Esquerda
gélida: o feminismo tem algo a dizer?
Em meio
aos novos riscos de ascenso da ultradireita, e à falta de um projeto de
transformações, pensadora feminista indaga: não terá se esgotado o paradigma
que se opunha ao capitalismo sem questionar a estrutura falocêntrica de seu
projeto de dominação?
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LEIA A ENTREVISTA:
• Gostaria de recuperar, primeiro, seu
balanço sobre as mudanças que identifica em suas próprias concepções ao longo
das últimas décadas. Em 2019, quando tive contato com sua obra, eu via os
intelectuais como capazes de compreender a realidade da ascenso do fascismo no
Brasil. Mas talvez o entendimento de intelectuais não tenha produzido os
efeitos esperados. O que mudou depois do governo Bolsonaro e da pandemia de
Covid-19 ?
Estudo
o nazifascismo de maneira intensa há décadas. O interesse pela obra de Walter
Benjamin, que se iniciou nos anos 2000, também me conduziu para esse contexto
de análise crítica entre as décadas de 1920-1945 na Europa. Antes de 2015,
porém, esses estudos tinham uma versão talvez menos programática e só naquele
ano assumiram protagonismo nas pesquisas que realizei em um pós-doutorado sobre
O homem Moisés e a religião monoteísta. O ensaio foi escrito por Freud logo
após o ascenso de Hitler ao poder e do exílio de Freud na Inglaterra. Quando a
extrema-direita se consolida como força política no Brasil de hoje, esse
repertório anterior situa o fenômeno em minhas reflexões sobre o presente, mas
ele ainda deixa várias lacunas para pensá-lo. O ano de 2018, por conseguinte,
trouxe a mim a tarefa inglória de tentar entender algo sobre o bolsonarismo.
Comecei pelo Olavo de Carvalho que se nomeava filósofo. Li uma série de
escritos olavistas quando quase ninguém da esquerda considerava isso importante
e simplesmente subestimava a extrema-direita. Em um debate com Vladimir
Safatle, publiquei pelo site da N-1 edições o ensaio “Da melancolia à mania
suicida: o círculo demoníaco brasileiro”, que traça o panorama do que pude
esmiuçar à época dessas investigações. Depois publiquei outros textos em que
mostro como, sem dúvida, a crítica ainda é importante, mas só ela não dá mais
conta de operar como resistência à força da direita. Constatando tal limite da
crítica, assumi que os problemas atuais são sintomas modernos em amplo sentido
e que todos nós somos responsáveis por eles. Com isso, rompe-se o elemento
judicativo moralista inerente a muitas análises críticas para permitir a
entrada de um lugar importante da psicanálise. Toma-se, por meio dela, as
múltiplas soluções de compromisso sintomáticas, isto é, as suas várias camadas
– sociais, psíquicas, históricas, políticas – para decompô-las e analisá-las
até dissolvê-las. O caráter antitético da crítica tem mostrado cada vez mais
fortemente seus limites em uma era digital que opera por 0 ou 1, daí a
importância de dar ênfase às mediações que se alocam nos limiares entre as
diferentes posições que sempre são identidades – não só no que se chama “lutas
identitárias”. Qualquer predicado atribuído a um nome é uma identidade, inclusive
filósofo ou psicanalista, lacaniano ou freudiano, por exemplo. A mudança, ainda
anterior à Covid-19, mas que se acirrou a partir dela, se refere à glorificação
e à heroicização do fascismo hoje e, de outro lado, uma espécie de impotência
da memória e da história como formas de resistência à violência. Estou
escrevendo um texto agora sobre os meandros dessa mudança a partir de Donald
Trump, Eichmann, O. J. Simpson e o abismo de Gaza. A conexão entre tais figuras
e elementos históricos, aparentemente disparatada, parte de escritos de duas
feministas estudiosas de psicanálise e teoria crítica: Jacqueline Rose e
Shoshana Felman. Esse fracasso importante da memória deve ocupar psicanalistas
e filósofos – repetir, recordar e elaborar parecem insuficientes como
alternativa ao mal e podem inclusive servir aos seus fins, eis o que me parece
estar em jogo agora.
• É uma trajetória de investigação pouco
comum. De que maneira ela se relaciona à sua formação intelectual e pessoal?
