Ângela
Carrato: JN, contra os fatos, a serviço do patrão Trump
Dois
âncoras e oito correspondentes foram mobilizados pela edição do JN deste sábado
(28/2) para uma das mais deploráveis reportagens da TV brasileira.
Da
escalada às chamadas, imagens, falas dos jornalistas e especialistas ouvidos,
tudo foi cuidadosamente organizado para transformar o indefensável ataque dos
Estados Unidos e de Israel ao Irã em uma espécie de triunfo do Ocidente.
Algo
como o bem finalmente prestes a derrotar o mal.
A
chamada “Conflito no Oriente Médio” não corresponde à realidade dos fatos e
esconde a atuação criminosa dos Estados Unidos e de Israel no ataque ao Irã.
Trump e
Netanyahu passaram por cima dos mais elementares princípios do direito
internacional e atacaram o Irã em meio a negociações, que deveriam ter
continuidade em Viena na próxima semana.
Pior do
que isso. Trump simplesmente jogou baixo contra o Irã, ao empreender um ataque,
na realidade o início de uma guerra, quando as negociações propostas por ele
pareciam avançar.
Com
toda razão, o presidente do Conselho de Segurança da Federação Rússia, Dmitri
Medvedev, afirmou que Trump enganou os iranianos.
Nada
disso foi mostrado pelo JN.
Se o JN
não funcionasse como assessoria de imprensa para a Casa Branca e para o governo
si@n*sta e gen*cida de Israel, o mínimo que deveria ter sido mostrado é que em
pouco mais de um mês, Trump bombardeou a Venezuela, sequestrou seu presidente e
a primeira dama e os mantém presos em Nova York, anunciou e comemorou a morte
do líder máximo do Irã, Ali Kamenei.
Até o
fim da edição, o Irã não havia confirmado a morte de Kamenei.
Morte
agora já confirmada.
Alguém
em sã consciência acha razoável que tais ações possam ser naturalizadas? Nem
Hitler sequestrou ou matou líderes de outros países.
O JN
parece não ver nada de errado nas ações de Trump e de Nethanyahu, pois toda a
narrativa de fundo desta “reportagem” foi no sentido de justificar o
assassinato de Kamenei.
Ele e o
regime iraniano foram apresentados como ditadura, teocracia e sanguinário.
Em meio
ao lero-lero dos correspondentes, que falavam sobre o que se passava no Irã a
partir de Nova York, Washington, Londres e Roma, o JN incluiu um compacto que
distorceu os motivos que levaram à vitória da Revolução Iraniana em 1979, além
de pintarem os aiatolás como “sanguinários inimigos” dos Estados Unidos.
Só que
não foram os aiatolás que assassinaram cientistas e generais dos Estados Unidos
e muito menos fomentaram manifestações para desestabilizar ocupantes da Casa
Branca.
A
pretensa reportagem não trás uma única menção à corrupção da família Pahlavi,
que transformou o país persa em colônia petrolífera do Tio Sam e da Inglaterra.
Nem uma
palavra sobre como esta família chegou ao poder, após derrubar o
primeiro-ministro Muhammed Mossadegh.
Qual
“crime” Mossadegh cometeu?
Ter
nacionalizado o petróleo, colocando fim à roubalheira de que o país era vítima
pelo Ocidente.
A
vitória da Revolução de 1979, que levou os aiatolás ao poder, se deu porque os
iranianos estavam fartos da exploração.
Tanto
naquela época como agora, o que está em jogo é o petróleo, mas não só ele.
Terceira
maior reserva de petróleo do mundo, o Irã desempenha igualmente um importante
papel geopolítico.
Maior
país do Oriente Médio, nele se localiza o estreito de Ormuz, por onde circula
diariamente um quinto de todo o petróleo vendido no mundo.
Não por
acaso o Irã anunciou o bloqueio desta passagem e a “reportagem” do JN, antes de
ver nisto uma legítima reação do país persa atacado, preocupou-se apenas com as
consequências econômicas para o Ocidente.
Ao
longo de toda a deplorável “reportagem”, os iranianos foram citados apenas como
tendo a possibilidade, como gostaria Trump e Netanyahu, de aproveitarem os
ataques para “mudar o regime”.
Nenhuma
imagem sobre as recentes gigantescas manifestações no Irã a favor do regime e,
muito menos, da enorme manifestação hoje em Nova York contra esta guerra.
Eleito
com a promessa de que não faria guerra no Oriente Médio, Trump meteu os Estados
Unidos numa situação que não estará resolvida em poucos dias e pode escalar
para uma guerra regional ou até mesmo para um conflito mundial.
