Como
está a retomada da vacinação no governo Lula
Uma das
principais bandeiras da campanha que elegeu Lula à presidência, a vacinação se
tornou símbolo político de um governo que se prepara para uma nova guerra
eleitoral. Após pouco mais de três anos, é possível fazer um balanço da
reconstrução do Programa Nacional de Imunização (PNI).
Conforme
se pode conferir nos Painéis de Vacinação do Ministério da Saúde, é possível
dizer que a promessa de retomada de bons índices de cobertura vacinal foi
cumprida. Pouco a pouco, o negacionismo antivacinas é revertido e a sociedade
se reconcilia com as recomendações sanitárias mais básicas.
O que
se observa, em especial, é a retomada dos níveis das principais vacinas do
calendário infantil. A cobertura da BCG, por exemplo, que havia sofrido queda
de 38,8% entre 2015 e 2021, voltou ao nível de 97,9% em 2025. Das 16 vacinas
oferecidas até 1 ano de idade, três estão com cobertura acima de 90% e outras
dez ultrapassam os 80%.
“Conseguimos
recuperar entre 10 e 15 pontos percentuais da cobertura vacinal da maior parte
do calendário vacinal. Hoje, nós temos algumas vacinas registrando a meta
ótima, algumas passando de 80%, outras chegando próximo de 90%”, disse Eder
Gatti, diretor do departamento do PNI, no Ministério da Saúde, que concedeu
entrevista ao Outra Saúde.
Além
dos objetivos delineados em 2023, há novidades. A principal delas é a vacina de
dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, de São Paulo. Eder Gatti informa
que a vacinação em massa deve começar já no segundo semestre.
“Para
este ano, esperamos ter entre 20 e 40 milhões de doses. Até aqui, o Butantan
está entregando ao ministério quantidades que permitem algumas estratégias em
locais específicos. Começamos a vacinação de profissionais da atenção primária
à saúde de todos os municípios brasileiros e conforme o Butantan entregar as
próximas doses, vamos avançar progressivamente”, contou.
A
novidade está diretamente relacionada ao investimento federal no setor. O BNDES
aportou R$ 1,4 bilhão na expansão do parque produtivo da fundação paulista.
Finalizadas as etapas de aprovação técnica, a produção, em parceria com
laboratório chinês, deve atingir 60 milhões de doses – o que coloca no
horizonte próximo a universalização da vacina contra a dengue.
Além
disso, o PNI recebeu o reforço de duas novas vacinas contra bronquiolite em
crianças, uma delas aplicada ainda na gestação e que garante a proteção dos
bebês por meio do cordão umbilical.
“Estamos
projetando ainda para este semestre a vacina pneumocócica 20, a mais moderna do
mundo contra meningites e pneumonias, uma atualização de uma vacina já
existente no PNI, que trouxe grandes atualizações”, afirma.
Para
além da vacinação infantil, que ocupa a maior parte do PNI, Eder Gatti também
analisou a atualidade das campanhas de imunização com adolescentes e adultos.
Em sua visão, o programa Saúde na Escola produziu bons resultados, mas revela
preocupação com as parcelas mais velhas da população.
“Há
melhoras progressivas na cobertura vacinal de HPV. Entre idosos, temos visto a
vacinação cair. Quando começar a campanha de gripe, provavelmente no final de
março, esperamos reverter esse cenário”, explicou.
Na
conversa, o médico infectologista explica questões de rotina na garantia do
acesso às vacinas, que enfrentam dificuldades, como as desigualdades regionais
e limitações específicas de municípios pequenos na oferta à sua população. Um
esforço que requer contribuição ativa de estados e municípios que, em alguns
casos, não possuem secretaria de saúde e condições materiais de armazenamento e
aplicação.
Se no
ano passado algumas vacinas tiveram falhas de abastecimento, Gatti garante que
todos os estoques estão garantidos e não há falta de acesso. “Nós estamos
abastecidos para as vacinas de rotina, inclusive trabalhamos com estoques que
projetam mais de seis meses de abastecimento”, afirmou.
Leia
entrevista completa com o diretor Eder Gatti.
• Como o senhor avalia o panorama atual da
cobertura vacinal no Brasil, especialmente para as vacinas do calendário
infantil e de reforços (como a da covid-19 e influenza)?
O
Brasil tem um programa de imunização muito robusto, consolidado ao longo das
décadas. Conseguimos atingir altas coberturas vacinais, principalmente ao longo
das décadas de 1990, 2000 e 2010. Foi o período em que conseguimos eliminar
algumas doenças por conta da vacinação, como, por exemplo, a rubéola e a
paralisia infantil, e controlar diversas outras doenças.
A
partir de 2016, começamos a registrar queda progressiva das coberturas
vacinais, ano após ano. E os motivos estão muito relacionados com financiamento
e estrutura do Sistema Único de Saúde. Houve problemas relacionados a
abastecimento e depois da pandemia ganhou força a desinformação, as pessoas
começaram a desconfiar da vacinação graças à disseminação de informações
falsas. Desde 2023, trabalhamos para mudar o cenário e começamos a ter um
registro de melhora da cobertura vacinal. Por exemplo, se nós pegarmos as
principais vacinas, a maioria estava na casa dos 70% de cobertura.
