quarta-feira, 4 de março de 2026

Israel e Hezbollah abrem nova frente de guerra e Irã segue ataques na região; o que aconteceu até agora

O conflito está se espalhando pelo Oriente Médio após o assassinato do Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, por ataques de Israel e dos EUA contra a liderança e as forças armadas do país.

Uma nova frente na guerra começou durante a noite de domingo para segunda-feira, depois que o Hezbollah — o grupo paramilitar xiita libanês apoiado pelo Irã — disparou mísseis contra a cidade israelense de Haifa.

O Líder Supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, foi morto depois que Israel e os EUA lançaram um ataque de grande escala e contínuo contra a liderança e as forças armadas do Irã.

O presidente dos EUA, Donald Trump, pediu às forças iranianas que deponham as armas e que o povo iraniano se levante contra o governo.

O Irã respondeu disparando mísseis e drones contra alvos dos EUA e aliados em toda a região, visando Israel, Bahrein, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Jordânia.

No domingo, Israel disse ter lançado novos ataques contra "o coração de Teerã", enquanto os ataques iranianos em toda a região também continuavam.

Confira abaixo o que aconteceu na região até agora.

<><> Quais são os acontecimentos mais recentes?

Na segunda-feira, o Irã atacou alvos no Catar e Arábia Saudita.

A QatarEnergy, empresa estatal de energia do Catar, anunciou a suspensão da produção de gás natural liquefeito (GNL) após ataques iranianos a algumas de suas instalações.

A empresa informou que as instalações atacadas foram Ras Laffan, uma base de processamento de gás em terra, e Mesaieed, outro local importante para a produção de gás natural do Catar.

Mais cedo, o Ministério da Energia da Arábia Saudita informou que um "incêndio de pequenas proporções" na refinaria de Ras Tanura, operada pela estatal petrolífera Aramaco, foi controlado.

O comunicado, divulgado pela Agência de Imprensa Saudita, afirma que a refinaria sofreu "danos leves causados por destroços" devido à interceptação de "dois drones nas proximidades da refinaria".

Na noite de domingo (1/3), o Hezbollah lançou mísseis contra a cidade israelense de Haifa.

Israel respondeu com um amplo ataque aéreo. Um reduto do Hezbollah nos subúrbios do sul de Beirute foi alvo dos mísseis, assim como áreas próximas ao aeroporto da cidade.

No sul do país, Israel ordenou a evacuação de moradores de mais de 50 vilarejos libaneses, além de realizar ataques aéreos nessas áreas.

O Ministério da Saúde do Líbano afirmou nesta segunda-feira (2/3) que os ataques israelenses em Beirute e no sul do Líbano mataram pelo menos 31 pessoas e deixaram 149 feridas.

O Exército israelense afirmou que mantém uma "campanha ofensiva" contra o Hezbollah que provavelmente durará vários dias, segundo o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir.

"Precisamos nos preparar para vários dias de combate, muitos mesmo. Precisamos de uma forte prontidão defensiva e de um preparo ofensivo contínuo, em ondas."

O Comando Central dos Estados Unidos informou que três de seus caças F-15 "caíram sobre o Kuwait devido a um aparente incidente de fogo amigo". Os seis tripulantes ejetaram em segurança e foram resgatados, segundo o comunicado.

Nesta segunda-feira, os ataques iranianos na região continuam — com relatos de explosões no Bahrein e em Dubai, e fumaça vista perto da embaixada dos EUA no Kuwait.

No Chipre, uma base força aérea do Reino Unido foi atacada por um drone. O presidente do Chipre, Nikos Christodoulides, disse que um "veículo aéreo não tripulado Shahed" colidiu com as instalações militares britânicas em Akrotiri, "causando danos materiais leves".

Shaheds são drones iranianos. A base está localizada em uma parte do Chipre que é território soberano britânico, formalmente conhecida como Áreas de Soberania Britânica de Akrotiri e Dhekelia.

<><> Por que os EUA e Israel atacaram o Irã?

Trump afirmou que o objetivo da operação é "garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear".

"Vamos destruir seus mísseis e arrasar sua indústria de mísseis. Ela será totalmente destruída novamente", disse Trump em um vídeo de oito minutos publicado no Truth Social na manhã de sábado (28/2).

