Gasto
excessivo com aluguel: “É disso que as pessoas tentam fugir quando vão morar
nas favelas”
O
acesso universal à moradia continua sendo um dos problemas sociais não
resolvidos na sociedade brasileira. O déficit habitacional, contudo, não está
associado somente à dificuldade de aquisição da casa própria, mas à inadequação
de muitas moradias e, fundamentalmente, ao ônus excessivo com aluguel. Essa
realidade foi apresentada por Karina Leitão, pesquisadora do Laboratório
de A luta pela moradia, segundo a
pesquisadora, não pode ser dissociada de outro problema social: a pobreza. Essa
temática, defende, precisa ser politizada e o Estado deve se envolver “com
investimentos robustos para garantir a letra da lei”, o direito à moradia e à
cidade.
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As principais ideias apresentadas por Karina estão publicadas a seguir no
formato de entrevista.
• IHU – Como rediscutir a relevância da
luta pela moradia no Brasil de hoje?
Karina
Leitão – As questões da moradia no Brasil, associadas ao debate da pobreza,
precisam ser politizadas e discutidas com a solidariedade e a fraternidade que
São Francisco nos ensinou. Não podemos naturalizar a pobreza. Para além do
pensamento religioso, tem um debate que importa para todos nós – para corações
ateus, religiosos, não religiosos, de todas as comunidades de fé – e pelo qual
temos que nos unir, que é justamente a luta pelo lugar de morar. Uma coisa que
me inspira muito, mesmo nas casas mais pobres, aquelas que são construídas,
como dizia São Francisco, pedra sobre pedra, sonho sobre sonho, aos poucos, é a
dignidade. Essas casas merecem ter dignidade, a dignidade dos moradores que as
fazem. Mia Couto, escritor moçambicano que aborda essa temática na literatura
ficcional, baseada na realidade dos pobres do mundo, diz que o que importa não
é só a casa onde moramos, mas a casa que mora dentro de nós. Vou mostrar
imagens de casas de gente pobre, de gente trabalhadora. Gostaria que todo mundo
entendesse o quanto esse tema é prioridade politicamente. Precisamos que o
Estado esteja envolvido com investimentos robustos para garantir a letra da
lei, segundo a qual todos têm direito à moradia, à infraestrutura urbana, ao
direito à cidade e aos serviços.
Felizmente,
temos uma condição que, internacionalmente, é reconhecida como bastante
favorável do ponto de vista institucional e jurídico. A Constituição brasileira
tem dois artigos que garantem o direito ao urbano – os artigos 182 e 183 –,
além do Estatuto da Cidade, promulgado em 2001, e tantas outras legislações que
nos ancoram na garantia daquilo que precisamos reconhecer como importante.
Infelizmente, a nossa tradição de entendimento habitacional, muitas vezes, nos
leva a crer que é importante prover moradia do zero, ou seja, da construção da
casa sobre a terra nua. Entretanto, para pensar o direito à moradia e ao urbano
é preciso entender a diversidade do problema e das necessidades. Nesse sentido,
é importante que o Estado dê conta de tratar de alternativas que sejam tão
amplas quanto as necessidades.
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Habitações autoconstruídas
Dito
isto, vou privilegiar a abordagem do tema ao qual tenho me dedicado, que são as
habitações autoconstruídas. A maioria dos brasileiros mora em habitações
autoconstruídas. Essas habitações foram edificadas sem arquitetos, sem
engenheiros, com bons mestres de obra, com pedreiros que fizeram o serviço, às
vezes, em regime de mutirão. Na década
de 1970, a professora Ermínia Maricato fez dois filmes muito importantes sobre
essa temática. Um deles chama-se Loteamento Clandestino e o outro, Fim de
Semana. Em ambos, ela conta como a casa foi sendo construída para a maioria dos
pobres deste país. É assim: sem ter um salário que garantisse a construção, as
famílias brasileiras, na sua maioria, iam fazendo as suas economias e
construindo num regime de mutirão entre vizinhos, com alguma contratação de
serviços. Esses filmes foram exibidos
em vários cineclubes comunitários, inclusive nas casas de fé, e ganharam um
status científico importante, o qual lastreia a atuação do nosso instituto.
