No
Mato Grosso, santuário oferece vida nova a elefantes marcados pela dor do
cativeiro
Em
abril do ano 2000, o pequeno José Miguel dos Santos Fonseca, de apenas seis
anos, foi morto por leões do Circo Vostok, durante um ciclo de eventos em
Jaboatão dos Guararapes, município que integra a Região Metropolitana de
Recife.
A
criança foi atacada durante um intervalo das apresentações, enquanto caminhava
ao lado de um túnel gradeado que ligava a jaula dos felinos ao picadeiro. O
espaço de 10 centímetros entre as barras de ferro foi suficiente para que o
ataque ocorresse; horas depois, quatro dos cinco leões envolvidos no episódio
haviam sido mortos a tiro pela Polícia Militar.
O
acidente gerou uma onda de comoção em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, reacendeu
debates sobre as condições precárias e exploratórias a que os animais eram
submetidos no mundo do entretenimento. Pouco depois da tragédia, um projeto de
lei tornou Pernambuco o primeiro estado do país a proibir o uso de animais em
eventos circenses.
Algum
tempo depois, outros estados se juntariam à causa — o que, à primeira vista,
apontava um caminho de avanço sem qualquer ressalva. No entanto, as proibições
criaram um problema residual: sem espaço nos circos, muitos animais seriam
largados à própria sorte. A situação se tornou especialmente delicada para
animais de grande porte, como os elefantes, que são longevos e necessitam de
amplos habitats artificiais.
Para
responder a uma parte dos surtos de abandono que se sucederam após as
proibições, especialistas e membros da sociedade civil se uniram para criar o
Santuário de Elefantes Brasil (SEB). Fundado em 2016 e sediado no município de
Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, o projeto é pioneiro na América Latina e
também resgata espécies de zoológicos.
A
iniciativa busca criar espaços naturais e oferecer cuidados especializados aos
elefantes, ramificando-se a partir da estrutura criada por uma ampla rede
global de apoio à fauna em situação de risco — como a ElephantVoices e o Global
Sanctuary for Elephants.
O
trabalho dessas duas organizações levaria Scott Blais, cofundador do Global
Sanctuary, a lançar o SEB no coração do Centro-Oeste brasileiro. Nascido nos
Estados Unidos, onde fundou o maior santuário de elefantes da América do Norte,
no estado do Tennessee, ele se mudou para o Brasil para cuidar de seu mais
recente projeto em terras mato-grossenses.
“Nossa
missão é proteger, resgatar e proporcionar um santuário aos animais. Dar
estímulos físicos aos elefantes e propiciar um ambiente socialmente dinâmico,
onde possam expressar seus comportamentos naturais e se recuperar dos anos de
cativeiro”, disse Blais à Mongabay.
A
escolha do local não veio à toa: para os especialistas, Chapada dos Guimarães
conta com a vegetação, o clima e o relevo ideais. Segundo Daniel Moura, biólogo
e diretor do SEB, as características do Cerrado mato-grossense se assemelham ao
ambiente onde vivem os elefantes africanos e asiáticos, o que facilita a
aclimatação e adaptação deles à nova casa — localizada em uma área privada de
mais de 1.200 hectares.
Atualmente,
o santuário brasileiro abriga cinco elefantes fêmeas de diferentes idades:
Bambi, Guillermina, Maia, Mara e Rana. Todas foram resgatadas em condições de
extrema debilidade após anos de confinamento em circos ou zoológicos. De acordo
com o Global Sanctuary, há 35 elefantes cativos no Brasil: 18 vivem em
instalações zoológicas “predominantemente precárias”, enquanto outros 17 estão
em circos, sendo forçados a “uma vida remota e a condições de severo
confinamento”.
Em toda
a América do Sul, estima-se que pelo menos 50 animais vivam em cativeiro.
Moura
explica que os efeitos são nocivos e duradouros quando há abuso e negligência.
“Quando restringidos por correntes, confinamento extremo, dieta insuficiente e
isolamento de grupos sociais, os elefantes frequentemente apresentam
complicações severas de saúde, desenvolvendo tuberculose e doenças psicológicas
— como comportamentos agressivos, automutilação e [o próprio] isolamento”,
disse.
