Moisés
Mendes: Guerras escondem as podridões do fascismo
Foram
empurradas para a parte debaixo dos sites dos jornais americanos as notícias
sobre o caso Epstein. O que importa agora é a guerra. Trump tem armas para que
quase tudo o que o implica com o pedófilo seja esquecido, enquanto mata
aiatolás e crianças no Irã.
Um dos
textos que perderam visibilidade no New York Times está desde sábado na capa do
jornal online, mas lá embaixo. Aborda as relações de Jeffrey Epstein com
médicos de elite de todas as áreas.
O
bilionário que oferecia adolescentes aos amigos controlava a vida das mulheres
submetidas ao seu comando até quando viravam pacientes. O NYT descobriu nos
dossiês do caso que pelo menos 12 profissionais cuidavam de doenças venéreas e
de pele e outros problemas de saúde das moças. Dentistas faziam parte do grupo.
Epstein
tinha o controle dos prontuários médicos delas. Encaminhava as mulheres
exploradas aos médicos, tinha acesso aos tratamentos e fazia lobby em clínicas
e hospitais para que tivessem prioridade.
Epstein
ficava sabendo das suas doenças e até de detalhes dos exames de sangue.
Determinava quem deveria ter atendimento preferencial e quem não merecia
atenção.
Meninas
com gonorreia, por exemplo, eram encaminhadas a outros médicos, de fora do
grupo contratado por Epstein, para que se afastassem dos seus consultórios e
não surgissem nos registros suspeitas de que eram próximas do bilionário.
Por que
falar disso agora? Porque a guerra está fazendo com que os jornalões empurrem
essas notícias para espaços secundários. Não é o momento para falar de
crueldades, desmandos, machismo, crimes sexuais, ética e valores.
O
inimigo é o Irã. Como os jornalões fazem no Brasil com a família Bolsonaro.
Tudo o que se sabe e o que não se sabe sobre os crimes e as barbaridades dos
Bolsonaros desaparece da grande mídia. Porque agora a guerra é barra pesada, e
Flávio não pode ser fragilizado. O inimigo é Lula.
Escondem
todas as investigações sobre todos os crimes dos quais o candidato é acusado e
investigado, porque é preciso enfeitar e colocar de pé o cara que vai enfrentar
Lula, em nome de toda a direita.
O
Flávio que vai à guerra contra Lula será apresentado daqui a pouco como um
político sem coisas ruins no passado. Com a virtude de ser o filho capaz de dar
continuidade ao trabalho que o pai começou em 2018, mas com certa moderação,
quase imaculado. Acabar com Lula é a prioridade.
Os
jornalões americanos são obrigados, pela imposição da guerra, a esconder os
podres de Trump que o conectam a Epstein. E os jornalões brasileiros usam a
mesma desculpa de que o embate político empurra para os cantinhos as pautas dos
podres do filho ungido.
É a
guerra, podem dizer Folha, Globo e Estadão, como dizem lá New York Times,
Washington Post, Wall Street Journal, USA Today. Qualquer guerra, em qualquer
lugar, passa por cima de todas as pautas.
Flávio
Bolsonaro tem os mísseis do bolsonarismo e as bazucas da velha direita para
enfrentar Lula. Os mais otimistas das esquerdas podem dizer que é agora que
seus problemas com a polícia e a Justiça irão aparecer.
Já
apareceram muito antes, já foram explorados de todas as formas e não produziram
nenhum efeito concreto, nem como condenação ou reparação no Judiciário ou como
dano à sua imagem política.
O que
os jornalões farão agora, para que o filho seja o herdeiro ‘moderado’ do pai, o
empreendedor da família, é apresentá-lo como aceitável, desde que seu passado
vá para as chamadas secundárias.
Os
americanos pouco ou nada saberão do caso Epstein durante meses. Os brasileiros
pouco irão saber até outubro sobre rachadores, rachadinhas, lavagem de
dinheiro, uso da arapongagem da PF e da Abin pela família, milícias,
enriquecimento ilícito, mansões e os crimes da cloroquina e do incentivo à
morte na pandemia.
