O
BRASIL VIVEU em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11
anos, revelam dados do Ministério da Saúde analisados pela Repórter Brasil.
Foram 9.729 casos registrados — alta de 84% em comparação a 2015. Em média, 27
pessoas por dia se intoxicaram no ano passado.
Entre
2015 e 2025, um quarto das vítimas foram crianças de 1 a 4 anos, a segunda
faixa etária com mais casos (17.476). A primeira é entre 20 e 39 anos, com
23.045 notificações de intoxicação, cerca de um terço do total. Nessa faixa
etária, 54% dos incidentes no ano passado tiveram relação com o trabalho, dos
quais 80% estavam relacionados a agrotóxicos de uso agrícola.
Os
números, compilados pelo Sinan (Sistema de Informação de Agravos de
Notificação), mostram ainda que, desde 2015, o país somou 73.391 intoxicações
por agrotóxicos. A série teve queda em 2020, mas voltou a subir a partir do ano
seguinte. A análise considera apenas os chamados “casos não intencionais”,
excluindo suicídios, abortos, homicídios e outros episódios em que a
contaminação foi deliberada.
No
mesmo período, o Brasil bateu recordes de aprovação e comercialização de
pesticidas. Apenas em 2025, foram 914 novos registros, um aumento de 38% em
relação ao ano anterior, segundo dados do Mapa (Ministério da Agricultura e
Pecuária) publicados no Diário Oficial da União.
Já as
vendas chegaram a 825,8 mil toneladas em 2024, crescimento de 9,3% em
comparação a 2023, de acordo com dados do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).
Para
especialistas ouvidos pela reportagem, o aumento das intoxicações está
diretamente ligado à ampliação da oferta e do consumo dessas substâncias. “De
modo geral, quanto mais agrotóxicos disponíveis, isso tende a fazer com que o
preço se reduza, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a
população vai estar mais exposta e isso pode fazer com que as intoxicações
aumentem”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da
Universidade Federal de Viçosa.
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Agrotóxicos agrícolas são os principais causadores das intoxicações no trabalho
O
Espírito Santo foi o estado com maior índice de intoxicações em 2025, seja em
números absolutos ou proporcionais. Foram 941 registros — quase um em cada dez
casos do país — e uma taxa de 23 casos por 100 mil habitantes. Em seguida,
proporcionalmente, aparecem Tocantins (16 por 100 mil) e Rondônia, Acre e
Roraima (com 11 casos por 100 mil habitantes cada), todos estados da região
Norte, marcada pela expansão do agronegócio e pressão sobre áreas de floresta.
As
principais vítimas das intoxicações não intencionais são homens de 20 a 39
anos: das 3.059 pessoas dessa faixa etária afetadas em 2025, 73% eram do sexo
masculino. Especialistas apontam que a concentração de intoxicações entre
adultos jovens e de meia-idade está ligada à predominância masculina no
trabalho rural e à alta demanda por trabalhadores nesse período da vida.
O
Ministério do Trabalho e Emprego criticou o alto número de casos relacionados a
lavradores no campo. “Não é admissível que interesses econômicos se sobreponham
à proteção da saúde dos trabalhadores”, diz nota enviada à Repórter Brasil.
A
reportagem questionou o Ministério da Agricultura e Pecuária sobre o recorde de
registros de agrotóxicos, a relação entre o aumento da oferta e o crescimento
das intoxicações, além de medidas de fiscalização no campo.
A
pasta, responsável por autorizar e reavaliar agrotóxicos segundo a nova Lei de
Agrotóxicos, sancionada em 2024, não respondeu às perguntas e orientou apenas
que a apuração fosse direcionada à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária).
A
Anvisa afirma que as notificações de intoxicação humana são um dos elementos
usados para orientar a reavaliação de produtos já registrados e para embasar
tecnicamente as análises toxicológicas. “As intoxicações são avaliadas e
consideradas nos pareceres de exposição humana elaborados para subsidiar o
processo decisório da reanálise”, cita nota enviada à reportagem.
Diz,
ainda, que suas decisões dependem de uma análise mais ampla de risco. “As
decisões regulatórias da Anvisa incorporam predominantemente evidências
experimentais, epidemiológicas e modelagens de exposição capazes de prever
efeitos crônicos antes que eles se manifestem na população”.
Já o
Ministério da Saúde pontua que monitora as intoxicações pelo Sinan, de
notificação obrigatória, e atribui parte do aumento das notificações ao reforço
das ações de vigilância. “No ano passado, o Ciclo de Webinários da VSPEA
[Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos, programa dos SUS]
tratou de temas como diagnóstico, tratamento e notificação de intoxicações
exógenas, visando aprimorar a atuação de equipes da vigilância, atenção
primária e especializada. Parte do aumento dos registros deve-se a esse
incremento na vigilância”, diz o texto.
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Crianças pequenas podem se intoxicar até dentro de casa e através do leite
materno
O
número de intoxicações em crianças de 1 a 4 anos — um quarto das notificações
desde 2015 — preocupa os especialistas ouvidos pela reportagem. Segundo
Wanderlei Pignati, professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso) e
pesquisador referência no país sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde
humana, diversos fatores fazem com que esse grupo esteja entre os mais
expostos. Um deles é que o sistema imunológico ainda não está completamente
formado nessa fase.
