A
cidade do México transformada em zona de guerra por disputa entre facções do
tráfico
A
presidente do México, Claudia Sheinbaum, elogiou as forças especiais que
"derrubaram" o homem mais procurado do país, o narcotraficante
Nemesio Oseguera Cervantes.
Mais
conhecido como "El Mencho", Oseguera morreu no domingo (22/2), pouco
depois de ser capturado em meio a um sangrento tiroteio no Estado mexicano de
Jalisco.
Mas o
repórter da BBC Quentin Sommerville descobriu em outro centro de cartéis do
México — Culiacán, no Estado de Sinaloa — que o vácuo deixado pela retirada de
um líder poderoso pode gerar um surto de violência, causado pela guerra entre
as facções para assumir o controle.
"O
medo está em toda parte e é constante", afirma o paramédico Héctor Torres,
de 53 anos, no assento da frente da ambulância em Culiacán, no norte do México.
Nós
havíamos acabado de chegar da cena de um tiroteio dentro de uma garagem, no
centro da cidade. O proprietário estava morto no seu escritório, com sangue
escorrendo pelo piso branco.
Quando
Torres e o outro paramédico, Julio César Vega, de 28 anos, chegaram ao local,
uma mulher entrou em prantos.
Era a
esposa do homem, mas não havia nada a ser feito. Torres verificou os sinais
vitais e usou um cobertor de papel para cobrir o corpo.
No
último ano e meio, o cartel de Sinaloa, uma das maiores e mais temidas gangues
de drogas do mundo, vem travando uma guerra consigo próprio, depois que o filho
de um dos seus líderes traiu o outro.
A saída
de cena do líder daquele cartel, Ismael "El Mayo" Zambada, agora
preso nos Estados Unidos, trouxe a desordem a Sinaloa e oferece um alerta sobre
os riscos enfrentados pelo país.
Torres
afirma que a violência em Culiacán nunca foi tão forte, nem permaneceu por
tanto tempo.
No
último ano, seu número de chamados aumentou em mais de 70%.
Mas, na
semana em que conversei com os paramédicos, quase todos os incidentes que eles
atenderam terminaram da mesma forma, com uma pessoa morta em um edifício ou ao
lado de uma rodovia e parentes em luto pedindo respostas.
Poucas
vítimas dos cartéis sobrevivem aos crimes e ninguém está seguro. Escolas,
hospitais e até funerais já foram atacados.
"O
cartel de Sinaloa era como uma família", explica Torres. "Todos
estavam unidos em um único cartel. Eles eram amigos, comiam na mesma
mesa."
"Eles
eram como irmãos, pais, tios, irmãs. E, de repente, estavam brigando... e
ficaram presos em uma luta mortal."
O
negócio familiar se transformou em uma empresa bilionária, que produz a droga
mortal fentanil e lota as ruas americanas com opioides que já custaram dezenas
de milhares de vidas.
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou este e outros cartéis
como organizações terroristas e considera o fentanil uma arma de destruição em
massa.
Ele
ameaçou o México com ações militares diretas se o país não colocar as drogas e
os traficantes sob controle.
Torres
e Vega vestem coletes à prova de bala, com 14 kg de fibra sintética Kevlar e
chapa metálica de proteção. Para Torres, o equipamento é fundamental.
"Não
sabemos se as pessoas responsáveis pelos ataques ainda estão no local ou se
atingiram seu objetivo e desapareceram em seguida", explica ele. "Por
isso, corremos o risco de sermos pegos no fogo cruzado de um ataque e sairmos
feridos."
O sol
começava a se pôr quando voltávamos para a base dos paramédicos. A cidade,
antes ativa à noite, logo ficaria deserta. O tráfego era lento.
O
governo do México enviou milhares de soldados para Sinaloa. E eles instalaram
barreiras na maior parte das estradas.
Quando
o dono da garagem foi morto, três homens foram sequestrados ao mesmo tempo
daquelas instalações. Soldados fortemente armados examinavam os carros, em
busca de qualquer sinal deles.
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'Viremos buscar os outros'
Ser
sequestrado em Culiacán pode ser um destino pior que a morte.
No
início da semana, um corpo foi encontrado no chão, no lado de fora de um dos
principais shopping centers da cidade.
Pelo
estado do corpo da vítima, ficava claro que ele havia sido torturado. Seu corpo
estava intacto, mas o crânio foi esfolado e os olhos foram retirados.
Foi
deixado um sinal com o corpo, em letras grandes. Era uma mensagem de uma facção
do cartel para outra.
A
mensagem acusava o homem morto de ser um traidor e trazia um alerta:
"Viremos buscar os outros."
