quarta-feira, 4 de março de 2026

João Filho: O show de horrores da extrema direita na CPMI do INSS

A extrema direita brasileira é mesmo composta por uma gente horrorosa. Esse horror é constatável sob qualquer ponto de vista, seja ele moral, intelectual ou estético. Não bastou prender os líderes golpistas. Essa turma segue movida pelo espírito golpista e praticando pequenos golpes na democracia.

Eles atropelam as regras do parlamento e agem como aqueles valentões de colégio de filme de Hollywood, que andam em bando e impõem sua vontade através da intimidação e da porrada. Nesta semana, o golpismo promoveu mais um show de horror na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social, a CPMI do INSS.

Como de costume, a comissão se tornou palco de disputa eleitoral, com bolsonaristas querendo associar o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao escândalo a qualquer custo, nem que para isso seja necessário derrubar o tabuleiro do jogo. Tendo a presidência e a relatoria da CPMI em suas mãos, o bolsonarismo aplicou um golpe em uma das votações da comissão.

<><> Manobra golpista

O presidente da comissão, o senador Carlos Viana, do Podemos, atropelou o regimento ao ignorar uma norma clara: em votações simbólicas, vale a maioria que esteja fisicamente presente no plenário. Havia ao todo 21 parlamentares, sendo que 14 eram governistas. A vitória governista era óbvia, mas Viana se fez de louco, fingiu que não viu os 14 parlamentares governistas em pé e decretou a vitória da oposição por 7 a 0. Foi um golpe escancarado, à luz do dia, com dezenas de testemunhas e câmeras registrando tudo.

Entre os 87 requerimentos embutidos no pacote que foi submetido à votação, estava a quebra de sigilo bancário de um dos filhos de Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, que surgiu durante a investigação como suspeito de ser sócio oculto do Careca do INSS — o principal operador do esquema. Depois de virar o tabuleiro e fraudar a votação, a oposição saiu de peito estufado e apareceu nas manchetes como responsável pela quebra do sigilo bancário de Lulinha.

Mas foi tudo um jogo de cena. O Supremo Tribunal Federal, o STF, já havia autorizado a quebra não só do sigilo bancário do filho de Lula, mas do fiscal e telemático (mensagens e e-mails). A oposição já tinha conhecimento disso e, mesmo assim, decidiu trazer o tema na marra para os holofotes da CPMI, visando ganhos eleitorais. Na prática, nada mudaria em relação à apuração do envolvimento de Lulinha.

Diante da contagem escandalosa do presidente da comissão, parlamentares governistas protestaram e iniciou-se um empurra-empurra no plenário. Os oposicionistas atingiram o objetivo: saíram diante dos eleitores incautos como os paladinos da ética que conseguiram quebrar o sigilo do filho do presidente, e os governistas como os arruaceiros que partiram pra briga porque queriam protegê-lo das investigações. O cinismo da oposição revela que a prioridade não é investigar o que ocasionou os desvios do INSS, mas fabricar fatos eleitorais que coloquem o governo como cúmplice da roubalheira e a oposição, como a heroína.

<><> Uma fraude sem pudor

As CPIs sempre foram usadas como palco eleitoral por todos os lados do espectro político. Não há novidade aqui. Mas o bolsonarismo eleva a coisa à máxima potência, sem o menor pudor em fraudar as regras do jogo de maneira torpe e escancarada.

Na grande imprensa, deu-se destaque para a briga no plenário, mas pouco se falou sobre as razões que a ocasionaram. A coisa não foi tratada com a devida gravidade. A flagrante fraude na contagem dos votos ficou relegada a um segundo plano.

A imagem passada para a população foi a de que se tratou de mais uma avacalhação de um parlamento acostumado a ser avacalhado. É muito mais grave que isso. Foi um golpe regimental do mesmo grupo político que tentou um golpe de estado e cujos principais líderes estão na cadeia.

Houve quem chamou o golpe na votação de “olé” da oposição em cima do governo. No futebol, o olé é uma saudação a um grande drible ou a uma troca de passes que faz o time adversário de bobo. Aqui, soa como uma normalização da picaretagem, como se o expediente golpista usado pela oposição fosse algo corriqueiro no parlamento.

