quinta-feira, 5 de março de 2026

Bruno Fabricio da Silva: Trump como método - a política da tensão permanente

Há algo de profundamente calculado e perigoso no fato de Donald Trump estar, literalmente, todos os dias nas capas dos jornais e noticiários pelo mundo. Não se trata apenas de visibilidade. Trata-se de método. A presença constante não é um efeito colateral do seu estilo político: é o próprio instrumento de poder.Trump governa pela saturação.

A lógica é simples: manter o ambiente público em estado contínuo de alerta, de conflito e de urgência. Quando tudo parece excepcional, quando cada dia traz uma nova crise, uma nova ameaça ou um novo gesto “disruptivo”, o debate público deixa de ser deliberativo e passa a ser reativo. A política deixa de ser reflexão e se torna sobrevivência. E é nesse terreno que lideranças autoritárias prosperam.

Essa saturação não opera apenas no plano institucional ou diplomático. Ela atua diretamente na formação da opinião pública, que não deve ser entendida como a soma espontânea das opiniões individuais, mas como um processo socialmente construído de percepção da realidade política. A opinião pública se forma a partir da repetição de temas, da dramatização de conflitos e da definição do que é percebido como urgente.

Quem controla o ritmo da crise molda o horizonte do debate.

Recentemente, a derrota de Trump na Suprema Corte em relação ao chamado “tarifaço” representou um raro momento de contenção institucional do Poder Executivo. A decisão reafirmou limites ao unilateralismo econômico do governo. Em condições normais, esse episódio abriria espaço para um debate sobre legalidade, protecionismo e equilíbrio entre poderes.

Mas a normalidade não é o terreno em que o trumpismo opera.

Na sequência do revés judicial, a escalada militar contra alvos iranianos, conduzida pelos Estados Unidos em coordenação com Israel no último dia 28, rapidamente reorientou o foco do debate público. O deslocamento do foco, do limite institucional ao conflito externo, não é acidental. Trata-se de uma lógica clássica: quando o poder é contido internamente, projeta-se força externamente.

Mas os desdobramentos recentes indicam que não se trata apenas de projeção de força.

A ofensiva conjunta atingiu não apenas instalações estratégicas, mas também o núcleo da liderança política iraniana, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, cuja morte foi confirmada posteriormente. A operação assumiu caráter de ataque de decapitação, voltado à desorganização do comando estatal e à reconfiguração do equilíbrio regional de poder. Em resposta, o Irã iniciou ataques retaliatórios contra bases e aliados dos Estados Unidos no Golfo, ampliando o risco de regionalização do conflito e sinalizando que a dinâmica já ultrapassa o plano simbólico da dissuasão.

A política externa, embora possua dinâmica própria, frequentemente opera como extensão da disputa doméstica. A identificação de um inimigo externo, como o Irã nesse episódio, reverbera no plano interno ao produzir coesão e legitimar narrativas de proteção nacional. A mensagem implícita é clara: estamos combatendo ameaças externas para garantir segurança ao povo americano.

Essa lógica ganha ainda mais relevância no atual contexto pré-eleitoral nos Estados Unidos. Embora Trump não esteja diretamente na cédula, as eleições legislativas de meio de mandato (midterms) definirão se seu partido manterá a maioria no Congresso, condição essencial para a continuidade de sua agenda e para evitar investigações e bloqueios institucionais.

A mobilização de conflitos externos não é apenas resposta estratégica internacional, mas parte de uma disputa interna por legitimidade e apoio. A construção de ameaças externas reorganiza o debate doméstico e reposiciona a liderança como agente de proteção em um ambiente de incerteza.

Essa estratégia se articula com um elemento central da política contemporânea da extrema direita: a mobilização permanente da ameaça. Recentemente, na Conferência de Segurança de Munique, o secretário de Estado Marco Rubio advertiu que a migração em massa estaria “desestabilizando a civilização ocidental” e ameaçando a soberania nacional. Ao criticar a ideia de um “mundo sem fronteiras”, apresentou a migração não como fenômeno social complexo, mas como risco civilizacional.

O enquadramento é revelador.

