Bancos
e fintechs divergem sobre como evitar novos "Masters"
Maior
fraude bancária da história recente do Brasil, o colapso do Banco Master expôs
um rombo de mais de R$ 40 bilhões e levou a liquidação de pelo menos oito
instituições financeiras, além de jogar luz sobre um modelo de oferta de papéis
com retornos atípicos apoiado fortemente no Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Enquanto
o noticiário tem sido recentemente dominado pelas revelações das extensas
relações cultivadas no meio político e jurídico pelo dono do conglomerado,
Daniel Vorcaro, representantes do setor financeiro mostram discordância sobre o
que pode ser feito para evitar novos "Masters".
Nesta
terça-feira (03/02), Isaac Sidney Menezes Ferreira, presidente da Federação
Brasileira de Bancos (Febraban), defendeu que aperfeiçoar a regulação é a chave
para evitar casos como esse. "Não podemos deixar que a regulação fique
atrás da velocidade e do risco. Nós temos que caminhar para uma regulação
adaptativa. A regulação não pode ser estanque", disse Sidney.
Na sua
fala, Sidney também defendeu um debate estrutural sobre o sistema de garantias,
em especial o FGC, entidade privada formada por contribuições de instituições
financeiras para cobrir eventuais quebras.
O caso
Master mostrou um uso sistemático do FGC como chamariz para convencer clientes
a investir em títulos do banco, induzindo-os a acreditar que eram de baixo
risco.
"O
mecanismo não pode um instrumento de incrementar risco excessivo. O mecanismo
tem que ser um instrumento de estabilidade financeira. Se temos um sistema de
garantias que incrementa mais do que mitiga riscos, a regulação então está
defasada", afirmou Sidney.
"Nós
não podemos ter uma situação de que o mecanismo de garantia de depósitos seja a
primeira e última instância de proteção. Se nós tivermos uma jurisdição, em que
o mecanismo de garantia seja um substituto do regulador, acabou. O máximo que
podemos ter no FGC é um muro de contenção, e não como uma ferramenta em que há
uma confiança cega do investidor de simplesmente ignorar a placa do emissor e
os riscos – e não estou falando do caso Master especialmente. Essa é a
discussão que temos que fazer. Porque as crises não iniciam ou terminam como as
crises dos bancos tradicionais. Nós estamos diante de um ecossistema muito mais
amplo."
Sidney
fez as declarações durante o evento "Diálogos Internacionais
Brasil-Alemanha", que ocorre nesta semana na Universidade de Frankfurt, no
oeste alemão, e que é promovido pelo Dinter (Diálogos Intercontinentais).
Disputa
entre bancos e fintechs sobre o FGC
Num
recado que pareceu direcionado a plataformas de investimentos e fintechs que
ofereceram títulos do Master, o presidente da Febrabran, entidade que é
dominada por grandes bancos tradicionais, afirmou que "uma parte da
significativa da indústria bancária e financeira está suportando o
custeio" do FGC enquanto "outra parte significativa apenas usufrui do
uso". "É importante que nós não tenhamos uma concentração de custos
em alguns players e uso em outros", afirmou.
O valor
que cada banco precisa depositar no FGC está relacionado ao volume de depósitos
captados. Dessa forma, grandes bancos são normalmente os maiores contribuintes
do atual patrimônio de R$ 125 bilhões do FGC, enquanto plataformas de
investimentos, incluindo aquelas que ofereceram títulos do Master, não
contribuem.
E,
diante do tamanho do rombo do Master e dos bancos ligados ao conglomerado, já
se espera que o FGC faça uma chamada de capital aos bancos maiores para repor a
diferença.
Numa
aparente alusão à conta que esses bancos terão que arcar, Sidney afirmou
"nós não podemos viver num sistema de garantia que acabe socializando
perdas privadas".
"Se
temos um mecanismo de garantias em que a confiança é inflacionada e instigada
pela placa do fundo garantidor, então a regulação não está cumprindo a sua
finalidade. Nós não podemos ter um mecanismo de garantia que sirva para
alavancar o cacife sem que haja um lastro correspondente no ativo. Isso é
insustentável."
Sob a
gestão de Vorcaro, os ativos do conglomerado bancário tiveram um crescimento
vertiginoso, de R$ 3,7 bilhões, em 2019, para R$ 82 bilhões, em 2024. Os
valores foram captados por meio de uma política agressiva que oferecia
rendimentos de até 140% do Certificado de Depósito Bancário (CDI) para quem
comprasse papéis da instituição – porcentagem superior às taxas médias de
outros bancos.
