês ainda é associado a antigas cerimônias de vapor silencioso. As folhas que acompanharam o poeta Lu Tong hoje se multiplicam em sensores, códigos QR e franquias americanas, como se o tempo fosse uma atualização de software.

Quando se trata de se reinventar, a China não toma com calma nem mesmo seu milenar chá. E muito menos o negócio que o cerca. Porque por trás de cada folha há algo mais do que antioxidantes. Há Estado.

¨      Competição e cooperação: o equilíbrio estratégico na nova etapa das relações China–Alemanha. Por Michael Wang

A primeira visita do chanceler alemão Friedrich Merz à China ocorre em um momento de transformação da ordem política global e de aceleração da competição industrial. A presença de uma ampla delegação empresarial alemã deixa claro que, apesar dos debates na Europa sobre a chamada “redução de riscos”, a relação econômica entre China e Alemanha mantém um peso estrutural significativo.

A mensagem central da visita é simples: a competição aumenta, mas a cooperação continua sendo necessária.

Hoje, China e Alemanha já não representam economias em estágios distintos de desenvolvimento. Ambas são potências industriais com alta densidade tecnológica e sólidas capacidades manufatureiras. Por isso, sua interação se move em uma lógica dual: competição e cooperação avançam em paralelo.

Em setores como mobilidade elétrica, baterias e automação industrial, empresas dos dois países competem diretamente. A China conta com cadeias de suprimento altamente integradas e ciclos de inovação acelerados; a Alemanha, por sua vez, mantém vantagens consolidadas em engenharia de precisão, padrões industriais e equipamentos avançados. Essa competição não é um confronto, mas o resultado natural da convergência entre duas economias maduras.

O relevante é que a competição não eliminou a complementaridade estrutural.

As empresas alemãs não se retiraram do mercado chinês diante de maiores pressões competitivas. Pelo contrário, cada vez mais companhias consideram a China um centro de inovação, e não apenas uma base produtiva. Centros de pesquisa e desenvolvimento se expandem e alianças tecnológicas se aprofundam. Ao mesmo tempo, empresas chinesas continuam incorporando a experiência alemã em manufatura avançada e engenharia de sistemas.

A inovação, cada vez mais, flui em ambas as direções.

Para a América Latina, a evolução da relação China–Alemanha tem implicações concretas. Em um contexto de reconfiguração das cadeias globais de valor, a transição energética e a digitalização tornaram-se eixos centrais do desenvolvimento econômico. O XV Plano Quinquenal da China impulsiona uma estratégia baseada na inovação e na transformação verde, que abrange energias renováveis, eletrificação do transporte, desenvolvimento do hidrogênio e descarbonização industrial.

A magnitude dessa transição gera forte demanda por maquinário avançado, tecnologias ambientais e serviços industriais especializados. A Alemanha possui ampla experiência nessas áreas, enquanto a China demonstrou capacidade de comercialização rápida, integração digital e expansão eficiente em escala. A cooperação entre ambos pode gerar efeitos multiplicadores na economia global e abrir espaços de oportunidade também para os países do Sul Global.

Um ponto-chave é o chamado Mittelstand alemão — as pequenas e médias empresas que constituem a espinha dorsal do modelo industrial da Alemanha. Muitas delas são líderes mundiais em nichos tecnológicos altamente especializados. À medida que a China avança rumo a um crescimento de maior qualidade, surgem novas oportunidades em manufatura inteligente, equipamentos verdes, automação logística e componentes especializados. Uma maior participação dessas empresas fortaleceria a diversificação e a resiliência do vínculo econômico bilateral.

A relação entre China e Alemanha entra em uma fase mais complexa, mas também mais madura. O desafio não é evitar a competição, mas administrá-la dentro de um marco de abertura e confiança mútua.

Em um ambiente internacional marcado pela incerteza, quando duas grandes economias industriais optam por competir de maneira racional dentro de um esquema cooperativo mais amplo, contribuem não apenas para seu próprio desenvolvimento, mas também para a estabilidade do sistema produtivo global.

A competição aguça capacidades.

A complementaridade sustenta a cooperação.

Para a América Latina e o conjunto do Sul Global, uma relação China–Alemanha capaz de equilibrar esses dois elementos representa um fator adicional de estabilidade na economia internacional.

¨      Cooperação China-Alemanha é a única solução ótima para lidar com riscos, diz premiê Li

O primeiro-ministro chinês, Li Qiang, afirmou na quarta-feira que a cooperação entre a China e a Alemanha é a única solução ótima para lidar com os riscos, e que o desenvolvimento é a única opção para ambas as partes garantirem a segurança.

Li fez essas declarações ao assistir a um simpósio do comitê consultivo econômico China-Alemanha em Beijing, juntamente com o chanceler alemão, Friedrich Merz, em visita ao país.

"Quanto mais grave for a situação, mais a China e a Alemanha devem fortalecer a cooperação", afirmou Li.

Em meio à crescente instabilidade e incerteza na economia mundial, Li afirmou que a China e a Alemanha, como duas grandes economias e por meio de uma cooperação estreita e contínua, não apenas ampliaram o espaço para seu próprio desenvolvimento, mas também criaram forças motrizes para a economia mundial.

Li observou que tanto a economia chinesa quanto a alemã estão apresentando um ímpeto positivo de recuperação e que haverá um espaço mais amplo para a cooperação econômica e comercial entre os dois países durante o período do 15º Plano Quinquenal, que começou este ano.