O presidente americano também alertou as forças armadas iranianas para que deponham suas armas em troca de "imunidade completa" ou "enfrentem morte certa".

Em seguida, ele incitou o povo iraniano a se preparar para derrubar o regime: "Quando terminarmos, tomem o poder. Será de vocês. Esta será provavelmente a única chance de vocês por gerações."

A enorme operação militar — que os EUA apelidaram de Operação Fúria Épica — ocorre após semanas de ameaças de Trump de que ordenaria uma ação militar se o Irã não concordasse com um novo acordo sobre seu programa nuclear.

O Irã afirmou repetidamente que suas atividades nucleares são inteiramente pacíficas.

O Comando Central das Forças Armadas dos EUA disse que tinha como objetivo "desmantelar o aparato de segurança do regime iraniano, priorizando locais que representassem uma ameaça iminente". O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que Israel e os EUA lançaram a "operação para eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã".

<><> O que está acontecendo no Irã?

Explosões foram relatadas em diversas áreas do país no sábado.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram explosões e colunas de fumaça preta na capital, Teerã, além de Karaj, Isfahan e Qom, no centro do país, e Kermanshah, no oeste.

Os locais alvejados incluem instalações da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), de defesa aérea, locais de lançamento de mísseis e drones e campos aéreos militares.

As Forças de Defesa de Israel (IDF) afirmaram que cerca de 200 caças participaram de um "amplo ataque contra o conjunto de mísseis e os sistemas de defesa" no oeste e centro do Irã.

Na noite de sábado, Trump anunciou a morte do aiatolá Ali Khamenei, e isso foi confirmado pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã em um comunicado divulgado pela mídia estatal na manhã de domingo.

O Irã também está enfrentando um bloqueio de internet quase total, o que dificulta a obtenção de informações confiáveis e atualizadas para fora do país.

A Organização de Aviação Civil do Irã informou que seu espaço aéreo está fechado até novo aviso.

Mais de 200 pessoas morreram e mais de 700 ficaram feridas em todo o país no sábado, segundo o Crescente Vermelho. Pelo menos 153 pessoas morreram em uma explosão em uma escola no sul do Irã no sábado, de acordo com autoridades.

Cerca de 40 autoridades iranianas foram mortas nos ataques até agora, segundo uma fonte de inteligência e uma fonte militar citadas pela rede americana CBS News.

As Forças de Defesa de Israel divulgaram o nome de sete altos funcionários da defesa iraniana entre os mortos, incluindo o secretário do Conselho de Defesa do Irã, Ali Shamkhani, o ministro da Defesa, Brigadeiro-General Aziz Nasirzadeh, e o comandante da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), General Mohammad Pakpour.

Os militares israelenses disseram que os ataques de sábado "abriram caminho" para atingir Teerã e que os ataques de domingo se concentraram na região central da cidade. Não foram divulgados números de vítimas no domingo dentro do Irã, mas Israel afirmou que centros de comando e infraestrutura militar foram destruídos.

Trump também disse que nove navios da marinha iraniana foram afundados e que o quartel-general da Marinha foi destruído.

<><> Qual foi a resposta do Irã?

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, acusou Israel e os EUA de lançarem uma guerra "totalmente não provocada, ilegal e ilegítima".

"Nossas poderosas forças armadas estão preparadas para este dia e darão aos agressores a lição que merecem", escreveu ele no X.

O Irã usou mísseis balísticos e drones para lançar ataques em larga escala contra aliados e instalações dos EUA em todo o Golfo, após o assassinato de seu líder supremo.

Inúmeros ataques foram realizados contra Israel, um dos quais destruiu uma sinagoga na cidade de Beit Shemesh e matou pelo menos nove pessoas. Outras 450 pessoas ficaram feridas nos ataques.

O Catar, o Bahrein, a Jordânia e o Kuwait — todos com bases militares americanas — disseram ter interceptado mísseis disparados em sua direção, mas os destroços que caíram parecem ter causado grandes danos. Omã e Arábia Saudita também foram alvos do Irã.

Um ataque de drone à base naval americana no Bahrein, no domingo, provocou um grande incêndio, segundo um oficial.

Três pessoas morreram nos Emirados Árabes Unidos em ataques a portos e aeroportos, e uma morreu no Kuwait.

