A
psicologia não deve legitimar Comunidades Terapêuticas
No
último dia 20 de fevereiro, o Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais
(CRP-MG) fez uma postagem em que trata como “conquista” a sua participação na
construção de um Projeto de Lei, o PL 4.992/2025 (de autoria de Herly
Tarqüínio, do PV). O referido PL “regulamenta o acolhimento em comunidades
terapêuticas em Minas Gerais”. Não bastando ir na contramão de deliberações da
sua própria base, tanto no âmbito estadual quanto no nacional, o CRP-MG louva a
sua participação, por colocar como obrigatória a atuação da psicologia, numa
iniciativa nitidamente corporativista – e manicomial.
Não
suficiente, a entidade incorre na já tradicional mistificação de que a
normativa “veda internações, assegura voluntariedade e respeito aos direitos
humanos”, como se isso fosse possível numa instituição manicomial, como são as
Comunidades Terapêuticas (CTs). Para se ter uma ideia, no âmbito nacional,
temos a Lei 13.840/2019, que altera a lei de drogas e supostamente garantiria
as mesmas coisas. Contudo, uma breve imersão na realidade, nos faz constatar
que se trata de letra morta, em face da violência das CTs e o que elas fazem e
são concretamente, a despeito da retórica e do que proclamam de si – com a
ajuda do Estado.
O campo
da saúde mental, álcool e outras drogas no Brasil vem passando por um conjunto
de retrocessos, caracterizados como Contrarreforma Psiquiátrica, que pode ser
sintetizada pelos seguintes processos: (a) (re)manicomialização; (b)
privatização e mercantilização das políticas, com transferência do fundo
público a instituições privadas (e manicomiais) e precarização e desmonte das
iniciativas públicas (e substitutivas ao manicômio); e (c) ofensiva
conservadora, reacionária e fundamentalista.
Este
cenário rebate na psicologia, como campo do saber-fazer, ao mesmo tempo que é
conformado por ela. Apenas a título de ilustração, citamos o próprio exemplo
das CTs, que nada têm de comunidades ou de terapêuticas, mas são reatualizações
e sofisticações manicomiais. Nas particularidades de nosso país, como
capitalismo dependente de gênese e via de desenvolvimento colonial, as CTs têm
sido uma amálgama de manicômios, prisões, igrejas e senzalas, sendo o
carro-chefe da Contrarreforma Psiquiátrica, ao materializarem mecanismos de
segregação, higienismo, escravidão, em suma, de violência, sob roupagem de
assistência e cuidado.
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Colaboração com o retrocesso
Segundo
levantamento nacional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a psicologia
é a categoria profissional mais presente nas CTs. Cabe apenas salientar que boa
parte das CTs sequer funciona com profissionais especializados, sendo
majoritariamente composta por “monitores”, “voluntários” etc., dentre outras
nomenclaturas para denominar funções desempenhadas por usuários ou ex-usuários
por meio de relações de trabalho informais, precárias ou mesmo sem vínculos e
remuneração (a chamada laborterapia), a despeito do trabalho realizado, que
retorna à instituição ou aos seus proprietários.
Podemos,
então, constatar que, em certa medida, a psicologia não só tem contribuído para
o desenvolvimento da Contrarreforma Psiquiátrica, com a sofisticação e o avanço
manicomial no país, por meio da produção de saberes, isto é, enquanto
disciplina do conhecimento ou ciência psi, como ela tem “sujado” as mãos.
Com
isso, não estamos aqui adentrando numa discussão moral, personalista,
culpabilizando os/as profissionais que vendem suas forças de trabalho para tais
instituições, alguns/mas deles/as na ausência de outras possibilidades e
oportunidades de trabalho, desconsiderando a engrenagem capitalista – que, não
à toa, frequentemente nos leva a imputar culpa ao/à trabalhador/a, ocultando ou
mistificando a si própria. O que deve nos atiçar a curiosidade, da mesma forma
que nos serve de alerta, é: por que a psicologia é convocada pelo manicômio?
Por que ela se encontra na linha de frente dos processos de manicomialização?
Não há
nada de novo na constatação de que a psicologia e, de modo geral, o campo psi
(no qual se somam a psiquiatria e a psicanálise) chancelaram e fundamentaram o
manicômio enquanto instituição social de controle e, ao fim e ao cabo, de
violência. Isso não é tratar tal campo como monolítico, apagando suas
contradições e diversidade e o próprio histórico de contestações e movimentos
originados no interior do campo acadêmico e profissional psi, embora nunca
hegemônicos.
