Feminicídio,
homofobia, anticomunismo e intolerância da extrema-direita
O
feminicídio nos EUA não tem proporções semelhantes às do Brasil, embora seja
também um país machista, mas de outro tipo. Aqui as taxas de feminicídio são
mais altas. Há forte incidência de violência doméstica letal por parte de
parceiros/ex-parceiros, dada a impunidade estrutural e a naturalização da
violência contra a mulher.
O
Estado, em ações de governos locais, ainda falha em prevenção, proteção e
punição. O feminicídio no Brasil é epidêmico e socialmente tolerado em muitos
contextos regionais.
Nos
Estados Unidos, as taxas são menores diante as brasileiras. Ainda assim
milhares de mulheres assassinadas por ano, a maioria dos casos envolvendo
parceiros íntimos com armas de fogo presentes em grande parte dos homicídios. O
risco de morte aumenta drasticamente quando o agressor tem acesso a armas.
Os EUA
são também machistas. Mas o machismo lá opera mais por instituições e mercado,
e menos por permissividade explícita à violência cotidiana.
As
características do machismo americano é ter uma violência doméstica relevante,
embora mais judicializada. A mulher tem maior controle sobre seu corpo feminino
com aborto livre e direitos reprodutivos.
Mas a
desigualdade salarial entre gêneros é persistente e a cultura de masculinidade
é armada e agressiva. Além disso, há lá a estigmatização de mulheres pobres,
negras e latinas. É um machismo legalmente mediado, não “cordial”.
A
diferença crucial de forma é porque, no Brasil, o machismo é direto, cotidiano,
muitas vezes explícito. Violência física letal age como continuação “natural”
do controle masculino.
Nos
Estados Unidos, o machismo é mais institucionalizado, filtrado por leis e
mercado, mas é potencializado por armas. A letalidade aparece quando o controle
falha — e a arma está à mão.
A
interseccionalidade importa muito. Nos EUA, o risco é desigualmente distribuído
contra mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres latinas e mulheres pobres.
Elas sofrem taxas de homicídio muito superiores à média nacional.
O
machismo se combina com racismo e classe, como acontece no Brasil. Muda o
padrão, não a lógica.
No
Brasil, o feminicídio é mais frequente, mais naturalizado, menos prevenido. Nos
Estados Unidos, o feminicídio menos frequente, mas mais letal quando ocorre,
por causa das armas. Ambos são machistas, mas o Brasil é mais permissivo à
violência direta e os EUA são mais eficientes em transformar controle em risco
letal pontual.
Os EUA
são um país homofóbico, tem intolerância contra não religiosos ou ateus, são
anticomunistas. Para agravar, predomina a xenofobia e um complexo de
superioridade diante os estrangeiros.
Isso
ocorre em graus variados — e de forma contraditória. Os EUA não são homogêneos,
porque compõem um país internamente cindido, onde tolerância e intolerância
coexistem em tensão permanente.
Os EUA
são, institucionalmente, menos homofóbicos diante o ocorrido no passado.
Socialmente, ainda sim. Houve avanços reais em casamento igualitário,
visibilidade LGBT e proteção legal em vários estados.
Mas a
violência perdura contra pessoas LGBT (especialmente trans) de maneira ainda
alta. Há um backlash conservador crescente e uso da pauta LGBT como bode
expiatório eleitoral.O efeito rebote é a forte reação de setores conservadores
da sociedade e políticos contra decisões progressistas ou liberais, geralmente
do Poder Judiciário (ativismo judicial), em temas polêmicos como direitos LGBT,
aborto ou meio ambiente. O objetivo é reverter essas decisões, atuando via
Congresso.
É um
país onde direitos avançaram por conflito, não por consenso. A homofobia não
desapareceu — reagiu.
Há
também intolerância contra não religiosos ou ateus, de forma peculiar. Os EUA
são oficialmente laicos, mas profundamente religiosos no imaginário público.
Políticos juram cargos “sob Deus” e ateus são vistos como um dos grupos menos
confiáveis em pesquisas de opinião pública.
Em
muitos contextos, declarar-se ateu gera desconfiança moral. Geralmente, é visto
como “falta de valores”. Não é perseguição estatal aberta, mas estigmatização
cultural persistente.
