João
Filho: O show de horrores da extrema direita na CPMI do INSS
A
extrema direita brasileira é mesmo composta por uma gente horrorosa. Esse
horror é constatável sob qualquer ponto de vista, seja ele moral, intelectual
ou estético. Não bastou prender os líderes golpistas. Essa turma segue movida
pelo espírito golpista e praticando pequenos golpes na democracia.
Eles
atropelam as regras do parlamento e agem como aqueles valentões de colégio de
filme de Hollywood, que andam em bando e impõem sua vontade através da
intimidação e da porrada. Nesta semana, o golpismo promoveu mais um show de
horror na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Instituto Nacional do
Seguro Social, a CPMI do INSS.
Como de
costume, a comissão se tornou palco de disputa eleitoral, com bolsonaristas
querendo associar o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao escândalo a
qualquer custo, nem que para isso seja necessário derrubar o tabuleiro do jogo.
Tendo a presidência e a relatoria da CPMI em suas mãos, o bolsonarismo aplicou
um golpe em uma das votações da comissão.
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Manobra golpista
O
presidente da comissão, o senador Carlos Viana, do Podemos, atropelou o
regimento ao ignorar uma norma clara: em votações simbólicas, vale a maioria
que esteja fisicamente presente no plenário. Havia ao todo 21 parlamentares,
sendo que 14 eram governistas. A vitória governista era óbvia, mas Viana se fez
de louco, fingiu que não viu os 14 parlamentares governistas em pé e decretou a
vitória da oposição por 7 a 0. Foi um golpe escancarado, à luz do dia, com
dezenas de testemunhas e câmeras registrando tudo.
Entre
os 87 requerimentos embutidos no pacote que foi submetido à votação, estava a
quebra de sigilo bancário de um dos filhos de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o
Lulinha, que surgiu durante a investigação como suspeito de ser sócio oculto do
Careca do INSS — o principal operador do esquema. Depois de virar o tabuleiro e
fraudar a votação, a oposição saiu de peito estufado e apareceu nas manchetes
como responsável pela quebra do sigilo bancário de Lulinha.
Mas foi
tudo um jogo de cena. O Supremo Tribunal Federal, o STF, já havia autorizado a
quebra não só do sigilo bancário do filho de Lula, mas do fiscal e telemático
(mensagens e e-mails). A oposição já tinha conhecimento disso e, mesmo assim,
decidiu trazer o tema na marra para os holofotes da CPMI, visando ganhos
eleitorais. Na prática, nada mudaria em relação à apuração do envolvimento de
Lulinha.
Diante
da contagem escandalosa do presidente da comissão, parlamentares governistas
protestaram e iniciou-se um empurra-empurra no plenário. Os oposicionistas
atingiram o objetivo: saíram diante dos eleitores incautos como os paladinos da
ética que conseguiram quebrar o sigilo do filho do presidente, e os governistas
como os arruaceiros que partiram pra briga porque queriam protegê-lo das
investigações. O cinismo da oposição revela que a prioridade não é investigar o
que ocasionou os desvios do INSS, mas fabricar fatos eleitorais que coloquem o
governo como cúmplice da roubalheira e a oposição, como a heroína.
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Uma fraude sem pudor
As CPIs
sempre foram usadas como palco eleitoral por todos os lados do espectro
político. Não há novidade aqui. Mas o bolsonarismo eleva a coisa à máxima
potência, sem o menor pudor em fraudar as regras do jogo de maneira torpe e
escancarada.
Na
grande imprensa, deu-se destaque para a briga no plenário, mas pouco se falou
sobre as razões que a ocasionaram. A coisa não foi tratada com a devida
gravidade. A flagrante fraude na contagem dos votos ficou relegada a um segundo
plano.
A
imagem passada para a população foi a de que se tratou de mais uma avacalhação
de um parlamento acostumado a ser avacalhado. É muito mais grave que isso. Foi
um golpe regimental do mesmo grupo político que tentou um golpe de estado e
cujos principais líderes estão na cadeia.
Houve
quem chamou o golpe na votação de “olé” da oposição em cima do governo. No
futebol, o olé é uma saudação a um grande drible ou a uma troca de passes que
faz o time adversário de bobo. Aqui, soa como uma normalização da picaretagem,
como se o expediente golpista usado pela oposição fosse algo corriqueiro no
parlamento.
