Cannabrava:
Oriente Médio em chamas
Estados
Unidos e Israel deram início a uma ofensiva direta contra o Irã, elevando o conflito regional a um
patamar de guerra aberta. Para o presidente iraniano, não se trata apenas de um
ataque ao seu país, mas de uma agressão contra o mundo muçulmano, especialmente
contra os xiitas espalhados por diversas regiões. A Conferência Nacional
Pan-Árabe também qualificou a ação como uma agressão contra toda a nação árabe
e muçulmana. Ao classificar o episódio como uma declaração formal de guerra,
Teerã afirmou que a vingança e a responsabilização dos autores e mandantes do
ataque constituem um dever e um direito legítimo da República Islâmica.
Na
agressão, além da morte do aiatolá — líder supremo que estava no poder desde
1989 —, centenas de pessoas perderam a vida. Multidões tomaram as ruas das
principais cidades iranianas em luto. Enquanto isso, parte da mídia brasileira
tratou o episódio com frieza ou desprezo, ecoando uma narrativa que naturaliza
a violência quando dirigida contra países considerados adversários do Ocidente.
A vida humana, no entanto, não pode ser hierarquizada segundo interesses
geopolíticos. O sofrimento das vítimas não é seletivo.
A
resposta iraniana veio de forma imediata. Teerã anunciou ataques contra bases
militares e barcos de guerra dos Estados Unidos na região e lançou mísseis
contra alvos israelenses. O conflito entrou em uma fase de retaliações
sucessivas, com risco real de expansão. O fechamento do Estreito de Ormuz — por
onde transita cerca de um quarto do petróleo e do gás consumidos no mundo —
projeta impactos severos sobre o preço da energia e sobre a economia global.
Trata-se de um ponto nevrálgico do sistema energético internacional; qualquer
interrupção ali repercute em todos os continentes.
Internamente,
o sistema político iraniano não ficou acéfalo. O aiatolá Alireza Arafi assumiu como líder interino. O Conselho de
Segurança e demais instâncias previstas pela estrutura teocrática assumiram
provisoriamente a condução do Estado enquanto se organiza o processo
sucessório. Há vários nomes em disputa, e a transição tende a ocorrer dentro
das regras estabelecidas pelo próprio regime. Ao contrário do que sugerem
análises apressadas, o país demonstra coesão institucional diante da agressão
externa.
Analistas
internacionais divergem quanto ao desfecho. Alguns avaliam que uma guerra
prolongada pode desgastar os Estados Unidos em mais um teatro de operações no
Oriente Médio. O que é inequívoco é que a escalada atual representa uma
violação grave dos princípios que deveriam reger as relações internacionais. A
Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso unilateral da força, parece cada vez
mais ignorada quando os interesses das grandes potências entram em jogo.
O mundo
assiste a mais um episódio que expõe a fragilidade da ordem internacional
construída no pós-guerra. Se prevalecer a lógica da força bruta, substituindo o
direito internacional por decisões unilaterais, abre-se caminho para um ciclo
de instabilidade permanente. O conflito não é apenas regional; suas
consequências são globais — econômicas, políticas e humanitárias. É a própria
ideia de convivência entre nações soberanas que está em xeque. E, repetimos, só
haverá paz no mundo quando se deter a voragem do imperialismo.
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Guerras por procuração: a nova geometria do conflito
global. Por Maria Luiza Falcão
A
guerra voltou ao centro da política internacional — mas não da forma clássica
que marcou o século XX. Não estamos diante apenas de confrontos diretos entre
Estados, tampouco de intervenções coloniais abertas. O que se consolida é algo
mais complexo e mais perigoso: a normalização das “guerras por procuração” como
instrumento estrutural da disputa entre grandes potências.
O
conflito na Ucrânia e a escalada envolvendo o Irã não são episódios isolados.
São expressões de uma nova geometria do conflito global, em que as potências
evitam o enfrentamento direto — sobretudo quando há risco nuclear —, mas
externalizam a disputa para territórios estratégicos.
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A
guerra já não é declarada como guerra mundial. Ela é fragmentada, terceirizada,
financeirizada e tecnologicamente mediada. E, exatamente por isso, torna-se
mais difícil de conter.
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A Ucrânia e a guerra como arena sistêmica
A
invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, foi um ato clássico de guerra
interestatal. Tanques cruzaram fronteiras, cidades foram bombardeadas, a
soberania foi violada. Não se tratou de um conflito indireto.
Mas, à
medida que o confronto avançou, ele assumiu uma dimensão estrutural distinta. O
apoio maciço da OTAN — financiamento, armamentos sofisticados, inteligência
estratégica, treinamento militar — transformou o território ucraniano em arena
de disputa ampliada entre Moscou e o Ocidente.
Não se
trata de negar a agência ucraniana. Kiev resiste por decisão própria e por
projeto nacional. Mas é impossível ignorar que o conflito passou a operar como
espaço de contenção estratégica da Rússia pelo bloco atlântico.
Para
Moscou, a guerra deixou de ser apenas contra a Ucrânia e passou a ser
enquadrada como enfrentamento contra o “Ocidente coletivo”. Para Washington e
seus aliados, tornou-se mecanismo de desgaste prolongado da capacidade militar
e econômica russa.