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Riscos
Sidney
fez as declarações diante de uma plateia que contava com Roberto Campos Neto,
ex-presidente do Banco Central, que estava agendado para falar em outro painel
na Universidade de Frankfurt. Foi sob a gestão de Campos que foi implementada
uma agenda de inovação que favoreceu o surgimento de centenas de fintechs. Mas
também foi sob a gestão de Campos que os problemas do Master se avolumaram, sem
provocar aparente reação do BC. Hoje, Campos Neto é Vice-Chairman e Chefe
Global de Políticas Públicas do banco digital Nubank.
Presente
no mesmo evento que Sidney, Rafael Furlanetti, sócio-diretor institucional da
XP Inc. e presidente da Associação Nacional das Corretoras de Valores (Ancord),
discordou e advertiu que "a segurança deve caminhar com a inovação, mas
jamais a segurança deve frear a inovação" e defendeu preservar o FGC como
instrumento de competição.
"Nós
temos que ter muito cuidado de que, sob o argumento da proteção, a gente
prejudicar o investidor. Durante muito tempo no nosso país, um banco escolhia
quem investia com ele. Hoje o investidor escolhe onde ele vai mexer",
disse.
"Concordo
que a regulação tem que acompanha, que tem de ser forte. Aqui a gente não foge
de reconhecer de que é preciso fazer melhorias. Agora, a gente tem que ser
muito responsável em dizer que a competição bancária no Brasil, ela teve um
grande salto com o FGC. A gente pode discutir as melhorias, mas é muito
importante preservar esse instrumento de competição", acrescentou
Furlanetti.
"O
mundo tem crises. Quem lembra do escândalo do Bernie Maddoff nos EUA? Ou a
Wirecard na Alemanha? E o que os alemães fizeram? Acabaram com o sistema de
inovação? Não", disse Furlanetti. "Quem aqui quer ir a uma agência
bancária? Então não dá para fugir da inovação. A gente tem que tomar muito
cuidado aqui, que sobre o pretexto da proteção, de fechar o sistema
novamente", concluiu.
A XP de
Furlanetti, na posição de principal plataforma aberta de investimentos
brasileira, teve a maior participação na distribuição de certificados de
depósitos bancários (CDBs) do conglomerado liderado pelo Master de Daniel
Vorcaro.
Embora
os CDBs fossem emitidos pelo Master, a distribuição aos investidores ocorria em
grande parte por meio de corretoras e plataformas.
No fim
de janeiro, a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor e do Trabalhador
(Abradecont) anunciou uma ação civil pública contra a XP, o BTG Pactual e o
Nubank pela comercialização de CDBs do Master, acusando as instituições de
propagandearem a proteção do FGC para induzir investidores a acreditar que o
risco era baixo.
• O que dizem as mensagens que levaram à
prisão de Vorcaro
Ao
determinar a prisão do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, o ministro do
Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, citou trocas de
mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) que indicam a existência de uma
estrutura informal denominada "A Turma", responsável pela
"execução das ações de vigilância, intimidação e obtenção de dados"
de inimigos do banqueiro.
As
mensagens foram obtidas no celular de Vorcaro pela PF na primeira fase da
Operação Compliance Zero, que apura possíveis crimes contra o sistema
financeiro cometidos pelo Banco Master antes de sua liquidação. Agora, Mendonça
também vê também indícios de que a prática de ameaça, corrupção, lavagem de
dinheiro e invasão de dispositivos informáticos teriam sido praticados de forma
estruturada pelo grupo, constituindo característica típica de uma
"organização criminosa".
A PF
identificou a emissão de ordens diretas de Vorcaro para que fossem praticados
atos de intimidação de pessoas (dentre as quais, concorrentes empresariais,
ex-empregados e jornalistas) que seriam vistas como prejudiciais aos interesses
da organização
O
principal interlocutor era Luiz Phillipi Mourão. Segundo a decisão, ele seria
responsável pela coordenação das atividades da "Turma". Há indícios
de que o grupo recebia um milhão por mês de Vorcaro "como forma de
remuneração por serviços ilícitos".
