quarta-feira, 4 de março de 2026

Ângela Carrato: JN, contra os fatos, a serviço do patrão Trump

Dois âncoras e oito correspondentes foram mobilizados pela edição do JN deste sábado (28/2) para uma das mais deploráveis reportagens da TV brasileira.

Da escalada às chamadas, imagens, falas dos jornalistas e especialistas ouvidos, tudo foi cuidadosamente organizado para transformar o indefensável ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã em uma espécie de triunfo do Ocidente.

Algo como o bem finalmente prestes a derrotar o mal.

A chamada “Conflito no Oriente Médio” não corresponde à realidade dos fatos e esconde a atuação criminosa dos Estados Unidos e de Israel no ataque ao Irã.

Trump e Netanyahu passaram por cima dos mais elementares princípios do direito internacional e atacaram o Irã em meio a negociações, que deveriam ter continuidade em Viena na próxima semana.

Pior do que isso. Trump simplesmente jogou baixo contra o Irã, ao empreender um ataque, na realidade o início de uma guerra, quando as negociações propostas por ele pareciam avançar.

Com toda razão, o presidente do Conselho de Segurança da Federação Rússia, Dmitri Medvedev, afirmou que Trump enganou os iranianos.

Nada disso foi mostrado pelo JN.

Se o JN não funcionasse como assessoria de imprensa para a Casa Branca e para o governo si@n*sta e gen*cida de Israel, o mínimo que deveria ter sido mostrado é que em pouco mais de um mês, Trump bombardeou a Venezuela, sequestrou seu presidente e a primeira dama e os mantém presos em Nova York, anunciou e comemorou a morte do líder máximo do Irã, Ali Kamenei.

Até o fim da edição, o Irã não havia confirmado a morte de Kamenei.

Morte agora já confirmada.

Alguém em sã consciência acha razoável que tais ações possam ser naturalizadas? Nem Hitler sequestrou ou matou líderes de outros países.

O JN parece não ver nada de errado nas ações de Trump e de Nethanyahu, pois toda a narrativa de fundo desta “reportagem” foi no sentido de justificar o assassinato de Kamenei.

Ele e o regime iraniano foram apresentados como ditadura, teocracia e sanguinário.

Em meio ao lero-lero dos correspondentes, que falavam sobre o que se passava no Irã a partir de Nova York, Washington, Londres e Roma, o JN incluiu um compacto que distorceu os motivos que levaram à vitória da Revolução Iraniana em 1979, além de pintarem os aiatolás como “sanguinários inimigos” dos Estados Unidos.

Só que não foram os aiatolás que assassinaram cientistas e generais dos Estados Unidos e muito menos fomentaram manifestações para desestabilizar ocupantes da Casa Branca.

A pretensa reportagem não trás uma única menção à corrupção da família Pahlavi, que transformou o país persa em colônia petrolífera do Tio Sam e da Inglaterra.

Nem uma palavra sobre como esta família chegou ao poder, após derrubar o primeiro-ministro Muhammed Mossadegh.

Qual “crime” Mossadegh cometeu?

Ter nacionalizado o petróleo, colocando fim à roubalheira de que o país era vítima pelo Ocidente.

A vitória da Revolução de 1979, que levou os aiatolás ao poder, se deu porque os iranianos estavam fartos da exploração.

Tanto naquela época como agora, o que está em jogo é o petróleo, mas não só ele.

Terceira maior reserva de petróleo do mundo, o Irã desempenha igualmente um importante papel geopolítico.

Maior país do Oriente Médio, nele se localiza o estreito de Ormuz, por onde circula diariamente um quinto de todo o petróleo vendido no mundo.

Não por acaso o Irã anunciou o bloqueio desta passagem e a “reportagem” do JN, antes de ver nisto uma legítima reação do país persa atacado, preocupou-se apenas com as consequências econômicas para o Ocidente.

Ao longo de toda a deplorável “reportagem”, os iranianos foram citados apenas como tendo a possibilidade, como gostaria Trump e Netanyahu, de aproveitarem os ataques para “mudar o regime”.

Nenhuma imagem sobre as recentes gigantescas manifestações no Irã a favor do regime e, muito menos, da enorme manifestação hoje em Nova York contra esta guerra.

Eleito com a promessa de que não faria guerra no Oriente Médio, Trump meteu os Estados Unidos numa situação que não estará resolvida em poucos dias e pode escalar para uma guerra regional ou até mesmo para um conflito mundial.