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Na imprensa, um ‘olé’
Na
ânsia pela busca de uma isenção performática, há jornalistas que preferem
evitar a fadiga de chamar “golpe” de “golpe” e “golpista” de “golpista”. Uma
fraude flagrante na contagem de votos vira “olé” e é jogada na vala do senso
comum, em que todos os políticos são iguais. Parte da imprensa não falha apenas
no compromisso com a verdade, mas se torna cúmplice da erosão institucional
promovida pelo bolsonarismo.
As
fraudes no INSS começaram no governo de Michel Temer, ganharam tração durante o
governo de Jair Bolsonaro e continuaram no governo Lula. É um escândalo que
envolve gente de todos os espectros políticos, mas o fato fundamental é que as
denúncias só prosperaram e ganharam força com as ações em conjunto da
Controladoria-Geral da União, a CGU, e da Polícia Federal, a PF, do governo
Lula. Servidores do INSS foram afastados e os aposentados lesados estão sendo
ressarcidos pelo governo. Até o momento, já foram devolvidos quase R$ 3 bilhões
para mais de 4 milhões de vítimas dos desvios.
A prova
cabal de que a investigação da Polícia Federal não está sofrendo interferência
por parte do governo é o pedido que a corporação fez para quebrar os sigilos de
Lulinha. Essa autonomia para se investigar filhos de presidente não existiu
durante a gestão Bolsonaro, como foi atestado pelo então ministro da Justiça,
Sergio Moro, que se demitiu do cargo dizendo que o governo interferiu nas
investigações da PF contra Flávio Bolsonaro. Como se vê, a cara de pau do
bolsonarismo neste caso envolvendo Lulinha é algo monumental.
A
investigação contra o filho do presidente está percorrendo os ritos técnicos e
não há o menor indício de que o governo esteja boicotando. Afinal, quando a PF
da gestão Lula pede a quebra de sigilos do filho do presidente e um ministro do
STF nomeado por Bolsonaro a acata, temos o funcionamento pleno de uma
democracia.
É
preciso que fique claro que o protesto dos parlamentares governistas não foi
para impedir investigação, mas contra um golpe no regimento que tinha como
único objetivo conquistar dividendos eleitorais. Bolsonaro e outros líderes
golpistas foram presos, mas o espírito golpista segue vivíssimo entre os
bolsonaristas. É preciso que todos os democratas — do parlamento à imprensa —
mantenham-se vigilantes para combatê-los. Não há isenção possível quando a
polarização se dá entre a civilização e a barbárie.
• Flávio Bolsonaro representa a farsa do
bolsonarismo moderado nas eleições
De
tempos em tempos surge a lenda do “bolsonarismo moderado”, uma ficção projetada
pela própria extrema direita e abraçada por setores do mercado financeiro e da
imprensa.
Não é
possível existir uma fração moderada de uma corrente política cujo ideário é
essencialmente autoritário. É uma impossibilidade lógica. Não existe um
“nazismo light”, assim como não existe a ala moderada da Ku Klux Klan.
Tarcísio
de Freitas, do Republicanos, era quem melhor personificava essa mentira e tudo
levava a crer que ele seria o candidato de Jair Bolsonaro à presidência. Tinha
o apoio maciço do mercado financeiro, era bem-quisto no Centrão e vinha sendo
paparicado por boa parte da imprensa. O seu perfil técnico, tão elogiado aos
quatro cantos, é o verniz perfeito para disfarçar quem ele realmente é: um
ex-militar que faz parte do grupo político que tentou dar um golpe de estado no
país.
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Messianismo hereditário
Mas
Tarcísio foi retirado da disputa. Quem irá encarnar o personagem do
“bolsonarista moderado” será Flávio Bolsonaro. Prevaleceu a decisão do líder da
gangue golpista que, de dentro da cadeia, mandou o recado por meio de um texto cafona com tom messiânico, lido
pelo próprio filho: “Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o
próprio filho para resgatar o Brasil”.
A
candidatura de Flávio é mais uma questão de sobrevivência política da família
Bolsonaro do que um projeto político pensado. A decisão não foi resultado de
debates internos no PL e com suas bases, mas do desejo da família Bolsonaro em
manter sua dinastia no comando da direita brasileira. O bolsonarismo se
sacramenta como um messianismo hereditário.
