'Havana
está vazia': como a queda no turismo potencializa uma das piores crises da
história de Cuba
O
turismo era uma fonte de receita fundamental para o governo e para os cidadãos
cubanos há muito tempo. Mas, atualmente, este setor enfrenta sérias
dificuldades.
O
número de visitantes que chegam a Cuba é cada vez menor e vem causando o
fechamento de muitos hotéis no país, justamente em um momento crítico para a
ilha.
A nação
caribenha de 9,6 milhões de habitantes perdeu recentemente seu principal
fornecedor de petróleo, após a captura do ex-presidente venezuelano Nicolás
Maduro, no último dia 3 de janeiro. O governo de Caracas era a garantia do
fornecimento de combustível para Cuba.
Pouco
tempo depois, a ameaça americana de impor tarifas de importação aos países que
enviarem combustíveis para a ilha provocou a suspensão de conexões aéreas,
cortes de eletricidade e falta de gasolina.
A
situação traz a lembrança do chamado Período Especial, a grave crise econômica
cubana que se seguiu à queda da União Soviética, em 1991. Na época, a URSS era
o principal fornecedor de petróleo para Cuba.
Somem-se
a isso problemas crônicos de geração de eletricidade, causados pela produção
deficiente, usinas termelétricas obsoletas e uma matriz energética pouco
diversificada.
O
racionamento e as restrições de gasolina começaram no dia 7 de fevereiro e as
consequências vêm se estendendo a toda a população cubana.
A
paralisia do turismo deixa com pouca margem de manobra o governo socialista do
presidente Miguel Díaz-Canel, cada vez mais cerceado pela falta de divisas para
importar alimentos e remédios.
Díaz-Canel
acusou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de querer
"asfixiar" a economia de Cuba, que sofre com o embargo americano
desde o início dos anos 1960.
Em uma
postagem no X (antigo Twitter) no dia 5 de fevereiro, o presidente cubano
escreveu que "a Revolução volta a enfrentar momentos difíceis, em
consequência do empenho criminoso do império para nos subjugar, mas nos
rendermos não é uma opção".
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Ir para não voltar mais
Osmani
(nome fictício — ele prefere ocultar sua identidade com medo de represálias)
era um dos 300 mil cubanos que trabalhavam no setor de turismo.
Há duas
semanas, ele se mudou para o Peru e não pensa em retornar à ilha.
Ele
deixa para trás uma Havana onde o lixo se acumula nas esquinas, com filas para
conseguir combustível e, agora, quase sem turistas.
"Eu
trabalhava no setor gastronômico", ele conta. "Era barista em um
café."
"Os
cortes de luz não nos afetaram tanto porque os cabos que chegam aos bairros de
Havana Velha e ao centro são subterrâneos, não vão por postes. E porque a loja
tem uma instalação de produção elétrica que funcionava com combustível."
Mas,
sem gasolina, não há eletricidade, nem como fazer funcionar a máquina de café
profissional. Também não há carros na rua, nem transporte público para ir
trabalhar, conta ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Antes
que eu fosse embora, começou a haver semanas com, no máximo, cinco ou seis
clientes", prossegue Osmani.
"Ninguém
passava pela porta. Pouco a pouco, os turistas deixaram de chegar e, com eles,
os dólares também desapareceram."
O setor
turístico de Cuba sofre até hoje os impactos da pandemia e do desmantelamento,
por parte de Trump, da abertura econômica entre Washington e Havana, ocorrida
durante o governo Barack Obama (2009-2017).
Em
2018, o país registrou um recorde histórico de 4,7 milhões de visitantes,
gerando uma receita de US$ 2,782 bilhões (cerca de R$ 14,3 bilhões).
Já em
2023, a ilha recebeu 2,4 milhões de turistas, que deixaram US$ 1,308 bilhão
(cerca de R$ 6,7 bilhões).
Dados
coletados pelo Instituto Espanhol de Comércio Exterior (Icex) registram, em
2024, a chegada de 2,2 milhões de turistas, o que representaria uma queda de 9%
em relação ao ano anterior.