Culiacán
é uma cidade próspera, repleta de shopping centers, belos parques e
sofisticadas concessionárias de automóveis.
No lado
de fora do shopping, um homem com roupas de ciclista pretas parou no trânsito,
no horário do rush, para observar a polícia colocar os restos do homem dentro
de um saco.
No dia
seguinte, o corpo de outra vítima, mutilado da mesma forma, foi deixado na
estrada principal que segue para o norte, saindo da cidade.
A
equipe forense que ergueu o aviso que o acompanhava teve dificuldade para ler,
devido ao sangue que escorria em cima dele e se acumulava no cascalho do
acostamento.
Em cada
nova cena de crime, encontro Ernesto Martínez, repórter que cobre a violência
local há 27 anos.
Um
menino de 16 anos foi morto a tiros no bairro de San Rafael, em Culiacán. As
pernas de Emmanuel Alexander ainda estavam presas à sua bicicleta quando a
polícia contou mais de uma dezena de cartuchos de balas em volta do seu corpo.
Ele foi
morto à tira-roupa com uma pistola.
Martínez
explica que "costumava haver mais policiais, havia mais soldados, havia
mais segurança".
"Você
encontra uma barreira em cada esquina, mas os homicídios continuam. Eles não
diminuíram, eles permanecem em uma média de cinco ou seis por dia. E a
tendência continua."
Como
será possível pôr fim a esta violência?
Eu me
reuni com uma das facções de Sinaloa para fazer esta pergunta. Antes do
encontro, fui orientado a não levar meu telefone celular e nenhum dispositivo
de rastreamento.
Eles
são criminosos cruéis, que demonstram pouco remorso e têm uma solução simples
para acabar com os assassinatos.
Para
eles, o governo deveria sair do caminho e deixar que eles matem uns aos outros,
independentemente do risco aos transeuntes, até que uma das facções saia
vencedora.
Eles
chegaram à reunião fortemente armados e com máscaras no rosto para a
entrevista. Eles insistiram para que suas identidades fossem omitidas.
Quando
perguntei a Marco (nome fictício) se ele sentia alguma culpa, a resposta foi:
"Sim,
é verdade, pois, muitas vezes, pessoas inocentes morrem. Crianças morrem.
Existem muitas mortes de pessoas inocentes."
Sentado
ao seu lado, Miguel foi mais impiedoso.
"Muitas
pessoas continuarão morrendo porque o cartel ainda está lutando e fica cada vez
pior. A guerra vai continuar. Nada irá se acalmar até que sobre apenas uma
facção."
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A busca dos desaparecidos
A
violência dos cartéis vem aumentando não só o número de corpos encontrados, mas
também a quantidade de desaparecidos.
O filho
de Reynalda Pulido, Javier Ernesto, desapareceu em dezembro de 2020. Ela lidera
o grupo Mães em Luta e segue em busca dele e de outras pessoas.
Em uma
fria manhã, Pulido e um grupo de outras mães se abraçam em um posto de gasolina
não muito longe de Culiacán. Elas estão prontas para sair em uma busca.
Havia
mais de uma dezena de mulheres, quase todas vestindo camisetas brancas com
fotos e nomes dos seus entes queridos desaparecidos.
Elas
começaram pendurando as imagens de alguns deles nos postes. O som da fita
adesiva contrastava com os cães da vizinhança, latindo agressivamente quando
elas passavam junto às casas.
Com
elas, havia escolta militar. Seis soldados fortemente armados, em um caminhão
blindado e uma picape armada com artilharia, acompanhavam o grupo.
Em um
campo sobrevoado por urubus, elas usaram detectores de metal, pás e enxadas na
sua busca por corpos. As mães procuravam solo remexido, depressões, qualquer
sinal de túmulos improvisados.
Enquanto
examinavam a terra, elas cheiravam a poeira, procurando pelo odor
característico de restos humanos.
Durante
uma pausa nas buscas, Reynalda Pulido conta que, assim que acorda todos os
dias, ela pergunta a Deus: "Por que estou aqui?"
"O
que me dá forças é perceber que ninguém mais irá procurá-los", ela conta.
"Percebo
isso porque ninguém está se esforçando para procurar os desaparecidos em
Sinaloa. E uma mãe sempre irá procurar pelo seu filho. Não importa se for nos
confins da Terra, ela irá procurar."
As
mulheres receberam diversas indicações de que um corpo pode ter sido descartado
naquele campo. Mas, depois de horas no sol escaldante, elas só encontraram
ossos de animais.
Perguntei
gentilmente a Pulido se ela acredita que, um dia, irá encontrar seu filho.
"Eu
me faço essa pergunta com muita frequência", responde ela, enxugando
lágrimas dos olhos.