Trump
irá salvar a alma americana e o mundo contra o absolutismo dos aiatolás. Até os
próprios iranianos serão salvos pelo seu gesto de grandeza em nome das
liberdades.
Flávio
apresenta-se como o salvador da pátria, da família enlatada e da moral cristã
contra tudo isso que está aí. Guerra é guerra, dizem os jornalões. O resto pode
esperar, se não desaparecer em meio aos escombros.
• Florestan Fernandes Jr: A escalada
militar de Trump e a vulnerabilidade da democracia brasileira
Mais
uma vez, o mundo acorda em um sábado sob o impacto de uma ação militar
promovida por Donald Trump. A penúltima foi no dia 3 de janeiro, com o
sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Desta vez, a nova
ofensiva, conduzida pelos Estados Unidos em articulação com Israel, teve como
alvo o Irã.
Não
houve surpresa. Os sinais estavam dados, Trump já vinha, nas últimas semanas,
ameaçando um ataque militar caso o país não desistisse de seu projeto nuclear.
Entre a
avalanche de análises e informações produzidas nas últimas horas, uma leitura
se destacou pela clareza e profundidade: a entrevista conduzida por Leonardo
Attuch com o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos. A avaliação
apresentada pelo intelectual é precisa e inquietante, e merece ser levada a
sério.
O
cenário global atravessa um momento de instabilidade aguda. A Rússia
encontra-se parcialmente neutralizada pela guerra contra a Ucrânia, enquanto a
China atua com cautela, plenamente consciente de seus limites militares em um
confronto direto com Washington. No Oriente Médio, o regime dos aiatolás vive
talvez seu momento mais frágil desde 1979.
Ao responder ao ataque com bombardeios contra Israel e bases Estados
Unidos no Golfo Pérsico, o Irã sinaliza que o conflito pode entrar em uma
escalada perigosa. O fanatismo religioso pode empurrar o país para uma guerra
fratricida, de consequências imprevisíveis.
É nesse
contexto que a situação brasileira se torna particularmente preocupante. A
escalada militar promovida por Trump não redesenha apenas a geopolítica global.
Ela testa, ao mesmo tempo, a resiliência das democracias periféricas.
A crise
no Golfo Pérsico não é apenas um pano de fundo distante ou meramente
diplomático. Ela projeta efeitos diretos sobre o Brasil, um país de grande
interesse para os Estados Unidos e que ainda não conseguiu consolidar
plenamente suas defesas democráticas depois de anos de erosão institucional. A
extrema-direita segue organizada, ativa e com capacidade de mobilização, e a
possibilidade de uma deriva autocrática, com protagonismo militar, segue sendo
uma ameaça concreta e permanente à nossa democracia.
• Para analistas, assassinato de aiatolá
Khamenei é golpe ao multilateralismo: ‘Ditadura militar global dos Estados
Unidos’
Os
ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, que causaram a
morte do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, é um duro golpe ao
direito internacional e, em especial, ao multilateralismo global. A opinião é
de analistas políticos a respeito do conflito, que entrou em seu segundo dia
neste domingo (1º).
“Em
termos da geopolítica internacional creio que é um revés ao eixo multipolar
anti-americano liderado por China, Rússia e Irã e Venezuela, Cuba e Coreia do
Norte”, disse ao Brasil de Fato Mohammed Nadir, do Observatório de Política
Externa do Brasil (Opeb).
Os
ataques de sábado, na opinião do professor, economista e escritor Elias
Jabbour, representam “a consolidação de uma ditadura militar global por parte
dos Estados Unidos”. “Eles mostram ao mundo que são o único país capaz de
intervir em todos os lugares”, avalia.
Para
Jabbour, estes ataques são também uma “tentativa de colocar o Brics em xeque”.
“E mais: ao atacar o Irã e tentar desmoralizar seu governo, ao assassinar seu
líder, tentam implodir a iniciativa Cinturão e Rota [também conhecida como Nova
Rota da Seda] a partir do Irã, que é uma das regiões mais estratégicas para
essa iniciativa.”