O padrão básico de cooperação entre a China e a Alemanha, caracterizado pela complementaridade industrial, não mudou, e as áreas em que os dois países podem colaborar excedem em muito aquelas em que os dois lados estão envolvidos em concorrência, disse Li, acrescentando que é totalmente possível promover o desenvolvimento em conjunto, moldando uma relação sólida definida tanto pela concorrência quanto pela cooperação.

Com vistas a resultados mutuamente benéficos de nível superior, Li instou a China e a Alemanha a envidarem esforços coordenados em três áreas principais.

Em primeiro lugar, Li apelou ao reforço dos fundamentos básicos da cooperação tradicional, com as empresas dos dois países continuando a aprofundar a cooperação em áreas como maquinaria, equipamentos e produtos químicos, e acelerando a localização das suas atividades comerciais.

Em segundo lugar, sobre novas oportunidades para o desenvolvimento futuro, Li disse que os dois países devem apoiar empresas e instituições de pesquisa científica para promover o fluxo bidirecional de recursos inovadores, unir-se para explorar mercados terceiros e realizar pesquisas conjuntas e aprofundadas sobre tecnologia e construção de plataformas para compartilhar os resultados da cooperação.

Em terceiro lugar, Li instou à criação de um ambiente favorável ao investimento e aos negócios. A China expandirá firmemente sua abertura de alto nível e atenderá ativamente às demandas razoáveis das empresas financiadas pela Alemanha e outros países, declarou Li, expressando a esperança da China de que o governo alemão proporcione um ambiente de negócios aberto, justo e não discriminatório para as empresas chinesas que operam no país.

A China também espera que os empresários chineses e alemães desempenhem papéis fundamentais na promoção da cooperação econômica e comercial, no reforço da comunicação e do entendimento entre as duas partes e na promoção da estabilidade das relações bilaterais, acrescentou Li.

Observando que a Alemanha e a China são importantes parceiros comerciais uma para a outra, Merz destacou que essas relações econômicas e comerciais bilaterais - caracterizadas pela vitalidade - têm mantido um desenvolvimento de alto nível ao longo dos anos, promovendo efetivamente o crescimento econômico de ambos os países.

Ele acrescentou que a Alemanha está comprometida com o aprendizado mútuo e a troca de experiências com a China, bem como com o fortalecimento da cooperação mutuamente benéfica em áreas como automóveis, produtos químicos, maquinaria, energia renovável e economia digital, com o objetivo de promover a prosperidade comum e apoiar o desenvolvimento estável e de longo prazo das relações entre a Alemanha e a China.

A Alemanha apoia as empresas alemãs no aprofundamento de seus investimentos no mercado chinês, está disposta a melhorar continuamente seu ambiente de negócios e acolhe mais empresas chinesas para investir e operar na Alemanha, criando empregos e fortalecendo a conectividade, afirmou ele.

¨      China amplia vantagem e mira trilhões em investimentos globais de energia limpa, diz mídia

Empresas chinesas estão posicionadas para lucrar com a expansão global da infraestrutura de energia limpa, um mercado que pode movimentar trilhões de dólares nas próximas décadas. Analistas afirmam que a China reúne escala industrial, custos baixos e domínio tecnológico capazes de atender à demanda crescente por soluções verdes em todo o mundo.

De acordo com o South China Morning Post, Pequim está pronta para liderar o mercado de infraestrutura de energia limpa em escala global. O país já consolidou internamente um vasto ecossistema de energia renovável, que vai de painéis solares e turbinas eólicas a veículos e baterias elétricas. Esse avanço doméstico permitiu que empresas chinesas acumulassem experiência, capacidade produtiva e competitividade que poucos concorrentes internacionais conseguem igualar.

Segundo especialistas consultados pela mídia, esse cenário cria uma oportunidade extraordinária para companhias chinesas captarem parte dos investimentos globais necessários para reduzir a dependência de combustíveis fósseis.

Estimativas do G20 apontam que o mundo precisará de US$ 94 trilhões (cerca de R$ 483 trilhões) em infraestrutura até 2040, e a China já demonstra força nesse setor, com uma produção econômica de energia limpa equivalente ao produto interno bruto (PIB) do Brasil.

A liderança chinesa também se reflete no mercado internacional, em que mais da metade dos veículos elétricos e da capacidade solar instalada no mundo está no país, que exportou mais de US$ 20 bilhões (aproximadamente R$ 102,6 bilhões) em tecnologia limpa apenas em agosto de 2025. Além disso, empresas chinesas ampliaram contratos de energia verde na Iniciativa Cinturão e Rota, atingindo um recorde de US$ 18,3 bilhões (mais de R$ 93,9 bilhões).

Apesar desse avanço, a China continua investindo pesadamente em combustíveis fósseis. Em 2025, entidades chinesas firmaram US$ 71,5 bilhões (cerca de R$ 366,8 bilhões) em contratos de petróleo e gás na Cinturão e Rota, mais que o triplo do registrado no ano anterior. Para países mais pobres, projetos tradicionais ainda são mais baratos e atraentes.

Diante dos riscos crescentes das mudanças climáticas, acadêmicos têm pressionado Pequim a redirecionar seus investimentos externos para infraestrutura de adaptação climática. Eles alertam que calor extremo e inundações podem comprometer a produtividade de projetos convencionais e aumentar perdas econômicas.

Nos últimos anos, a China já começou a ajustar sua estratégia, priorizando projetos menores e mais sustentáveis dentro da iniciativa. Essa abordagem "pequena, porém bela" favorece soluções modulares e descentralizadas de energia renovável, consideradas mais resilientes e alinhadas às necessidades climáticas do futuro.

 

Fonte: Brasil 247

 

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