O
corpo feminino é excepcionalmente flexível – e isso o torna superforte
Em
2014, a ciência descobriu que o estrogênio, um hormônio definidor do
funcionamento do organismo feminino, parecia proteger o corpo contra o estresse
físico da altitude, reduzindo o fator induzível por hipóxia (HIF), uma proteína
que ajuda o corpo a se adaptar à falta de oxigênio, mas causa inflamação e
desconforto.
A
fisiologista metabólica Deborah Clegg viveu na pele essa experiência. Quando
esteve nas encostas do Monte Kilimanjaro, no nordeste da Tanzânia, na África,
onde o ar se tornava rarefeito, ela não se deixou abalar pela altitude. Seus
passos eram firmes e sua energia, inabalável. Na mesma trilha, o parceiro de
escalada de Clegg – Biff Palmer — um renomado nefrologista e alpinista que já
havia escalado o Everest e seis dos picos mais altos do mundo — achou a
escalada no Kilimanjaro mais desafiadora.
Após
essa experiência no pico africano, em 2013, Clegg e Palmer continuaram
escalando alturas juntos e perceberam um padrão. Montanha após montanha, Clegg
superava Palmer consistentemente — não por bravata ou melhor condicionamento
físico, observaram eles, mas por algo mais profundo.
Outro
fator parecia estar em jogo. Suas conversas passaram de competição para
curiosidade: por que o corpo dela parecia tão bem adaptado ao ar com baixo teor
de oxigênio e ao esforço prolongado? De volta ao laboratório, eles se
propuseram a responder a essa pergunta.
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Estrogênio e flexibilidade desafiam a ideia ultrapassada de que mulheres não
são fortes
Mais
estrogênio – hormônio dominante no corpo feminino – significa menos HIF e torna
a altitude mais fácil de suportar. Essa não é a única vantagem que o estrogênio
proporcionou a Clegg — ele também desempenha um papel central no que é
conhecido como flexibilidade metabólica — a capacidade do corpo de alternar
entre fontes de energia, particularmente da glicose para a gordura.
A
descoberta de Clegg e Palmer faz parte de um crescente conjunto de evidências
científicas que desafiam as suposições de que o corpo das mulheres não é tão
forte quanto o dos homens.
A
ciência está mostrando cada vez mais que a flexibilidade — a capacidade de se
adaptar, mudar e se recuperar ao longo da vida — é um dos principais pontos
fortes que tornam o corpo feminino tão resistente. E há três maneiras cruciais
pelas quais essa característica torna as mulheres excepcionalmente fortes.
Clegg,
agora professora de medicina interna no Centro de Ciências da Saúde da
Universidade Tecnológica do Texas, nos Estados Unidos, estuda como o estrogênio
e o metabolismo da gordura moldam a resistência.
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Mulheres são mais resistentes e armazenam gordura nos lugares certos do corpo
Estudos
demonstraram que o corpo masculino tende a depender mais dos carboidratos para
explosões curtas de energia, o que lhes dá uma vantagem em termos de força
explosiva, mas o corpo feminino tem um desempenho particularmente bom em termos
de resistência.
O corpo
feminino queima preferencialmente gordura, que fornece uma fonte constante de
energia. A gordura, como combustível de queima lenta e consistente, ajudou
nossas ancestrais a persistir durante os longos ciclos gestacionais da gravidez
e da amamentação, enquanto ainda caçavam, colhiam e caminhavam de 13 a 16 km
por dia.
Hoje,
apesar de terem mais reservas de gordura, as mulheres lidam com níveis mais
baixos de doenças metabólicas — isso é proposital.
“As
mulheres armazenam gordura predominantemente nos quadris e nas coxas, que é um
local realmente seguro para armazenar gordura, pois fica fora da cavidade
abdominal, onde os homens a armazenam”, explica ela. A gordura visceral ao
redor dos órgãos na região do estômago tem impactos mais negativos na saúde do
que a gordura armazenada subcutaneamente, como costuma acontecer nos corpos
femininos. As células adiposas também são diferentes.
“Nossa
pesquisa mostrou que a célula adiposa feminina é completamente diferente da
célula adiposa masculina. A célula adiposa feminina é como uma peça de roupa de
elastano, por exemplo. Ou seja, ela pode se esticar, absorvendo todo o excesso
de ácidos graxos e calorias e armazenando-os de uma forma realmente saudável”,
diz Clegg. Já as células adiposas masculinas não têm essa capacidade, e essa
diferença é mais do que estética.
Quando
se inflamam, as células adiposas ficam fibrosas e sobrecarregadas, aumentando o
risco de diabetes e doenças cardiovasculares. Já no caso das células adiposas
flexíveis das mulheres, elas podem expandir-se e contrair-se mais facilmente de
acordo com as exigências da vida — como a gravidez, a flutuação de peso e os
exercícios de resistência. Essa expansibilidade nas células adiposas está
“diretamente relacionada” aos hormônios sexuais, afirma Clegg.
Quando
se trata de manter a energia por longos períodos, “é mais benéfico ser mulher
do que homem”, diz Clegg. “A capacidade de alternar entre os dois diferentes
substratos energéticos, glicose e ácidos graxos, também oferece benefícios para
a sobrevivência e a saúde.”
