Pacto
pela educação não sexista
A
implementação do Pacto Brasil “Todos por Todas”, lançado no início de
fevereiro, surge em cenário de urgência absoluta. Para nós, mulheres que
compomos a linha de frente dos movimentos sociais e do feminismo negro, o novo
ordenamento conjurado pelos três poderes da República – Executivo, Judiciário e
Legislativo – precisa ser compreendido não como ponto de chegada, mas como
tentativa, ainda inicial, de responder a uma tragédia que se aprofunda a cada
estatística, ou melhor, a cada segundo.
É
fundamental observarmos o feminicídio não como o início da violência, mas como
desfecho fatal de longa cadeia de negligências, silenciamentos e opressões que
se iniciam muito antes do primeiro golpe físico. O feminicídio é a ponta
visível e letal de um iceberg sustentado pelo machismo, pelo sexismo e pelo
racismo; elementos estruturais, e não conjunturais, como defende o movimento
feminista e negro há décadas.
Quando
se considera algo estrutural, isso significa que não nos referimos a
comportamentos individuais isolados ou de “maçãs podres” na sociedade. Mas
estamos afirmando que a economia, o Estado, as leis e a cultura dominante foram
desenhados para manter a subalternidade das mulheres e, especificamente, a
vulnerabilidade dos corpos negros.
A
estrutura é o alicerce; ela organiza a distribuição de poder e define quem tem
o direito à vida e quem é empurrada para a morte. Por isso, projetos que não
mexem na base dessa estrutura acabam sendo apenas paliativos em ferida que
exige reconstrução profunda e radical.
Nesse
contexto, a voz de Lélia Gonzalez ressoa com muita atualidade, e dolorosa. Ela
já nos alertava sobre como o racismo e o sexismo operam de forma articulada na
cultura brasileira, criando o que ela chamava de “neurose do racismo”. Para a
mulher negra, a violência não vem apenas do patriarcado, mas do sistema
colonial que ainda enxerga seu corpo como objeto de descarte ou de serviço. A
impunidade que assistimos hoje é o reflexo da sociedade que naturaliza a “carne
mais barata” e que não se choca com o extermínio de mulheres periféricas.
O
Brasil registrou um novo recorde de feminicídios em 2025, com 1.518 vítimas,
marcando uma média de quatro mulheres mortas por dia e superando o recorde
anterior de 2024 (1.458 casos), segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança
Pública (FBSP) e Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A alta
reflete uma falha estrutural do Estado e persistência da violência de gênero.
Principais Dados de Feminicídio (2024-2025): (i) recorde de vítimas: em 2025,
foram contabilizados 1.518 feminicídios, representando um aumento contínuo na
série histórica desde a Lei do Feminicídio (13.104/2015); (ii) média diária: o
país registra, em média, quatro feminicídios por dia desde 2022; (iii)
concentração territorial: em 2025, cinco dos dez estados com as maiores taxas
de feminicídio estavam na Região Norte, indicando grande desigualdade regional;
(iv) liderança no ranking: Mato Grosso e Acre lideraram o ranking nacional de
feminicídios consumados (taxa de 1,69 por 100 mil habitantes) em 2024-2025; (v)
contexto: a maioria dos crimes ocorre no ambiente doméstico.
O
aumento dos feminicídios vai na contramão da queda de assassinatos gerais no
país.
Fatores
relacionados, conforme dados do FBSP: descumprimento de medidas: o aumento dos
casos está atrelado à fragilidade no monitoramento de medidas protetivas;
violência ampla: além dos feminicídios, o Brasil registra altas taxas de
agressões domésticas, perseguição (stalking) e violência psicológica.
No ano
anterior, em 2024, o país já havia atingido recorde, com 1.458 vítimas. “Se [a
alta de casos] está acontecendo, isso é uma omissão do Estado, porque esse é um
crime evitável”, afirmou Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro
de Segurança Pública, durante lançamento do relatório anual da Human Rights
Watch, no dia 4 de fevereiro.
Apesar
da gravidade e urgência da situação, em São Paulo, por exemplo, o Estado mais
rico da federação, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) deixou de
investir 70% do orçamento destinado ao enfrentamento à violência contra a
mulher, mesmo com o recorde de uma mulher morta a cada 33 horas (266
assassinatos/2025). Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do estado
de São Paulo, nos últimos 10 anos, mais de 13 mil mulheres foram assassinadas.
Para
enfrentar o que é estrutural, entende-se necessário começar pelo processo
educativo. Segundo Paulo Freire, a educação é um processo libertador que
possibilita a tomada de consciência crítica sobre a realidade. Aplicando esse
pensamento à luta contra o feminicídio, a educação pode ser uma ferramenta
fundamental para promover o respeito, a igualdade de gênero e o questionamento
das estruturas opressoras presentes na sociedade.
Por
meio do diálogo e da problematização, educadores, educandas e educandos podem
desconstruir preconceitos, combater a naturalização da violência contra a
mulher e fomentar atitudes de empatia e solidariedade. Assim, a educação,
inspirada pelos princípios freirianos, contribui para formar cidadãos capazes
de agir de forma transformadora e combater o feminicídio em todas as suas
formas.