Minha
posição política à esquerda foi uma construção vagarosa, que se deu durante os
primeiros anos de graduação em Psicologia na PUC-SP e se consolidou também
teoricamente com os estudos que realizei pouco depois na Filosofia da
FFLCH-USP. Minha família é composta por pessoas de direita – não
extrema-direita, mas claramente de direita. Essa origem sempre concedeu um ar
estrangeiro ao meu lugar como intelectual de esquerda. Ou seja, ser de esquerda
não havia sido uma questão de berço, como ocorre com muitos intelectuais. Esse
traço estrangeiro de minha origem demarca uma posição nem sempre confortável de
sustentar; a vantagem talvez tenha sido o fato de que minha adesão às posições
predominantes tenha sempre ocorrido de maneira dificultosa, e, desistindo de
ser o que jamais poderia ser, tive muita liberdade intelectual. Essa origem
distante exigiu de meus afetos o esforço de tentar entender a linha de
raciocínio que dali se desdobrava. Isso é muito difícil, quase impossível. Mas
faço esse exercício em nome do amor que sinto pela minha mãe, que é
conservadora. Quando minha raiva cresce, busco entender o lado da outra pessoa,
o que não significa justificar posições que não considero éticas.
• Como você vê hoje as relações entre
marxismo e psicanálise? Ou ainda, como você localiza o seu trabalho intelectual
na tradição marxista? Estranho falar em revolução hoje?
Responder
a esta pergunta complexa implicaria o resgate de toda uma tradição,
especialmente a da teoria crítica frankfurtiana que articula de diferentes
formas psicanálise e marxismo. Seja como for, talvez fosse importante trazer a
razão pela qual a primeira geração da Escola de Frankfurt resolveu se dedicar à
psicanálise. Tanto Theodor Adorno quanto Max Horkheimer voltaram sua atenção à
obra de Freud e outros psicanalistas porque tinham uma pergunta sobre o
fracasso da revolução proletária. Era evidente que a precarização extrema da
classe trabalhadora já tinha ocorrido em grande parte da Europa antes e,
sobretudo, depois da Primeira Guerra Mundial ou ainda mais após a queda da
bolsa em 1929, por exemplo. Isso redundou, paradoxalmente, no fortalecimento da
extrema-direita e trouxe ainda o ascenso de Hitler. Como entender esse fracasso
da revolução, que seria esperada quando a classe trabalhadora não tivesse mais
nada a perder e se desse conta da sua força de trabalho como valor e, por
conseguinte, como forma de luta? O que se viu não foi exatamente o que se
esperava. Por outro lado, a Revolução Russa trouxe uma série de aberturas
importantes para o viés revolucionário da esquerda e entrou em disputa com o
capitalismo, mas no longo prazo o enredo stalinista apresentou um horror que
não se pode negar: em muitas dimensões foi algo análogo ao que houve de pior na
extrema-direita. Como ficamos, então? Brinco que atualmente retornei ao
cartesianismo e sou a essência da dúvida. Retomo um procedimento marxista de análise
das mediações em cada uma das situações materiais e históricas que se
apresentam. Mas a dialética, embora ainda necessária, não é mais suficiente.
Talvez, por isso, para além das questões de mercado, a psicanálise tenha se
tornado uma ferramenta essencial.
• Lendo a entrevista de Marilena Chaui,
principalmente nos momentos de crítica ao que ela chama de “movimentos
identitários”, lembrei do seu artigo “Política: entre fraldas sujas e amor” em
diálogo crítico com Maria Rita Kehl. Como você avalia esse impasse de alguns
intelectuais e suas críticas aos movimentos e pautas identitárias, no nosso
tempo histórico?
As
pautas tidas como identitárias estão em circulação desde as décadas de 1960-70.
De fato, como aponta Nancy Fraser, desde a era Clinton algumas lutas e
discursos serviram como formas tanto de escamotear quanto de dar livre curso ao
caráter predatório de um novo modelo de capitalismo, o neoliberal globalizado.