Nossas pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros mora em lugares
construídos sem a ajuda do Estado, de arquitetos ou profissionais da
construção. São os brasileiros que, sem salário, foram concentrando todos os
seus esforços para obter uma moradia, seja endividando-se, seja pegando
material de doações.
• IHU – Quais são as referências teóricas
que fundamentam sua abordagem sobre a moradia?
Karina
Leitão – O nosso campo científico é o materialismo histórico-dialético,
inaugurado por dois europeus importantes: Karl Marx e Friedrich Engels. As
imagens apresentadas no vídeo (abaixo) fazem parte de uma pesquisa do professor
Artur Rozestraten. Ele foi minerando o acervo do Exército da Salvação na
Inglaterra. Enquanto Marx estava estudando as condições de trabalho nas
fábricas, no auge da Revolução Industrial, e começou a entender o quanto o
capitalismo era um sistema que perpetuava desigualdades, Engels estava
estudando as casas dos moradores. Notemos, pelas imagens, como, no auge da
máquina a vapor nas fábricas, que estava inventando um novo sistema de
produção, os trabalhadores viviam naquela Inglaterra de tanta profusão de
desenvolvimento para o mundo. Essas imagens mostram como os trabalhadores
dormiam nos intervalos do trabalho: pendurados em cordas. Isso custava aos
trabalhadores dois centavos de libra. A outra imagem mostra os trabalhadores
sentados. Eles pagavam três centavos de libra para se sentar e descansar,
enquanto um fiscal fiscalizava se eles estavam dormindo. Eles não podiam
dormir; só podiam descansar o corpo.
Eles pagavam quatro centavos de libra para isso. De lá para cá, se o
pensamento socialista – que foi reivindicando outro jeito de pensar esse
sistema – não se perpetuou historicamente, ele foi, em alguma medida, dando
condições de imaginarmos que esse sistema poderia ser diferente. Ou seja, que
não poderíamos sujeitar as pessoas a viverem desse jeito. Dentro do pensamento
marxista, científico, histórico e dialético, Engels é quem olha para a forma
como os trabalhadores moram. Se Marx estava estudando o capitalismo pela porta
dos fundos das fábricas, analisando os relatórios de acidentes e de trabalho
infantil, o parceiro dele olhava para como as pessoas no mundo do trabalho
moravam. E elas moravam nas favelas, que eram assentamentos variados.
• No Brasil, como e em quais locais das
cidades os assentamentos de trabalhadores foram sendo organizados?
Karina
Leitão – Em Belém, minha terra natal, existe a baixada, e os pobres moram na
“baixa”. Em outras cidades brasileiras, eles moram nas áreas de morro. Em
Recife, Florianópolis e no Rio de Janeiro, o trabalhador precisou subir o
morro. Gostaria que todos parassem para
pensar como são compostas as suas cidades. Vamos entrar juntos pela porta dos
fundos das nossas cidades, como fez Engels, para pensarmos o nosso sistema e
não naturalizarmos a desigualdade e a pobreza.
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Belém
De
início, mostro duas imagens da região norte de Belém (vídeo acima), para contar
para vocês que já temos mais de um século de favelas no capitalismo brasileiro.
Na imagem, vemos uma favela num dos bairros alagáveis de Belém. Essa é uma das
primeiras favelas da minha cidade, na beira do rio, que se chama Vila da Barca.
As pessoas moram em cima da água. O cocô, ou seja, aquilo que se defeca, é
jogado na água sobre a qual se vive – é a mesma água que posteriormente é
captada para beber. Não podemos naturalizar essa condição, ainda que haja
beleza nessa forma de morar à beira do rio.
