República
dos penduricos e dos adornos
“Em um
regime ditatorial, as pessoas não precisão pensar (…) tudo o que precisam fazer
é obedecer(…). Em contraste, a democracia não pode sobreviver sem virtude
cívica (…) O desafio político (…) atualmente (….) é fazer a democracia
funcionar para as pessoas comuns”.
Em um
local não muito distante daqui, havia um país que tinha um “teto”, definido,
escrito e sacramentado. Deveria ser limite. Mas, com o tempo, virou enfeite. E
foi assim que, sob esse teto bem decorado, surgiu a República dos penduricos e
dos adornos, onde o espetáculo era contornar o que deveria ser intransponível.
Nessa
república, a remuneração era assunto delicado, e a delicadeza exigia
vocabulário próprio. “Salário” soava bruto; “aumento”, inconveniente;
“acréscimo”, quase ofensivo. Preferia-se falar em penduricos: palavra leve, de
bijuteria administrativa; e em adornos: palavra nobre, de ourivesaria
institucional. Os penduricos vinham enfileirados, e quase discretos: um auxílio
aqui, uma compensação ali, uma indenização acolá. Cada pendurico com finalidade
e utilidade, todas bem justificadas.
O teto,
claro, observava. Do alto, via o desfile das rubricas com bastante paciência.
Havia meses em que quase se sentia respeitado; noutros, a república lembrava
como o ser humano pode ser criativo: era cada nome, cada criação apenas visando
transpor o teto. Afinal, na República dos penduricos e dos adornos, não se
ultrapassava o teto: contornava-se. O que cabia sob ele chamava-se
“remuneração”; o que o evitava, chamava-se “indenização”. E “indenização”, como
todos pareciam saber, possuía uma qualidade metafísica: era um fenômeno que
parecia ocorrer fora do mundo (como se não pertencesse às contas, embora fosse
paga por elas).
Em
teoria (e sempre se começava assim) – “na teoria” – a indenização seria
reembolso: gasta-se por causa do serviço, comprova, recebe. Porém, na prática,
inventaram um novo adorno: a indenização habitual. Era um tipo curioso de
excepcionalidade permanente, um extraordinário que se repetia mês a mês.
Pagava-se
com regularidade, sem o incômodo de parecer salário. E, quando algum cidadão,
desses que ainda acreditam no sentido das palavras, perguntava por que a
indenização vinha todo mês, respondia-se com gravidade: “Porque é da natureza
indenizatória”. E pronto: a natureza tinha falado; o debate podia encerrar-se;
o contracheque seguiria seu curso.
A bem
da verdade, o contracheque era menos documento e mais narrativa. Trazia
personagens, subtramas e reviravoltas. O subsídio aparecia como protagonista:
sério e bem contido. Mas logo entravam em cena os coadjuvantes lustrosos. Cada
pendurico vinha com justificativa de boa conduta; cada adorno carregava um
argumento consigo, como quem exibe etiqueta no paletó para evitar suspeitas. A
república prezava esse refinamento: não era uma farra, dizia-se; era uma
composição.
E então
havia o grande espetáculo: o retroativo. O retroativo, ali, não era um ajuste;
era um acontecimento. Em um mês qualquer, a folha de pagamento lembrava do
passado com entusiasmo de memorialista. Pagava-se ontem no bolso de hoje, e o
teto, que já era cenário, virava peça de museu. Nesses meses, os penduricos
deixavam de ser miúdos e se transformavam em colares; os adornos, em
paramentos.
O
cidadão lia as cifras e suspeitava de erro de impressão. Não era. Era só a
república dos penduricos e dos adornos celebrando a sua liturgia: quando a
exceção encontra a oportunidade, ela não caminha, mas desfila.
É claro
que a república possuía gente bem instruída, versada nas letras jurídicas, um
corpo técnico robusto e pomposo, que manejava frases prontas para qualquer tipo
de indagação. As frases variavam, mas o espírito era constante: “Está
previsto”, “foi reconhecido”, “tem natureza própria”, “não integra”. Assim, o
teto permanecia intacto. Ao mesmo tempo, a realidade passava por ele como água
entre os dedos: sem violência, sem barulho, mas com eficiência.
Passados
os anos, compreendeu-se que o problema daquela república não era apenas de
ética ou moral, mas de geometria das instituições. O sistema aprendera uma
lição simples: é mais fácil criar um adorno do que discutir a remuneração; é
mais confortável pendurar um pendurico do que explicar ao povo por que teto é
teto. E, aos poucos, o teto, que deveria ser limite, converteu-se em peça de
decoração: respeitado nos discursos, contornado nas práticas.