Não se trata de uma política migratória, mas de uma narrativa de defesa cultural. A migração deixa de ser tema administrativo e se transforma em ameaça existencial. Esse tipo de construção retórica desloca conflitos sociais para o terreno identitário, produzindo coesão interna pela definição de um “outro” externo.

Trump reforçou essa lógica em discurso recente no Congresso. Ao estruturar sua fala em torno da proteção nacional frente à imigração e da necessidade de priorizar cidadãos americanos, o pronunciamento operou menos como prestação de contas e mais como ritual de demarcação política. A política torna-se performativa.

Nesse ponto, Trump não está isolado, mas inserido em uma tendência global da extrema direita contemporânea, da qual Milei é expressão regional. Em diferentes contextos, o padrão se repete: construção de crises permanentes, personalização do conflito e identificação de inimigos internos ou externos.

Historicamente, essa técnica não é nova.

A propaganda nazista operava por saturação simbólica. A repetição incessante de ameaças — o “perigo judeu”, o “bolchevismo internacional”, a decadência cultural — criava um ambiente de mobilização contínua. A política era apresentada como luta existencial. Não havia normalidade possível, apenas conflito.

De modo semelhante, durante o auge do anticomunismo no pós-guerra, a dramatização da ameaça soviética foi usada para justificar medidas internas extraordinárias. O macartismo operou pela produção de um clima de suspeição permanente: o inimigo poderia estar em qualquer lugar — na universidade, na imprensa, no governo. A tensão era o mecanismo de coesão. O que diferencia o presente é a velocidade.

A extrema direita contemporânea opera em um ecossistema midiático que permite a substituição contínua de crises. A derrota na Suprema Corte poderia gerar debate sobre limites institucionais. Em vez disso, foi rapidamente eclipsada por uma escalada militar. O discurso sobre tarifas poderia expor fragilidades econômicas. Em seu lugar, surge o discurso sobre civilização e fronteiras.

É nesse ponto que a análise pode ser aprofundada à luz do que o filósofo francês Jacques Rancière (2005) denomina partilha do sensível: “o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas”.

A política não opera apenas no plano das decisões, mas na própria definição do que pode ser visto, dito e reconhecido como legítimo. A política da tensão permanente atua precisamente nesse nível.

Ao saturar o debate público com ameaças, crises e inimigos — sejam eles migrantes, potências estrangeiras ou instituições internas —, lideranças como Trump intervêm na própria estrutura da percepção coletiva. A repetição contínua de determinados temas reorganiza o campo do visível: quem pertence ao “nós”, quem aparece como ameaça, quem merece proteção e quem pode ser descartado.

Discursos que enquadram a migração como risco civilizacional não apenas defendem políticas específicas; eles redesenham a partilha do sensível. Reconfiguram quem é percebido como parte do comum e quem é deslocado para fora dele.

Nesse processo, a opinião pública não apenas reage aos acontecimentos. Ela passa a ser moldada por uma reorganização perceptiva que redefine pertencimentos e legitimidades.

A sucessão de choques, derrotas institucionais, escaladas militares e discursos de civilização produz dessensibilização. O extraordinário torna-se rotina. Quando tudo é ameaça, toda resposta excepcional parece legítima. É assim que a instabilidade se converte em capital político.

Ao monopolizar a atenção, Trump define a agenda. E, ao defini-la, limita o campo do imaginável. O debate não gira mais em torno da legalidade de suas ações, mas da urgência de responder às crises que ele próprio ajuda a produzir.

No limite, o trumpismo não é apenas um conjunto de políticas. É uma técnica de governo baseada na tensão permanente, um padrão que ressoa historicamente em outras experiências de mobilização autoritária e que hoje encontra eco na extrema direita global.

Democracias dependem de momentos de normalidade. A política da crise contínua trabalha precisamente para eliminá-los.

¨      Ataque ao Irã: demonstração de força e crise de hegemonia. Por Gilberto Maringoni

O ataque estadunidense-israelense ao Irã, com o assassinato do aiatolá Ali Khamenei, seus familiares e dezenas de inocentes deve ser chamado pelo nome: ato terrorista. Nem o jornal New York Times, em editorial, vê justificativa crível para o ataque. Mas é preciso tentar entender o roteiro do imperial, sem declaração formal de guerra, autorização do Congresso ou da ONU. Há lógica no caos.