Contudo, o fato de, como sempre, o capitalismo se apropriar do que convém aos
seus interesses mais nefastos não invalida o que é debatido e reivindicado nas
lutas por direitos e justiça. Por isso, minha pergunta: por que a esquerda
tradicional tem invalidado, na mesma onda da extrema-direita, as pautas ligadas
a marcadores sociais? Um dos argumentos usados pela esquerda tradicional é o
modismo e o outro seria o enfraquecimento da luta de classes que se veria
subdividida. Não considero nenhum desses dois argumentos fortes. Gostaria de
lembrar, só para citar um exemplo contraditório sobre o argumento da moda, como
o próprio Roberto Schwarz, um dos principais ícones da esquerda que tenho
denominado tradicional, reconhecia que o marxismo, à época da ditadura, estava
situado entre a intelectualidade brasileira de forma não só livre, como última
tendência da moda nos diferentes circuitos simbólicos das artes e do
pensamento: Em 1964 instalou-se no Brasil o regime militar, a fim de garantir o
capital e o continente contra o socialismo. O governo populista de Goulart,
apesar da vasta mobilização esquerdizante a que procedera, temia a luta de
classes e recuou diante da possível guerra civil. Em consequência, a vitória da
direita pôde tomar a costumeira forma de acerto entre generais. O povo, na
ocasião, mobilizado mas sem armas e organização própria, assistiu passivamente
à troca de governos. Em seguida sofreu as consequências: intervenção e terror
nos sindicatos, terror na zona rural, rebaixamento geral de salários, expurgo
especialmente nos escalões baixos das Forças Armadas, inquérito militar na
Universidade, invasão de igrejas, dissolução das organizações estudantis,
censura, suspensão de habeas corpus etc. Entretanto, para surpresa de todos, a
presença cultural da esquerda não foi liquidada naquela data, e mais, de lá
para cá não parou de crescer. A sua produção é de qualidade notável nalguns
campos, e é dominante. Apesar da ditadura da direita, há relativa hegemonia
cultural da esquerda no país. Pode ser vista nas livrarias de São Paulo e Rio,
cheias de marxismo, nas estréias teatrais, incrivelmente festivas e febris, às
vezes ameaçadas de invasão policial, na movimentação estudantil ou nas
proclamações do clero avançado. Em suma, nos santuários da cultura burguesa a
esquerda dá o tom. Esta anomalia – que agora periclita, quando a ditadura
decretou penas pesadíssimas para a propaganda do socialismo – é o traço mais
visível do panorama cultural brasileiro entre 1964 e 1969. Assinala, além de
luta, um compromisso. Pois bem, essa passagem de Cultura e Política, 1964-1969
(Schwarz, 1970) ilustra precisamente um paralelo entre aquilo que hoje a
esquerda tem dito sobre as denominadas lutas identitárias e o que a esquerda
marxista brasileira vivia nos primeiros anos da ditadura. Naquela época, o
marxismo também se tornou um modismo. Nenhum intelectual da esquerda considerou
que as pautas e reivindicações da esquerda deveriam se dissolver em função de
tal modismo simbólico; ao contrário, o modismo inclusive foi aproveitado para
servir como uma maneira válida, ainda que parcial, de resistir à exploração da
classe dominante. Não raro vemos agora intelectuais da esquerda desqualificarem
feminismos (mesmo os feminismos marxistas), as análises decoloniais,
pós-colonialistas ou queer, alegando tal modismo e a suposta abertura de espaço
ao neoliberalismo. De outro lado, não renunciam a se colocarem como mercadorias
nas plataformas digitais ou outras instâncias de poder que dão visibilidade e
difundem seus trabalhos, mesmo quando estas obedecem à lógica mais predatória
do capitalismo. É impossível renunciar totalmente a elas no sistema em que
vivemos. Então de onde vem tal condenação? Bem, o capitalismo pode ter
absorvido em parte as pautas denominadas identitárias para revestir-se de
humanitário, mas reduzir e culpabilizar os feminismos, as pautas decoloniais ou
queer pelo neoliberalismo é um salto capcioso. Uma coisa é a crítica do que as
redes sociais vinham fazendo até pouco tempo com os diferentes nichos de
mercados – e isso já mudou com o anti-wokismo, infelizmente – e o que empresas
também utilizaram para cooptar certas lutas. Outra coisa, bem diferente, é
desqualificar as próprias lutas e os discursos pelo fato de eles terem sido
parcialmente absorvidos em algumas esferas de interesse do mercado e do poder
institucional. Muitos intelectuais “críticos” nem se dão ao trabalho de estudar
ou mergulhar no que tem sido arduamente construído por muitos/as teóricos/as e
intelectuais que utilizam marcadores sociais em suas análises. Alguns poucos
intelectuais da esquerda tradicional leem o suficiente para desqualificar
rapidamente e voltar ao mesmo lugar. Só consigo concluir que estão mais
preocupados em não perder poder e espaços antigos de privilégio e prestígio. Na
minha visão, o avesso da crítica é a desqualificação. Ela é a sombra do
trabalho intelectual. O trabalho intelectual, se ele mantém-se alinhado à
dialética, implica um mergulho nos discursos para separar o joio do trigo e contribuir
para uma espécie de movimento da crítica pelas mediações, pelos detalhes, pelas
contradições e impasses. Pegar tudo em bloco – feminismo, decolonial, queer,
lutas identitárias – e jogar no lixo é um movimento, a meu ver,
anti-intelectual. Agora a esquerda quer culpabilizar feministas pela divisão da
pauta de classe – me parece um absurdo. Desde Engels e Marx sabe-se que a
primeira divisão de classes se deu pela divisão sexual do trabalho… Só posso
desconfiar de tal narrativa e, como disse, a atribuo a uma atual disputa de
poder entre a própria classe intelectual, o que é lamentável.