Inclusive,
a recente medida do CRP-MG vai na contramão do histórico da entidade, que tem
sido importante personagem na Luta Antimanicomial mineira, e de demais
entidades e setores, incluindo o Sistema Conselhos, que têm envidado esforços,
não sem contradições e limitações, para a construção de uma sociedade sem
manicômios. Do mesmo modo, não estamos aqui adentrando na arena do moralismo,
como se o que estivéssemos fazendo aqui fosse uma imputação de má (ou boa) à
psicologia ou a determinadas formas de ela ser psicologia.
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O manicômio e o campo psi
O
manicômio deve ser entendido como uma forma de a sociabilidade capitalista
gerir algumas das contradições internas, só que orientada à reprodução da
própria sociabilidade, ao invés de se voltar a atender as necessidades
(humanas) de quem se produz nela e, ao fim e ao cabo, a produz. Nisso, ele
acaba sendo uma das formas mais aparentes e pronunciadas das estruturas de uma
sociedade pautada na exploração, na opressão e na alienação se concretizarem,
só que ocultado a si próprio, ao se colocar como instituição de tratamento, de
cuidado.
Nessa
dinâmica, o campo psi é interpelado para fornecer as justificativas, o “cimento
ideológico”, que, neste caso, é científico, técnico (quando não neutro e
imparcial). É o campo psi, mormente a psiquiatria, que forja o manicômio; que
se desdobra no manicômio. O manicômio é a extensão da psiquiatria e do campo
psi, naquilo que eles possuem de normativo, coercitivo etc., levadas às últimas
consequências. Não suficiente, se tal campo fundamenta e assenta as bases de
existência do manicômio, também será convocado a materializar o manicômio por
suas próprias mãos, isto é, a atuarem nele como profissões, por meio de suas
práticas. O exemplo supracitado das CTs é “só” mais um, dentre tantos outros
similares que poderíamos fornecer.
Considerando
o exposto, a crítica ao manicômio deve se estender ao que o fundamenta e
sustenta. O manicômio é, antes de tudo, a materialização, por meio da lógica
asilar-manicomial, da lógica capitalista. Nas suas especificidades, ele é o
modo de produção capitalista, que o forja e nele/por ele se reproduz. Sendo
capitalista, ele também é racista e patriarcal (e capacitista, LGBTfóbico,
dentre outras estruturas de violência as quais ele encarna). Para piorar, o
atual estágio de desenvolvimento deste modo de produção, o qual vivemos, aguça
suas contradições internas, bem como o seu caráter destrutivo e barbárico,
tendendo a cada vez mais reivindicar o manicômio como resposta normal,
igualmente barbárica, recrudescendo sua violência e destrutividade. Não à toa,
a manicomialização avança em nosso solo e tecido social.
Cabe, a
partir disso, derivar esta crítica ao campo psi e mais especificamente à
psicologia como ciência e profissão que fundamenta e justifica o manicômio
teórica e cientificamente, bem como o assenta por meio de sua prática. Ora, a
convocação manicomial à psicologia, para atuar dentro de seus muros, não é um
acaso. Ela já denota uma atuação da psicologia “fora” dos muros manicomiais,
justificando-os, servindo como argamassa ideológica para que eles sejam
erigidos. Para que alguém seja manicomializado, é necessário um conjunto de
saberes que justifique a manicomialização e argumente por ela para determinados
indivíduos, como se ela fosse necessária a eles e eles precisassem dela.
Essa
mesma argamassa se expressa também nos processos de segregação e marginalização
escolar, e em outros processos materializados por instituições igualmente
segregatórias, coercitivas e de violência, como as do socioeducativo, as
prisionais e assim por diante. Em todas elas, é possível constatar práticas da
psicologia que se assemelham às manicomiais, que compartilham características
ou são elas próprias manicomiais. Da mesma forma, essas práticas dão seguimento
à própria produção de conhecimento psicológico. Em suma, a psicologia como
ciência abastece a prática psi, e esta concretiza e retroalimenta aquela.
Assim,
a luta deve ser para alterar as condições concretas (sócio-históricas) que
fazem com que seja necessária a existência de manicômios – para a reprodução do
capitalismo – e de psicólogos(as) trabalhando neles para assegurar algum nível
de seriedade ou qualidade técnica. O problema dos manicômios não é “só” a
ausência ou presença de psicólogos(as) e demais categorias profissionais
especializadas. Um manicômio com psicólogos(as) continua sendo um manicômio,
isto é, uma instituição da violência.
