A
“Arca de Noé” dos micróbios: cientistas criam plano para salvar as menores
formas de vida da Terra
Com
tantos recifes de coral sofrendo branqueamento e pangolins sendo caçados
ilegalmente, pode parecer insensível pedir pela conservação de espécies que são
pequenas demais para serem vistas a olho nu. Mas foi exatamente isso que a
maior organização internacional de conservação do mundo fez no ano passado.
Em 12
de setembro de 2025, a União Internacional para a Conservação da Natureza
(UICN) anunciou a criação de um “Grupo de Especialistas em Conservação
Microbiana”, uma força-tarefa composta por cientistas, ambientalistas e
voluntários cuja missão é salvaguardar a biodiversidade microbiana do nosso
planeta.
Os
micróbios são tão essenciais para a manutenção da vida na Terra, dizem os
membros da comissão, que tentar proteger espécies ou habitats individuais sem
considerar os micróbios dos quais dependem é um esforço inútil. “Sem micróbios,
não pode haver conservação”, afirma Raquel Peixoto, microbiologista da
Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, na Arábia Saudita, e membro
da nova comissão.
Os
microrganismos, um termo abrangente para bactérias, fungos, vírus e outras
formas de vida minúsculas, estão por toda parte, desde as profundezas do oceano
até a superfície da sua pele. Os cientistas estimam que existam entre um e cem
trilhões de espécies.
Embora
haja muitos micróbios sem os quais poderíamos viver, como o vírus que causa a
Covi-19 e o vírus Nipah e o fungo responsável pelo “pé de atleta”, existe
também um número inimaginável dos quais não poderíamos sobreviver sem a sua
existência.
Algas
microscópicas e cianobactérias produzem mais oxigênio do que todas as plantas
terrestres juntas. Bactérias e fungos microscópicos enriquecem o solo,
transformando o nitrogênio em uma forma que ajuda as plantas a crescerem e
decompondo a matéria orgânica.
A
qualquer momento, existem cerca de 30 trilhões de células microbianas no seu
corpo, que dão suporte a tudo, desde o seu sistema imunológico até a sua saúde
mental. Não seria exagero dizer que os microrganismos são essenciais para toda
a vida na Terra.
Estudos
mostram que a industrialização, a perda de habitat, as mudanças climáticas, o
uso excessivo de antibióticos e a poluição estão causando um declínio sem
precedentes na diversidade microbiana do nosso planeta. Também é evidente que
esse declínio está impactando negativamente a saúde de humanos, animais e dos
ecossistemas dos quais dependemos para sobreviver. Então, o que deve ser feito
a respeito?
Em um
artigo publicado recentemente na revista científica “Nature Microbiology”,
Peixoto e seus colegas da comissão oferecem maneiras práticas de fazer isso,
incluindo a criação de biobancos microbianos (como o Banco Mundial de Sementes
de Svalbard, mas para microrganismos), a proteção de habitats microbianos
naturais e o desenvolvimento de probióticos para reforçar a saúde de humanos,
animais e ecossistemas ameaçados.
Historicamente,
os apelos pela proteção de microrganismos têm sido raros. "Os
microrganismos são a base dos ecossistemas, mas continuam sendo amplamente
negligenciados nos esforços de conservação devido a limitações técnicas, à
dificuldade em compreender a complexidade de sua estrutura e função e à
preferência por aquilo que se pode ver", disse Elinne Becket,
microbiologista da Universidade Estadual da Califórnia, em San Marcos, Estados
Unidos, que não é membro da nova comissão.
Por
isso, convencer os ambientalistas tradicionais a considerarem os micróbios na
tomada de decisões de conservação tem sido difícil, afirma Jack Gilbert,
ecologista microbiano do Instituto Scripps de Oceanografia e membro da nova
comissão. Embora alguns inicialmente se mostrassem céticos desta vez, ele diz
que muitos ambientalistas agora manifestam seu apoio à nova comissão, pois seu
trabalho os ajudará, em última análise, a proteger também recifes de coral,
pangolins e muito mais.
Aqui
estão cinco exemplos de micróbios que o grupo considera importantes salvar — as
ameaças que enfrentam e os ecossistemas que poderiam entrar em colapso sem
eles.
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A bactéria Prochlorococcus protege o oceano aberto
Em
alto-mar, trilhões de bactérias conhecidas como Prochlorococcus absorvem
dióxido de carbono, produzem oxigênio e alimentam as teias alimentares marinhas
das quais dependem desde baleias-azuis até atuns-rabilho.