• No diálogo crítico com Maria Rita Khel,
a certa altura você escreve “velhas fórmulas psicanalíticas ou marxistas usadas
de maneira judicativa desqualificante não cabem mais”. Esse problema não
poderia ser elaborado de outra maneira, que não o conduza à chave entre velho e
novo? Sinto que essa dicotomia pode reduzir a discussão a uma espécie de busca
por atualizar o antigo, como se a questão fosse que os antigos não se
atualizaram e ficaram obsoletos. Contra isso, eu diria que acho extremamente
atual não querer entrar no século XXI
Eu
diria que, sim, o mundo digital reconfigurou o mundo a tal ponto que o universo
da sensibilidade se contraiu e essa é uma perda desastrosa. Mas lembro sempre
da frase pronunciada por minha amiga Lívia Santiago Moreira que cita Adam
Phillips em sua pesquisa sobre as patologias da ficção, na qual mostra os
limites das ficções que sustentaram a modernidade e o patriarcado: “se a única
resposta possível é a catástrofe, está faltando uma teoria, uma outra ficção”.
Acho que não querer entrar no século XXI também indica uma renúncia de inventar
uma outra ficção. Para a Marilena Chaui que fez um arco monumental de análises
críticas como filósofa brasileira esta resistência a entrar no novo século
certamente é perdoável, mas para nós não acho um bom caminho… Ainda há muito
trabalho inventivo pela frente e talvez seja melhor salvaguardar a alegria de
inventar novas ficções do que a melancolia da crítica.
• Você poderia explicar melhor este último
ponto?
Quando
você menciona a entrevista dada pela Profa. Marilena Chaui, temos que
considerar que ela ocorreu após o artigo Contra calúnia, no qual ela defendia
Boaventura. Recorrer à erudição na defesa de um amigo, cuja posição social e
política, em muitos aspectos, corresponde à dela, sem que tenha havido um
mergulho efetivo nas narrativas sobre o que aconteceu e nos meandros das
situações, nos artigos escritos pelas mulheres em questão, nas ideias e nos
argumentos delas em contraste com os dele, indica uma identificação e não uma
análise crítica. Quando, na crítica, não há dedicação às mediações e aos
processos, concluo que houve desqualificação por mera identificação de classe e
de lugar de poder com colegas e pares, válido para o âmbito privado íntimo. Na
esfera pública, me entristece que o trabalho intelectual sirva a esse fim. Vira
apenas uma canetada.
Ademais,
é preciso considerar igualmente que um capitalismo de guerra, ideologicamente
nacionalista, volta-se às pautas ditas identitárias e as coloca como alvo
central de ataque. Recentemente, o anti-wokismo estadunidense, por mais
paradoxal que seja, deu aval ao conservadorismo existente na esquerda, que
também aparece muitas vezes alinhado ao patriarcado e a processos
colonialistas.
O que
considero extremamente complicado é essa desqualificação das pautas ditas
identitárias por parte de intelectuais e militantes de uma esquerda
tradicional, pois grande parte das feministas e populações dissidentes se
alinhavam à esquerda, mas vêem-se atacadas por apresentarem outras camadas que
estremecem lugares de poder na esquerda tradicional. Então, sim, fiz aquela
divisão entre “lutas ditas identitárias e esquerda tradicional” em meu artigo
em diálogo com a Maria Rita Kehl, mas acho uma tristeza assistir a essa
subdivisão, que, insisto, não é causada pelas feministas. Um último ponto que
queria acrescentar a essa problemática é um tipo de discurso da
intelectualidade da esquerda tradicional que não cola mais em razão de uma
crítica – ou ataque – que a extrema-direita tem feito em relação a uma certa
hipocrisia que circunda lugares de privilégio da classe intelectual acadêmica.
