Sintomas
da menopausa que não desaparecem? Pode ser uma síndrome ainda pouco conhecida
No
período que antecede a menopausa, conhecido como perimenopausa, as mulheres
geralmente já sofrem com ondas de calor, suores noturnos, secura vaginal e
distúrbios do sono e de humor, provocados pela diminuição dos níveis de
estrogênio. Com o início da menopausa (que se dá oficialmente 1 ano após a
cessação dos ciclos menstruais), a maioria das mulheres começa a sentir um
alívio gradual até que os sintomas desapareçam.
Só que
nem sempre isso acontece, há uma exceção notável. É chamada de Síndrome
Geniturinária da Menopausa (GSM), que se refere a sintomas vaginais incômodos e
alterações urinárias que não só não melhoram, mas pioram à medida que as
mulheres envelhecem. Entre 27% e 84% das mulheres apresentam esse problema. Só
que, no entanto, é bem provável que você nunca tenha ouvido falar dele.
“Nunca
ocorre às mulheres que isso faz parte da menopausa”, afirma Lauren Streicher,
diretora médica do Centro de Medicina Sexual e Menopausa da Northwestern
Medicine, nos Estados Unidos. “Elas pensam: ‘Isso é apenas o que acontece com o
envelhecimento’”.
A SGM
refere-se a um conjunto de sinais e sintomas, como: secura vaginal, coceira e
irritação da vagina e vulva; diminuição da lubrificação e da libido; corrimento
branco ou amarelado; dor durante a penetração sexual; e dor, ardor ou aumento
da frequência urinária. Também pode ser a causa de infecções recorrentes do
trato urinário.
Embora
cerca de 1/4 das mulheres apresente esses sintomas durante a perimenopausa,
eles são mais comuns após a transição — às vezes muito tempo depois. “Eles
podem se desenvolver 10 ou 12 anos depois do início da menopausa”, diz
Streicher.
Há um
bom motivo para você — ou seu médico — não estar familiarizado com o termo.
Isso porque anteriormente conhecido como Atrofia Vulvovaginal, a Síndrome Geniturinária da Menopausa foi
renomeada por um painel de especialistas em ginecologia há apenas uma década
para chamar a atenção para sintomas menos conhecidos e sua causa.
“A
esperança era que as mulheres reconhecessem que isso pode ser tratado”, comenta
Stephanie Faubion, diretora médica da Menopause Society e diretora do Mayo
Clinic Center for Women's Health, nos Estados Unidos.
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O que causa a Síndrome Geniturinária da Menopausa e como ela afeta a vida
cotidiana?
A
diminuição dos níveis do hormônio estrogênio é a causa do SGM. O estrogênio
promove a umidade e as secreções vaginais, mantém o revestimento vaginal
espesso e o tecido flexível e elástico. Quando o corpo começa a produzir menos
estrogênio, isso não só rouba a umidade e a lubrificação da vagina, mas também
afeta outros tecidos.
“Também
existem receptores de estrogênio na uretra e na bexiga”, explica James Simon,
professor clínico de obstetrícia e ginecologia da Faculdade de Medicina e
Ciências da Saúde da Universidade George Washington, nos Estados Unidos. A
mudança no ambiente do trato urinário permite que bactérias “ruins”, como a E.
coli, se proliferem na vagina e na uretra, causando irritação e aumentando o
risco de infecções urinárias, diz ele.
Essas
mudanças têm um grande efeito na vida sexual das mulheres. A dor durante a
atividade sexual é comum entre mulheres com SGM que não foram tratadas. Um
estudo de 2013 com mais de 3 mil mulheres na pós-menopausa descobriu que 1/4
delas sofria com relações sexuais dolorosas com frequência semanal.
“E se
as mulheres estão acostumadas ao sexo com penetração, isso cria um grande
problema, porque agora elas às vezes temem a atividade sexual”, explica Sheryl
A. Kingsberg, professora de biologia reprodutiva e psiquiatria da Faculdade de
Medicina da Case Western Reserve University, em Ohio, nos Estados Unidos
A
relação sexual dolorosa pode causar espasmos nos músculos do assoalho pélvico,
agravando o problema, explica Kingsberg. Portanto, mesmo que a secura vaginal
das mulheres seja eventualmente tratada, elas podem continuar a sentir
desconforto durante o sexo se não procurarem ajuda para os músculos tensos.
A
síndrome também tem consequências profundas para outros aspectos da saúde e da
qualidade de vida das mulheres, afirmam os especialistas. “Não se trata apenas
de sexo”, diz Faubion.
“Trata-se
de sentir também desconforto ao usar jeans, andar de bicicleta ou usar papel
higiênico para se limpar após urinar.”