E,
segundo o Escritório Nacional de Estatísticas e Informações de Cuba (Onei, na
sigla em espanhol), o país recebeu 1,8 milhão de visitantes internacionais em
2025 — uma nova redução, de 18%.
"Os
problemas do Sistema Elétrico Nacional verificados na ilha durante 2024 tiveram
impacto negativo sobre o turismo", destacou o relatório do Icex.
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Suspensão de rotas aéreas
Há
alguns dias, a crise do combustível gerou uma situação crítica: a absoluta
falta de querosene de aviação Jet A1, imprescindível para a operação das linhas
aéreas comerciais.
A
reação ao anúncio do organismo de aviação cubana foi imediata. Companhias
aéreas canadenses e russas (as principais fontes de turistas para Cuba)
suspenderam seus voos, após repatriar os passageiros que se encontravam na
ilha.
A
decisão provocou o cancelamento de até 1.709 voos entre o final de fevereiro e
abril, segundo dados da empresa de análise do setor de aviação Cirium. Esta
interrupção provavelmente impedirá que centenas de milhares de pessoas visitem
o país durante a alta temporada de inverno do hemisfério norte.
"O
colapso total do setor turístico cubano criaria uma situação insustentável para
a economia do país e ameaçaria sua sobrevivência", declarou à agência de
notícias Reuters o economista Paolo Spadoni, da Universidade de Augusta, no
Estado americano da Geórgia.
Nenhum
petroleiro chegou à ilha nas últimas semanas, segundo confirmado pela agência
AFP junto a diversas fontes especializadas no monitoramento do transporte
marítimo.
A
companhia aérea Latam ofereceu aos passageiros afetados opções como o reembolso
total das suas passagens ou a possibilidade de alterar o destino, sem custo
adicional, para lugares como Cancún, no México, ou Punta Cana, na República
Dominicana.
Outras
linhas aéreas da Europa e dos Estados Unidos, até o momento, mantêm suas
operações. Mas algumas estão ajustando suas rotas ou avaliando paradas técnicas
de reabastecimento fora de Cuba.
O
pessoal em terra da empresa espanhola AirEuropa no aeroporto de Madri, na
Espanha, confirmou à BBC que a companhia mantém a frequência quase diária dos
seus voos para Cuba, mas seus aviões param para reabastecer em Santo Domingo,
na República Dominicana, depois de deixar os passageiros no Aeroporto
Internacional José Martí, em Havana.
"Depois
das notícias na imprensa sobre a falta de combustível, nossos voos saem mais
vazios", esclareceu uma funcionária da companhia.
Outra
empresa aérea espanhola, a Iberia, oferece flexibilidade "para os clientes
que precisarem alterar seus planos de viagem" para Cuba em voos operados
pela própria Iberia, pela British Airways ou American Airlines.
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Remessas em risco
Com a
incerteza e os cancelamentos de voos, ficam também ameaçadas as remessas que
chegam de avião.
Apesar
de uma breve reativação, o último canal oficial para que as pessoas possam
enviar dinheiro do exterior para seus familiares em Cuba praticamente
desapareceu em 2020, quando a empresa de transferências internacionais Western
Union suspendeu seus serviços para o país.
Desde
então, os cubanos recebem dólares dos Estados Unidos graças às pessoas que vêm
de avião, trazendo também medicamentos e outros artigos essenciais.
Até a
suspensão, os cubanos moradores nos Estados Unidos enviavam cerca de 240 mil
transações mensais pela Western Union, dirigidas principalmente à capital da
ilha.
Uma
análise do portal Horizonte Cubano, um projeto da Faculdade de Direito da
Universidade Columbia, nos Estados Unidos, afirma que "um valor
aproximadamente igual em fundos era transportado por canais informais, por
amigos, familiares ou pelas chamadas 'mulas', pessoas que transportam bens e
dinheiro em espécie para a ilha".