Segundo os números oficiais, mais ou menos 50% da cidade de Belém é
formada por assentamentos que foram construídos com as mãos, os esforços e as
economias das famílias. É o que mundialmente chamamos de favelas, mas a
comunidade local chama de baixadas, ou seja, regiões que têm uma condição de
manejo de água e de drenagem bastante difícil. Belém é uma cidade de favelas.
Diria, sem medo de errar, que 70% a 80% da cidade é composta de favelas. Falo
isso com muito orgulho, sem o sentido pejorativo que as elites deram para a
palavra favela no Brasil, que é um sentido bastante espúrio para falar dos
pobres. Estou falando no sentido do reconhecimento dos esforços de quem morou e
construiu uma região.
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Manaus
Em
Manaus, muitas regiões importantes são habitadas por palafitas. Elas têm uma
perna muito mais comprida se comparadas às palafitas paraenses. O rio varia
muito; sobe uns 16 metros. A cidade muda demais entre o inverno e o verão.
Imaginem o que é uma elevação de 16 metros de água. É o equivalente a um prédio
de cinco andares. Por causa dessa condição ambiental, os pobres, no início do
século XX, moravam nas palafitas de pernas altas, mas também em habitações
flutuantes. Muitos moravam sobre toras de madeira, com a possibilidade de
flutuar. Manaus teve um bairro flutuante, que os militares afundaram. Ele
estava localizado em frente ao porto e era habitado por cerca de duas mil
pessoas. Os militares não aceitaram que os moradores se perpetuassem na região
e afundaram aquele assentamento que tinha muita vida, apesar da pobreza, e
remanejaram a população de maneira violenta para uma área a trinta quilômetros
do centro da capital.
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Florianópolis
Florianópolis
é uma cidade onde acontece outro movimento: os pobres vão seguindo do mar ao
morro. Onde os pobres costumam morar? Em áreas onde os ricos não querem, onde
existe uma legislação ambiental que impede a moradia, onde o mercado
imobiliário ainda não quis ter acesso. São as regiões onde as favelas estão
localizadas. Os pobres começaram a habitar a parte da orla. Pouco a pouco, a
orla foi virando interesse das famílias abastadas e os pobres foram subindo o
morro. Ninguém sobe o morro, desce a baixada, vai morar em lixão ou vai morar
em cima de mangue porque quer ou porque é anfíbio para morar em cima da água.
As pessoas moram nesses locais porque é onde dá para morar, é onde dá para
tentar fugir do aluguel. Às vezes, nem isso é possível porque também nas
ocupações e nas favelas brasileiras já existe uma condição de construção para
aluguel que chega a quase 40% do estoque das moradias.
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Rio de Janeiro
No Rio
de Janeiro houve uma experiência que, para nós, arquitetos, é muito importante.
Trata-se da favela Brás de Pina, construída em cima de um alagado que a
Companhia Estadual de Habitação queria remover. Um grupo de arquitetos, quando
chamado para fazer o projeto, se recusou a remover as pessoas e conseguiu,
inclusive junto com o pessoal da igreja, que fazia pesquisa e tinha ciência
para estudar a condição dos moradores, remanejar as pessoas. A urbanização que
aconteceu nessa favela e permitiu que os moradores continuassem ali é um
exemplo muito importante da luta pela moradia. O arquiteto famoso responsável
por esse processo foi Carlos Nelson Ferreira dos Santos.