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O papel dos santuários e a questão dos zoológicos
A
Mongabay consultou biólogos sobre as diferenças entre zoológicos e santuários
no Brasil. Igor Morais, mestre em Zoologia pela Universidade Estadual de Santa
Cruz (Uesc), em Ilhéus (BA), explicou que o modelo se refere a instituições que
“abrigam espécies resgatadas de circos, laboratórios, zoológicos ruins, além do
resgate de animais híbridos”.
A
hibridização, por si só, pode acarretar diversos problemas. O quadro resulta do
cruzamento entre espécies divergentes, a partir de condições de procriação
associadas à intervenção humana, a alterações de habitat ou até mesmo aos
efeitos das mudanças climáticas. Segundo Morais, esses casos podem causar
infertilidade e alterações no perfil genético, ocorrendo tanto em propriedades
privadas quanto em zoológicos desqualificados.
“É aí
que entram os santuários: eles fornecem abrigo e condições de vida adequadas
para esses animais”, disse.
Não há
um número oficial que contabilize todos os santuários de fauna no Brasil, uma
vez que muitas pequenas iniciativas atuam de forma independente. No entanto,
existem diferentes projetos consolidados e registrados pelos biomas do país —
como o Projeto Mucky, que reabilita primatas em Itu (SP), onde predominam áreas
de Mata Atlântica.
Morais
também evita generalizações ao falar dos zoológicos, indicando que o conceito
sofreu alterações ao longo do tempo. “É equivocado considerar que todos os
zoológicos sejam iguais. Existem diferentes filosofias de trabalho — alguns
pesquisadores listam até oito concepções distintas”, disse. Os mais modernos,
segundo ele, buscam acolher animais por meio de programas de conservação, mas
ainda são “extremamente raros no Brasil”.
“A
grande maioria dos zoológicos brasileiros mantém a concepção surgida no final
do século 18: apenas exibir animais selvagens ao público, [expondo] ‘coisas
exóticas’ que as pessoas não veem no dia a dia. Muitos têm a ‘modernidade’
apenas no discurso.”
De
acordo com dados de 2016 do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), mais
de 70 zoológicos brasileiros, de um total de 111, funcionavam em condições
inadequadas.
Segundo
Morais, até mesmo alguns santuários devem ser observados com atenção, estando
igualmente sujeitos a críticas e à revisão de seus métodos, quando necessário.
“Há, por exemplo, santuários que fornecem dietas equivocadas aos animais. É
importante ressaltar: não é o nome — zoológico, bioparque, ecoparque ou
santuário — que define se a instituição maneja os animais adequadamente. O que
define são as práticas adotadas.”
Desde a
sua criação, o SEB já resgatou nove elefantes, incluindo as cinco fêmeas que
vivem na propriedade atualmente. Todos os mamíferos vieram da Ásia e, segundo
seus criadores, possuem personalidades próprias e bem diferentes.
Por
esses motivos, o processo de reabilitação do elefante traumatizado — uma tarefa
naturalmente árdua — também se torna uma missão individual. Após chegarem ao
santuário por meio de doações ou resgates, passam por exames minuciosos e, se
necessário, são submetidos a tratamentos de suporte específicos.
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Impasse e resolução
Em
2025, o SEB enfrentou um de seus momentos mais delicados: a morte dos elefantes
Pupy, de 35 anos, e Kenya, de 44 anos, em um intervalo de dois meses. Enquanto
o primeiro animal morreu de forma repentina, dias após um quadro
gastrointestinal, o segundo padeceu pouco depois de receber um diagnóstico de
problemas respiratórios e articulares. A entidade se pronunciou por meio de
publicação nas redes sociais e divulgou informações preliminares sobre as
necrópsias.
O caso
chamou a atenção do Ibama, que iniciou uma investigação no último mês de
dezembro. Em reportagens, no entanto, o órgão afirmou que o santuário dispõe de
estruturas adequadas e de profissionais habilitados, além de licenciamento
concedido pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Mato Grosso (Sema-MT).