A
vantagem não se limita ao alpinismo: a flexibilidade metabólica do corpo
feminino reduz o risco de câncer, diabetes e síndrome metabólica — até a
menopausa, quando essa flexibilidade diminui.
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A flexibilidade feminina é metabólica e também física
Se o
metabolismo mostra o lado invisível da adaptabilidade, o movimento mostra o
lado visível.
O corpo
humano tem três tipos de flexibilidade física, diz Miho Tanaka, uma médica que
trata atletas do time de futebol New England Revolution e do Boston Ballet, e
cirurgiã de medicina esportiva no Mass General Brigham, em Boston,
Massachusetts, nos Estados Unidos. Existe a flexibilidade funcional — “como os
dançarinos, que conseguem fazer espargatas” —, a flexibilidade muscular, que
depende da elasticidade de certos músculos, e a flexibilidade articular, ou o
que os médicos chamam de laxidade.
Essa
flexibilidade está associada a uma maior eficiência muscular e maior força,
independentemente do sexo, e é por isso que os atletas a incorporam em seus
treinos. “A flexibilidade e a capacidade de usar todo o movimento das
articulações são importantes para otimizar a biomecânica das articulações. Isso
influencia diretamente a forma como um atleta gera força”, diz Tanaka.
Por
outro lado, “a inflexibilidade geralmente é uma resposta à perda de força nos
limites finais do movimento”, diz Sophia Nimphius, vice-reitora de Esportes da
Edith Cowan University, na Austrália. Em geral, os corpos femininos têm maior
elasticidade muscular e amplitude de movimento nas articulações. Isso
provavelmente se deve ao fato de elas terem mais estrogênio, o que aumenta o
colágeno nos tecidos conjuntivos — uma vantagem natural que ainda não foi bem
pesquisada.
A
flexibilidade física também mantém o corpo mais seguro ao exercer força.
“Estudos
mostram que quanto mais flexíveis são os músculos, menor é a probabilidade de
sofrer uma lesão ou distensão muscular”, diz Tanaka. Mas esse equilíbrio é
delicado. “Se você tem muita laxidade, fica mais propenso a lesões nas
articulações. É realmente uma linha tênue entre ter flexibilidade suficiente e
ter muita laxidade.”
Essa
linha tênue é uma teoria que explica por que as mulheres têm quatro a oito
vezes mais chances do que os homens de sofrer lesões no joelho sem contato.
“Assimetrias na flexibilidade e desequilíbrios musculares podem aumentar o
risco.”
No
entanto, outra teoria sugere que as mulheres são mais propensas a sofrer essas
lesões porque têm menos treinamento e apoio. “Se a laxidade fosse
principalmente um mecanismo baseado no sexo, esperaríamos que as diferenças nas
lesões fossem consistentes em todos os esportes, mas não são”, diz Nimphius.
Pesquisas
demonstraram que no esqui alpino, onde o treinamento é individual e começa
desde cedo, não há diferença entre os sexos nas taxas de lesões.
É por
isso que pesquisas e treinamentos específicos para o corpo feminino são tão
importantes. Apenas 6% dos estudos de medicina esportiva se concentram
exclusivamente nas mulheres, e é sabido na ciência do esporte que, por muito
tempo, as mulheres foram treinadas como homens menores, em vez de com base em
suas próprias forças físicas.
Os
futuros regimes de treinamento que se adaptam às necessidades específicas de
cada atleta têm o potencial de reduzir as lesões (como alguns estudos já
demonstraram). Tanaka aponta para o potencial da IA e do aprendizado de máquina
para analisar grandes quantidades de dados, o que permitirá que médicos como
ela “prevejam lesões e personalizem os planos de treinamento de acordo com
elas”.
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Um metabolismo flexível ajuda as mulheres a se adaptar melhor às grandes
mudanças da vida
Além do
metabolismo e do movimento, talvez exista a flexibilidade mais surpreendente de
todas: a capacidade do corpo feminino de passar por mudanças dramáticas.
Da
primeira menstruação à menopausa, passando pela gravidez, parto e recuperação,
os sistemas femininos se reconfiguram repetidamente — circulatório, imunológico
e musculoesquelético — sem entrar em colapso.
Essas
mudanças fisiológicas podem até ter vantagens. Pesquisas recentes mostraram que
a amamentação pode reduzir o risco de câncer de mama devido ao recrutamento de
células imunológicas para a mama. Também há evidências de que algumas atletas
femininas retornam ao esporte ainda mais fortes após a gravidez e o parto,
igualando ou superando suas habilidades pré-gravidez.
A
adaptação, na verdade, é o fio condutor. Em todas as escalas — das mitocôndrias
às fibras musculares e ao ciclo hormonal —, o poder desconhecido do corpo
feminino reside em sua capacidade de se dobrar sem quebrar.
Para
Clegg, a lição se cristalizou no meio da escalada de uma montanha: ela era mais
forte por causa de seu corpo feminino, e não apesar dele. As características do
corpo feminino uma vez já descartadas como desvantagens — como o armazenamento
de gordura, a flutuação hormonal e a sensibilidade, por exemplo — podem, na
verdade, ser a base da sobrevivência humana.
Fonte:
National Geographic Brasil

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