<><> Na imprensa, um ‘olé’

Na ânsia pela busca de uma isenção performática, há jornalistas que preferem evitar a fadiga de chamar “golpe” de “golpe” e “golpista” de “golpista”. Uma fraude flagrante na contagem de votos vira “olé” e é jogada na vala do senso comum, em que todos os políticos são iguais. Parte da imprensa não falha apenas no compromisso com a verdade, mas se torna cúmplice da erosão institucional promovida pelo bolsonarismo.

As fraudes no INSS começaram no governo de Michel Temer, ganharam tração durante o governo de Jair Bolsonaro e continuaram no governo Lula. É um escândalo que envolve gente de todos os espectros políticos, mas o fato fundamental é que as denúncias só prosperaram e ganharam força com as ações em conjunto da Controladoria-Geral da União, a CGU, e da Polícia Federal, a PF, do governo Lula. Servidores do INSS foram afastados e os aposentados lesados estão sendo ressarcidos pelo governo. Até o momento, já foram devolvidos quase R$ 3 bilhões para mais de 4 milhões de vítimas dos desvios.

A prova cabal de que a investigação da Polícia Federal não está sofrendo interferência por parte do governo é o pedido que a corporação fez para quebrar os sigilos de Lulinha. Essa autonomia para se investigar filhos de presidente não existiu durante a gestão Bolsonaro, como foi atestado pelo então ministro da Justiça, Sergio Moro, que se demitiu do cargo dizendo que o governo interferiu nas investigações da PF contra Flávio Bolsonaro. Como se vê, a cara de pau do bolsonarismo neste caso envolvendo Lulinha é algo monumental.

A investigação contra o filho do presidente está percorrendo os ritos técnicos e não há o menor indício de que o governo esteja boicotando. Afinal, quando a PF da gestão Lula pede a quebra de sigilos do filho do presidente e um ministro do STF nomeado por Bolsonaro a acata, temos o funcionamento pleno de uma democracia.

É preciso que fique claro que o protesto dos parlamentares governistas não foi para impedir investigação, mas contra um golpe no regimento que tinha como único objetivo conquistar dividendos eleitorais. Bolsonaro e outros líderes golpistas foram presos, mas o espírito golpista segue vivíssimo entre os bolsonaristas. É preciso que todos os democratas — do parlamento à imprensa — mantenham-se vigilantes para combatê-los. Não há isenção possível quando a polarização se dá entre a civilização e a barbárie.

•        Flávio Bolsonaro representa a farsa do bolsonarismo moderado nas eleições

De tempos em tempos surge a lenda do “bolsonarismo moderado”, uma ficção projetada pela própria extrema direita e abraçada por setores do mercado financeiro e da imprensa.

Não é possível existir uma fração moderada de uma corrente política cujo ideário é essencialmente autoritário. É uma impossibilidade lógica. Não existe um “nazismo light”, assim como não existe a ala moderada da Ku Klux Klan.

Tarcísio de Freitas, do Republicanos, era quem melhor personificava essa mentira e tudo levava a crer que ele seria o candidato de Jair Bolsonaro à presidência. Tinha o apoio maciço do mercado financeiro, era bem-quisto no Centrão e vinha sendo paparicado por boa parte da imprensa. O seu perfil técnico, tão elogiado aos quatro cantos, é o verniz perfeito para disfarçar quem ele realmente é: um ex-militar que faz parte do grupo político que tentou dar um golpe de estado no país.

<><> Messianismo hereditário

Mas Tarcísio foi retirado da disputa. Quem irá encarnar o personagem do “bolsonarista moderado” será Flávio Bolsonaro. Prevaleceu a decisão do líder da gangue golpista que, de dentro da cadeia, mandou o recado por meio  de um texto cafona com tom messiânico, lido pelo próprio filho: “Entrego o que há de mais importante na vida de um pai: o próprio filho para resgatar o Brasil”.

A candidatura de Flávio é mais uma questão de sobrevivência política da família Bolsonaro do que um projeto político pensado. A decisão não foi resultado de debates internos no PL e com suas bases, mas do desejo da família Bolsonaro em manter sua dinastia no comando da direita brasileira. O bolsonarismo se sacramenta como um messianismo hereditário.