Não faltam analistas sérios admitindo que estamos a caminho da Terceira Guerra Mundial.

Nada disso foi mostrado pelo JN, porque para tanto teria que abordar o que está levando Trump a meter seu país nesta situação.

Trump está sendo comandado pelo lobby sionista.

Possivelmente ele nem quisesse tanto uma guerra como esta agora. Mas ela serve para desviar a atenção dos estadunidenses da presença de Trump nos arquivos Epstein, aquele enorme conjunto de fotos, anotações, vídeos e mensagens que mostram o seu envolvimento com rede internacional de pedofilia, prostituição e tráfico de mulheres.

O eleitorado de Trump é muito conservador e sensível a este tipo de assunto. Então, nada melhor do que uma guerra para desviar a atenção do público interno.

Em novembro acontecem as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Se Trump perder a maioria no Legislstivo, como ele próprio já admitiu, o impeachment o aguarda.

Na linha das omissões/manipulações, o JN também relembrou três recentes manifestações contra o governo iraniano preparadas pela CIA e Mossad, mas apresentadas como sendo populares.

Uma delas, amplamente repercutida pelas agências de notícias do Norte Global, tratava de uma jovem iraniana que foi presa por se recusar a usar o véu e teria morrido por tortura.

A história já foi desmentida milhares de vezes. A moça realmente morreu, não por tortura ou qualquer tipo de violência, mas por um problema de saúde anterior.

Já as mais de 150 meninas (segundo dados atualizados nesta segunda-feira, 02/03) que estavam hoje em uma escola morreram vítimas de bombardeio dos Estados Unidos.

Elas não contam?

O JN dedicou ao assunto meros segundos.

Entendeu como a mídia cria ou esconde um fato?

Mas o pior ainda estava por vir.

Antes mesmo da confirmação pelas autoridades iranianas da morte do aiatolá Kamenei, o JN já tinha preparado outro compacto para exibir no final da edição.

Se no primeiro compacto o telejornal da família Marinho torceu a realidade para mostrar o Irã como uma ditadura, neste segundo torceu os fatos para mostrar Kamenei como quer Trump e Netanyahu: um grande satã.

Como a criminalização do Irã pelos Estados Unidos e Israel não é de agora e a mídia corporativa brasileira sempre deu enorme contribuição para as pessoas acreditarem nisto, essa deplorável reportagem pode ter reforçado as errôneas convicções de muita gente.

Seja como for, qualquer pessoa minimamente inteligente, hoje ou amanhã, vai se perguntar: quantas guerras o Irã iniciou? Quantas vezes atacou os Estados Unidos?

Mais ainda. Os Estados Unidos e Israel dizem que o Irã não pode desenvolver a tecnologia nuclear.

Curiosamente Estados Unidos e Israel são potências nucleares.

Os Estados Unidos, inclusive, são os únicos a terem usado até agora duas bombas atômicas contra o Japão, que imediatamente depois se rendeu no fim da Segunda Guerra Mundial.

Assim não fica difícil perceber quem são realmente os grandes satãs.

Esta deplorável reportagem corre o risco de ser superada no quesito desinformação apenas pela que será exibida amanhã no Fantástico.

Como o Fantástico não faz jornalismo, de pouco adianta os âncoras terem encerrado a edição do JN deste sábado anunciando que toda a equipe de jornalismo da emissora estará a postos para trazer novas informações a qualquer hora do dia ou da noite.

Lamentavelmente tanto esforço não servirá aos fatos. Servirá apenas para colocar no ar o que o patrão sub-imperialista mandar.

A propósito, quem quiser se aprofundar no redesenho do Oriente Médio como desejam Trump, Nethanyaru e os demais sub-imperialistas, sugiro assistir ao filme Syriana, a indústria do petróleo (2005).

Protagonizado pelo ator George Clooney, o título se refere ao termo utilizado em Washington para criar o seu Oriente Médio.

Mais atual, impossível.

•        Inêz Oludé: Choro pelo Irã, choro pela humanidade — a crapulagem dos que normalizam a barbárie

Li hoje uma manchete que me gelou a alma. Não pela novidade, mas pela confirmação de que o jornalismo brasileiro atingiu um novo patamar de miséria moral.