No
início de janeiro, em resposta à ação do Ibama, a Sema suspendeu a autorização
para o ingresso de novos elefantes ao santuário até a conclusão das
investigações. A medida, de caráter cautelar, não alterou a situação dos
animais que já vivem no SEB. O órgão estadual também reiterou que o local
dispõe das devidas certificações ambientais de funcionamento.
Em
nota, o santuário criticou o surgimento de “alegações falsas e negativas”, em
especial nas redes sociais, e disse que a Sema tomou uma “decisão apressada”.
“A verdade é que nenhuma das elefantas que chegaram ao SEB vindas de zoológicos
no Brasil havia recebido cuidados médicos adequados antes da transferência”,
disseram.
O SEB
declarou, ainda, que acolhe investigações e fiscalizações rigorosas “com
seriedade” e que “essas análises ajudarão a evidenciar a negligência prolongada
que muitos desses elefantes sofreram antes de chegar ao santuário”.
A
licença para a recepção de novos elefantes só seria restabelecida semanas
depois, conforme comunicado pelo SEB em 16 de fevereiro. Segundo a organização,
a decisão “reforça a capacidade técnica do nosso trabalho e valida a
transparência e a ética que orientam, diariamente, todas as nossas práticas e
procedimentos”. O Ibama, por sua vez, prometeu novas vistorias.
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Em busca de um futuro melhor para os elefantes
Em
função das marcas profundas que o cativeiro e os maus-tratos deixam nos
animais, o espaço no Mato Grosso não está aberto ao público, apesar de seu
tamanho.
“A
visitação foi bastante discutida entre nós. Há muita recuperação emocional que
precisa acontecer. Nós teremos elefantes com grandes inseguranças e problemas
de confiança. O fato de haver pessoas que os elefantes não conhecem pode ser um
problema para alguns deles”, diz o SEB em seu site oficial. “Eles não estão
mais em exposição e nem precisam se apresentar para um público.”
Ainda
segundo a entidade, devolvê-los a seus habitats naturais também não é algo
viável no momento — diante das limitações físicas, sociais e emocionais geradas
pelo cativeiro. “Nós não salvaremos a espécie ao reintroduzir elefantes em
cativeiro; precisamos preservar espaços selvagens e proteger populações
selvagens se quisermos compartilhar o mundo com elefantes no futuro.”
Uma vez
integrados ao santuário, os animais contam com o trabalho em tempo integral de
uma equipe de veterinários, biólogos e tratadores. Eles explicam que a manada
tem o hábito de explorar o habitat, caminhando quase 20 horas por dia.
Os
elefantes também consomem um cardápio variado: capim nativo, folhas, galhos,
raízes, frutas e até flores. “A massa vegetal média ingerida por dia gira em
torno de 150 kg ou mais”, disse Ronis da Silveira, biólogo e professor titular
na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Segundo
o especialista, quando criados livres, os elefantes têm “vida longa, maturidade
tardia, prole reduzida, capacidade cerebral elevada e cuidado parental
acentuado”. “O comando de uma manada é tipicamente matriarcal, na qual uma
fêmea mais experiente, maior e mais idosa conduz o grupo”, disse à Mongabay.
Atualmente,
considerando apenas a América do Sul, Bolívia, Colômbia, Equador, Paraguai e
Peru já aprovaram leis nacionais para proibir o uso de animais em apresentações
públicas. Até o momento, o Brasil não conta com uma legislação federal que vete
o uso deles em circos — ainda que a prática já encontre proibição em 12
estados.
O
projeto de lei mais recente sobre o tema, o PL 174/2023, busca impedir a
utilização de animais para “atividades de entretenimento, de malabarismo e
espetáculos similares”, estendendo-se a eventos online e a práticas divulgadas
em plataformas digitais. A medida, porém, segue em análise e não tem data para
avançar na Câmara dos Deputados.
Moura,
do SEB, lamentou a falta de avanços legislativos em nível nacional e disse
torcer por novas alternativas de conservação. “É preciso que os interesses dos
animais venham antes do interesse dos seres humanos, considerando suas
necessidades individuais e coletivas — além da ampliação do número de
santuários e de Centros de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres
[Cetras] em todo o Brasil.”
Fonte:
Mongabay

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