Pode
ser que a presença de psicólogos(as) mascare essa condição manicomial, tornando
a sua violência ainda mais insidiosa, quando não a recrudescendo por meio do
conhecimento e da prática psicológica, tida como especializada, técnica – quiçá
neutra e imparcial. Iniciativas corporativistas, como a mencionada do CRP-MG no
início deste capítulo, não só não ajudam a resolver o problema como o mascaram
e intensificam. Por isso, devem ser repudiadas e confrontadas.
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Basaglia e uma práxis psi anticapitalista
Vejamos
o que Franco Basaglia falou sobre este ponto, em uma conferência realizada em
Portugal, em 1977, após a Revolução dos Cravos, publicada em nosso país na
coletânea O marxismo e a loucura:
Como
vemos, o problema não está no fato de não haver tantos leitos em Portugal e de
que em Portugal não haja mais leitos, e de que haja poucos assistentes sociais,
poucos psicólogos etc. Portugal tem sorte em ter tão poucos técnicos… tem sorte
em ter tão poucos técnicos porque, através da tomada de consciência do que é a
libertação do povo, Portugal poderá formar novos técnicos, amanhã, quando o
povo revolucionário puder dar através da universidade a preparação, a
possibilidade de criar técnicos que respondam realmente às necessidades do povo
e não à tecnocracia do poder.
A
práxis psi, portanto, deve ser anticapitalista, tendo como horizonte a
superação de um modo de produção que não só produziu, produz e produzirá
manicômios como forma de gerir suas contradições internas, como busca garantir
sua reprodução e sobrevivência – cada vez mais nos marcos da barbárie –
forjando tais instituições. Sendo anticapitalista, com horizonte socialista,
também é antirracista e antipatriarcal (e anticapacitista, antiLGBTfóbica e
contra quaisquer formas de opressão), considerando que não há capitalismo – e
manicômio – sem racismo e patriarcado enquanto estruturantes fundantes.
Isso
não significa ser panfletário, doutrinário, político-partidário, muito menos
romper com os princípios do Código de Ética da Psicologia. Aliás, é atuando nas
CTs, como nas demais instituições manicomiais, que se rompe com tal código,
mesmo em seus princípios mais básicos. Mais uma vez em diálogo com Basaglia, o
que se aponta é a inconformidade com o estado das coisas que opera pela
violência, pela opressão e exploração, sendo os manicômios uma de suas formas;
o que se coloca é a necessidade de se ter consciência de que o técnico é
político, de tal forma que o técnico “utilizará a sua especialidade, isto é, o
seu papel específico de técnico, para ser político na sua tecnicidade”.
Este
horizonte, por sua vez, não pode ser encarado como uma espera ad eternum pela
mudança desejada. Ao contrário, ele deve modular a práxis no presente, devendo
mobilizar mediações táticas que, no campo da saúde mental, álcool e outras
drogas, se ponha a contribuir – dentre de suas possibilidades – ao fechamento
das instituições manicomiais existentes, prevenindo também a criação de novas
(ou a renovação das “velhas”).
Isso
passa, evidentemente, pela práxis de psicólogos(as), tendo as necessidades da
classe trabalhadora como suas, voltando-se a assisti-la, desde as suas
especificidades como psicologia. Apenas reiteramos que o cuidado em saúde
mental passa pela liberdade, tomando-a como princípio e horizonte. Liberdade
aqui para além de perspectivas liberais, mas como meio e objetivo (neste caso,
a emancipação humana). A liberdade neste sentido é terapêutica e a terapêutica
deve ser em liberdade e libertadora. Não há terapêutica, muito menos cuidado,
na/pela manicomialização, já que ela segrega, desumaniza, em suma, violenta,
tolhendo a liberdade e a impossibilitando a libertação.
Como
psicólogos(as), devemos ser os principais críticos da psicologia, entendendo a
crítica como um movimento constante, permanente, de reflexão e (re)elaboração
sobre o que temos feito, o que temos sido, ao passo que, dialeticamente, remeta
ao que não temos feito, o que não temos sido e, nisso, o que podemos fazer e o
que podemos ser. A psicologia ser convocada não só a chancelar e a produzir o
manicômio, mas a atuar nele, deveria nos indignar, ao invés de sermos
complacentes com isto, requerendo ainda mais espaço e poder – de violência, de
violentar.