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A apoteose dos retroativos
Na
república dos penduricos e dos adornos, havia festas que não se anunciavam.
Surgiam. De um mês para o outro, o contracheque (sempre tão aplicado na arte de
parecer discreto) ganhava súbita vocação para ópera. Era quando se assistia ao
que, entre cronistas, passou a ser chamado de apoteose dos retroativos.
A
“apoteose” é o auge, o clímax, a cena final grandiosa. É o momento em que a
iluminação e a montagem se excedem de propósito para produzir espanto. Já o
“retroativo” é esse animal administrativo que nasce no passado e vem parir no
presente: paga-se hoje aquilo que se diz devido ontem, com a tranquilidade de
quem transforma atraso em espetáculo.
A
apoteose é o momento em que o retroativo deixa de ser ajuste e assume sua
ambição estética. Não é mais correção: é evento. Não é mais linha: é capítulo
inteiro do contracheque. A folha, até então tímida, decide abrir os braços ao
pretérito e proclamar: “Venha, passado! Venha com tudo”. E o passado vem.
Primeiro,
vem com a solenidade das justificativas: “foi reconhecido”, “era devido”, “a
natureza é própria”, “não integra”. Depois, vem com o brilho dos números. O
cidadão, que ainda esperava encontrar no teto um limite, descobre que o teto é
apenas moldura: serve para enquadrar a cena, não para contê-la. E então se vê o
clímax: valores concentrados, meses de superlativos, contracheques que parecem
ter descoberto um 13º., um 14º. ou um 15º salário, mas sem a vulgaridade de
admitir que inventaram.
A
apoteose tem sua dramaturgia institucional. Ela exige bastidores: setores,
carimbos, pareceres, classificações. Tudo participa, como em final de
espetáculo em que “toda a companhia” entra em cena. Mas é o público que,
naturalmente, paga a conta: paga quando não entende e paga quando entende.
Entender, na República, é parte do custo.
Quando
a crítica chama isso de “apoteose”, não está apenas brincando com palavras:
está dizendo que o retroativo virou método de culminância. A exceção aprende a
se organizar para aparecer no palco com força máxima. Não é só receber
atrasados; é recebê-los no formato adequado para produzir impacto (mesmo quando
o impacto seja um mero efeito colateral do calendário).
No fim,
a moral do capítulo é discreta, como convém: o teto permanece impecável no
discurso (lustre recém-polido), enquanto o drama verdadeiro acontece no palco
inferior, entre rubricas, memórias remuneratórias e classificações que
ressuscitam com entusiasmo. E, como em todo clímax, a plateia aplaude ou vaia;
mas a bilheteria, essa, nunca falha.
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O departamento das naturezas indenizatórias
Na
república dos penduricos e dos adornos, havia departamentos para quase tudo:
para o protocolo, para a harmonia das palavras, para a serenidade dos carimbos.
Mas nenhum era tão discreto, e tão decisivo, quanto o departamento das
naturezas indenizatórias.
O
prédio não chamava atenção. Não tinha colunas exuberantes nem bandeiras em
excesso. Era um lugar de corredores silenciosos, onde a grande política se
fazia com coisas pequenas: um parecer bem colocado, uma rubrica bem batizada,
uma interpretação que, de tão suave, mal se percebia estar empurrando o mundo
dois centímetros para o lado. E, naquela república, dois centímetros bastavam.
A
função do departamento era simples e sublime: dizer a natureza das coisas. Se
uma verba precisava caber no teto, ela era remuneratória, e o teto, satisfeito,
a recebia como se recebe um hóspede regular: com regras. Se, porém, a verba
tinha vocação para circular acima das telhas constitucionais, o departamento
soprava a palavra correta, aquela que abre portas sem fazer barulho:
indenizatória.
Indenizatória,
ali, não era apenas classificação; era um estado de graça. A palavra tinha
força de sacramento administrativo: mudava a substância sem alterar a
aparência. Uma parcela que, em outras repúblicas menos imaginativas,
chamar-se-ia aumento, ali ganhava nome de compensação. O que seria salário
tornava-se “auxílio”. O que seria rotina apresentava-se como excepcionalidade
repetida. Ninguém ria, porque a cerimônia exigia compostura.