Os EUA
são estruturalmente anticomunistas. O anticomunismo não é só ideológico, é
fundacional da Guerra Fria e do Estado de segurança nacional.
Mesmo
hoje “socialismo” é tratado como ameaça existencial. Quaisquer políticas
sociais básicas são rotuladas como “comunistas”. O termo funciona como
dispositivo de medo, não como conceito. Trata-se menos de debate econômico e
mais de tabu civilizacional.
Predomina
lá a xenofobia de maneira cíclica, seletiva e funcional. Estrangeiros são
desejados como mão de obra, em trabalhos manuais, e rejeitados como cidadãos.
A
xenofobia cresce em períodos de crise econômica, competição geopolítica e
polarização política. Os alvos variam. No passado, eram irlandeses, italianos,
judeus imigrantes, hoje, são discriminados latinos, muçulmanos, chineses.
Paradoxalmente, os anglo-saxões foram, originalmente, os imigrantes em terras
de nativos dizimados ou exterminados.
A
xenofobia, na realidade, organiza o mercado de trabalho segmentado, não apenas
o ódio cultural. A discriminação dos trabalhadores manuais estrangeiros é
explorada como demagogia do populismo de direita.
Mas, de
fato, existe um complexo de superioridade diante dos estrangeiros no chamado
“excepcionalismo americano”. A ideia central é os EUA seriam a “nação
indispensável”, um modelo universal de liberdade e democracia. É um falso “mito
fundador”.
Tem
como consequências a dificuldade de aprender com outros países ou povos, a
naturalização de intervenções externas e a desqualificação de experiências não
americanas. Não é arrogância individual apenas — é ideologia nacional.
Em
síntese, os EUA combinam liberalismo jurídico com conservadorismo cultural,
pluralismo social com hierarquias persistentes, e abertura ao mundo com
excepcionalismo defensivo. Dito de outro modo, é um país capaz de produzir
direitos avançados e, ao mesmo tempo, fortes reações de intolerância quando
esses direitos ameaçam identidades, privilégios ou narrativas de superioridade.
A queda
no turismo internacional nos EUA em 2025/2026, com previsão de perda superior a
US$ 12 bilhões, é impulsionada principalmente por políticas imigratórias
rígidas, aumento da burocracia para vistos, imagem negativa do país e custos
elevados. O sentimento de aversão e a percepção de insegurança (racismo e
armas) também afastaram visitantes.
Medidas
mais rígidas de controle de fronteiras e retórica agressiva do governo Trump
sobre imigração geraram incertezas, fazendo turistas estrangeiros optarem por
destinos como Europa ou Japão. Aumento das barreiras para a obtenção de vistos
e revisão na liberação de vistos permanentes, criaram medo de controles de
entrada mais rigorosos.
A
percepção negativa dos EUA, com preocupações relacionadas à violência armada e
questões raciais, afetam a imagem de receptividade. A valorização do dólar e
custos mais altos de viagem tornaram o país menos atrativo.
Paralisações
temporárias do governo dos EUA (shutdowns) afetaram a operação de museus,
parques nacionais e aumentaram filas em aeroportos, prejudicando o turismo.
Houve menor fluxo de turistas latino-americanos, incluindo mexicanos e
colombianos, e redução nas viagens de compras.
Apesar
do turismo mundial estar em alta, os EUA destocaram-se com uma queda de cerca
de 6% no fluxo de turistas internacionais em 2025.
• Pesquisa revela que assédios são comuns
dentro da polícia científica de São Paulo. Por Rafael Custódio
Ao
embarcar na viatura para mais um dia de trabalho na polícia científica de São
Paulo, a perita Milena (nome fictício), de 40 anos, sentiu fortes dores no
peito. O colega de perícia, então, desviou da rota em que eles fariam a coleta
de provas e levou Milena ao pronto socorro mais próximo. A equipe médica, por
fim, fez o diagnóstico: crise de pânico.
A
medicação passada para conter a crise incluiu o diazepam – que tem como efeito
colateral a sonolência -, além da orientação para que ela ficasse em repouso.
