O
capital privado pode remodelar Jogos Olímpicos para extrair mais lucro dos
trabalhadores
or mais
de um século, os Jogos Olímpicos modernos têm destacado os melhores atletas do
mundo a serviço da paz, da diversidade e da dignidade compartilhada. Mas os
Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina também evidenciam uma realidade
menos celebrada: as Olimpíadas são um negócio multibilionário — um negócio que
agora flerta com o capital privado, as empresas de investimento movidas pelo
lucro que estão remodelando o esporte e extraindo cada centavo possível de
atletas e do público.
Agora,
enquanto Los Angeles lida com o potencial econômico — bem como com os riscos
financeiros — de sediar os Jogos Olímpicos de Verão de 2028, os capitalistas
oportunistas parecem prontos para entrar em ação.
O
Comitê Olímpico Internacional (COI), órgão não governamental que supervisiona
os Jogos, depende principalmente do licenciamento de transmissões televisivas
para obter receita. A NBCUniversal detém os direitos exclusivos de transmissão
nos EUA, em virtude de um acordo bilionário de longo prazo, enquanto o programa
Worldwide Olympic Partner concede direitos globais de marketing a grandes
corporações.
Criado
em 1985, o programa de Parceiros Olímpicos Mundiais tornou-se um pilar
fundamental do financiamento olímpico, gerando bilhões de dólares nos últimos
ciclos e representando agora mais de um terço da receita do COI entre 2021 e
2024, um aumento em relação aos 19% registrados entre 2013 e 2016. Entre 2021 e
2024, o programa gerou US$ 3 bilhões em receita, segundo dados financeiros do
COI, em comparação com US$ 96 milhões nos seus três primeiros anos. Este ano,
entre os patrocinadores corporativos estiveram Airbnb, Deloitte e Visa.
Os
investidores entram em cena
Ainda
assim, o COI está explorando novas fontes de financiamento para ajudar a cobrir
os enormes custos de organização de seus eventos, e parece se concentrar no
capital privado. Um estudo de 2022 encomendado pela organização argumentou que,
embora o investimento de capital privado “não seja barato e suas ferramentas
não sejam particularmente inovadoras”, ele poderia fornecer “recursos
financeiros, expertise e excelência na execução, o que é muito necessário”, e
ajudar a profissionalizar as operações esportivas por meio de uma “mentalidade
mais comercial”.
A ideia
ganhou destaque no ano passado durante a corrida presidencial do COI, quando o
banqueiro de investimentos e atual vice-presidente Juan Antonio Samaranch
propôs parcerias com grandes empresas de private equity, como o Carlyle Group e
a CVC Capital Partners, para fortalecer a base financeira de longo prazo dos
Jogos Olímpicos.
Samaranch
— cujo pai serviu no governo fascista de Franco e mais tarde liderou o COI por
mais de duas décadas — disse que tais acordos poderiam se revelar altamente
lucrativos, de acordo com o jornal alemão Börsen-Zeitung.
“O
esporte está se tornando uma classe de ativos”, disse ele. “Já testei a ideia
com algumas pessoas e não faltariam empresas interessadas em firmar parcerias
conosco.”
Os
planos de Samaranch incluíam um fundo de capital privado assessorado pelo COI
para investir em empresas relacionadas ao esporte, como fabricantes de
equipamentos e programas de treinamento — que, segundo ele, poderia arrecadar
até US$ 1 bilhão em sua primeira rodada de financiamento.
Os
investidores perceberam. No mês seguinte, a plataforma de negociação Finexity,
com sede na Alemanha, observou que o capital privado “poderia participar do
financiamento dos Jogos Olímpicos, do desenvolvimento de atletas ou dos
direitos de comercialização”.
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O manual do capital privado
Investigações
anteriores do site de notícias Lever sobre a expansão do capital privado nas
ligas menores de beisebol e nas pistas de boliche documentaram dinâmicas
semelhantes, revelando como as empresas se aproveitam da supervisão regulatória
mínima e dos subsídios dos contribuintes para transformar queridos passatempos
estadunidenses em esquemas de enriquecimento rápido para investidores.
Nem
mesmo os esportes juvenis estão a salvo: uma reportagem recente do Lever levou
um conglomerado de hóquei juvenil, apoiado por capital privado, a reverter uma
política que proibia filmagens durante os jogos e obrigava os pais a pagar por
um serviço de streaming.
A
mentalidade do capital privado, que prioriza o dinheiro em detrimento das
pessoas, alienou tanto os novatos no esporte quanto os superfãs e profissionais
— sugerindo que a inclusão do setor nas Olimpíadas poderia minar os valores
humanistas que elas defendem.
Fonte:
Por Veronica Riccobene - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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