Streicher
afirma que as mulheres que sofrem de SGM frequentemente têm “consciência da
vulva” — uma sensação desconfortável, com coceira e irritação – devido ao tecido seco e inflamado. Em um
estudo de 2019, as mulheres descreveram uma coceira tão intensa que não
conseguiam dormir ou uma sensação dolorosa de secura que as obrigava a parar de
frequentar aulas de ginástica. Algumas culparam os problemas sexuais
relacionados à SGM pelo fim de seus casamentos.
Os
problemas urinários associados à SGM são particularmente preocupantes devido à
frequência com que podem ser diagnosticados incorretamente e não tratados.
Quando os profissionais de saúde não sabem que a síndrome está por trás das
infecções urinárias de uma mulher, elas continuam a ter infecções.
Ao
mesmo tempo, os médicos podem presumir que os sintomas de micção dolorosa e
frequente são ITUs e prescrever antibióticos quando o problema é, na verdade, a
irritação e o ressecamento dos tecidos urinários. “É o mesmo sintoma, mas pode
não ser a mesma causa”, diz Kingsberg.
As
complicações podem ser especialmente graves à medida que as mulheres
envelhecem. Décadas da síndrome sem tratamento adequado podem realmente causar
a fusão dos órgãos genitais externos, bloqueando potencialmente o fluxo de
urina e contribuindo para a infecção. “Existem situações médicas graves, como
infecções recorrentes do trato urinário, que podem evoluir para sepse”, explica
Streicher. “Embora isso seja raro, não é exagero dizer que as mulheres podem
morrer de SGM.”
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Encontrando alívio para SGM
Apesar
de agora ter um nome mais preciso, a SGM ainda é notoriamente subdiagnosticada.
“E apenas uma pequena fração das mulheres é tratada, apesar da disponibilidade
de boas terapias”, afirma Faubion. Um estudo recente mostrou que apenas 7% das
mulheres na menopausa receberam medicamentos que poderiam ajudar a controlar os
sintomas.
O
primeiro passo para o alívio é usar hidratantes vaginais de venda livre para
manter os tecidos vaginais úmidos no dia a dia, bem como lubrificantes para
reduzir o atrito e a dor especificamente durante a relação sexual. Os
especialistas em menopausa geralmente recomendam o uso de hidratantes todos os
dias (ou a cada três dias para algumas preparações) para reter a umidade, assim
como você faria com cremes faciais.
No
entanto, alguns especialistas alertam contra hidratantes e lubrificantes à base
de água, que muitas vezes contêm ingredientes que aumentam a “osmolalidade” do
produto — o que significa que retiram a umidade das células vaginais e podem
até mesmo promover o ressecamento, diz Streicher. Produtos à base de silicone
ou lubrificantes à base de água com um índice de osmolalidade inferior a 380
podem ser melhores opções, sugerem as pesquisas.
“Se o
único sintoma de alguém for dor durante o sexo com penetração, e se for leve,
então você pode começar com um desses”, comenta Streicher. “Se isso não
funcionar, ou se você estiver tendo sintomas urinários, então é hora de seguir
o caminho da prescrição médica.”
Como a
perda de estrogênio causa os sintomas da SGM, ele também é o tratamento
padrão-ouro quando administrado localmente — como creme vaginal, comprimido,
supositório ou anel. É uma escolha segura para quase todas as pessoas, pois não
entra na corrente sanguínea, diz Streicher.
“O
estrogênio restaura as bactérias mais saudáveis na vagina e, como resultado, a
vagina pode se defender de patógenos, além de ser saudável para qualquer tipo
de atividade sexual”, diz Simon. Uma pesquisa recente publicada no Journal of
Urology mostrou que mulheres que usam estrogênio vaginal regularmente para
infecções urinárias recorrentes têm taxas significativamente mais baixas de
sepse e morte.
Mulheres
que desenvolveram músculos pélvicos tensos devido a relações sexuais dolorosas
e outros sintomas vaginais podem se beneficiar da fisioterapia pélvica e/ou do
uso de dilatadores vaginais, explica Kingsberg. Além desses remédios, existem
remédios de alta tecnologia, como tratamentos a laser e radiofrequência, que
pretendem estimular a formação de novos tecidos, embora os dados sugiram que
eles não sejam tão eficazes no alívio dos sintomas.
Se o
seu médico parece não ter conhecimento sobre SGM, pode ser sensato procurar
ajuda em outro lugar, dizem os especialistas O número de especialistas nesta
patologia aumentou, só nos de cerca de mil há uma década para 10 hoje nos
Estados Unidos, diz Kingsberg, então não há necessidade de sofrer em silêncio e
há todos os motivos para acreditar que as coisas podem melhorar.
Faubion
afirma: “A boa notícia é que temos terapias seguras e eficazes para mulheres
com SGM e, com o tratamento, a maioria das mulheres pode esperar a resolução
completa dos sintomas”.
Fonte:
National Geographic Brasil

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