É pouco provável que a Casa Branca planeje uma guerra de verdade contra o Irã, com desembarque de tropas, ocupação territorial e derrubada do regime. Uma iniciativa dessas pode resultar num atoleiro prolongado, que resultará em inevitáveis baixas em suas próprias tropas e previsível desgaste interno. Possivelmente a blitzkrieg deste sábado (28) tenha proximidade com a incursão na Venezuela, em 3 de janeiro, apesar das diferenças entre os países.

Decepa-se o governo, elimina-se sua liderança e coloca-se a faca no pescoço dos sobreviventes, até lhes dobrar a espinha. Se a hipótese for correta, não será preciso mudar o regime, mas torna-lo vassalo. O problema é que o Irã não é o país caribenho e o governo, apesar da recente onda de protestos, goza de real legitimidade popular.

Donald Trump busca frear a queda de hegemonia de seu país, através do uso desmesurado da força bruta, diante da perda de sua liderança moral no mundo. O republicano jamais poderia repetir as palavras de Harry Truman, quando inaugurou no a Guerra Fria, no discurso perante o Congresso, em 12 de março de 1947: “Acredito que deve ser política dos Estados (…) ajudar os povos livres a trilharem seus próprios destinos à sua própria maneira”.

Hoje a frase seria motivo de chacota, a não ser para a extrema direita. Ninguém sério no planeta acredita que os EUA queiram “ajudar povos livres” a trilharem o que quer que seja. A agressiva política tarifária, o sequestro de Nicolás Maduro, o estrangulamento de Cuba e a barbárie desatada sobre o Irã não visam apoiar ninguém, a não ser exibir ao mundo a musculatura bélica da potência dominante, que defende unicamente seus interesses.

Há um efeito-demonstração na conduta externa de Washington e sua tática de abrir variadas frentes de conflito para propagar invencibilidade no ringue global. Nos casos de Venezuela e Irã, há um objetivo maior: bloquear os dois dos maiores fornecedores de petróleo à China, a inimiga central de Washington.

Apesar de tudo, Donald Trump busca aliados ou pelo menos neutralidade em sua área de influência. Seu caminho é tortuoso e tem na chantagem ou pressão explícita sua pedra de toque. É o que se viu no desempenho do vice-presidente J. D. Vance na Conferência de Segurança de Munique, em 14 de fevereiro de 2025, três semanas após a posse. Sem rodeios e de forma crua, J. D.Vance colocou em dúvida o compromisso democrático dos tradicionais aliados.

Em acintoso discurso, foi direto: “O que me preocupa é a ameaça interna, o afastamento da Europa de alguns de seus valores mais fundamentais – valores compartilhados com os Estados Unidos da América. (…) A Europa enfrenta muitos desafios, mas a crise que este continente enfrenta neste momento, a crise que acredito que todos enfrentamos juntos, foi criada por nós mesmos”.

O representante de Washington reclamou explicitamente de tentativas de se isolar a extrema direita em vários países. Em seguida, alertou que seu governo não garantiria mais recursos militares aos aliados: “É importante que, nos próximos anos, a Europa intensifique seus esforços para garantir sua própria defesa”. A intervenção foi vista como prenúncio do rompimento de pactos firmados no pós-Guerra. A receptividade da plateia, composta por membros de todos os governos do continente, foi de estupefação.

A tensão aumentou ao longo do ano, quando Donald Trump deu curso à sua política tarifária. Em agosto, os Estados Unidos e a União Europeia assinaram um acordo comercial, definindo taxas de 15% sobre a maioria dos produtos europeus. Em troca, o continente comprometeu-se a eliminar as tarifas sobre produtos industriais do parceiro, a comprar US$ 750 bilhões em gás, petróleo e energia nuclear, além de investir US$ 600 bilhões nos EUA pelos três anos seguintes. As arestas só aumentaram quando o presidente americano avançou nos argumentos para se apossar da Groenlândia.