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São Paulo
São
Paulo, cidade símbolo do desenvolvimento deste país, foi construída por muitos
nordestinos que, em grande medida, moram em assentamentos que têm a cara da
casa do trabalhador brasileiro. Entretanto, cada vez que São Paulo resolve
fazer uma obra em nome do progresso, vai removendo as favelas da cidade. Em São
Paulo, não há mais nenhuma favela na área central. A última, chamada favela do
Moinho, está sendo removida à base de muita violência. Mostro essas imagens
para defender que lutemos juntos, nessa Campanha da Fraternidade, pela melhoria
das condições de habitação. Não dá para jogarmos aos moradores a
responsabilidade de construírem suas casas e ainda se responsabilizar pela
infraestrutura. Sabemos que toda a autoconstrução que acontece neste país é uma
autoconstrução de casas, de pessoas erguendo paredes, fazendo fundações,
subindo lajes, mas também fazendo gambiarras, arremedos e adaptações para a
construção de infraestrutura. Quando esses territórios populares passam a ser
interesse do mercado imobiliário, eles ficam ameaçados de remoções.
• IHU – Que problemas nos projetos de
construção habitacional no país sua pesquisa sobre moradia evidencia?
Karina
Leitão – Um deles é o enfileiramento das casas, tão comum na paisagem
brasileira desde as ditaduras militares. Essa paisagem de casinhas (vídeo
acima), que mais parecem casinhas de cachorro, são um depósito de gente. Muitas vezes, o Estado brasileiro associa a
luta pela moradia a esse tipo de solução. Mas essa é uma solução muito
rebaixada do ponto de vista da qualidade de vida. O programa Minha Casa, Minha
Vida – que é importante do ponto de vista habitacional e fez muito mais pela
habitação do que programas anteriores – perpetuou esse tipo de solução à qual
temos nos posicionado em contrário do ponto de vista da materialidade. Conseguimos imaginar o que significa entregar
casas desse jeito, nessas condições secas, sem condições de amenidade, em
muitos lugares, como Manaus, por exemplo? Conjuntos imensos foram entregues sem
nenhum espaço comercial. Se alguém morador desse assentamento precisar de um
remédio para dor de cabeça, terá que se deslocar quilômetros para ter acesso a
um mercadinho.
Além
disso, muitos brasileiros tiveram que completar essas infraestruturas mal
resolvidas. Eu estou me posicionando como alguém que quer muito mais. Quero que
o Estado brasileiro faça mais, faça melhor e faça permanentemente pela nossa
população.
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Urbanidade e direito à cidade
As
favelas brasileiras, apesar de todas as precariedades, têm uma urbanidade muito
rica. Aquele bairro flutuante em Manaus tinha vida pujante, tinha bar,
mercearia, escolinha. A vizinha cuidava das crianças. Ou seja, tinha toda uma
profusão daquilo que entendemos como urbanidade e direito à cidade, que vai
muito além das infraestruturas necessárias. Além disso, a cara da favela
brasileira, da autoconstrução, é diversa. Contempla desde ocupações urbanas,
como em Belo Horizonte, passando por ocupações perto da borda do manancial, na
zona sul, em Recife. Essa variedade de moradias é importante para não olharmos
as cidades somente a partir do cartão postal de cada uma delas, mas, sim,
daquilo que é o lugar da moradia.
• Podemos afirmar que o Brasil ainda é um
país formado por favelas?
Karina
Leitão – O Brasil não é um país do capitalismo central. Não é uma França, uma
Espanha, uma Itália, onde todo mundo tem acesso à infraestrutura, à mobilidade
e onde o lixo é recolhido. No Brasil, nós moramos em condições de baixadas.
Todos os pontos laranjas no mapa abaixo indicam a existência de assentamentos
com cara de favela. Entretanto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), os assentamentos subnormais estão localizados em apenas 656
dos mais de 5.500 municípios do país. Esse número é risível. Aposto que cada um
de nós que está em uma cidade diferente tem certeza de que no seu município tem
assentamentos e bairros autoconstruídos, comunidades urbanas assemelhadas às
favelas. O nosso desafio é pressionar
governos no país inteiro, independentemente das gestões que estiverem no
comando, a pensar técnica e socialmente essa condição. Como nação, também temos
o desafio de fazer esforços de quantificação reais. O próprio movimento sem terra
começou a tratar a questão da moradia de maneira mais séria e está pensando
numa diretoria ligada às questões habitacionais para tratar da habitação dos
assentados.