Pesquisa
orientada por Pignati no Mato Grosso, além disso, já confirmou a presença de
resíduos de agrotóxicos no leite materno. Muitos pesticidas são lipofílicos, ou
seja, tendem a se acumular em tecidos gordurosos, como as glândulas mamárias.
Já a
agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz)
Ceará, ressalta que os limites de tolerância a resíduos químicos são calculados
para adultos de cerca de 70 kg, o que torna qualquer exposição
proporcionalmente muito mais grave para uma criança pequena.
Ela
destaca também que crianças dessa faixa etária aparecem com frequência nos
dados porque são o grupo mais monitorado pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Com
vacinas frequentes e consultas pediátricas regulares, qualquer alteração de
saúde é mais facilmente percebida e notificada do que em adultos. Além disso,
diz, sintomas como diarreia, vômito ou manchas na pele em bebês geram
preocupação imediata nos pais, que procuram o serviço de saúde com mais
frequência.
“Qualquer
tipo de variação na saúde dessas crianças vai ser muito mais verificada e
notificada do que, por exemplo, em crianças maiores, adolescentes e adultos”,
afirma a pesquisadora da Fiocruz.
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Agrotóxicos são um problema de saúde pública, defende pesquisadora da Fiocruz
Especialistas
ouvidos pela Repórter Brasil afirmam que o Brasil lida com os agrotóxicos sob
uma lógica de mercado que ignora seus impactos na sociedade. Para eles, a nova
Lei de Agrotóxicos, sancionada em 2024, agrava esse cenário e representa um
retrocesso regulatório.
Ao
baratear e facilitar o acesso a essas substâncias, a medida pode intensificar o
ciclo de “envenenamento” da população brasileira, alertam. “Já faz tempo que as
intoxicações por agrotóxicos não deveriam ser mais vistas como casos isolados,
mas como um problema de saúde pública”, afirma Fernanda Savicki, da Fiocruz.
A
intoxicação aguda — aquela que aparece logo após a exposição — representa 89%
de todos os casos desde 2015, revelam os dados analisados pela Repórter Brasil.
Doenças crônicas associadas ao uso prolongado, como câncer e desregulação
endócrina, levam anos para surgir e são mais difíceis de relacionar diretamente
à exposição.
Os
números podem ser muito maiores. A Organização Mundial da Saúde estima que
apenas uma em cada 50 intoxicações por agrotóxicos seja registrada no mundo.
Sintomas como tontura, febre, náusea e diarreia muitas vezes são anotados como
viroses ou indisposições alimentares, sem investigação de uma possível causa
tóxica.
Jaqueline
Andrade, assessora jurídica da organização Terra de Direitos, afirma que, no
caso dos povos indígenas, a subnotificação é alimentada por desinformação e
preconceito. Ela conta que, ao questionar oficialmente secretarias municipais
de saúde sobre intoxicações do povo Avá-Guarani, no Paraná, ouviu respostas
como: “eles fumam cachimbo o dia inteiro” ou “vivem sem saneamento, então não
dá para dizer que é agrotóxico”. Ela relata, ainda, que trabalhadores evitam
denunciar casos por medo de sofrer retaliações ou perder o emprego.
Na
avaliação de Wanderlei Pignati, professor da UFMT, o registro de intoxicações
por pesticidas esbarra na precariedade da estrutura de saúde do trabalhador
pelo país, na pressão de empregadores para que episódios do tipo não sejam
notificados oficialmente e na falta de interesse do poder público, que estaria
priorizando os retornos econômicos gerados pela comercialização desses
produtos.
Savicki
ressalta que a subnotificação impede o Estado de medir o impacto real dos
agrotóxicos no SUS. A Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) estima
que, somente considerando casos agudos, cada dólar gasto com agrotóxicos gera
um custo de 1,29 dólar para o sistema de saúde.
• Ministério do Trabalho critica alto
número de trabalhadores intoxicados por agrotóxicos
OITO EM
CADA DEZ intoxicações por agrotóxicos relacionadas ao trabalho em 2025
envolveram produtos utilizados na agricultura. Foram 3.322 registros desse tipo
entre as 4.127 ocorrências ocupacionais notificadas no país. É o que mostram
dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério
da Saúde, analisados pela Repórter Brasil.
“Não é
admissível que interesses econômicos se sobreponham à proteção da saúde dos
trabalhadores e da população em geral”, afirmou o MTE (Ministério do Trabalho e
Emprego) à reportagem, ao ser questionado sobre os números. “As regras para
autorização e uso de agrotóxicos no país deveriam ser mais rigorosas”. Leia
aqui a resposta completa.
De
acordo com os dados, em 2025, 42% das intoxicações notificadas estavam
relacionadas ao trabalho. O grupo mais exposto ao risco dos químicos usados na
agricultura é o de homens entre 20 e 59 anos, que concentram 73% das
ocorrências ocupacionais envolvendo pesticidas agrícolas desde 2015.