É nesse
ponto que o conceito de guerra por procuração ganha relevância. A linha de
frente está em solo ucraniano, mas a disputa de poder é mais ampla. A guerra é
direta — e, ao mesmo tempo, indireta.
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O Oriente Médio e a lógica da intermediação permanente
Se o
caso ucraniano revela a dimensão sistêmica das guerras por procuração, o
Oriente Médio mostra sua institucionalização histórica.
O Irã
construiu, ao longo de décadas, uma rede de alianças e milícias regionais — do
Hezbollah, no Líbano, a grupos no Iraque, na Síria e no Iêmen — que lhe permite
projetar influência sem recorrer necessariamente ao confronto convencional
direto.
Do
outro lado, Estados Unidos e Israel operam sua própria arquitetura de alianças
militares, apoio logístico e presença estratégica.
Quando
ataques ocorrem por meio de milícias, drones ou operações indiretas, estamos
claramente diante de guerras por procuração. Quando há bombardeios diretos
entre Estados, a lógica muda: o conflito deixa de ser terceirizado e passa a
ser confronto aberto.
A
fronteira entre essas duas dinâmicas, porém, tornou-se cada vez mais fluida.
Milícias recebem tecnologia estatal avançada. Estados utilizam atores não
estatais para manter “negabilidade plausível”. A guerra desloca-se para a zona
cinzenta — onde responsabilidade e autoria se tornam difusas.
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Da Guerra Fria à fragmentação multipolar
Durante
a Guerra Fria, as guerras por procuração eram parte explícita da rivalidade
bipolar entre Estados Unidos e União Soviética. Coreia, Vietnã, Afeganistão,
Angola: territórios locais convertidos em palcos da disputa ideológica global.
Após
1991, acreditou-se que essa lógica perderia centralidade. A unipolaridade
americana parecia reduzir a necessidade de intermediação militar indireta.
Intervenções passaram a ser mais abertas — Iraque, Afeganistão, Líbia.
O que
observamos agora é diferente. Não há bipolaridade rígida, mas também não há
hegemonia incontestável. Há uma fragmentação de poder em que múltiplos polos
evitam o confronto direto e operam por meio de alianças, sanções, apoio militar
indireto e guerra tecnológica.
O risco
nuclear continua funcionando como freio estrutural ao choque frontal entre
grandes potências. Mas esse mesmo freio estimula a expansão das guerras por
procuração.
É uma
estabilidade paradoxal: evita-se a guerra mundial direta, mas multiplicam-se
conflitos regionais prolongados.
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A economia política da guerra terceirizada
Há
também uma dimensão econômica que não pode ser ignorada.
Guerras
por procuração:
- reduzem o custo
político doméstico para as potências centrais;
- transferem o
custo humano e material para territórios periféricos;
- alimentam
complexos industriais-militares;
- reforçam
dependências financeiras e militares.
O
financiamento da guerra na Ucrânia, por exemplo, movimenta cadeias industriais
inteiras no Ocidente. No Oriente Médio, o ciclo de insegurança permanente
sustenta gastos militares bilionários.
A
guerra deixa de ser apenas um evento militar. Torna-se mecanismo de
reorganização de fluxos de capital, inovação tecnológica (drones, inteligência
artificial militar, sistemas de defesa) e controle de recursos estratégicos.
Em vez
de paz estruturada, consolida-se uma economia política da instabilidade
controlada.
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O mundo como campo de disputa indireta
O que
une Ucrânia e Irã não é a identidade dos conflitos, mas a forma como ambos
revelam uma transformação estrutural do sistema internacional.
As
grandes potências já não operam apenas por diplomacia ou comércio. Tampouco
assumem frontalmente a guerra total. Operam por intermediação.
Essa
nova geometria tem três características centrais:
- Primeiro, a
dispersão territorial do conflito. A disputa não se concentra em um único
teatro, mas se espalha por múltiplas regiões;
- Segundo, a
diluição de responsabilidades. Atores estatais e não estatais se
entrelaçam;
- Terceiro, a
normalização da instabilidade prolongada como instrumento de poder.
Não se
trata de um retorno simples à Guerra Fria. Trata-se de algo mais fragmentado,
tecnologicamente sofisticado e potencialmente mais imprevisível.
A
ampliação dessa dinâmica não pode ser dissociada da forma como lideranças
políticas têm instrumentalizado a retórica da negociação enquanto expandem
pressões militares e econômicas. Sob o discurso de restaurar a força e impor
acordos “melhores”, Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, reforçou o
uso de sanções como arma geopolítica, estimulou aliados regionais a adotarem
posturas mais agressivas e enfraqueceu mecanismos multilaterais de contenção. A
diplomacia, nesse contexto, deixa de ser espaço de construção de confiança e
passa a operar como extensão da coerção. O resultado não é pacificação, mas
intensificação de conflitos indiretos sob o manto da negociação permanente.
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Entre a dissuasão e o abismo
O
paradoxo central é inquietante.