Exatamente um ano depois da incendiária intervenção de Vance, o papel de bombeiro coube a Marco Rubio, na edição seguinte da mesma Conferência de Segurança, em Munique. Ao contrário do vicepresidente, o secretário de Estado foi cheio de mesuras para um continente prostrado e destratado pela Casa Branca.

Marco Rubio expôs uma visão enviesada de História, exaltou o colonialismo, a união do Velho Mundo com a nascente América branca (1776), ignorou negros e povos originários, atacou a luta anticolonial no século XX, vomitou um anticomunismo tosco e, num tom abertamente racista e investiu contra a imigração. “Os Estados Unidos e a Europa pertencem um ao outro”, afirmou, numa quase declaração de amor. Foi várias vezes interrompido por aplausos entusiasmados.

Além dos ziguezagues diplomáticos, Donald Trump deu curso à constituição de seu Conselho de Paz para Gaza. Apesar das mesuras em Munique, a Europa Ocidental não embarcou na articulação, que conta com a participação de 27 países, a maior parte de reduzido peso global. Entre eles estão Albânia, Argentina, Egito, Hungria, El Salvador, Indonésia, Paquistão, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Vietnã.

Uma semana depois de reunir seu Conselho, Donald Trump pronunciou o tradicional Discurso do estado da União, em 25 de fevereiro. Ao longo de 1 hora e 48 minutos, o republicano exaltou feitos na economia interna e vangloriou-se das iniciativas militares e econômicas contra Venezuela e Cuba e prometeu atacar o Irã. Os argumentos passaram longe de nobres promessas como as de Harry Truman. Os pretextos de agora são o narcotráfico, ameaças à segurança dos EUA e outras meias-verdades.

Com dificuldades para convencer potenciais aliados, Donald Trump busca, acima de tudo, criar um violento efeito-demonstração. Não há nobres causas ou elevada moralidade a defender. Tudo é direto, escancarado e explícito, o que dispensa a necessidade de se dourar pílulas. A Casa Branca demonstra força, ao mesmo tempo que vê se reduzir sua capacidade de convencimento. Exemplos são as cautelosas e ambíguas notas da maioria dos países europeus sobre a incursão no Irã.

Se o conceito de hegemonia resulta da combinação de coerção e consenso, como sublinhava Gramsci, a equação dos partidários do Make America Great Again (MAGA) se mostra falha. Pode parecer paradoxal falar em perda de hegemonia diante do formidável poder destrutivo do Império. Um sinal adicional dessas turbulências com possíveis aliados é o paulatino abandono do dólar em transações internacionais e na composição de reservas cambiais de vários Estados. Embora ainda não significativa, vislumbra-se uma perda de credibilidade da moeda global, pilar central do poder americano, algo já acusado por Donald Trump e propagado por cambiantes aliados europeus.

Não há país do mundo capaz de se equiparar ao poder de fogo dos Estados Unidos, até aqui. Nem China e nem Rússia tomam posições práticas diante da escalada bélica. Limitam-se a lançar notas de protesto de quando em quando.

Há descontentamentos domésticos, contudo. Em pesquisa da CNN/ SRRS, divulgada em 22 de fevereiro, Donald Trump aparece com aprovação de 36%, numa queda de 12 pontos em um ano. Apesar da inflação se mostrar baixa – 2,7% em dezembro de 2025, segundo o U.S. Bureau of Labor Statistics – altas expressivas ao longo do ano passado em produtos como carne, suco de laranja e café, pautadas pela alta das tarifas, atingiram o humor dos consumidores. O país vive um processo de concentração de renda e crescentes conflitos sociais.

O que ameaça colocar algum freio na ofensiva da extrema-direita estadunidense são as eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para 4 de novembro. Se a insatisfação interna continuar, Donald Trump pode perder a estreita maioria republicana de 53 X 47 assentos no Senado e de 220 a 213 na câmara. Como nos tempos da guerra do Vietnã, a política externa poderá ter no front doméstico um obstáculo sério.

 

Fonte: Brasil 247/Outras Palavras

 

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