Havia
uma sala célebre: a diretoria-geral da excepcionalidade permanente. Seu lema,
em quadro discreto, era: “Toda exceção é singular; algumas apenas acontecem com
frequência”. Não era cinismo; era método. A república preferia não admitir
contradições: preferia ornamentá-las.
Os
técnicos eram zelosos com as palavras. “Habitual” era termo perigoso; sugere
salário, sugere teto, sugere comparação. Então se dizia “recorrente”. “Fixo”
também era perigoso; então se dizia “padronizado”. “Aumento” era
impronunciável; então se dizia “recomposição”. E “salário”, quando inevitável,
entrava como quem pede desculpas. Assim, com esse cuidado lexical, o sistema
mantinha uma aparência de ordem: a realidade escorria, mas o dicionário
permanecia seco.
Havia
também atendimento ao público: público interno com muitas dúvidas. Vejamos
algumas:
Brutus
questiona: – Mas se o pagamento é mensal, ainda se trata de indenização? A
resposta é direta: – Sim, a natureza é indenizatória. – Mas qual a base, se não
existe comprovação do gasto? – insiste Brutus. O departamento limita-se a
dizer: — A base é a própria natureza. Brutus lança seu último questionamento: –
Mas se a verba já integra o padrão remuneratório… O departamento o interrompe:
– O padrão não integra, porque a natureza não permite.
A
palavra “natureza” era útil justamente por isso: explicava sem explicar,
resolvia sem resolver. Era uma ponte de névoa. Quem tentasse atravessá-la com
perguntas concretas (recibos, critérios, limites) descobria que a ponte
terminava antes do outro lado.
De
tempos em tempos, o departamento promovia um seminário solene: o Colóquio
nacional sobre o que não integra. Compareciam autoridades, consultores,
especialistas em virtudes fiscais. Falava-se muito em moralidade, transparência
e isonomia. Termos que desempenhavam o papel das cortinas no teatro: dão
gravidade ao palco e escondem as cordas. Ao final, aprovava-se uma carta de
princípios, porque carta de princípios é excelente: não pesa no orçamento e
ocupa bastante espaço na retórica.
No fim,
quem manda não é quem grita; é quem classifica. E, na república dos penduricos
e dos adornos, classificar era uma forma superior de reinar.
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O teto como objeto de decoração
Na
república dos penduricos e dos adornos, o teto, afinal, assumiu seu destino:
virou peça decorativa. Polido, simbólico, era citado em discursos e até
ilustrava uma ou outra parede de repartição. Tinha tudo, menos o peso de um
limite.
Os
visitantes admiravam-no como se admiram belos lustres. Diziam: “Aqui temos um
teto!” E todos concordavam, como se a existência, em si, bastasse. O teto era
um símbolo. E, como todo símbolo, podia ser ignorado sem perder o brilho.
Assim,
a república seguiu seu baile, adornada e penduricada. Afinal, o teto decorava,
mas o verdadeiro espetáculo sempre esteve na arte de driblar o próprio teto:
com elegância, claro. E assim, a vida pública, nessa república, seguia um tanto
decorada, um tanto disfarçada, e o teto… bom, o teto era uma moldura sem
quadro.
E foi
então que um velho cronista, desses que não gritam e por isso incomodam mais,
escreveu num canto do jornal: “Repúblicas não caem apenas por golpes; às vezes
se gastam por enfeites”. Ninguém deu muita atenção. Afinal, na república dos
penduricos e dos adornos, sempre houve mais apreço pela renda do que pela
regra.
E, se
algum teimoso ainda ousar perguntar o que aconteceu com o teto, ouvirá, com
toda a urbanidade: “Ele continua lá: intacto”. Apenas se especializou, com
brilho, em cumprir seu papel decorativo.
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Moral da história
A essa
altura, já não se fala mais em “moral da história”, mas em mora da história. A
lição até existe, mas chega sempre atrasada, corrigida por índices e carimbada
em papel timbrado. Quando finalmente aparece, a realidade já tratou de criar
mais um pendurico, mais um adorno, mais um seminário sobre o que não integra.
Na
república dos penduricos e dos adornos, a mora da história é essa: quando a
consciência desperta, o contracheque já fechou; quando o senso de limite
resolve aparecer, o teto há muito tempo foi promovido a lustre. E, como em toda
mora bem calculada, quem paga a conta é sempre quem não teve direito a
participar da fábula.
Fonte:
Por Gustavo Roberto Januário, em A Terra é Redonda

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