“Temos
que pensar o conceito de multipolaridade neste momento porque o mundo está de
cabeça para baixo e os americanos mostram uma capacidade muito grande de
intervir mundo a fora”, diz Jabbour.
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Violação da Carta da ONU
O
analista Julian Borger, do jornal britânico The Guardian, por sua vez, afirma
que “o presidente dos Estados Unidos viola a Carta da ONU poucos dias após
assumir o Conselho de Paz e opta por correr o maior risco de sua
administração”.
“A
primeira guerra da era do Conselho de Paz de Donald Trump começou – uma
tentativa não provocada de mudança de regime em colaboração com Israel, sem
qualquer fundamento legal, lançada em meio a esforços diplomáticos para evitar
o conflito e com consulta mínima ao Congresso ou ao público americano”,
escreveu.
O
Conselho de Paz foi apresentado ao Conselho de Segurança da ONU em novembro
como caminho para acabar com o massacre em Gaza. “Mas já era evidente, muito
antes dos primeiros mísseis serem disparados contra o Irã, que se tratava de
uma manobra enganosa. A ONU pensou estar comprando uma coisa, mas recebeu algo
bem diferente: um órgão rival ao Conselho de Segurança, porém sob a direção de
Trump”, analisa Borger.
O
especialista britânico ressalta que, “ao longo desse meio século, o Irã
provavelmente nunca representou uma ameaça tão pequena quanto agora,
enfraquecido tanto pelo ataque conjunto dos EUA e de Israel em junho passado,
que degradou suas defesas, quanto por décadas de sanções combinadas com a
migração econômica, que levou a protestos em massa nas ruas”.
O
correspondente do jornal em Washington, Robert Tait, afirma que derrubar o
governo da República Islâmica do Irã é sonho antigo da Casa Branca, desde a
revolução de 1979, que fez 52 reféns estadunidenses, detidos por mais de ano.
“A
tomada da embaixada dos EUA em Teerã por revolucionários islâmicos em novembro
de 1979 trouxe aos Estados Unidos uma humilhação no cenário mundial comparável
à derrota no Vietnã”, aponta Tait.
• Como fica o Irã sem Khamenei?
Analistas
se debruçam neste domingo sobre o cenário iraniano após a confirmação do
assassinato do líder do país. “O assassinato do Líder Supremo do Irã, o aiatolá
Ali Khamenei, em ataques aéreos conjuntos dos EUA e de Israel, representou um
dos golpes mais significativos para a liderança do país desde a Revolução
Islâmica de 1979, desencadeando protestos por parte de seus apoiadores”, disse
o analista Mohammed Mansour à Al Jazeera.
“Fontes
internas, especialistas militares e sociólogos políticos sugerem que a
decapitação da cúpula do Irã pode não ocorrer da forma prevista pelo Ocidente.
Em vez disso, corre o risco de dar origem a um Estado paranoico e militarizado,
lutando por sua sobrevivência, sem mais limites políticos a serem
ultrapassados.”
À
reportagem, Mohammed Nadir disse concordar que o assassinato foi um “duro golpe
à elite clerical iraniana”.
“Seguramente
vai ter consequências no futuro do Irã. Ainda é cedo para se pronunciar sobre o
futuro, mas é bem possível que haja alguma negociação no sentido de mudar o
regime sem mexer muito no Estado profundo iraniano, mas com algumas concessões,
tais como a neutralização do projeto nuclear iraniano, o sistema de mísseis
balísticos e o fim do apoio ao eixo de resistência no Oriente Médio”, avalia.
Ele
acredita que pode haver uma oportunidade para o surgimento de uma ala
reformadora no Irã, que certamente já existe no país. “[Uma ala] que seja capaz
de alinhar o Irã aos EUA, abrindo mão do projeto nuclear, mas tendo apenas uma
energia nuclear civil com controle internacional.”
A
analista Lyse Doucet, da BBC, afirmou que “estes são momentos cruciais na
turbulenta história da República Islâmica do Irã, mas seus clérigos e
comandantes mais poderosos já vinham se preparando para isso”.