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Intimidação de funcionários
Apelidado
de "Sicário", Mourão teria obtido informações, monitorado pessoas e
levantado dados a Vorcaro. Em uma mensagem no aplicativo WhatsApp, o banqueiro
se dispõe a colocar "A Turma" para intimidar um funcionário que
supostamente teria feito uma gravação indesejada.
Em uma
determinação a Mourão, Vorcaro pede para "levantar tudo dos dois",
indicando também o monitoramento de um chefe de cozinha associado ao
funcionário. "A uma certa altura, Daniel Vorcaro expressamente menciona a
Mourão, 'O bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai
assustar'", diz a decisão.
Em
outra ocasião, Vorcaro diz que sua empregada o estaria ameaçando.
"Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa
vagabunda". Mourão pede orientações sobre o que fazer. "Puxa endereço
tudo", responde o banqueiro.
A PF
também indica que a "prática violenta" atinge até mesmo jornalistas.
Um deles, segundo a imprensa, seria Lauro Jardim, colunista de O Globo.
"Tinha
que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele", escreve
Vorcaro sobre Jardim. "Vou fazer isto", responde Mourão. Em nova
troca de conversas, Vorcaro diz: "Esse lauro quero mandar dar um pau nele.
Quebrar todos os dentes. Num assalto".
Mourão,
então, diz que está em cima para derrubar os "links negativos". Sobre
o indicativo de "dar um pau" no jornalista, Mourão pergunta:
"Pode? Vou olhar isso…". Segundo a investigação, Vorcaro responde que
"sim".
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Consultas de dados sigilosos
Além da
identificação, localização e acompanhamento de pessoas que mantinham relação
com investigações ou com críticas às atividades do grupo econômico ligado ao
Banco Master, Mourão realizava consultas de dados em sistemas restritos de
órgãos públicos, diz a investigação, incluindo os sistemas da própria PF e do
Ministério Público.
As
mensagens ainda indicam que o investigado atuava na articulação de medidas
voltadas à remoção de conteúdos e perfis em plataformas digitais, simulando
solicitações oficiais de órgãos públicos. "Essa atuação envolvia o envio
de comunicações institucionais ou documentos sem validação formal, com o
objetivo de obter dados de usuários ou promover a retirada de conteúdos
considerados prejudiciais aos interesses do grupo", diz a decisão.
Em uma
das mensagens, Mourão indica a estrutura do grupo "A Turma" ao ser
indagado por Vorcaro sobre o pagamento de seus serviços. "Ele manda o
mensal e eu divido entre a turma. Mando pra eles. 400 divido entre 6. Os
meninos mando 75 pra cada, o meu. O DCM e mais dois editores. É este o mensal.
Ele manda 1 e quando você manda bônus eu divido entre os meninos e a
turma".
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Envolvimento de servidores do BC
Outras
trocas de mensagens indicam que Vorcaro teve também acesso prévio a informações
confidenciais sobre as investigações, além de manter interlocução direta com
servidores do Banco Central responsáveis pela supervisão bancária,
"discutindo temas relacionados à situação regulatória da instituição
financeira e encaminhando documentos e minutas destinados à autarquia
supervisora para análise prévia."
Nas
mensagens, o investigado solicitava orientações sobre a condução de reuniões
institucionais, a elaboração de documentos e a abordagem de temas sensíveis
perante autoridades regulatórias, diz o despacho do STF. O Banco Central era o
responsável por fazer a regulação prudencial do Master, que levou à posterior
liquidação do banco.
Em uma
troca de mensagens, o ex-diretor do BC, Paulo Sérgio, é parabenizado por
Vorcaro ao ser nomeado para o cargo de Chefe-Adjunto de Supervisão Bancária no
Banco Central.
Paulo
Sérgio foi um dos alvos da operação desta quarta-feira (04/03). Ele já havia
sido afastado do cargo por investigação interna da autoridade monetária e agora
cumpre medidas cautelares. No aplicativo de mensagens, o ex-servidor
"torna-se uma espécie de empregado/consultor de Vorcaro", diz a
decisão de Mendonça, que cita a existência de "inúmeras" mensagens
comprobatórias. Sérgio supostamente realizava, por exemplo, análises prévias de
ofícios que o Banco Master enviaria ao seu próprio departamento.
Belline
Santana, também servidora do BC, teria atuado de forma parecida, diz Mendonça.
Fonte:
DW Brasil

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