• Qual é o déficit habitacional
atualmente?
Karina
Leitão – Muitos dizem que o nosso déficit habitacional é de 5.977.317
domicílios, segundo dados da Fundação João Pinheiro. Esse número vira uma
grande panaceia que as pessoas normalmente acionam para dizer que precisamos de
mais casas. Quando se diz isso, qual é a solução que aparece? Politicamente,
vende-se a ideia de prover casas enfileiradas. Assim, vários governos, desde a
ditadura militar, têm promovido programas habitacionais de provisão sobre a
terra nua de uma maneira bastante precária. Não é interessante seguir a noção
de necessidade de provisão habitacional sobre terra nua. É mais importante
pensar na necessidade de urbanizar e melhorar o estoque habitacional que está
construído. Os pobres, no Brasil, estão
morando. À exceção das pessoas que estão numa situação de moradia em situação
de rua, a maioria das pessoas mora em algum lugar. Os quase seis milhões de
brasileiros contabilizados no déficit habitacional não estão pairando no ar. O
trabalhador não sai da sua casa ou do trabalho e evapora. Ele está morando em
algum lugar, e esse lugar precisa ser qualificado. A maior parte do déficit habitacional tem um
componente seríssimo, que é o ônus excessivo com aluguel. É disso que as
pessoas tentam fugir quando vão morar nas favelas. Se o salário não dá para
pagar ou comprar a moradia de uma maneira formal, tem que tentar morar de um
jeito que rebaixe os custos com a moradia para poder comer, comprar remédios e
se perpetuar inclusive como trabalhador nesse sistema. 60% do déficit
habitacional, ou seja, quase quatro milhões de domicílios, vivem nessa condição
porque o gasto com aluguel é excessivo. As pessoas estão comprometendo a sua
renda em mais de 30% com aluguel. Outra
faceta do déficit habitacional a ser considerada é que 27 milhões de domicílios
estão em situação de inadequação. Aí vemos condições muito diversas de
situações, que vão desde acabamentos rústicos e rebaixados, até o fato de
muitas pessoas estarem dormindo no mesmo quarto, além de inadequações
sanitárias. O debate sobre saneamento básico não é um debate penal no Brasil.
Como notamos, temos muitos Brasis dentro de um Brasil só. O mapa a seguir
mostra onde a inadequação é mais forte.
• Qual projeto o LahHab recomenda ao
governo para amparar os menos favorecidos? A Igreja Católica tem pressionado os
governos a tomar medidas em favor dos desfavorecidos?
Karina
Leitão – No LahHab, nos dividimos em muitas causas. Desde que a professora
Ermínia Maricato fundou o laboratório, somos mais de dez pesquisadores. Um
grupo trabalha mais no campo do debate sobre as favelas e a luta pela
urbanização. Outro grupo luta por obras, conjuntos habitacionais feitos pelo
Estado. Outros pesquisadores estudam criticamente o que tem sido a atuação
nefasta do mercado. A Igreja nunca
largou a mão dos pobres neste país. Os cristãos nunca largaram a mão dos
pobres, nunca saíram das bases, nunca deixaram de chorar as dores, de estender
as mãos, desde os momentos mais importantes de profusão das Comunidades
Eclesiais de Base (CEBs) até o momento mais recente. É muito animadora, para nós, essa pressão
construtiva que a Igreja Católica está fazendo ao entender a importância da
moradia como direito na Campanha da Fraternidade deste ano. Entendo que esse
tem sido um jeito importante, bonito, crítico e propositivo de abordar a
temática. O nosso laboratório e a universidade dialogam com a Igreja e estamos
animados e empenhados com a Campanha da Fraternidade, que está olhando para
aquilo que, sem exagero, para muitos de nós, é a condição primordial de luta
pelo direito à casa. E a casa não entendida só como esse invólucro que nos
cobre a cabeça e protege de intempéries e da vida, mas a casa como local onde
construímos a nossa vida política, subjetiva, objetiva e material.
