O
percurso da polarização
A
história das ideias acompanha todos movimentos políticos e sociais. É assim que
o fascismo da década de 1920 na Itália e o nazismo dos anos 1930 na Alemanha
geram a noção que abrange a esfera pública e privada: Estado totalitário. O
conceito alerta para a crise do liberalismo, de modo a apreender as mudanças.
Na
sequência, o tático pacto de não agressão (1939-1941) da Alemanha nazista com a
URSS estende o termo “totalitarismo” ao comunismo soviético, nas narrativas
jornalística e acadêmica. Une os sistemas avessos à democracia, enquanto o dito
“pluralismo” celebra com ufanismo o american way of life no pós-guerra.
À
medida que a luta pela liberdade opõe o capitalismo ao bloco submisso às
diretrizes de Moscou, o nazifascismo é secundarizado pelas elites ocidentais.
Baterias disparam fogo então contra as governanças que, na teoria ou na
prática, ainda se reivindicam do marxismo. Cuba resiste a um bloqueio econômico
criminoso.
Para
Russell Jacoby, em O fim da utopia: política e cultura na era da apatia, a
pinça ideológica se deve aos propagandistas da ideia serem pensadores de
extraordinário prestígio e força. A condição de foragidos dos polos em conflito
mantém acesa a dialética entre a bipolaridade geopolítica e a identidade
conceitual, de fundo.
Em
1944, Friedrich Hayek lança o libelo O caminho para a servidão. O futuro Prêmio
Nobel de Economia vê o comunismo e o nazifascismo como “variantes do
totalitarismo”. Preocupa-se com a disseminação do ideário socialista na nova
pátria (nascido austríaco, torna-se cidadão britânico). O Estado
previdenciário, para ele, é o prenúncio de um colapso da liberdade individual.
No ano
seguinte, Karl Popper publica A sociedade aberta e seus inimigos, com raras
alusões ao nazifascismo. Mira “o espectro que ronda a Europa: o comunismo”.
Jacob Talmon, em As origens da democracia totalitária, vaticina a “colisão
frontal” da democracia liberal e a democracia iliberal. Remete às Revoluções
Francesa e Russa, acusando jacobinos e bolcheviques de um “messianismo
político”. Sobre o genocídio na Segunda Guerra Mundial, silêncio obsequioso.
Hannah
Arendt criminaliza os regimes soviético e nazifascista de abrigarem “ideologias
totalizantes”. Isaiah Berlin identifica dois tipos de liberdade; negativa
(liberdade de) e positiva (liberdade para). A negativa “deixa o indivíduo livre
de controle”. A positiva “implica uma coerção e expõe o núcleo de credos
nacionalistas de nossa época”. Narciso só gosta do que vê refletido no espelho.
Hoje os
refrões salientam a dicotomia para elogiar o misto de democracia e de
oligarquia da ilusória terceira via, que carrega nas tintas para depreciar a
alternativa “sectária, messiânica e utópica” representada pelo presidente Lula;
e para desqualificar o Partido dos Trabalhadores. Vide a seleta reunida por
José Giusti Tavares, em Totalitarismo tardio: o caso do PT; com a foto de
Vladímir Lênin na famosa Estação Finlândia, de Petrogrado, na capa estilizada
(sic).
Os
intelectuais são reconhecidos como um grupo social em fins do século XIX. A
carta de Émile Zola, “J’accuse!”, que clama por verdade e justiça no caso
Dreyfus, simboliza uma certidão de nascimento da intelligentsia e o berço do
engajamento em causas contemporâneas. Sua palavra passa a influir nos
acontecimentos políticos, sempre para nomear o que é o bem e o que é o mal.
Ocorre
que seu zelo pela verdade e a justiça é sequestrado pelo deus-mercado, no
neoliberalismo. A frase de Fernando Henrique Cardoso (“Esqueçam o que escrevi”)
é uma apostasia. A crítica ao Estado prefacia o empreendedorismo. A
antirreligiosidade tropeça no conservadorismo teocrático. O planejamento cede
às mentiras. Os fins justificam os meios no eclipse da ética e da consciência.
A
certeza que resta ao centro político se confunde agora com as distopias. O lema
“razão, tolerância, humanidade” dá lugar a um “conformismo, oportunismo,
egoísmo”. Vulgarmente falando, não há persona mais materialista do que a
convertida à globalização do empirismo. A tolerância e o respeito à soberania
popular e nacional se dissolvem na demagogia que despolitiza a política.
A Folha
de S. Paulo, diante da pressão sindical endossada pelo governo federal sobre a
escala 6 x 1, reacende os argumentos de fachada com ideias remanescentes do
período colonial-escravista. Concorda com a demanda trabalhista, mas daqui a
cem anos. Falta no tabuleiro brasileiro moderno o abolicionista de priscas
eras. Os apóstatas amarram a bandeira da liberdade a reboque das finanças e das
big techs. Os penduricalhos são os juros cobrados por castas.
Treinados
nas caixas registradoras da mais-valia, os jornalistas (influencers)
comportam-se como capitães-do-mato do capital. Como se lê em um manifesto do
surrealismo, o medo de ser feliz “reduz a imaginação a um estado de
escravidão”. Significa “trair em si mesmo todo senso de justiça”. Afinal, “só a
imaginação é capaz de proporcionar um vislumbre do que pode vir a ser”.
Entre o
utopismo e o burocratismo, a imprensa prefere burocratas acovardados em postos
de mando no aparelho estatal. Ignora “o livro dos mortos do século XX”, o qual
calcula que no lapso temporal cem milhões de pessoas tiveram ceifadas suas
vidas.
No
cenário de violência figuram as guerras mundiais, a guerra sino-japonesa,
guerra civil russa, guerra civil espanhola, Estado soviético e extermínio de
judeus. Sem contar as baixas no Camboja, Vietnã, Argélia, Líbia, Bósnia,
Ruanda, Afeganistão, Iraque, Palestina e os tantos assassinatos na América
Latina.
As
determinações administrativas incentivam a “banalização do mal” com personagens
medíocres, sem uma índole demoníaca, até receber a ordem para matar inocentes.
Esses obedientes autômatos suspendem o pensamento para, a posteriori, sentar à
mesa com a família, orar e dormir sem nenhum remorso; feito Eichmann.
A
apologia do pluralismo e da diversidade sem o desejo de ir além do presente não
contempla o direito à liberdade e à felicidade. A amputação da utopia por medo
do totalitarismo não é um gesto de prudência, senão uma capitulação
racionalizada por quem – teórica e politicamente – não ousa olhar para o futuro
com esperança e coragem. Em paralelo, a extrema direita oferece apenas o ódio.
Para
Chantal Mouffé, em Por um populismo de esquerda, a crise da hegemonia
neoliberal coloca frente a frente o populisme de droite, que mina estruturas
republicanas para implantar o regime de exceção; e o populisme de gauche que
interpela a vontade coletiva com discurso democrático para mobilizar afetos
políticos em torno da igualdade e justiça social. O primeiro é autoritário e
golpista. O segundo garante a democracia e suas instituições, com um governo ao
lado do povo trabalhador. A escolha é nossa.
No
percurso da polarização, o centrismo midiático é a rendição à barbárie. Muito
pior do que nos decênios vinte e trinta, dado o armamento nuclear estocado nos
porões da insensatez. Capisce?
Fonte:
Por Luiz Marques, em A Terra é Redonda

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