Três militares americanos morreram em combate e outros cinco ficaram gravemente feridos, informou o Pentágono.

Mas o Comando Central (Centcom) afirmou que suas forças "defenderam-se com sucesso contra centenas de ataques de mísseis e drones iranianos".

A missão naval da União Europeia na região, EUNAVFOR ASPIDES, afirmou no sábado que a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) enviou mensagens de rádio a embarcações alertando que "nenhum navio tem permissão para passar pelo Estreito de Ormuz", no Golfo Pérsico, por onde passam cerca de 20% das remessas globais de petróleo e gás.

A missão europeia reforçará sua presença no Mar Vermelho, no Golfo Pérsico e no Oceano Índico com mais navios, afirmou no domingo a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas.

O Irã afirmou posteriormente que três petroleiros foram atingidos por mísseis e estavam em chamas.

<><> Como deve ser escolhido o sucessor de Khamenei?

A escolha formal de um novo Líder Supremo não ocorre por votação direta, mas sim por um órgão composto por 88 clérigos de alto escalão, conhecido como Assembleia de Peritos.

Eles são eleitos por votação direta a cada oito anos.

De acordo com a Constituição iraniana, esses clérigos devem escolher o novo Líder Supremo o mais rápido possível, mas isso pode se mostrar difícil por razões de segurança enquanto o país estiver sob ataque.

<><> É seguro viajar para a região?

Milhares de voos foram cancelados na região, em uma das interrupções mais profundas nas viagens internacionais desde a pandemia de covid-19.

A Wizz Air suspendeu os voos até 7 de março em Israel, Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Amã, na Jordânia, e na Arábia Saudita até terça-feira.

A British Airways cancelou os voos para Tel Aviv e Bahrein até quarta-feira.

Em um comunicado, a Swiss International Air Lines afirmou: "A Swiss e as companhias aéreas do Grupo Lufthansa suspenderão os voos para Tel Aviv, Beirute [no Líbano], Amã, Erbil [no Iraque] e Teerã até 7 de março."

A autoridade de aviação do Kuwait informou que suspendeu todos os voos para o Irã até novo aviso, segundo a mídia estatal.

A Emirates suspendeu temporariamente suas operações que tinham Dubai como origem e destino. Lufthansa, Air India, Virgin Atlantic e Turkish Airlines também anunciaram cancelamentos.

Alguns países da região, incluindo Iraque e Jordânia, também fecharam seu espaço aéreo. Os Emirados Árabes Unidos disseram que fecharam "parcial e temporariamente" seu espaço aéreo como medida de precaução, informou a mídia estatal.

•        Meses de planejamento e decisão em cima da hora: os bastidores do ataque que matou o líder do Irã, Ali Khamenei

O ataque que matou o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, não ocorreu no meio da noite, como se poderia esperar, mas no meio da manhã.

Isso aconteceu porque os Estados Unidos e Israel decidiram aproveitar uma informação crucial que havia chegado horas antes.

Durante meses, eles estavam à espera de uma oportunidade em que figuras importantes do Irã pudessem estar reunidas e descobriram que Khamenei estaria em um complexo no centro de Teerã na manhã de sábado.

Eles também tinham a localização de outras figuras importantes das forças armadas e da inteligência que se reuniriam no mesmo horário.

Durante meses, os EUA e Israel monitoraram os movimentos do líder supremo. Os métodos usados são secretos, embora o presidente americano, Donald Trump, tenha feito alusão a eles em uma publicação nas redes sociais.

"Ele não conseguiu evitar nossa inteligência e nossos sistemas de rastreamento altamente sofisticados."

Isso pode ter sido uma fonte humana relatando informações, mas é mais provável que tenha sido um rastreamento técnico de indivíduos iranianos.

Na guerra de 12 dias que aconteceu em junho de 2025, Israel teve como alvo cientistas e funcionários ligados ao programa nuclear iraniano e, segundo relatos, usou a infiltração em sistemas de telecomunicações e telefonia móvel para entender a movimentação de indivíduos.

Isso incluía, às vezes, o rastreamento dos movimentos de guarda-costas ligados a funcionários importantes.

A longo prazo, isso pode ajudar a construir um "padrão de vida" para prever e entender atividades, bem como buscar momentos de vulnerabilidade.