• Como enfrentar a especulação imobiliária
em nossas cidades? Governos de todos os espectros não ousam enfrentar o mercado
imobiliário e garantir moradia digna e direito à cidade a todas e todos.
Karina
Leitão – Essa é uma pergunta muito importante para discutir aquilo que
aprendemos a debater a partir dos estudos críticos sobre o capitalismo. Para
nós, defensores de direitos, a palavra especulação geralmente é empregada para
falar dos efeitos nefastos da especulação imobiliária. Mas a especulação,
apesar de perversa, é legítima no capitalismo. O que precisamos é de controle
para esse tipo de prática espúria. O
movimento de moradia de São Paulo, que é bastante pujante, resolveu ocupar um
prédio e fazer trinta moradias. A maioria dos moradores é nordestina de Catolé
do Rocha, município da Paraíba. Vários trabalhadores da construção estão
morando lá. São pessoas que trabalham em obras do aeroporto, em obras de
padarias de bacanas, em obras de franquias de shoppings. Várias mulheres são
mãe solo. Estou falando de um prédio próximo da Avenida Paulista. Depois de muito tempo morando nesse local sem
contestação, os moradores têm direito à usucapião. Quando as pessoas reabilitam
um lugar desocupado e abandonado, ele pode ser contestado e requerido dentro do
sistema jurídico como uma propriedade delas. Nesse sentido, os movimentos de
moradia ocupam legitimamente estoques construídos que não estão sendo
aproveitados. Alguns esforços têm
acontecido em determinados governos. Geralmente, governos mais progressistas
tentam encarar a possibilidade de aplicação de todo o instrumental legal que
pode dar respaldo à garantia da função social da propriedade contra os
mecanismos de especulação, que também são legais. Esses processos têm sido
feitos, mas não é simples, mesmo com todo o arcabouço jurídico e toda a luta
dos movimentos. Na letra da lei, muita coisa está garantida, mas quando chegam
as decisões ou quando chegam as ameaças, a situação fica complicada. É difícil
para as pessoas dormirem com a ameaça de que no dia seguinte terão que sair do
imóvel por causa de um despejo que pode ser violento. Os pobres, que são, em sua maioria, negros e
de origem nordestina, podem ser tirados do local que eles reabilitaram. E aí
vemos o mercado especulativo engolindo a cidade, aquilo que construímos
coletivamente.
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Especulação imobiliária
Temos
visto, em São Paulo, a construção de apartamentos muito pequenos, às vezes de
menos de 30m², para investidores internacionais e nacionais comprarem para o
mercado de aluguel e Airbnb. Isso tem destruído a condição urbana das cidades,
mesmo no capitalismo central. Em São Paulo, já estamos vendo uma nova face
dessa especulação. Precisaria ter mais força para controlá-la. Mas não posso
mentir: é muito difícil lutar contra uma coisa que está num ponto de tensão da
nossa própria legislação. A tensão entre aquilo que é social e aquilo que é o
direito à propriedade que funda o capitalismo.
• Você apresentou um número de quase seis
milhões de pessoas sem moradia. Onde essas pessoas estão?