As
guerras por procuração são, em parte, resultado do medo da escalada nuclear
direta. Elas funcionam como válvula de contenção entre grandes potências.
Mas, ao
mesmo tempo, acumulam tensões, ampliam ressentimentos e tornam o sistema mais
volátil.
Quando
múltiplas guerras indiretas se sobrepõem — Ucrânia, Oriente Médio, tensões no
Indo-Pacífico —, o risco de erro de cálculo aumenta exponencialmente.
A nova
geometria do conflito global não elimina a possibilidade de choque direto. Ela
apenas o adia — enquanto multiplica as fraturas.
E
talvez seja esse o traço mais perturbador do nosso tempo: a guerra já não
explode de uma vez. Ela se infiltra, se prolonga, se terceiriza e se normaliza.
O mundo
não está em paz.
Está em
disputa permanente
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“Estamos preparados para as piores situações possíveis”,
diz embaixador do Irã no Brasil
O
embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, disse que seu país está
preparado para uma guerra de longa duração com os EUA e com Israel. “O Irã está
pronto para todas as situações possíveis”, disse, ao responder uma pergunta
minha durante uma coletiva de imprensa na manhã de hoje.
A
resposta de Nekounam poderia ser fruto da retórica de guerra e, por isso,
perguntei a Robinson Farinazzo, capitão de fragata da Marinha do Brasil, hoje
na reserva, como ele interpreta essa frase, se o Irã tem mesmo capacidade de
resistir ao ataque prolongado. “Esta é a pergunta de um milhão de dólares”,
respondeu Farinazzo, autor do Canal Arte da Guerra, em entrevista à TV 247.
Mas ele
entende que o Irã está “bem guarnecido”, porque conta com apoio da China.
“A
China está fornecendo informações de satélite para o Irã. Essas informações são
importantíssimas porque você tem a localização de latitude e longitude dos
navios, você tem a situação das bases aéreas, se elas estão ocupadas ou não, se
vale a pena atacá-las ou não. Provavelmente a China tem escutas das
conversações americanas. Ou seja, tudo aquilo que a NSA fornece para a Ucrânia,
a China, provavelmente, está fornecendo para o Irã”, analisou.
E
lembrou o caso da apreensão de um navio chinês no oceano Índico carregado de
perclorato de sódio que se dirigia para o Irã. Trata-se de um composto químico
que pode ser usado como combustível de míssil. Normalmente, se usa para essa
finalidade o perclorato de amônia, mas, como o Irã está sancionado e não
consegue comprar no mercado, o país persa, na visão do militar, deve estar
usando o componente alternativo para estocar combustível essencial para seus
mísseis.
Segundo
ele, fontes israelenses dão conta de que a China já tinha fornecido mais de mil
toneladas de perclorato de sódio ao Irã. “Se isso aconteceu, enquanto tiver
bambu, tem flecha”, comentou, lembrando a “frase infeliz” de Rodrigo Janot, o
padrinho da Lava Jato. “Se isso aconteceu mesmo, o Irã tem munição aí para
muito tempo”, acrescentou.
O Irã
também trocou o GPS e passou a usar os sistemas da China e Rússia, no lugar de
satélite dos EUA, que agora têm muita dificuldade de rastrear e neutralizar os
mísseis iranianos. Talvez seja este o motivo da derrubada de três caças
norte-americanos nesta segunda-feira.
A
derrubada foi atribuída à força aérea do Kwait, mas ele diz que “talvez não
seja”. “O questionamento é se o Irã consegue jamear (jamear significa
interferir) no sistema de radar AGP 81 da força aérea americana. Se aconteceu
isso, se o Irã tem todas essas capacidades, você pode apostar numa guerra
longa”, elaborou Farinazzo.
De
volta à coletiva do embaixador do Irã, que aparentou muita tranquilidade. Com
um tom de voz baixo e falando pausadamente, Abdollah Nekounam falou sobre a
capacidade militar de seu país.
Ele
disse que, em razão das sanções dos EUA e do Ocidente, o Irã atingiu a
autossuficiência e uma produção de qualidade em vários setores da indústria,
inclusive militar.
“Nós
temos equipamentos militares de alta qualidade. Vocês se lembram que, alguns
meses atrás, um dos países que nos atacaram (Israel) estava querendo copiar o
sistema de nossos drones, devido à sua alta qualidade”, pontuou.
O
embaixador não respondeu à pergunta se acreditava que a guerra contra o Irã tem
como alvo a China e seu projeto de infraestrutura conhecido como Rota da Seda,
que encurtará as distâncias para outros mercados. Ele sugeriu que esta pergunta
seja feita ao governo chinês.
“O que
nós podemos dizer é, primeiro, que nós estamos numa situação geopolítica
complexa. E que o que acontece no Irã moldará as decisões futuramente no mundo
inteiro. Alguns países, principalmente os Estados Unidos, buscam o
unilateralismo. Mas acredito que tem uma visão no mundo de que nós já passamos
dessa visão unilateral”, afirmou.
E
voltou a falar sobre como seu país encara esta guerra. “O Irã está pronto para
as piores situações”, arrematou.
Fonte:
Diálogos do Sul Global/Brasil 247

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