“Somente
na primeira noite, na primeira onda de ataques [em junho de 2025], Israel
conseguiu assassinar nove cientistas nucleares e vários chefes de segurança. E,
nos dias seguintes, mais cientistas de alto escalão e pelo menos 30 comandantes
importantes foram mortos. Ficou claro que o aiatolá também poderia estar na
mira deles.”
Para
Doucet, “independentemente de quem emergir, o objetivo primordial permanecerá o
mesmo: a sobrevivência de uma ordem que mantém o clero e suas poderosas forças
de segurança no poder”.
• Governo brasileiro demonstra preocupação
com escalada de ataques no Oriente Médio
O
governo brasileiro divulgou neste sábado (28) nota oficial em que manifesta
“profunda preocupação” com a escalada de hostilidades na região do Golfo,
classificando o cenário como uma grave ameaça à paz e à segurança
internacionais, com possíveis impactos humanitários e econômicos de grande
alcance.
No
comunicado, o Brasil faz um apelo pela interrupção de ações militares ofensivas
e pede que todas as partes envolvidas respeitem o Direito Internacional. O
texto também condena medidas que violem a soberania de outros Estados ou que
possam ampliar o conflito, como ataques retaliatórios e ofensivas contra áreas
civis.
Ao
mencionar o artigo 51 da Carta das Nações Unidas, o governo brasileiro ressalta
que o direito à legítima defesa é excepcional e deve observar critérios de
proporcionalidade e vínculo direto com eventual ataque armado. Nesse contexto,
o país manifestou solidariedade à Arábia Saudita, ao Bahrein, ao Catar, aos
Emirados Árabes Unidos, ao Iraque, ao Kuwait e à Jordânia, apontados como alvos
de ataques retaliatórios do Irã no mesmo dia.
A nota
também lamenta a perda de vidas civis e expressa solidariedade às famílias das
vítimas. O governo enfatiza que é obrigação dos Estados assegurar a proteção da
população civil, em conformidade com o Direito Internacional Humanitário.
Por
fim, o Brasil reafirma que o diálogo e a negociação diplomática são o único
caminho viável para superar as divergências e construir uma solução duradoura
para a crise. O comunicado destaca ainda o papel central das Nações Unidas na
prevenção e resolução de conflitos, conforme previsto na Carta de São
Francisco.
Confira
o posicionamento na íntegra:
O
Governo brasileiro manifesta profunda preocupação com a escalada de
hostilidades na região do Golfo, que representa uma grave ameaça à paz e à
segurança internacionais, com potenciais impactos humanitários e econômicos de
amplo alcance.
Ao
fazer apelo à interrupção de ações militares ofensivas, o Brasil insta todas as
partes a respeitar o Direito Internacional e condena quaisquer medidas que
violem a soberania de terceiros Estados ou que possam ampliar o conflito, tais
como ações retaliatórias e ataques contra áreas civis. Recordando que a
legítima defesa, prevista no artigo 51 da Carta das Nações Unidas, é medida
excepcional e sujeita à proporcionalidade e ao nexo causal com o ataque armado,
o Brasil se solidariza com a Arábia Saudita, o Bahrein, o Catar, os Emirados
Árabes Unidos, o Iraque, o Kuwait e a Jordânia – objetos de ataques
retaliatórios do Irã em 28 de fevereiro.
Ao
lamentar a perda de vidas civis, o Brasil expressa, ainda, solidariedade às
famílias das vítimas. Enfatiza, a propósito, a obrigação dos Estados de
assegurar a proteção de civis, em conformidade com o Direito Internacional
Humanitário.
O
Brasil reafirma que o diálogo e a negociação diplomática constituem o único
caminho viável para a superação das divergências e a construção de uma solução
duradoura, cabendo às Nações Unidas papel central na prevenção e na resolução
de conflitos, nos termos da Carta de São Francisco.
Fonte:
Brasil 247/Brasil de Fato/Jornal GGN

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