A
entrega de direitos humanos por mísseis
No
início deste ano, forças militares estadunidenses impuseram terror em solo
venezuelano, bombardeando diversas partes do país e sequestrando o seu líder.
Em uma coletiva de imprensa na Flórida, Donald Trump, o incumbente do império,
não apenas voltou a acusar Nicolás Maduro de “narcoterrorismo”,
responsabilizando-o pela chefia de um cartel inexistente e pela entrada de
“quantidades colossais de drogas ilícitas mortais” nos EUA, mas também adotou
um tom humanitário: “o povo venezuelano está livre novamente”.
Tornar-se-ia
este povo “rico, independente e seguro (…). Eles não vão mais sofrer”. A
preocupação com o povo venezuelano se estendeu ao cubano: “queremos ajudar o
povo de Cuba, queremos também ajudar as pessoas que foram forçadas a sair de
Cuba”. Sensibilidade escancarada em Marco Rubio, o seu secretário de Estado:
“se eu morasse em Havana e fizesse parte do governo, no mínimo estaria
preocupado”.
Um dia
antes, os olhos e o coração do representante do império estavam fixados em
Teerã. Mais precisamente para os protestos que ocorriam contra o governo
iraniano: “se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, o que
é o seu costume, os EUA virão em seu socorro. Estamos preparados e prontos para
agir”. Nos dias e semanas seguintes, os avisos e advertências bélicas
intensificaram-se. No final de fevereiro, os EUA e Israel atacaram o Irã.
Estamos
na presença de uma evocação missionária: trata-se, com efeito, de um país que
está atento aos quatro cantos do planeta, da América Latina ao Oriente Médio,
pronto para livrar os povos de ditaduras, repressão e assassinatos; ávido para
ajudá-los, socorrê-los, fazê-los ricos e levar-lhes a liberdade. Os Estados
Unidos seriam uma nação de valores – democracia, liberdade, direitos humanos e
livre mercado –, e estes precisam ser exportados.
E
quanto à soberania nacional de outros Estados? A causa humanitária é mais
importante! Pelo menos era nesses termos que já se pronunciava Bill Clinton,
quando Washington liderou operações militares da OTAN na guerra contra a
Iugoslávia em 1999: “agimos agora porque nos importamos em salvar vidas
inocentes; porque temos interesse em evitar uma guerra ainda mais cruel e
custosa; e por que nossos filhos precisam e merecem uma Europa pacífica,
estável e livre”.
No seu
discurso no Salão Oval à nação: “por causa da nossa determinação, o século XX
está terminando não com indignação impotente, mas com uma afirmação esperançosa
da dignidade humana e dos direitos humanos para o século XXI”. Estamos diante
de um marco importante na consolidação do discurso das “intervenções
humanitárias”, de acordo com Perry Anderson, em A política externa
norte-americana e os seus teóricos.
É a
doutrina do liberalismo beligerante – ou “liberalismo militante”, que dá nome a
um dos capítulos de seu livro –, fundamentada na retórica legitimadora das
“intervenções humanitárias” ou dos direitos humanos. Mais ainda: em muitos
casos, essa doutrina tem como modelo operacional o que Anderson chamou de
“guerra convencional não declarada”.
Além do
exemplo venezuelano – após os bombardeios, Donald Trump foi enfático: “Não, não
estamos [em guerra]” –, olhemos para o Iraque de Saddam Hussein: o país foi
alvo de um bloqueio econômico “sem precedentes por sua severidade na história
mundial”, como se orgulhava em dizer Sandy Berger, assessor de Segurança
Nacional de Bill Clinton.
Os
níveis de desnutrição e mortalidade, sobretudo a infantil, foram alarmantes –
um preço que valia a pena ser pago, de acordo com o secretário de Estado.
Quando, em 1998, o estrangulamento econômico, a injeção da fome, não causou
imediatamente o efeito esperado, Bill Clinton recorreu à causa da liberdade:
sancionou a Lei de Libertação do Iraque.
A
derrubada de Saddam Hussein tornou-se uma das prioridades da política externa
estadunidense. Juntamente com as sanções econômicas, fracassaram as operações
financiadas secretamente para varrer o governo iraquiano. A solução veio de
mísseis e explosivos: assim, em 1999, “cerca de 400 toneladas de artilharia
haviam sido lançadas sobre o Iraque”.
Nas
palavras de Perry Anderson, “nada dessa magnitude havia ocorrido antes”. Além
disso, “uma nova arma havia sido adicionada ao arsenal imperial” – a guerra
convencional não declarada.
Se, de
acordo com Perry Anderson, essa lógica se consolida com Bill Clinton, sobretudo
após o fim da Guerra Fria, quando os EUA se viram sozinhos como uma
superpotência planetária e puderam, a partir de uma ofensiva mais inequívoca,
pressionar outros Estados – inclusive, os aliados – a seguir as matrizes
(sobretudo econômicas) do liberalismo, outros presidentes darão novos
significados a essa doutrina.
Vejamos
Barack Obama, o Nobel da Paz. É sob a sua administração que o uso de drones
para aniquilar os inimigos – que muitas vezes são confundidos com mulheres e
crianças – se tornou uma marca registrada de Washington: “Barack Obama ordenou
um ataque desse tipo a cada quatro dias – dez vezes o número praticado sob
George W. Bush”.
Não
obstante, a promessa de moderação de Barack Obama em sua campanha à Casa Branca
– que criticava uma guerra atrás da outra –, o liberalismo beligerante se
materializou de maneira mais sofisticada sob a sua gestão.
Em
termos ideológicos e diplomáticos, a Operação Odisseia do Amanhecer – que
ajudou a destruir o Estado líbio – foi extremamente exitosa: conferiu uma
plataforma para a defesa dos direitos humanos no mundo árabe. Tratou-se, com
efeito, de uma intervenção militar-humanitária com o selo ONU, cujo Conselho de
Segurança, em 2011, autorizou o cumprimento de sua Resolução 1973: “todas as
medidas necessárias para proteger civis” líbios.
Foi um
esforço que envolveu outras nações do Ocidente liberal, sob a bandeira da OTAN
e a liderança de Washington: França, Reino Unido e Canadá. Mas não foi apenas a
Líbia a ser presenteada com os direitos humanos do Liberalismo beligerante do
império: Paquistão, Afeganistão, Somália e outros países também estiveram na
lista de destinatários.
Do
democrata ao republicano; do republicano ao democrata. De Bagdá a Trípoli. Dos Balcãs ao Golfo. Das advertências aos
mísseis e drones. Não se trata de um desvio ou de uma peculiaridade de
determinado governante (embora saibamos que os governos não são homogêneos).
Trata-se, com efeito, da política externa norte-americana e suas estratégias.
É o
liberalismo beligerante. Uma doutrina que se mostrou capaz de articular
retórica moral e capacidade destrutiva. É a linguagem dominante. Após a Guerra
Fria e com o colapso do bloco soviético, a gramática do liberalismo – direitos
humanos, democracia e livre mercado – tornou-se parte do vocabulário da força.
A promoção desses valores é executada numa ogiva, na ponta do míssil, ou por
drones.
Fonte:
Por Osnan Silva de Souza, em A Terra é Redonda

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