quarta-feira, 4 de março de 2026

O capital privado pode remodelar Jogos Olímpicos para extrair mais lucro dos trabalhadores

or mais de um século, os Jogos Olímpicos modernos têm destacado os melhores atletas do mundo a serviço da paz, da diversidade e da dignidade compartilhada. Mas os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina também evidenciam uma realidade menos celebrada: as Olimpíadas são um negócio multibilionário — um negócio que agora flerta com o capital privado, as empresas de investimento movidas pelo lucro que estão remodelando o esporte e extraindo cada centavo possível de atletas e do público.

Agora, enquanto Los Angeles lida com o potencial econômico — bem como com os riscos financeiros — de sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2028, os capitalistas oportunistas parecem prontos para entrar em ação.

O Comitê Olímpico Internacional (COI), órgão não governamental que supervisiona os Jogos, depende principalmente do licenciamento de transmissões televisivas para obter receita. A NBCUniversal detém os direitos exclusivos de transmissão nos EUA, em virtude de um acordo bilionário de longo prazo, enquanto o programa Worldwide Olympic Partner concede direitos globais de marketing a grandes corporações.

Criado em 1985, o programa de Parceiros Olímpicos Mundiais tornou-se um pilar fundamental do financiamento olímpico, gerando bilhões de dólares nos últimos ciclos e representando agora mais de um terço da receita do COI entre 2021 e 2024, um aumento em relação aos 19% registrados entre 2013 e 2016. Entre 2021 e 2024, o programa gerou US$ 3 bilhões em receita, segundo dados financeiros do COI, em comparação com US$ 96 milhões nos seus três primeiros anos. Este ano, entre os patrocinadores corporativos estiveram Airbnb, Deloitte e Visa.

Os investidores entram em cena

Ainda assim, o COI está explorando novas fontes de financiamento para ajudar a cobrir os enormes custos de organização de seus eventos, e parece se concentrar no capital privado. Um estudo de 2022 encomendado pela organização argumentou que, embora o investimento de capital privado “não seja barato e suas ferramentas não sejam particularmente inovadoras”, ele poderia fornecer “recursos financeiros, expertise e excelência na execução, o que é muito necessário”, e ajudar a profissionalizar as operações esportivas por meio de uma “mentalidade mais comercial”.

A ideia ganhou destaque no ano passado durante a corrida presidencial do COI, quando o banqueiro de investimentos e atual vice-presidente Juan Antonio Samaranch propôs parcerias com grandes empresas de private equity, como o Carlyle Group e a CVC Capital Partners, para fortalecer a base financeira de longo prazo dos Jogos Olímpicos.

Samaranch — cujo pai serviu no governo fascista de Franco e mais tarde liderou o COI por mais de duas décadas — disse que tais acordos poderiam se revelar altamente lucrativos, de acordo com o jornal alemão Börsen-Zeitung.

“O esporte está se tornando uma classe de ativos”, disse ele. “Já testei a ideia com algumas pessoas e não faltariam empresas interessadas em firmar parcerias conosco.”

Os planos de Samaranch incluíam um fundo de capital privado assessorado pelo COI para investir em empresas relacionadas ao esporte, como fabricantes de equipamentos e programas de treinamento — que, segundo ele, poderia arrecadar até US$ 1 bilhão em sua primeira rodada de financiamento.

Os investidores perceberam. No mês seguinte, a plataforma de negociação Finexity, com sede na Alemanha, observou que o capital privado “poderia participar do financiamento dos Jogos Olímpicos, do desenvolvimento de atletas ou dos direitos de comercialização”.

<><> O manual do capital privado

Investigações anteriores do site de notícias Lever sobre a expansão do capital privado nas ligas menores de beisebol e nas pistas de boliche documentaram dinâmicas semelhantes, revelando como as empresas se aproveitam da supervisão regulatória mínima e dos subsídios dos contribuintes para transformar queridos passatempos estadunidenses em esquemas de enriquecimento rápido para investidores.

Nem mesmo os esportes juvenis estão a salvo: uma reportagem recente do Lever levou um conglomerado de hóquei juvenil, apoiado por capital privado, a reverter uma política que proibia filmagens durante os jogos e obrigava os pais a pagar por um serviço de streaming.

A mentalidade do capital privado, que prioriza o dinheiro em detrimento das pessoas, alienou tanto os novatos no esporte quanto os superfãs e profissionais — sugerindo que a inclusão do setor nas Olimpíadas poderia minar os valores humanistas que elas defendem.

 

Fonte: Por Veronica Riccobene - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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