O Irã sabia que o líder supremo estava na mira de seus inimigos e, ainda assim, a incapacidade de identificar e neutralizar essas vulnerabilidades nos meses seguintes sugere uma falha profunda na segurança e na contrainteligência iranianas — ou evidencia a capacidade de Israel e dos EUA de adaptar continuamente seus métodos para encontrar novas formas de rastreá-lo.

Os iranianos também podem ter calculado que um ataque diurno era menos provável.

Neste caso, segundo o jornal New York Times, a informação veio da CIA, mas foi repassada a Israel para que realizasse o ataque.

Há indícios de que existe uma divisão de trabalho, com Israel priorizando os ataques contra alvos da liderança do Irã e os EUA contra os alvos militares.

A informação forneceu conhecimento prévio suficiente sobre os movimentos do líder supremo e de outros oficiais para que fosse possível planejar um ataque usando aviões capazes de disparar mísseis de longo alcance.

Em vez de um ataque isolado para decapitar o líder, o plano era que este ataque sinalizasse o início de uma campanha mais ampla, e ele foi antecipado para aproveitar a janela de oportunidade.

Os caças israelenses podem levar cerca de duas horas para chegar a Teerã, mas não está claro de que distância eles são capazes de disparar suas munições.

Quando a decisão foi tomada, os jatos israelenses teriam usado 30 bombas para atacar o complexo por volta das 9h40 do horário local.

Isso pode ter acontecido porque o líder supremo ainda utilizava um bunker subterrâneo abaixo do complexo para sua proteção, embora não fosse um dos mais profundos do regime.

Pode ter sido necessário o uso de múltiplas munições para atingir o alvo a uma profundidade suficiente.

Outros locais na capital iraniana também foram atingidos, incluindo o gabinete do presidente Masoud Pezeshkian, que posteriormente divulgou um comunicado afirmando estar em segurança.

A morte de três funcionários de alto escalão da defesa iraniana foi confirmada pelo Irã: o secretário do Conselho de Defesa, Ali Shamkhani; o ministro da Defesa, brigadeiro-general Aziz Nasirzadeh; e o comandante da Guarda Revolucionária Islâmica, general Mohammad Pakpour.

Quando os jatos atingiram o alvo, era madrugada em Mar-a-Lago, na Flórida, onde o presidente Trump estava reunido com alguns de seus principais assessores para acompanhar os acontecimentos.

Levaria horas até que a confirmação da morte do líder supremo fosse divulgada.

O Irã, no entanto, estava preparado para essa possibilidade, com relatos de que planos de sucessão não apenas para Khamenei, mas também para diversos outros altos funcionários, já haviam sido elaborados.

Isso significa que ainda não está claro qual será o impacto desse assassinato no curso do conflito.

<><> Programa nuclear e 'oportunidade única'

Os novos ataques ao Irã acontecem após semanas de negociações entre Washington e Teerã na tentativa de fechar um acordo sobre o programa nuclear iraniano.

Em pronunciamento sábado, o presidente americano, Donald Trump, disse que o Irã "tentou reconstruir seu programa nuclear e continua desenvolvendo mísseis de longo alcance".

Trump disse ainda que os EUA vão reduzir a indústria de mísseis do Irã a pó e "aniquilar" sua Marinha.

O presidente instou os iranianos a usarem o momento para derrubar o regime clerical do país.

"Quando terminarmos, tomem o poder. Será de vocês. Esta será provavelmente a única chance que terão por gerações", declarou.

O mandatário também disse aos membros das forças de segurança iranianas que receberiam "imunidade" se depusessem as armas. Caso contrário, "enfrentariam morte certa".

O presidente israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que "um regime terrorista assassino" não deve possuir armas nucleares "que lhe permitam ameaçar toda a humanidade".

"Agradeço ao nosso grande amigo, o presidente Donald Trump, por sua liderança histórica", acrescentou.

Para o analista Jeremy Bowen, editor da BBC com ampla experiência na cobertura do Oriente Médio, Israel e Estados Unidos calcularam que o regime islâmico no Irã está vulnerável, lidando com uma grave crise econômica, as consequências da repressão brutal a manifestantes no início do ano e as defesas ainda enfraquecidas após os ataques sofridos em junho de 2025.

Os presidentes americano e israelense concluíram que esta era uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada.

 

Fonte: BBC News Persa

 

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