Não
faltam analistas sérios admitindo que estamos a caminho da Terceira Guerra
Mundial.
Nada
disso foi mostrado pelo JN, porque para tanto teria que abordar o que está
levando Trump a meter seu país nesta situação.
Trump
está sendo comandado pelo lobby sionista.
Possivelmente
ele nem quisesse tanto uma guerra como esta agora. Mas ela serve para desviar a
atenção dos estadunidenses da presença de Trump nos arquivos Epstein, aquele
enorme conjunto de fotos, anotações, vídeos e mensagens que mostram o seu
envolvimento com rede internacional de pedofilia, prostituição e tráfico de
mulheres.
O
eleitorado de Trump é muito conservador e sensível a este tipo de assunto.
Então, nada melhor do que uma guerra para desviar a atenção do público interno.
Em
novembro acontecem as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Se Trump
perder a maioria no Legislstivo, como ele próprio já admitiu, o impeachment o
aguarda.
Na
linha das omissões/manipulações, o JN também relembrou três recentes
manifestações contra o governo iraniano preparadas pela CIA e Mossad, mas
apresentadas como sendo populares.
Uma
delas, amplamente repercutida pelas agências de notícias do Norte Global,
tratava de uma jovem iraniana que foi presa por se recusar a usar o véu e teria
morrido por tortura.
A
história já foi desmentida milhares de vezes. A moça realmente morreu, não por
tortura ou qualquer tipo de violência, mas por um problema de saúde anterior.
Já as
mais de 150 meninas (segundo dados atualizados nesta segunda-feira, 02/03) que
estavam hoje em uma escola morreram vítimas de bombardeio dos Estados Unidos.
Elas
não contam?
O JN
dedicou ao assunto meros segundos.
Entendeu
como a mídia cria ou esconde um fato?
Mas o
pior ainda estava por vir.
Antes
mesmo da confirmação pelas autoridades iranianas da morte do aiatolá Kamenei, o
JN já tinha preparado outro compacto para exibir no final da edição.
Se no
primeiro compacto o telejornal da família Marinho torceu a realidade para
mostrar o Irã como uma ditadura, neste segundo torceu os fatos para mostrar
Kamenei como quer Trump e Netanyahu: um grande satã.
Como a
criminalização do Irã pelos Estados Unidos e Israel não é de agora e a mídia
corporativa brasileira sempre deu enorme contribuição para as pessoas
acreditarem nisto, essa deplorável reportagem pode ter reforçado as errôneas
convicções de muita gente.
Seja
como for, qualquer pessoa minimamente inteligente, hoje ou amanhã, vai se
perguntar: quantas guerras o Irã iniciou? Quantas vezes atacou os Estados
Unidos?
Mais
ainda. Os Estados Unidos e Israel dizem que o Irã não pode desenvolver a
tecnologia nuclear.
Curiosamente
Estados Unidos e Israel são potências nucleares.
Os
Estados Unidos, inclusive, são os únicos a terem usado até agora duas bombas
atômicas contra o Japão, que imediatamente depois se rendeu no fim da Segunda
Guerra Mundial.
Assim
não fica difícil perceber quem são realmente os grandes satãs.
Esta
deplorável reportagem corre o risco de ser superada no quesito desinformação
apenas pela que será exibida amanhã no Fantástico.
Como o
Fantástico não faz jornalismo, de pouco adianta os âncoras terem encerrado a
edição do JN deste sábado anunciando que toda a equipe de jornalismo da
emissora estará a postos para trazer novas informações a qualquer hora do dia
ou da noite.
Lamentavelmente
tanto esforço não servirá aos fatos. Servirá apenas para colocar no ar o que o
patrão sub-imperialista mandar.
A
propósito, quem quiser se aprofundar no redesenho do Oriente Médio como desejam
Trump, Nethanyaru e os demais sub-imperialistas, sugiro assistir ao filme
Syriana, a indústria do petróleo (2005).
Protagonizado
pelo ator George Clooney, o título se refere ao termo utilizado em Washington
para criar o seu Oriente Médio.
Mais
atual, impossível.
• Inêz Oludé: Choro pelo Irã, choro pela
humanidade — a crapulagem dos que normalizam a barbárie
Li hoje
uma manchete que me gelou a alma. Não pela novidade, mas pela confirmação de
que o jornalismo brasileiro atingiu um novo patamar de miséria moral.
