SUS
e a urgente disputa pelo imaginário
Era uma
entrevista como outra qualquer. Ailton Krenak para a entrevista repentinamente.
Faz-se um silêncio mortífero. Alguns segundos depois, dispara ao seu
interlocutor: “nós estamos em guerra. Eu não sei por que você está me molhando
com essa cara tão simpática. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. Os
nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que
nós temos paz, é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando”.
O
episódio certamente passou despercebido para a grande maioria, mas é de uma
intensidade única. O indígena expressou o que, na velocidade de um lampejo,
tomou sua consciência: a constatação inequívoca de uma guerra colonial de mais
de 5 séculos perpetrada pelos grupos dominantes, colonizadores, contra seu povo
e todos os povos originários destas terras que vieram chamar de Brasil. Ele
sabe, mais do que ninguém, que a guerra secular não acabou, e que é contra
todos que estão fora do pequeno círculo que controla os grandes conglomerados
econômicos.
Essa
guerra vem assumindo ao longo dos anos diferentes formas e lugares. É mais
complexa, institucionalizada, com outros atores econômicos e políticos. Hoje,
se organiza em torno de um projeto neoliberal, que tem uma forte base
operacional no colonialismo. Pressupõe desmontar os organismos de governança
internacional como ONU e Organização Mundial de Saúde; hegemonizar a justiça
internacional com ações ilegítimas sobre juízes que visam substituí-los no
Tribunal Penal Internacional (TPI); e pelo poderio militar subjugar nações e
povos, para expropriá-los das suas riquezas.
Os
efeitos se fazem sentir desde já, com as ações mais recentes do atual governo
estadunidense. A ONU declara o iminente colapso financeiro, o TPI se alinha
majoritariamente aos interesses do império, governos de vários países se sentem
ameaçados. Tudo isto encontra correspondente nas forças de extrema-direita
bolsonarista e seus aliados no Brasil, que disputam o país para entregá-lo a
este projeto de dominação imperial. As eleições brasileiras estão
inequivocamente internacionalizadas. Seria ingênuo não pensar assim.
É esta
dimensão internacional da disputa política deste ano de 2026 que não podemos
esquecer. Hoje, há formas sofisticadas de expropriação das riquezas do país, da
economia popular. Começa pela mercantilização dos corpos e produção do sujeito
da concorrência, como tem sido a reestruturação econômica em curso via
universalização do trabalho por aplicativos. Ela se associa a outras formas de
financeirização da vida, com a expansão da figura do empreendedor: geralmente
trabalhadores que se lançam ao canto de sereia do neoliberalismo, tomados pela
falsa ideia de liberdade. O que os espera é a “escravidão moderna”, onde os
grilhões são invisíveis, mas cruéis, porque aprisionam o desejo, tiram-lhes a
potência de lutar, a alegria e a esperança coletiva de mudança.
O
objetivo da extrema-direita bolsonarista é o entregar o Brasil e suas riquezas,
para suprir a ganância global e infinita de acumulação de riquezas que está
associada ao projeto neoliberal, e se colocar como sócia minoritária neste
negócio. Sem compromissos com a democracia e a soberania do país, menos ainda
com as necessidades da população, manipulam a consciência nacional para aqui
instaurar um governo autocrático, se necessário for, através de golpes com se
tentou fazer em 8 de janeiro de 2023.
Neste
ano, o que se fizer no âmbito das políticas públicas vai estar de alguma forma
sintonizado com a disputa que se abre pelos destinos do país. As eleições
presidenciais de outubro desenharão o futuro do Brasil e de seu povo. Dois
projetos antagônicos se colocam em disputa. Um deles capitaneado pela
extrema-direita bolsonarista, que já mostrou a que veio, quando o governou no
período de 2019 a 2022.
Entre
muitos desmandos, repressão e dor, este governo tratou a crise sanitária da
pandemia de covid-19 com absoluto desdém ao sofrimento e à vida alheia. De
forma criminosa, imperou o negacionismo científico pelo governo, que se colocou
contra as medidas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde e a ciência.
Isto já é por demais sabido, mas é preciso trazer sempre à memória, para que
nunca mais aconteçam episódios como o que assistimos: a expressão mais cruel de
mortes múltiplas, corpos enterrados em valas comuns, número exorbitando de
óbitos, sequelados, e órfãos deixados pela covid-19. O negacionismo é um
projeto, que tinha como objetivo o favorecimento à atividade econômica, e não a
defesa da vida. O neoliberalismo, como ideologia e modo de vida, leva a estes
extremos – e é uma ameaça à própria existência.
Após as
cenas brutais do sofrimento de filhos, mães, pais, avós que enterravam seus
mortos em decorrência da ação criminosa do governo na pandemia, o projeto
liberal-fascista representado pelo bolsonarismo é derrotado nas eleições
presidenciais. No entanto, nos anos seguintes, consegue manter uma base
institucional e social ativa.
A
guerra colonial da qual nos fala Krenak é a mesma que travamos hoje. Antes
contra o império português e inglês, hoje contra o império de corporações,
existentes dentro do Brasil, que mantém práticas colonialistas e patriarcais –
os dois pilares de sustentação do regime de opressão atual. Associados aos
interesses imperialistas, operam com os grandes conglomerados financeiros
globais: das commodities como petróleo e minerais raros, da extraordinária
força das big techs, das mídias. Usam de manipulação de linguagem, cada vez
mais complexa e popularizada. Como diz a epígrafe deste texto, a política é a
expressão da guerra. A guerra que toma o planalto é a mesma que se trava na
planície. E cada vez mais assume características de uma guerra colonial.
Teremos
uma disputa política extremamente polarizada, como preveem em Biografia do
Abismo (2023) Felipe Nunes e Thomas Traumann. Os autores usam o conceito de
“calcificação” política, para expressar a ideia de que, no Brasil, a
radicalização é tão grande que o pensamento se forma não apenas como uma
racionalidade sobre o mundo da vida, mas se converte em afeto, amor e ódio. O
efeito nefasto imediato é a interdição do debate político. Não há escuta ou
debate.
As
fontes de informação são exclusivas, as verdades fabricadas nas bolhas entre
iguais, a força identitária marca as relações entre pessoas que circulam apenas
entre si. Há pouca margem de convencimento, porque há poucos disponíveis para
trocas de ideias e formação coletiva de pensamento sobre o projeto de Brasil.
Isto explica em parte o fato de que, apesar de culpado pela grande catástrofe
humanitária da pandemia, exaustivamente exposta, o bolsonarismo não sofreu uma
grande derrota capaz de o apagar do imaginário social. Está vivo e ativo.
Este
cenário apenas se modificará diante de uma experiência coletiva forte o
suficiente, que seja capaz de mudar o imaginário na sociedade. Isto só acontece
quando há um terremoto social e político, que provoque o deslocamento do
pensamento sobre o mundo, ative o desejo de mudança. Precisamos produzir uma
experiência nesta direção. O SUS tem uma enorme força e energia pautada na
solidariedade entre os povos. Sua principal insígnia, a defesa radical da vida,
é antes de tudo um brado anticapitalista. Lembremos disto!
Fonte:
Por Túlio Batista Franco, em Outra Saúde

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