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'Sai mais caro viver em Cuba do que em Paris'
"Havana
Velha está vazia, completamente vazia", declarou à BBC News Mundo um
empresário francês em Cuba, que prefere não revelar sua identidade.
"Você
passeia pelos lugares e parece que tudo está morto. Os guias turísticos não têm
clientes. Não sei onde estará o turismo. Eu não vejo."
"Para
mim, sai mais caro viver em Cuba do que em Paris", prossegue ele. "Há
de tudo, mas os preços são exorbitantes e você precisa andar a pé por toda a
cidade para encontrar as coisas."
"Se
você tiver moeda estrangeira, pode comprar gasolina para o carro, mas, no
mercado informal, o litro custa entre US$ 8 e US$ 10", cerca de R$ 41 a R$
51.
Os
hotéis nacionais e internacionais também estão sofrendo cancelamentos de
reservas. E, mesmo estando na alta temporada, várias das redes mais importantes
reconhecem o fechamento parcial das suas instalações, para se adequar aos
baixos níveis de ocupação.
"Frente
à situação atual e para se adequar às limitações atuais de abastecimento e aos
níveis de demanda, foi implementado um ajuste da disponibilidade hoteleira, com
a compactação temporária de certas instalações — concretamente, três hotéis,
até o momento", declarou à BBC um porta-voz da rede hoteleira espanhola
Meliá, com ampla presença na ilha.
"Segundo
as autoridades turísticas cubanas, existe disponibilidade de combustível para
garantir a operação normal dos hotéis que gerenciamos", destacou o
porta-voz.
Mas
outro gigante espanhol da hotelaria, a NH, anunciou na sexta-feira (20/2) o
fechamento de todos os seus hotéis em Cuba. E o mesmo acontece nas pensões e
casas particulares.
"Dos
nossos 25 quartos, quando muito, temos 10 ocupados", declarou um
funcionário de uma hospedaria.
O hotel
cinco estrelas Iberostar Parque Central, em Havana, também reconhece que houve
cancelamentos recentes. Seus funcionários atribuem o ocorrido "à
propaganda e à desinformação".
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'Não consigo mais'
"Os
problemas atuais também são um reflexo de decisões da política econômica e
atribuição de recursos", escreve o pesquisador Ricardo Torres Pérez, do
Centro de Estudos Latino-Americanos e Latinos da Universidade Americana, no
portal Horizonte Cubano.
"O
país passou anos gerenciando os investimentos sem priorizar a recuperação do
parque termelétrico, nem a modernização das redes, apesar da deterioração
acumulada. Em vez disso, ele se concentrou em construir hotéis de alto nível,
que mantêm constantemente ocupação abaixo de 30%."
Osmani
admite que sua cafeteria para turistas rendia cerca de US$ 15 (cerca de R$ 77)
por dia, o que representa um alto salário para qualquer trabalhador em Cuba.
"Eu
trabalhava seis dias por semana, das oito da manhã às 11 da noite",
relembra ele. Mas "desde que o combustível desapareceu, voltar para minha
casa em Siboney [a cerca de 18 km de Santiago de Cuba, a segunda maior cidade
do país] passou a ser um inferno."
"Certo
dia, saí cedo, às sete, e à meia-noite ainda não tinha conseguido
transporte", ele conta.
"Eu
disse a mim mesmo: 'Não consigo mais. Definitivamente preciso ir embora daqui,
já que não consigo nem mesmo chegar em casa.'"
"Costumo
dizer que alguém que consiga sobreviver em Cuba pode viver bem em qualquer
parte. Em Lima [no Peru], estou sozinho. Não conheço ninguém, mas vou seguir
adiante", conclui Osmani.
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Com sistema de saúde à beira do colapso, Cuba denuncia
efeitos do bloqueio norte-americano
O
ministro da Saúde de Cuba, José Ángel Portal Miranda, afirmou que o sistema de
saúde do país está à beira do colapso devido ao bloqueio econômico e
comercial imposto pelos Estados Unidos ao fornecimento de petróleo. Em entrevista à
agência Associated Press, ele alertou que o embargo ameaça a
“segurança humana básica”.