Se a eleição fosse hoje, Lula ganharia por pouco de Flávio Bolsonaro no segundo turno. O filho de Jair sabe que, para ganhar, vai precisar buscar o eleitorado de direita que não se identifica com o bolsonarismo. Não é à toa que ele tem se apresentado como uma versão “moderada e equilibrada do seu pai” — uma espécie de “Bolsonaro de focinheira”. Para vender bem esse personagem, Flávio tem viajado o mundo para buscar alguma influência internacional e tentando estreitar os laços com o empresariado e o mercado financeiro, que queria Tarcísio.

<><> Credenciais democráticas: uso da força e rachadinhas

Apesar de parecer ser o menos radical entre os irmãos Bolsonaro, Flávio está longe de ser alguém de perfil moderado. Vai ser ainda mais difícil para ele do que seria para Tarcísio; é preciso relembrar as credenciais democráticas do sujeito.

Em julho do ano passado, Flávio afirmou abertamente que o próximo presidente deverá “usar a força” caso o STF negue um indulto presidencial para tirar seu pai da cadeia. Em outubro, enquanto seu irmão fustigava Trump contra o Brasil, sugeriu que Trump poderia jogar bombas atômicas no Brasil caso a anistia não fosse aprovada. Eis o “bolsonarismo moderado”.

Moderação com dinheiro público também nunca foi o forte do senador, que tem um vasto currículo no mundo das “rachadinhas” e na distribuição de empregos para o crime organizado. Não podemos perder de vista o seu histórico. Flávio é o Bolsonaro que mais tem esqueletos no armário.

Quando tinha apenas 19 anos, acumulou três ocupações em duas cidades diferentes: faculdade presencial diária de Direito e estágio voluntário Defensoria Pública no Rio de Janeiro, e um cargo de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília. Todas essas ocupações exigiam a presença física, o que significa que Flávio estreou na vida pública pela via do funcionalismo fantasma.

Depois, como deputado estadual eleito, o primogênito de Jair começou a enriquecer com as famosas “rachadinhas”, que transformaram sua lojnha da Kopenhagen em uma fantástica fábrica de chocolate, conforme atestou o Ministério Público. Nessa época, o gabinete de Flávio era um cabide de emprego para milicianos e seus parentes. Os ex-policiais militares Fabrício de Queiroz e Adriano da Nóbrega, dois parceiros de longa data da família Bolsonaro, lideraram a farra com dinheiro público no gabinete de Flávio. Parte dessa grana era usada pelo então deputado para financiar e lucrar com a construção ilegal de prédios erguidos pelo Escritório do Crime — a milícia que era chefiada por Adriano da Nóbrega.

Não nos esqueçamos das mágicas de Flávio no mercado imobiliário. A mansão em que ele e sua família residem em Brasília, por exemplo, foi financiada por um banco público — o BRB do Distrito Federal — com juros muito abaixo do mercado (3,71%), algo impensável para um cidadão comum. A compra da mansão de quase R$ 6 milhões era incompatível com sua renda, mas Flávio afirmou que foi feita “com recursos próprios”, oriundos da venda de um outro imóvel e da franquia da Kopenhagen — a sua fantástica fábrica de chocolates irrigada pelas rachadinhas milicianas.

<><> Das rachadinhas à Abin paralela

Com Bolsonaro na presidência, todos os escândalos de corrupção de Flávio passaram a ser blindados pela Abin. O serviço de inteligência do país foi utilizado para bisbilhotar a vida de auditores que ousaram investigar os esquemas de corrupção do primogênito. Os advogados de Flávio eram orientados por relatórios produzidos pela agência.

Das rachadinhas à Abin Paralela, a história de Flávio Bolsonaro na política é deplorável sob qualquer aspecto. Por mais forte que seja o seu sobrenome eleitoralmente, não será fácil manter o personagem que estão tentando encaixar nele. Seu teto de vidro é enorme e as pedradas serão inevitáveis durante a campanha eleitoral.

Flávio tem um “jeitão de Centrão”, mas sua genética política é extremista, autoritária e golpista. Os mercados, as elites e setores da imprensa sabem que ele não é o candidato dos sonhos, mas é o que tem para hoje. Vale qualquer coisa para impedir a continuação do governo Lula. Ou seja, não há nada de novo no front.

 

Fonte: The Intercept

 

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