Por medo de sofrer algum tipo de retaliação, Milena optou somente por descansar
na sede da Polícia Técnico-Científica e retomar as atividades periciais mais
tarde. No entanto, sua chefe a encontrou e, mesmo sabendo que a servidora havia
passado por uma crise, ordenou: “você tem local para atender. Pode ir!”. “Eu
fui chapada de diazepam fazer [coletas provas de ocorrências]”, contou a
perita.
Essa é
apenas uma das histórias caracterizadas como assédio por uma pesquisa realizada
entre peritos da polícia científica de São Paulo. O levantamento do Ministério
Público do Estado de São Paulo (MPSP), feito em maio de 2025, e obtido com
exclusividade pela Agência Pública, mostrou que 60% dos respondentes disseram
já terem sofrido assédio moral na instituição e outros 28% que foram vítimas de
assédio sexual praticados por colegas de trabalho.
A
pesquisa foi convocada pelo MPSP, após o Sindicato dos Peritos do Estado de São
Paulo (Sinpcresp) identificar um volumoso número de casos que envolviam
suspeitas de assédios morais e sexuais dentro da instituição. Participaram da
pesquisa, de forma anônima, 574 pessoas, que responderam a um formulário com 21
perguntas. Isso representa cerca de 25% do efetivo.
Por
meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP), sob gestão do delegado
Nico Gonçalves, respondeu que a Superintendência da Polícia Técnico-Científica
“repudia qualquer conduta incompatível com os princípios que regem a
administração pública.” A resposta afirma ainda que, ao “ser formalmente
notificada pelos órgãos responsáveis sobre a pesquisa, a instituição prestou os
esclarecimentos cabíveis. O fortalecimento institucional incluiu medidas como a
instituição da Comissão Permanente de Enfrentamento ao Assédio Moral e Sexual,
criação de um novo canal exclusivo para denúncias”.
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Maioria deixa de denunciar por medo
Os
peritos que toparam compartilhar os assédios sofridos dentro da instituição
pediram que setores, nomes e a identificação de seus chefes não fossem
divulgados, por uma questão de segurança. “Eles [peritos] temem ter algum tipo
de retaliação. Isso é evidente e é algo que eles comentam comigo de forma
recorrente”, explicou Bruno Lazzari, presidente do Sinpcresp.
O
presidente disse que até mesmo o sindicato enfrenta dificuldades em coletar
denúncias e tomar providências, pelo medo dos servidores em compartilhar
detalhes e documentos. “Eu atribuo [o medo] parcialmente a falta de comunicação
entre a instituição e os funcionários, ou seja, falta de divulgação a respeito
do que é assédio e a ausência de meios possíveis para que esses assédios sejam
denunciados”, disse.
Milena
ingressou na Polícia Científica em 2019, em um movimento de contratação feito
durante a gestão do ex-governador João Dória, na época do PSDB. Pouco depois de
sair da Academia de Polícia (Acadepol), ela passou a integrar o time de peritos
da Grande São Paulo.
O seu
primeiro chefe na instituição, na época, foi descrito pela servidora como
agressivo, ofendendo colegas de trabalho. No entanto, o receio dos servidores
em denunciar o dirigente tinha uma justificativa: “ele andava armado
ostensivamente o tempo todo, até mesmo internamente”, contou a perita, que hoje
não convive mais com esse chefe.
A
pesquisa feita pelo MPSP apontou que 66% dos peritos que responderam ao
questionário não fizeram denúncias aos superiores ou à Corregedoria da Polícia
Civil, que realiza as investigações internas da instituição. Os dados apontam,
também, que os casos denunciados não costumam ter resultados: apenas 4% das
ocorrências levadas às instâncias superiores surtiram efeito.
Esse
contexto, segundo Lazzari, alimenta também o medo de servidores denunciarem
irregularidades e sofrerem retaliações. “Nas polícias, a hierarquia é muito
mais rígida do que em outras instituições. Por isso, os servidores se sentem
intimidados a fazer qualquer tipo de denúncia”, afirmou.
Fonte:
Por Fernando Nogueira da Costa, em Brasil 247/Agencia Pública

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