Como vimos acima, a partir do exemplo de Roberto Schwarz, no passado a classe
intelectual e artística seguiu livre à esquerda mesmo com o poder nas mãos da
extrema-direita. Por que a direita atual já mirou as universidades e a classe
intelectual? Porque há lugares de poder, privilégios e prestígio entre
acadêmicos que a extrema-direita, infelizmente, não quer mais deixar de lado. É
verdade que houve uma precarização do trabalho acadêmico, mas ainda – e
felizmente é assim – é um lugar com privilégios, prestígio e poder simbólico
relevantes. Nessa conta de poderes e privilégios acadêmicos, que já se perdeu
bastante em função do avanço tecnológico e não das lutas tidas como
identitárias, o discurso tradicional de esquerda, elaborado por intelectuais,
não admite ou não enxerga seu próprio poder e se interpreta quase como uma
espécie de proletariado ou como uma parcela neutra ao lado da classe oprimida.
Isso claramente não se sustenta… Recentemente li “Breve história do conflito
Israel-Palestina”, de Ilan Pappe. Ali fica claro como a criação das
universidades em Israel respaldou a ideologia sionista colonizadora por meio de
argumentos sobre justiça. Alegar que a academia tem professores destituídos de
poder e que só fazem pesquisa, escrevem e ministram aulas em um lugar quase
análogo ao da classe trabalhadora ou apenas ao lado desta é uma falácia.
Subestimar ou esconder o poder da posição do intelectual, que tem respaldo
institucional acadêmico, é apenas uma forma de manter intacto tal poder sem dar
bandeira para não perdê-lo. Pautas identitárias entraram na academia e um grupo
de intelectuais viu seu lugar de poder estremecido. Ao invés de abrir um campo
comum, começaram a desqualificar lutas e discursos que também têm no horizonte
a igualdade, a justiça, a resistência contra a opressão… Acho isso muito
triste.
• Entendo que iniciativas como a criação
do GEPEF se inserem nesse campo de reflexão sobre a implicação e a consequência
do trabalho intelectual na luta política. Sempre interpretei suas reflexões
sobre o problema das formas pelas quais se dão o trabalho intelectual na luta
de classes, como sendo um “cuidado benjaminiano”. E, para não cair na ideia de
“perguntar ao intelectual sobre os futuros da política das esquerdas”, queria
poder perguntar sobre suas experiências políticas e o seu balanço sobre a situação
da organização política dos trabalhadores intelectuais nos últimos anos.
O
trabalho intelectual de feministas, que ajudei a organizar por meio do Grupo de
Estudos, Pesquisas e Escritas Feministas, é uma forma de resistência tanto ao
patriarcado ostensivo da extrema-direita quanto ao patriarcado subterrâneo da
esquerda – e aqui não serve recorrer à categoria mulher para falar de
feminismo, pois há muitas mulheres que ocupam posições análogas às de
esquerdomachos. A resistência política por meio da abertura de espaços de
pensamentos, escritas, estudos e difusão é uma resistência vagarosa porque não
pode e nem quer ser panfletária. Ela opera no plano simbólico, criando espaços
discursivos que sustentam posições de resistência à violência e às injustiças
de gênero, sem renunciar à interseccionalidade, ou seja, sem desconsiderar as violências
de classe e raça que se alinhavam às de gênero. É um trabalho político de
bastidores e às vezes abre caminhos institucionais para mostrar sua voz, mas
não se adequa aos interesses estruturais das instituições.
• Lendo o seu último artigo publicado, “A
palavra das mulheres como phármakon: uma leitura arqueológica”, não pude deixar
de pensar nos seus trabalhos sobre a vulva, principalmente sobre o “sufocamento
da lógica da vulva”, amplamente discutido em dossiê organizado para a revista
Cult em 2024. Me parece que esta sua investigação percorre suas reflexões e
configura uma espécie de projeto político-epistemológico de apontar essas
supressões e conceder a consistência real dessas modalidades de linguagem e
saber soterradas pelo discurso dominante. Há um livro novo seu em que você
sistematiza esses seus últimos trabalhos mais recentes sobre a vulva em caminho
de lançamento. Você pode falar um pouco sobre ele e da história da sua relação
com esses estudos?