Na nota
enviada à Repórter Brasil, o MTE relaciona o avanço das intoxicações ao peso
econômico e político do agronegócio, que, avalia, tem favorecido a adoção de
medidas de interesse do setor e ampliado o uso de substâncias proibidas ou
restritas em outros países em detrimento da saúde e do meio ambiente. A pasta
destaca, ainda, que o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.
Loredany
Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa,
afirma que, ao não contabilizar os danos causados, o agronegócio apresenta uma
eficiência econômica que não corresponde à realidade. “É provável que a
inclusão dessas externalidades nas estimativas reduza o valor do produto
marginal dos agrotóxicos”.
Ela
reforça que historicamente esse “modelo químico-dependente” de produção
agrícola é incentivado por isenções fiscais e crédito rural. Só nos primeiros
oito meses de 2024, por exemplo, as fabricantes de agrotóxicos já haviam
deixado de pagar mais de R$ 10,8 bilhões em impostos, segundo dados do
Ministério da Fazenda divulgados pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos
pela Vida.
Em
dezembro de 2025, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu manter as isenções
fiscais concedidas a esses produtos. Para Jaqueline Andrade, da Terra de
Direitos, o argumento, utilizado pela maioria dos ministros do STF, de que tais
benefícios buscam garantir a segurança alimentar, o acesso a alimentos e a
estabilidade e o desenvolvimento econômico do país não se sustenta diante de
seus danos ao meio ambiente e à saúde humana — princípios que, segundo ela,
deveriam ser resguardados pela Constituição.
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Trabalhadores são os mais prejudicados, diz Ministério
Para o
Ministério, embora toda a população seja afetada, “os trabalhadores e
trabalhadoras que atuam diretamente na manipulação dessas substâncias estão
entre os mais prejudicados”.
Segundo
a nota, os casos de intoxicações são acompanhados dentro da pasta por meio da
Auditoria-Fiscal do Trabalho, que, nas fiscalizações dos ambientes laborais,
avalia as condições de trabalho e se há gerenciamento adequado de riscos. “A
precariedade — ou mesmo a ausência — dessas medidas nos locais de trabalho
contribui significativamente para o agravamento da exposição e dos danos à
saúde.”
O MTE
ressalta que o trabalho rural tem especificidades próprias. A localização das
propriedades, os processos produtivos e o perfil de empregadores e
trabalhadores influenciam diretamente a organização das atividades e a gestão
dos riscos.
O setor
rural conta com uma norma específica, a NR nº 31 (Norma Regulamentadora nº 31),
que define parâmetros para a segurança e a saúde no trabalho no campo. “Os
elevados índices de acidentes e adoecimentos revelam um expressivo
descumprimento dessas medidas preventivas”, alerta o ministério.
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Pressão e precariedade no trabalho rural
Para
Wanderlei Pignati, professor da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso), a
dinâmica usual de trabalho no campo no Brasil ajuda a explicar por que adultos
em plena fase produtiva se intoxicam com tanta frequência.
“Para
se proteger, o trabalhador precisaria de uma máscara específica, com filtro
adequado para agrotóxicos. Só que o patrão muitas vezes não fornece e, quando
fornece, o filtro dura uma semana, enquanto o trabalhador passa 15 dias
exposto”, afirma.
Ele
pontua que o risco aumenta durante a colheita, quando há maior acúmulo de
resíduos químicos nas lavouras. “Há muito agrotóxico acumulado na soja, no
milho e, principalmente, no algodão. O trabalhador acaba fazendo jornadas acima
de oito horas, com equipamento precário e sob cobrança para colher rápido e
plantar de novo. Fica mais cansado, respira mais, se expõe mais”, explica.
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Fiscalização limitada e falta de estrutura
Na
resposta enviada à reportagem, o Ministério do Trabalho defende que a reversão
desse cenário exige atuação contínua e articulada, combinando ações
preventivas, campanhas educativas e fiscalizações. No entanto, reconhece que a
capacidade de intervenção foi prejudicada pela redução do seu quadro funcional
entre 2014 e 2025.
“As
ações fiscais realizadas pelos Auditores-Fiscais do Trabalho na última década
sofreram redução, em grande parte em razão do esvaziamento do quadro de
servidores desde 2014”, afirma a nota. Até o final de 2025, “cerca de 50% dos
cargos autorizados por lei estavam vagos”, diz. O Ministério ressalta que, em
2025, foram realizadas 4.958 ações fiscais no meio rural, com identificação de
2.446 irregularidades ligadas a operações com agrotóxicos.
A
agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz)
Ceará, acredita ser contraditório um sistema produtivo utilizar substâncias que
comprometem a capacidade do trabalhador de continuar exercendo sua função. Ela
argumenta que o ambiente de trabalho deve oferecer condições para que o
profissional se mantenha ativo e saudável, e não o contrário. “É um trabalho
que interfere diretamente na sua saúde, que compromete inclusive a sua condição
de continuar nele, por causa da exposição a produtos químicos. Isso é
absolutamente incoerente”, aponta.
Fonte:
Reporter Brasil

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