“Ninguém vai chorar pelo Irã”, estampou o Estadão, como quem sentencia quem merece ou não ser pranteado neste mundo. Como quem define, de cima de um púlpito podre, quais vidas importam e quais podem ser reduzidas a escombros sem que uma lágrima seja derramada.

Trata-se, leitoras e leitores, de uma declaração de psicopatia travestida de análise geopolítica. Porque só um psicopata, desses que habitam os manuais de psiquiatria, é incapaz de sentir compaixão diante da dor alheia e ainda a transforma em manchete de jornal.

Mas eu vou chorar, sim. Faço parte dos “alguéns”.

Vou chorar pelo Irã como chorei por cada país agredido pela sanha imperialista que, desde 1946, transforma o mundo num imenso cemitério.

Chorei por Hiroshima e Nagasaki, varridas do mapa por bombas atômicas que incineraram civís como se fossem formigas.

Chorei por Dresden, reduzida a cinzas numa noite de fogo que matou milhares de refugiados e crianças.

Chorei pelo Vietnã, pelo Iraque, pela Líbia, pela Síria, pelo Afeganistão.

Chorei pela Palestina, esquartejada dia após dia diante dos olhos cúmplices do Ocidente.

E, agora, choro pelo Irã.

Choro por um país de história milenar, cuja arquitetura deslumbrante já foi poesia feita em pedra e azulejo.

Choro por um povo que tem o direito de viver em paz, como qualquer outro povo neste planeta.

Choro pelas 85 crianças e professoras assassinadas covardemente dentro de uma escola, vítimas da insanidade mental de homens que transformam a geopolítica num ringue de barbárie.

Choro pelos civis que viram números, estatísticas, “danos colaterais” na frieza dos relatórios de guerra.

Choro, sobretudo, pela humanidade que perdeu o rumo outra vez e regrediu aos anos 40, quando o mundo assistiu ao horror e, em muitos casos, aplaudiu.

O que me estarrece, no entanto, não é apenas a violência dos que empunham as armas.

É a violência dos que empunham as canetas e teclados para justificar o injustificável.

É ver jornalistas brasileiros, desumanizados, coisificados pela ideologia, festejarem a destruição de países que ousam não se curvar aos ditames de Washington.

É vê-los babando o ovo de políticos americanos, como se os EUA fossem uma entidade divina e não um império em decadência moral.

Falo de um país que hoje é liderado por um sujeito condenado em 34 processos judiciais, um homem cuja principal especialidade, além de fraudes e falências, é frequentar os corredores sombrios das listas de Epstein, aquele mesmo, o amigo de poderosos que “suicidaram” antes de contar o que sabia.

E falo de um primeiro-ministro israelense cuja especialidade é explodir corpos de crianças em praças públicas, chamar aquilo de “defesa” e ainda ser recebido com tapetes vermelhos por governantes que se dizem civilizados.

E esses jornalistas, esses “necrojornalistas” de plantão, têm a pachorra de dizer que ninguém vai chorar pelo Irã?

Pois saibam: o choro que dedicamos às vítimas do Irã é o mesmo que dedicamos às vítimas de Gaza, da Ucrânia, da Síria, do Iêmen.

É o mesmo que dedicamos às crianças mortas por balas perdidas nas favelas brasileiras, enquanto a pauta da segurança pública vira ringue eleitoral.

É o luto por uma humanidade que insiste em se autodestruir enquanto meia dúzia de abutres lucra com a desgraça.

Vocês, jornalistas, que normalizam o genocídio, que relativizam o fascismo, que tratam a morte de inocentes como peça de xadrez geopolítico, por vocês, confesso, não chorarei. Não perderei uma lágrima com quem trocou a ética pela militância da morte, a verdade pelo alinhamento automático aos interesses do império.

Mas pelo Irã, sim. Pelas crianças iranianas, pelas professoras, pelos civis que só querem viver.

Pelos mortos de todos os lados que não escolheram ser alvos. Pela memória de Hiroshima, Nagasaki, Dresden e de todos os lugares onde a humanidade se perdeu de si mesma.

Chorarei até que o choro se transforme em memória. E até que a memória nos obrigue, um dia, a parar de repetir os mesmos erros.

Porque enquanto houver um só jornalista disposto a dizer que “ninguém vai chorar” por um povo bombardeado, haverá motivo para lágrimas. E para muita raiva.

Este artigo é dedicado a todas as vítimas da insanidade , de ontem, de hoje e de sempre.

 

Fonte: Viomundo

 

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