As
Prochlorococcus são sensíveis ao aquecimento das águas, à acidificação e às
alterações nos nutrientes dos oceanos; portanto, se as mudanças climáticas
continuarem sem controle, afirma Gilbert, essas bactérias essenciais e os
ecossistemas que elas sustentam poderão estar em sério risco.
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Os recifes de coral precisam de dois tipos de micróbios para sobreviver
Das
águas rasas até a borda da zona mesopelágica, os recifes de coral dependem de
microrganismos simbióticos para se manterem. Os microrganismos que possibilitam
sua sobrevivência são as Symbiodiniaceae, que são conhecidos popularmente como
zooxantelas.
Essas
algas microscópicas fornecem aos corais a energia essencial que produzem
durante a fotossíntese em troca de um local seguro para se abrigarem. Outro
grupo especial de micróbios, denominado Microrganismos Benéficos para Corais
(MBCs), combate patógenos, auxilia os corais na absorção de nutrientes e
degrada compostos tóxicos para eles.
O
aumento da temperatura dos oceanos, a poluição e as doenças podem fazer com que
os corais expulsem os microrganismos simbióticos de seus corpos, um fenômeno
chamado de branqueamento de corais. A administração de probióticos antes ou
durante uma onda de calor pode diminuir a gravidade dessas mortes em massa.
Sem
esses microrganismos, os recifes de coral que conhecemos e amamos seriam apenas
montes de rocha brancos e sem vida. Pelo menos 25% da vida marinha depende dos
recifes de coral para sobreviver. Os recifes também ajudam a proteger nossas
costas de tempestades e, ainda, fornecem habitat de berçário para os peixes que
consumimos.
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Microcoleus vaginatus constrói desertos e pradarias
Os
desertos e pradarias do nosso planeta são mantidos unidos por um grupo de
bactérias conhecido como Microcoleus vaginatus — literalmente. Embora o nome
possa soar como uma doença venérea, trata-se, na verdade, de uma cianobactéria
que ajuda a impedir que o solo em ambientes secos seque e seja levado pelo
vento e pela chuva.
Considerando
que esses ambientes cobrem cerca de 40% da superfície terrestre, essas
bactérias são a única coisa que nos separa de colossais tempestades de poeira e
da desertificação generalizada. Embora a Microcoleus vaginatus continue sendo
uma das cianobactérias terrestres mais abundantes do planeta, ela está ameaçada
pela agricultura industrial e pela seca.
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Uma série de micróbios sustenta o corpo humano
Nossos
corpos abrigam uma infinidade de microrganismos com os quais temos convivido há
milhões de anos. Os que estão em nosso trato digestivo nos ajudam a decompor
fibras complexas, manter a camada de muco que protege o estômago do ácido e das
enzimas digestivas, sintetizar e absorver diversas vitaminas e muito mais.
Infelizmente,
nossas dietas ultraprocessadas e pobres em fibras, o uso excessivo de
antibióticos e a menor exposição a ambientes naturais têm diminuído a
diversidade da nossa microbiota intestinal. Essa perda de diversidade tem sido
associada a maiores riscos de doenças inflamatórias e autoimunes, alergias,
obesidade e diabetes tipo 2.
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Actinomicetos são responsáveis pela a maioria dos remédios que usamos
Um
grupo de bactérias conhecido como actinomicetos nos proporcionou alguns dos
medicamentos mais importantes da história da humanidade. Essas bactérias são
usadas para produzir antibióticos e imunossupressores, além de enzimas
industriais.
Mas,
fora do laboratório, os actinomicetos também mantêm o solo saudável, decompondo
quitina e outras moléculas de difícil decomposição, reciclando nutrientes,
fixando nitrogênio e defendendo as plantas contra patógenos. Eles também
conferem aos solos saudáveis seu característico aroma "terroso".
A
agricultura intensiva, a degradação do solo, a poluição e o estresse climático
ameaçam os actinomicetos, que a humanidade precisa tanto para a agricultura
quanto para o desenvolvimento de novos antibióticos. Conservar terras que não
foram impactadas pela atividade humana e manter coleções de actinomicetos em
laboratórios, afirma Gilbert, é de extrema importância.
Fonte:
National Geographic Brasil

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