Karina
Leitão – A associação imediata ao número do déficit habitacional é esta mesma:
a de que essas pessoas estão sem moradia. Mas elas não estão sem moradia. Elas
moram em determinadas condições, com ônus excessivo com aluguel, gastando mais
de 30% da renda com isso. Garantir o
salário mínimo no Brasil, o país da viração, onde o emprego formal está cada
vez mais difícil, e gastar mais de 30% da renda com aluguel, leva as pessoas a
estarem numa condição de déficit habitacional. Não dá para gastar mais de 30%
com aluguel. É preciso que a renda seja utilizada para as pessoas se
alimentarem, se vestirem e se medicarem. A outra condição que caracteriza o
déficit habitacional é a coabitação involuntária: duas ou três famílias morando
num mesmo domicílio, numa mesma casa, não porque querem morar juntas, mas
porque não têm condições de morar em casas separadas. É aquela velha situação:
alguém da família se casou, teve um filho e fez um puxadinho. Muitas vezes, as
pessoas até teriam renda para ir para outro lugar, mas precisam morar na mesma
casa porque não têm uma condição fácil: precisam de alguém que ajude a cuidar
do filho, ou um membro da família está precisando de cuidados de saúde. Outra situação é a precariedade. São casas
construídas em condições precárias, com dificuldades de acessos e vedações
inadequadas nas paredes. Até sacos de ração são utilizados para a vedação de
abrigos. Por isso, não podemos associar politicamente o déficit à nova moradia
e, sim, à condição de renda.
• Sem querer eximir a responsabilidade do
Estado e do mercado nas políticas públicas de promoção à moradia, qual é a
importância do movimento popular nesta luta?
Karina
Leitão – A militância é muito importante para estabelecer horizontes de
inconformismo com a desigualdade, para além do que se conquista. Ainda que o
socialismo e o comunismo não tenham vencido, Antonio Candido, intelectual
importante da USP, sempre dizia uma coisa que, para nós, era muito inspiradora:
“Por mais que não tenhamos conseguido perpetuar, na sua completude, as nossas
ideias, estabelecer uma utopia política de que a vida pode ser melhor e menos
desigual foi muito importante para regular a perversidade desse sistema”.
Atualmente, temos lutas por condições de trabalho mais adequadas, uma certa
regulação do sistema nefasto para limitar o número de horas de trabalho, férias
remuneradas, etc. Ainda é muito difícil ter acesso ao trabalho formal neste
país, mas foram as ideias socialistas, as ideias comunistas, que, em alguma
medida, colocaram freios no capitalismo perverso. É com esse espírito que avalio a importância
do que tem sido o movimento de moradia no Brasil. Foi ele quem conquistou uma
série de dispositivos dentro das nossas legislações. Foram os movimentos sem
terra e sem teto que nos mostraram a injustiça que é viver desse jeito. O movimento de moradia de São Paulo, para dar
um exemplo atípico, conseguiu oferecer mais moradia assessorando a ocupação de
prédios e reabilitando-os com o auxílio de profissionais e técnicos do que a
própria prefeitura. São Paulo tem mais de cem imóveis ocupados só na área
central. Trata-se de um esforço corpóreo, mental, subjetivo e psicológico
absurdo de muita gente que ocupa um prédio, reabilita-o, tira entulho, bicho,
rato, pombo, religa a água, reforma, pinta, deixa tudo salubre para as pessoas
morarem ainda em condições muito simplórias, mas com dignidade. Ou, como se faz
nas favelas: ocupa-se uma terra, constrói-se uma casa, puxam a água e o gato da
energia para poder morar e viver com alguma dignidade urbana. Não tenho
palavras para dizer o que seria a história desse país sem o movimento de luta
pela moradia. Gostaria de deixar um
recado para todos nós: mesmo lutando por um estado laico, uma ciência laica, é
importante as pessoas de fé e as instituições de fé estarem envolvidas naquilo
que de fato importa, naquilo que é direito. Para nós, do movimento por moradia,
saber que a Igreja está aliada a esses movimentos, que os cristãos estão
entendendo a importância da casa onde se mora, é algo inspirador. É aquilo que
organiza a nossa vontade de continuar vivendo em comunidade. Estou falando
desse ponto de vista simbólico porque acho que, diante das desigualdades, as
mãos dadas, a fraternidade, muitas vezes organiza a capacidade de continuarmos
vivendo com a integridade e a dignidade que desejamos para todos os nossos
irmãos.
Fonte:
Entrevista com Karina Leitão, para IHU

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