“Não se
pode prejudicar a economia de um Estado sem afetar os seus habitantes’, disse o
ministro. “Esta situação pode colocar vidas em risco”, acrescentou.
Segundo
Miranda, cerca de cinco milhões de cubanos com doenças crônicas podem enfrentar
escassez de medicamentos ou adiamento de tratamentos. Entre os mais afetados
estão 16 mil pacientes oncológicos que dependem de radioterapia e outros 12.400
que necessitam de quimioterapia.
Os
serviços de cardiologia, ortopedia, oncologia e o atendimento a pacientes em
estado crítico que dependem de energia elétrica de
reserva estão entre as áreas mais impactadas. Tratamentos para doenças renais e os
serviços de ambulância de emergência também foram incluídos na lista de
serviços afetados.
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Crise energética agravada pelo bloqueio
As
medidas restritivas impostas pelos EUA agravaram a crise em Cuba, sendo a
escassez de combustível um dos efeitos mais visíveis. O recurso é essencial
para a manutenção dos serviços básicos e da vida cotidiana na ilha.
A falta
de combustível dificulta a coleta de resíduos tóxicos, contribuindo para a
disseminação de doenças como dengue e chikungunya em um sistema já
sobrecarregado. A situação também é agravada por frequentes apagões, escassez
de transporte interno e a impossibilidade de acesso a mercados internacionais
de combustível.
O
endurecimento das sanções gerou reações na comunidade internacional. Países
aliados a Cuba expressaram solidariedade e enviaram ajuda humanitária. O México, por
exemplo, despachou dois navios com alimentos, suprimentos médicos e
outros recursos básicos. A ajuda internacional, no entanto, é insuficiente
diante da escala do cerco imposto por Washington há mais de seis décadas.
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Trump fala em ‘tomada amigável’ de poder em Cuba
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, falou nesta sexta-feira (27/02)
sobre a possibilidade de “uma tomada amigável em Cuba“.
Em
declaração a repórteres da Agência France Presse (AFP), o
mandatário norte-americano afirmou que o país “não tem dinheiro, nem nada”,
omitindo fato de que isso se deve ao brutal bloqueio imposto ao país caribenho,
reforçado em 29 de janeiro por uma ordem executiva que visa privá-lo do fornecimento de petróleo.
Trump
disse ainda que Havana está “conversando com Washington”, o que o levou a
sugerir uma “aquisição amigável” da ilha socialista.
A fala
de Trump ocorre um dia depois de o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel,
declarar que a ilha caribenha irá reagir a qualquer ataque dos EUA. O posicionamento
foi feito após um incidente na costa do país envolvendo uma lancha registrada
no estado estadunidense da Flórida, que terminou com quatro mortos e seis
feridos na quarta-feira (25/02).
Em
publicação na rede social X, Díaz-Canel escreveu: “Cuba se defenderá com
determinação e firmeza diante de qualquer agressão terrorista e mercenária que
pretenda afetar sua soberania e estabilidade nacional”.
O
chanceler cubano, Bruno Rodríguez, também se manifestou na mesma plataforma.
“Cuba teve de enfrentar inúmeras infiltrações terroristas e agressivas
procedentes dos Estados Unidos desde 1959, com um alto custo em vidas, feridos
e danos materiais”.
O
episódio pode agravar ainda mais a relação entre Havana e Washington. O
secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou que Washington responderá
proporcionalmente ao ocorrido assim que tiver todas as informações sobre os
mortos, incluindo a nacionalidade das vítimas. “Vale lembrar que é muito
incomum ver tiroteios assim em alto-mar”, afirmou.
Apesar
da declaração estadunidense, Washignton tem promovido diversos ataques em
embarcações em alto-mar, sob a justificativa de combate ao narcotráfico. As
ações são consideradas execuções extrajudiciais por organizações
internacionais.
Fonte:
BBC News Mundo/Opera Mundi

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