Se a
eleição fosse hoje, Lula ganharia por pouco de Flávio Bolsonaro no segundo
turno. O filho de Jair sabe que, para ganhar, vai precisar buscar o eleitorado
de direita que não se identifica com o bolsonarismo. Não é à toa que ele tem se
apresentado como uma versão “moderada e equilibrada do seu pai” — uma espécie
de “Bolsonaro de focinheira”. Para vender bem esse personagem, Flávio tem
viajado o mundo para buscar alguma influência internacional e tentando
estreitar os laços com o empresariado e o mercado financeiro, que queria
Tarcísio.
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Credenciais democráticas: uso da força e rachadinhas
Apesar
de parecer ser o menos radical entre os irmãos Bolsonaro, Flávio está longe de
ser alguém de perfil moderado. Vai ser ainda mais difícil para ele do que seria
para Tarcísio; é preciso relembrar as credenciais democráticas do sujeito.
Em
julho do ano passado, Flávio afirmou abertamente que o próximo presidente
deverá “usar a força” caso o STF negue um indulto presidencial para tirar seu
pai da cadeia. Em outubro, enquanto seu irmão fustigava Trump contra o Brasil,
sugeriu que Trump poderia jogar bombas atômicas no Brasil caso a anistia não
fosse aprovada. Eis o “bolsonarismo moderado”.
Moderação
com dinheiro público também nunca foi o forte do senador, que tem um vasto
currículo no mundo das “rachadinhas” e na distribuição de empregos para o crime
organizado. Não podemos perder de vista o seu histórico. Flávio é o Bolsonaro
que mais tem esqueletos no armário.
Quando
tinha apenas 19 anos, acumulou três ocupações em duas cidades diferentes:
faculdade presencial diária de Direito e estágio voluntário Defensoria Pública
no Rio de Janeiro, e um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em
Brasília. Todas essas ocupações exigiam a presença física, o que significa que
Flávio estreou na vida pública pela via do funcionalismo fantasma.
Depois,
como deputado estadual eleito, o primogênito de Jair começou a enriquecer com
as famosas “rachadinhas”, que transformaram sua lojnha da Kopenhagen em uma
fantástica fábrica de chocolate, conforme atestou o Ministério Público. Nessa
época, o gabinete de Flávio era um cabide de emprego para milicianos e seus
parentes. Os ex-policiais militares Fabrício de Queiroz e Adriano da Nóbrega,
dois parceiros de longa data da família Bolsonaro, lideraram a farra com
dinheiro público no gabinete de Flávio. Parte dessa grana era usada pelo então
deputado para financiar e lucrar com a construção ilegal de prédios erguidos
pelo Escritório do Crime — a milícia que era chefiada por Adriano da Nóbrega.
Não nos
esqueçamos das mágicas de Flávio no mercado imobiliário. A mansão em que ele e
sua família residem em Brasília, por exemplo, foi financiada por um banco
público — o BRB do Distrito Federal — com juros muito abaixo do mercado
(3,71%), algo impensável para um cidadão comum. A compra da mansão de quase R$
6 milhões era incompatível com sua renda, mas Flávio afirmou que foi feita “com
recursos próprios”, oriundos da venda de um outro imóvel e da franquia da
Kopenhagen — a sua fantástica fábrica de chocolates irrigada pelas rachadinhas
milicianas.
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Das rachadinhas à Abin paralela
Com
Bolsonaro na presidência, todos os escândalos de corrupção de Flávio passaram a
ser blindados pela Abin. O serviço de inteligência do país foi utilizado para
bisbilhotar a vida de auditores que ousaram investigar os esquemas de corrupção
do primogênito. Os advogados de Flávio eram orientados por relatórios
produzidos pela agência.
Das
rachadinhas à Abin Paralela, a história de Flávio Bolsonaro na política é
deplorável sob qualquer aspecto. Por mais forte que seja o seu sobrenome
eleitoralmente, não será fácil manter o personagem que estão tentando encaixar
nele. Seu teto de vidro é enorme e as pedradas serão inevitáveis durante a
campanha eleitoral.
Flávio
tem um “jeitão de Centrão”, mas sua genética política é extremista, autoritária
e golpista. Os mercados, as elites e setores da imprensa sabem que ele não é o
candidato dos sonhos, mas é o que tem para hoje. Vale qualquer coisa para
impedir a continuação do governo Lula. Ou seja, não há nada de novo no front.
Fonte:
The Intercept

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