A
pergunta exigiria uma quantidade imensa de desdobramentos, mas prefiro convidar
o leitor da entrevista a ler o artigo citado por você que saiu na Revista
Kriterion no ano passado e o livro Discursos da Vulva, que sairá em breve pela
Editora Cult. De qualquer modo, posso dar algumas indicações desses estudos
aqui. Em primeiro lugar, a misoginia é algo seríssimo e não é possível diminuir
ou desqualificar o que mulheres elaboraram nas três principais ondas feministas
e em suas mais amplas vertentes de pesquisas e lutas. Quando um intelectual
resiste a esse ramo de pensamento, não o considero como alguém relevante na
atualidade. É grave. É como se um intelectual fizesse de conta que o
estruturalismo ou o materialismo-histórico-dialético é irrelevante; por isso,
talvez, essa minha espécie de decepção em relação a alguns intelectuais que
antes admirava. Muitos deles não se deram ao trabalho de fazer uma revisão
bibliográfica mínima e emitem seus juízos sem nenhum constrangimento por terem
poder de fala já conquistado. É um desserviço para uma posição que se diz
comprometida com a igualdade e a emancipação, como já disse. Tal atitude revela
muito mais uma defesa psíquica, ela mesma parte de processos de apagamentos
detectados pelos diferentes feminismos e pelos estudos antirracistas,
decoloniais e/ou pós–colonialistas. Hoje, porém, uma defesa psíquica de recusa
não é justificável. O trabalho psíquico também tornou-se uma exigência
importante para uma boa produção intelectual, pois a subjetividade deve
igualmente estar à altura de nosso tempo. Ou seja, se está psiquicamente
defendido, atacando uma pluralidade gigantesca de estudos, reflexões e lutas
atuais, também é necessário cuidar disso em análise… Não que não possa haver
crítica, mas a crítica deve ser devidamente trabalhada, o que lamentavelmente
não é o que tem ocorrido – mas acho que já falei sobre esse ponto. Além de
psicanalista, tenho uma herança benjaminiana muito forte na minha formação
filosófica. A partir dela considero importante destacar a origem dos conceitos
na história. Origem não é o encontro de uma data ou de um ponto específico da
gênese de algo, mas uma dynamis a partir da qual o conceito hoje reescrito é
capaz de encontrar sua universalidade nas tramas da história. Como mulher
feminista refleti sobre um modo específico de desqualificação da mulher:
acusá-la de sedutora e colocar o lugar da beleza como um elemento superficial e
fútil. Claro que a beleza e a sedução podem recair em algo narcísico, ligado ao
feminino que se presta a ser mero objeto ao olhar do Outro – não sei se isso
também é tão simples assim, mas enfim. Entretanto, a beleza e a sedução têm uma
importância histórica, social, filosófica e subjetiva indiscutível. Por que
esses dois aspectos recebem juízos tão pejorativos quando atrelados à mulher,
sendo que constatamos de maneira indiscutível o poder da beleza e da sedução
nas relações e na vida humana? Lendo Os usos do erótico, de Audre Lorde,
comecei a refletir sobre os campos eróticos e vivos das mulheres que são
minados pelos discursos misóginos. Rastreando a origem desse problema, observei
que foi a condenação da sofística pelos filósofos que primeiro condenou o lugar
da sedução e depois desqualificou por completo o lugar das mulheres, o que pude
detectar por meio de uma recuperação arqueológica da mulher mais bonita do
universo clássico, Helena, e de Aspásia, uma intelectual sedutora e
inteligentíssima desqualificada por homens em diferentes peças teatrais e
discursos. Com a vulva obtém-se outro aspecto fundamental para a psicanálise
hoje: a vulva não é a falta do pênis ou do falo, como sempre se indicou pela
ideia da ameaça de castração. A vulva é apenas uma outra cadeia de linguagem. É
a essa outra cadeia de formas e linguagens que busco dar voz em meu novo livro
por meio da psicanálise, da estética e do feminismo. Estou ansiosa para ter
essa nova obra em circulação.
Fonte:
Por Marcel Souza, em Outras Palavras

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