“Ninguém
vai chorar pelo Irã”, estampou o Estadão, como quem sentencia quem merece ou
não ser pranteado neste mundo. Como quem define, de cima de um púlpito podre,
quais vidas importam e quais podem ser reduzidas a escombros sem que uma
lágrima seja derramada.
Trata-se,
leitoras e leitores, de uma declaração de psicopatia travestida de análise
geopolítica. Porque só um psicopata, desses que habitam os manuais de
psiquiatria, é incapaz de sentir compaixão diante da dor alheia e ainda a
transforma em manchete de jornal.
Mas eu
vou chorar, sim. Faço parte dos “alguéns”.
Vou
chorar pelo Irã como chorei por cada país agredido pela sanha imperialista que,
desde 1946, transforma o mundo num imenso cemitério.
Chorei
por Hiroshima e Nagasaki, varridas do mapa por bombas atômicas que incineraram
civís como se fossem formigas.
Chorei
por Dresden, reduzida a cinzas numa noite de fogo que matou milhares de
refugiados e crianças.
Chorei
pelo Vietnã, pelo Iraque, pela Líbia, pela Síria, pelo Afeganistão.
Chorei
pela Palestina, esquartejada dia após dia diante dos olhos cúmplices do
Ocidente.
E,
agora, choro pelo Irã.
Choro
por um país de história milenar, cuja arquitetura deslumbrante já foi poesia
feita em pedra e azulejo.
Choro
por um povo que tem o direito de viver em paz, como qualquer outro povo neste
planeta.
Choro
pelas 85 crianças e professoras assassinadas covardemente dentro de uma escola,
vítimas da insanidade mental de homens que transformam a geopolítica num ringue
de barbárie.
Choro
pelos civis que viram números, estatísticas, “danos colaterais” na frieza dos
relatórios de guerra.
Choro,
sobretudo, pela humanidade que perdeu o rumo outra vez e regrediu aos anos 40,
quando o mundo assistiu ao horror e, em muitos casos, aplaudiu.
O que
me estarrece, no entanto, não é apenas a violência dos que empunham as armas.
É a
violência dos que empunham as canetas e teclados para justificar o
injustificável.
É ver
jornalistas brasileiros, desumanizados, coisificados pela ideologia, festejarem
a destruição de países que ousam não se curvar aos ditames de Washington.
É
vê-los babando o ovo de políticos americanos, como se os EUA fossem uma
entidade divina e não um império em decadência moral.
Falo de
um país que hoje é liderado por um sujeito condenado em 34 processos judiciais,
um homem cuja principal especialidade, além de fraudes e falências, é
frequentar os corredores sombrios das listas de Epstein, aquele mesmo, o amigo
de poderosos que “suicidaram” antes de contar o que sabia.
E falo
de um primeiro-ministro israelense cuja especialidade é explodir corpos de
crianças em praças públicas, chamar aquilo de “defesa” e ainda ser recebido com
tapetes vermelhos por governantes que se dizem civilizados.
E esses
jornalistas, esses “necrojornalistas” de plantão, têm a pachorra de dizer que
ninguém vai chorar pelo Irã?
Pois
saibam: o choro que dedicamos às vítimas do Irã é o mesmo que dedicamos às
vítimas de Gaza, da Ucrânia, da Síria, do Iêmen.
É o
mesmo que dedicamos às crianças mortas por balas perdidas nas favelas
brasileiras, enquanto a pauta da segurança pública vira ringue eleitoral.
É o
luto por uma humanidade que insiste em se autodestruir enquanto meia dúzia de
abutres lucra com a desgraça.
Vocês,
jornalistas, que normalizam o genocídio, que relativizam o fascismo, que tratam
a morte de inocentes como peça de xadrez geopolítico, por vocês, confesso, não
chorarei. Não perderei uma lágrima com quem trocou a ética pela militância da
morte, a verdade pelo alinhamento automático aos interesses do império.
Mas
pelo Irã, sim. Pelas crianças iranianas, pelas professoras, pelos civis que só
querem viver.
Pelos
mortos de todos os lados que não escolheram ser alvos. Pela memória de
Hiroshima, Nagasaki, Dresden e de todos os lugares onde a humanidade se perdeu
de si mesma.
Chorarei
até que o choro se transforme em memória. E até que a memória nos obrigue, um
dia, a parar de repetir os mesmos erros.
Porque
enquanto houver um só jornalista disposto a dizer que “ninguém vai chorar” por
um povo bombardeado, haverá motivo para lágrimas. E para muita raiva.
Este
artigo é dedicado a todas as vítimas da insanidade , de ontem, de hoje e de
sempre.
Fonte:
Viomundo

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