Nós,
nesses três anos, conseguimos recuperar entre 10 e 15 pontos percentuais da
cobertura vacinal da maioria delas. Hoje, nós temos algumas vacinas registrando
a meta ótima, algumas passando de 80%, outras chegando próximo de 90%.
O
desafio agora é enfrentar problemas específicos do território, como, por
exemplo, municípios que têm baixa capilaridade da atenção primária, municípios
que não conseguem fazer o registro da vacinação, dentre outros problemas muito
específicos.
• Quais os planos para 2026 do PNI? Existe
alguma dificuldade de entregar vacinas, em especial em municípios mais remotos?
A
abordagem do ministério para 2026 é trabalhar lado a lado com os municípios que
estão com maior dificuldade para recuperar os poucos pontos percentuais que
faltam para algumas vacinas, atingir a cobertura ótima e manter a nossa
população protegida.
A
condução do Programa Nacional de Imunização é tripartite, ou seja, é um
trabalho conjunto entre o governo federal, os estados e os municípios. E o
papel do governo federal, além de dar diretrizes técnicas para vacinação, é
fazer a aquisição das vacinas e distribuir para o país.
Hoje, o
Ministério da Saúde não tem qualquer tipo de desabastecimento. Nós estamos
abastecidos para as vacinas de rotina, inclusive trabalhamos com estoques que
projetam mais de seis meses de abastecimento.
O
Ministério está cumprindo com o seu papel e conta com a parceria dos estados e
municípios, porque nós fazemos a distribuição das vacinas para os estados, que
são responsáveis por fazê-las chegar aos municípios e suas respectivas unidades
para aplicação.
É com
este trabalho conjunto que o programa acontece. E o governo federal cumpre com
o seu papel hoje sem qualquer tipo de desabastecimento.
• O Ministério da Saúde tem um painel de
cobertura vacinal atualizado ano a ano, em especial de 2023, 2024 e 2025. Qual
o comparativo com o governo anterior, que se destacou pelo discurso
flagrantemente antivacinas?
O que
nós temos hoje é uma melhora progressiva da vacinação. Assim, trabalhamos para
chegar na cobertura ótima. Algumas vacinas já atingiram a cobertura, outras tem
alguns pontos para chegar até lá. Estamos trabalhando para conseguir completar
o objetivo e seguir com a tendência de aumento dos últimos três anos.
É
importante trabalhar com faixa de tempo; do período de 2016 até 2022, o Brasil
teve um comprometimento em seu programa de imunização em razão de conjuntos de
problemas muito sérios: disseminação de desinformação, problemas de
comunicação, de abastecimento, de financiamento. Tudo isso junto levou ao
cenário que nos obrigou a recuperar o programa.
• As barreiras de comunicação e
desinformação continuam interferindo de forma relevante na realidade ou podemos
dizer que o Estado, e a própria sociedade também, estão conseguindo contornar o
fenômeno?
Hoje, o
Ministério da Saúde tem toda a sua comunicação voltada a promover a vacinação,
com mensagens de que vacinas são seguras, protegem, salvam vidas. Também usamos
algumas ferramentas para monitorar desinformação em rede social, há agora o
aplicativo Meu SUS Digital, o GovBR e até as redes sociais para disseminar a
informação.
Há
outro fator importante: hoje nós temos autoridades que dão exemplo. Por
exemplo, nós temos tanto um presidente da República quanto um ministro da Saúde
que vai a público, se vacina e fala bem da vacinação, diferente, por exemplo,
do que aconteceu no passado recente.
Hoje, o
Ministério tem feito a sua parte. A comunicação é desafiadora, porque ao longo
dos últimos anos vimos uma mudança muito rápida do perfil da forma como as
pessoas se informam, com uma forte popularização das redes sociais e a formação
de bolhas.
O
grande desafio do Ministério da Saúde é justamente furar as bolhas e fazer a
informação correta chegar. Hoje, usamos a nossa estrutura para isso.
• Existem desigualdades regionais ou entre
grupos populacionais que sejam uma preocupação central no momento, e quais
estratégias estão sendo adotadas para enfrentá-las?
O
Brasil é muito grande e há nichos com particularidades. Isso acontece.
Recentemente, por exemplo, houve um pequeno surto de sarampo relacionado à
importação de casos, que aconteceu numa comunidade onde se praticava uma
determinada religião e uma postura antivacina. A situação exigiu do Ministério
da Saúde, do estado e do município um trabalho intenso para conter o surto.
É só um
exemplo de como existem no nosso território, eventualmente, nichos de pessoas
com postura negacionista. Acontece. Há diferenças regionais logísticas para
enviar vacinas ao centro-sul do país, onde é mais fácil do que em comunidades
ribeirinhas ou indígenas na região amazônica, por exemplo.
Tais
diferenças regionais impõem muitos desafios e o SUS precisa focar muito no
princípio da equidade, que significa fazer diferente para os diferentes.