"Mas
já encontrei meu filho nos 250 corpos que localizei e nas mais de 30 pessoas
que encontrei vivas. Eles também são meus filhos. E os filhos de todas as
famílias que vêm me pedir ajuda passam a ser meus filhos."
"Meu
filho está ali, em todos e em cada um deles. Todos eles carregam um pedacinho
do meu filho."
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O comércio do fentanil
A
principal causa do sofrimento de Culiacán é o comércio de fentanil. Em uma base
do cartel, Román (nome fictício) produz a droga e me pede para segui-lo.
Ele
havia acabado de embalar seu último embarque da droga. São mais de meia dúzia
de pacotes de pó branco firmemente prensados, com destino aos Estados Unidos.
Román
usava luvas e uma máscara no rosto para manusear os pacotes mortais. Ele abriu
um pacote e a droga estava prensada em forma sólida, com o número 300 marcado
na superfície.
No
passado, eles enviavam comprimidos para os Estados Unidos. Agora, eles mandam
pó, pois acreditam que isso ajuda a evitar a alfândega americana.
Cada
pacote pesa 1 kg e vale US$ 20 mil (cerca de R$ 102 mil). Mas Román explica
que, dependendo da cidade para onde for enviado, pode render mais.
"Se
levarmos para Nova York, pode chegar a US$ 28 mil ou US$ 29 mil [cerca de R$
143 mil a R$ 149 mil]. Quanto mais para o norte, maior é o preço e maior o
nosso lucro."
Ele não
assume a responsabilidade e não se envergonha do seu negócio. E afirma que,
independentemente da opinião do governo do México e dos Estados Unidos, o fluxo
de fentanil continuará se mantendo.
"O
governo pode ter intensificado a busca e, sim, eles estão vindo atrás de nós e
chegando mais perto", ele conta. "Mas, em relação à produção, nunca
paramos."
"Às
vezes, reduzimos a escala quando a situação esquenta e o governo chega perto
demais. Por isso, diminuímos a atividade por alguns dias. Mas, quando o
problema termina, nós continuamos ou nos mudamos para outras regiões."
Dizemos
a Román que os Estados Unidos os chamam de terroristas. Ele responde
despreocupadamente.
"Bem,
o presidente Donald Trump pode nos chamar de terroristas, mas eu relembraria a
ele que, enquanto houver consumidores, continuaremos a fazer isso, o que não
necessariamente nos transforma em terroristas."
"Enquanto
as pessoas quiserem consumir, eles têm liberdade para isso. Ninguém está
forçando. Ninguém os forçou a começar este vício, a começar a usar isso."
O
governo do México declarou que está fazendo progressos na sua luta contra o
tráfico de drogas, afirmando ter interrompido o fornecimento de fentanil para
os Estados Unidos em 50%.
De
Culiacán, viajei para a Cidade do México, a pouco mais de 1,2 mil quilômetros
de distância. O aeroporto da capital estava tomado pelo ruído de perfurações e
da retirada do reboco das paredes, em preparação para a Copa do Mundo deste
ano.
Em uma
das suas entrevistas coletivas regulares, antes da morte de "El
Mencho", no domingo, perguntei à presidente mexicana Claudia Sheinbaum o
que seria necessário para que a violência em Sinaloa ficasse sob controle.
Ela
culpou a luta de poder interna do cartel de Sinaloa pelo aumento da violência
no Estado. E defende que seu governo está "tentando evitar danos para os
civis, para as pessoas".
De
volta a Sinaloa, tenho um último contato com os paramédicos, Julio César Vega e
Héctor Torres. Eu os acompanhei enquanto atendiam a outro tiroteio na cidade.
Com o
helicóptero da polícia voando sobre nossas cabeças, atravessamos a fita que
delimitava a cena do crime e encontramos um homem no chão, sangrando com um
ferimento a bala no peito. Ele ainda respirava e gritava pedindo ajuda.
Torres
começou a tratar dele enquanto Vega corria em direção a outro homem na esquina,
gravemente ferido, que não reagia.
O
receio de que o cartel pudesse retornar, apesar da presença dos soldados à
nossa volta, aumentava o senso de urgência do trabalho dos dois homens.
As duas
vítimas foram tratadas e levadas rapidamente para um hospital próximo.
Descobrimos que eles eram transeuntes e foram pegos no fogo cruzado.
Ainda
assim, o exército montou um cordão armado em volta do hospital, para um
eventual ataque. Soubemos posteriormente que os homens sobreviveram.
Vega e
Torres retiram suas luvas médicas azuis de borracha, ainda molhadas de sangue,
e dividem um cigarro.
"Estas
são as primeiras vítimas que encontramos vivas desde novembro", afirma
Torres.
Fonte:
BBC News

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