O
horizonte de uma sociedade sem manicômios carece, por coerência lógica e
ético-política, da mediação tática de a psicologia não os construir,
impulsioná-los, mantê-los. Não deve haver psicólogos(as) em manicômios, não
importam as suas formas, porque manicômios não devem existir. Já que eles
existem, a luta é para que sejam fechados e superados, e não que sejam ocupados
– e chancelados. Existem espaços, instituições os quais não se ocupa; o
manicômio é um deles.
Não
suficiente, este processo não pode ser tomado como um exercício individual,
devendo envolver um esforço permanente e coletivo. Este passa por associações,
coletivos, organizações, instituições de ensino e grupos de pesquisa que
compõem o ecossistema da psicologia brasileira, junto ao Sistema Conselhos
(Conselho Federal de Psicologia e Conselhos Regionais de Psicologia), suas
instâncias e processos deliberativos, a formulação de Referências Técnicas,
resoluções e demais documentos normativos e orientadores, bem como sindicatos
de psicólogas/os, numa perspectiva de unidade (na diversidade).
Os
princípios e nortes da Luta Antimanicomial e seus desdobramentos na Reforma
Psiquiátrica devem perpassar e constituir mecanismos e iniciativas de
fiscalização, regulamentação e orientação profissional, sem deixar de lado a
formação.
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Para sair do “ensimesmamento” na psicologia
De modo
a evitar messianismos psi, psicologizações ou ensimesmamentos, é fundamental
que se vá além da própria psicologia, articulando as iniciativas também com
outras categorias profissionais, com entidades e órgãos públicos e, sobretudo,
com os movimentos sociais e populares. Quanto a estes, fica também o alerta de
que, se o que acontece no campo da saúde mental, álcool e outras drogas é uma
expressão ou forma específica do atual estágio de desenvolvimento capitalista,
a unidade deve ser para além da própria saúde mental, articulando iniciativas
com outras lutas e suas respectivas formas organizativas e movimentos.
Isso
fica ainda mais nítido quando vemos que a Contrarreforma Psiquiátrica não pode
ser confrontada sem a defesa do SUS e das demais políticas sociais, sem a
crítica e o enfrentamento às políticas econômicas neoliberais, pautadas na/pela
austeridade fiscal e que se põem a maximizar a espoliação e acumulação
capitalista, sobretudo do capital financeiro.
O
enfrentamento ao manicômio como “oportunidade” de trabalho à psicologia requer
a ampliação de outras possibilidades (e mais humanizadas), de melhores
condições de trabalho, assim como a defesa das políticas sociais, o
fortalecimento do SUS e da RAPS, do SUAS. Ora, estas são tarefas da psicologia
organizada como categoria, ou seja, como fração da classe trabalhadora, ao
passo que será fortalecida se entendida e vinculada às lutas de outras
categorias e frações, bem como da classe trabalhadora como um todo, passando
pelos instrumentos que esta classe construiu e consolidou para si, como é o
exemplo dos sindicatos – e demais formas organizativas.
Devido
à hegemonia da condição autônomo-liberal da psicologia, dentre outras questões
que extrapolam o foco deste artigo – mas que não são irrelevantes e dizem do
desenvolvimento da psicologia em nosso país –, temos tido dificuldade não só de
compreender e separar as atribuições do Sistema Conselho e dos sindicatos de
psicólogos(as), como esta dificuldade já é sintoma de outra, anterior, que diz
respeito ao não reconhecimento do(a) psicólogo(a) como trabalhador(a). Com
isso, perde-se oportunidades de fortalecimento da atuação das referidas
entidades, naquilo que lhes é próprio e precípuo, como tende-se a enfraquecer
também a unidade na atuação entre elas e para além da psicologia – com formas
organizativas referentes a outras categorias profissionais e/ou frações da
classe trabalhadora.
Por
fim, a Luta Antimanicomial é também uma luta por condições e oportunidade de
trabalho dignas para a psicologia, pautadas na defesa da dignidade humana de
quem é assistido pela psicologia, ou melhor, com quem ela trabalha, ao passo
que, sendo isso, é também uma luta pela dignidade humana do/a psicólogo/a, de
modo que ele não seja mais um instrumento de violência. Fazer da Luta
Antimanicomial uma luta da psicologia como ciência e profissão – sem, contudo,
psicologizá-la e tomá-la como propriedade privada ou monopólio psi – é um
horizonte fundamental à própria humanização da psicologia. Uma psicologia
realmente humana e efetivamente comprometida com a dignidade humana tem como
necessidade lógica e imperativo ético-político ser antimanicomial.
Fonte:
Por Pedro Costa e Kíssila Mendes, em Outra Saúde

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