Ou
seja, se o lugar demanda maior esforço para fazer o direito à saúde acontecer,
o Ministério da Saúde e o SUS têm de trabalhar de tal forma. Acabamos
investindo mais e gastando mais energia para fazer a vacinação acontecer nos
lugares onde são mais difíceis.
• Ao falar em vacinas e do PNI, a
associação inicial é em relação ao público infantil, faixa na qual há uma maior
quantidade de imunizantes a ser aplicada. Mas o que você pode contar da vacina
em adolescentes e adultos?
Os
adolescentes têm vacinas específicas. Tem duas vacinas que são muito
emblemáticas: a vacina para HPV que previne o câncer, e para meningite, a ACWY.
A estratégia do Ministério foi trazer a vacinação para dentro das escolas.
Desde 2024, o governo federal promove nacionalmente o programa Saúde na Escola
para levar a vacinação, em geral a partir de abril. Foi a forma que encontramos
para chegar aos adolescentes e tem dado resultado. Há melhoras progressivas na
cobertura vacinal de HPV.
Para
adultos, o que preocupa é que temos visto a vacinação entre os idosos cair cada
vez mais. Temos trabalhado, por exemplo, a campanha contra a influenza e vamos
focar muito na comunicação com os idosos, para que se vacinem porque, querendo
ou não, este é um grupo muito vulnerável e que precisa se vacinar.
As
vacinas estão disponíveis no SUS. Quando começar a campanha de gripe,
provavelmente no final de março, esperamos promover a vacinação de forma muito
intensa entre os idosos e reverter o cenário de queda progressiva da vacinação.
• Como está o planejamento para a
introdução da vacina da dengue no calendário público no próximo ano?
A
vacina contra a dengue é um grande avanço para o SUS, inicialmente destinada a
adolescentes de 10 a 14 anos, em 2024. Agora, temos a novidade da vacina do
Instituto Butantan, uma vacina nacional, a primeira de dose única do mundo.
O
Butantan entregou as primeiras 1,3 milhão de doses, o que permitiu estratégias
iniciais. Ao longo do ano de 2026, principalmente no segundo semestre, devemos
ampliar a vacinação, considerando que fizemos algumas parcerias de produção
para ampliar sua capacidade produtiva e possibilitar acesso para um grupo muito
maior de pessoas.
Esperamos
avançar progressivamente para a população em geral e de todos os municípios.
Estamos em evolução, trabalhando para ampliar a produção e, consequentemente,
trazer a vacina contra a dengue para toda a população de 15 a 59 anos.
• Podemos imaginar uma universalização da
vacina de dengue para 2027?
Isso
exige uma quantidade de doses que o Butantan ainda não produziu. O laboratório
parceiro terá condições de produzir entre 40 e 60 milhões de doses por ano.
Para este ano, esperamos ter acesso entre 20 e 40 milhões de doses.
Até
aqui, o Butantan está entregando para o Ministério da Saúde quantidades que
permitem algumas estratégias em locais específicos. Começamos a vacinação de
profissionais da atenção primária à saúde de todos os municípios brasileiros e
conforme o Butantan entregar as próximas doses, vamos avançar progressivamente.
O
grande volume de doses chega ao longo do segundo semestre. Ainda sem data
porque nós estamos passando por uma fase regulatória, de validação de fábricas.
Já temos um parceiro chinês para acelerar a produção e conforme a parte
regulatória avançar, poderemos receber mais vacinas, que seriam aplicadas a
partir das faixas mais velhas e depois às mais jovens. Isso deve começar no
segundo semestre ainda deste ano e progredir ao longo do ano de 2027.
• Ainda sobre a produção de vacinas, há
uma política econômica industrial cara ao atual governo. Você destacaria outros
imunizantes em estudo ou desenvolvimento pela indústria nacional?
Tivemos
um avanço gigantesco recentemente: a introdução de uma vacina muito boa contra
o vírus sincicial respiratório, da bronquiolite. Começamos a aplicá-la nas
gestantes em dezembro de 2025, com o objetivo de proteger a mulher e passar sua
proteção pelo cordão umbilical para o bebê ainda no ventre, para que ele nasça
protegido e fique assim nos primeiros seis meses de vida, período em que a
doença é mais incidente e mais grave.
Para
complementar, iniciamos em fevereiro o uso do nirsevimabe, um anticorpo
monoclonal contra a mesma doença, direcionado para os bebês prematuros, que
desenvolveram doenças específicas, como por exemplo síndrome de Down, fibrose
cística, doenças pulmonares e cardiológicas graves e distúrbios
neuromusculares.
Estamos
projetando ainda para este semestre a vacina pneumocócica 20, a mais moderna do
mundo contra meningites e pneumonias, uma atualização de uma vacina já
existente no PNI. E, obviamente, a ampliação da dengue, um grande avanço.
Portanto, o PNI trouxe grandes atualizações.
Por
isso, mais uma vez, é importante destacar que o Brasil tem um programa nacional
de imunização muito bom, que oferece vacinas seguras, disponíveis em todos os
postos de saúde do país. A população deve se vacinar para proteger a si mesma,
sua família, sua comunidade, para não deixar doenças evitáveis voltarem.
Fonte:
Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

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