Um
parêntese importante para falarmos sobre a educomunicação (campo de estudo e
prática voltado para o diálogo entre as áreas de comunicação e educação) e a
importância do uso de diversas formas de mídia em processos de
ensino-aprendizado. Quem traz luz a esse debate é o professor Ismar Soares, da
Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, “Paulo Freire e a educomunicação
nasceram simultaneamente.” Este
conceito, inicialmente tinha um nome especial, mas era chamado de educação
popular, comunicação alternativa, mobilização pela democratização da
comunicação.
Em
total desalinho a esse pensamento, vemos, com extrema preocupação, o avanço de
propostas como a implementação de escolas civis-militares que são a antítese do
que o movimento feminista propõe como solução.
A saída
para a violência não está no autoritarismo, na hierarquia rígida ou na
disciplina baseada no medo, que apenas mimetiza a estrutura de controle do
agressor, mas sim em educação não sexista.
As
escolas brasileiras continuam, infelizmente, repetindo e chancelando o ensino
machista, onde os papéis de gênero são reforçados desde a infância e a
diversidade é tratada como tabu. Além disso, precisamos reconhecer que a
educação não ocorre apenas dentro das salas de aula; nós somos educados
diariamente pelos meios de comunicação que detêm responsabilidade imensa na
manutenção ou na ruptura desse ciclo.
A mídia
atua, frequentemente, como agente pedagógico do machismo ao naturalizar
comentários sexistas, ao espetacularizar a dor da vítima ou ao dar voz a
agressores sob o pretexto de neutralidade. Quando a imprensa falha em nomear o
feminicídio como crime de ódio ou quando programas de entretenimento reforçam
estereótipos de submissão feminina, eles estão, na prática, educando a
sociedade para a violência.
A
necessidade de mudança de postura por parte dos homens é urgente e inegociável.
Não basta que as mulheres aprendam a denunciar; os homens precisam aprender a
parar de agredir e a mídia precisa assumir seu papel ético de desconstruir o
privilégio masculino.
Outro
ponto crítico reside na execução das políticas públicas que, muitas vezes,
falham por falta de apoio real de estados e municípios. O que vemos hoje são
equipamentos como a Casa da Mulher Brasileira que operam, em muitos locais, sob
lógica machista e ineficaz, onde as mulheres passam por dupla violência quando
são atendidas por advogado, ao invés de advogada. Ainda mais, é insulto à
inteligência e à dignidade das mulheres que certas prefeituras tentem promover
“independência financeira” por meio de oficinas para pintar panos de prato.
A
verdadeira autonomia exige políticas de emprego decente, renda, moradia e
creches, e não o estímulo ao artesanato precário que mantém a mulher presa à
linha da pobreza e, consequentemente, à dependência do agressor. Somado a isso,
o atendimento institucional muitas vezes revitimiza a mulher, especialmente
quando o primeiro contato em delegacias é realizado por homens, o que configura
dupla violência.
Da
mesma forma, criticamos cidades que ostentam “selos antirracistas” apenas para
“ficar bem na foto”, sem discutir o racismo estrutural em suas mesas de
decisão, enquanto as mulheres negras continuam sendo as maiores vítimas da
negligência estatal. Que isso não aconteça também com o Pacto Brasil Todos por
Todas!
Diante
desse cenário, propomos aos Conselhos Municipais de Educação, os representantes
da sociedade civil e os movimentos sociais, amplo debate para a construção de
diretriz de Educação Não Sexista que deve ser adotada como política pública
obrigatória e transversal. Esta diretriz estabelece a revisão integral de todos
os materiais didáticos para eliminar a linguagem sexista e a invisibilidade das
mulheres nas ciências e na história, garantindo a representação paritária e
interseccional.
Propomos,
ainda, a formação continuada e obrigatória de todos os profissionais da
educação em questões de gênero, raça e sexualidade, capacitando-os para
identificar a carga mental e os sinais precoces de abuso, além de mediar
conflitos sem reforçar a virilidade agressiva. A diretriz prevê a criação de
núcleos de masculinidades nas escolas, onde os meninos possam discutir e
desconstruir padrões de comportamento tóxicos, promovendo a cultura de cuidado
e corresponsabilidade.
É
imperativo que as escolas garantam o uso equânime dos espaços, rompendo com a
hegemonia masculina nas quadras e laboratórios, e que estabeleçam protocolos de
escuta ativa geridos exclusivamente por mulheres.
A
educação não sexista deve também exigir a responsabilidade dos conselhos
municipais na fiscalização dos conteúdos midiáticos locais e na promoção de
campanhas que desafiem o imaginário do domínio masculino.
As leis
Maria da Penha e do Feminicídio são conquistas imensas, mas elas não bastam se
o ensino continuar machista e se a mídia continuar sendo uma escola de
misoginia. Precisamos de compromisso que envolva a responsabilização dos
homens, a reformulação das instituições de atendimento e, acima de tudo,
educação que desmonte os pilares do patriarcado e do racismo.
A
transformação só será real quando o Estado e a sociedade entenderem que
proteger a vida das mulheres não é favor, mas uma obrigação civilizatória que
exige a destruição de toda a estrutura que nos oprime e nos mata.
Fonte:
Por Cidinha Santos, em A Terra é Redonda

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