quinta-feira, 5 de março de 2026

Como funcionava o grupo de Vorcaro contra adversários, segundo a PF

A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (4/3) a terceira fase da operação Compliance Zero, que investiga fraudes ao sistema financeiro nacional supostamente praticadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Mas se as duas fases anteriores da operação focaram no funcionamento das alegadas fraudes praticadas pelo banqueiro, a fase deflagrada nesta quarta-feira teve como um dos seus focos principais o desmantelamento de um suposto grupo liderado por Vorcaro para monitorar e ameaçar adversários empresariais, ex-funcionários e jornalistas.

Vorcaro voltou a dizer nesta quarta que nega todas as acusações.

Para a PF, o grupo atuaria como uma "milícia privada" a serviço do banqueiro.

A operação de hoje foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e determinou a prisão de Vorcaro e mais três pessoas: todas supostamente envolvidas no funcionamento deste grupo, que tinha um apelido interno: "Turma".

Além de Vorcaro, foram alvo de mandados de prisão: seu cunhado, o advogado, empresário e pastor evangélico Fabiano Campos Zettel, o policial federal Marilson Roseno e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão.

Mensagens extraídas de aparelhos de telefone celular analisadas pela PF apontam que Vorcaro teria montado um grupo para monitorar adversários, empresários concorrentes, autoridades e jornalistas.

Esse grupo ficaria responsável por levantar informações, monitorar e até mesmo ameaçar pessoas de interesse de Vorcaro.

Em um dos casos, Vorcaro chega a autorizar uma ação contra um jornalista e diz desejar "quebrar todos os dentes" do profissional, de acordo com as mensagens.

Segundo as investigações, o grupo funcionava como uma estrutura de vigilância e coerção privada. De acordo com a decisão que autorizou a operação, o núcleo era destinado à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação de críticos do conglomerado liderado pelo banqueiro.

A defesa de Vorcaro enviou nota negando as adusações contidas na decisão que autorizou a operação.

"A defesa de Daniel Vorcaro informa que o empresário sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça. A defesa nega categoricamente as alegações atribuídas a Vorcaro e confia que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta", diz um trecho da nota.

As defesas de Zettel, Roseno e Mourão não foram localizadas.

<><> "Milícia privada"

Segundo a PF, Daniel Vorcaro usava a "Turma" para obter informações sobre seus adversários e diminuir sua exposição negativa na mídia.

Nas mensagens obtidas pela PF, ele aparece indicando possíveis alvos para monitoramento.

Ainda de acordo com a PF, a estrutura da "Turma" era liderada operacionalmente por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido nas mensagens interceptadas como "Felipe Mourão" e por um apelido: "Sicário".

As mensagens analisadas pela PF apontam que Mourão mantinha relação direta com Vorcaro.

A PF apontou que Mourão usaria credenciais de terceiros para acessar indevidamente bases de dados do próprio órgão, do Ministério Público Federal (MPF) e até de organismos internacionais como o FBI e a Interpol.

Zettel, por sua vez, seria o responsável por realizar os pagamentos para o funcionamento do grupo.

As investigações revelaram que o custo mensal dessa estrutura poderia chegar de R$ 1 milhão.

Em uma conversa por WhatsApp obtida pela PF, Mourão cobra Vorcaro pelo atraso no pagamento:

"Bom dia. O Fabiano não mandou este mês e a turma está perguntando. Dá uma olhada com ele por favor. Obrigado".

Além de Mourão, segundo a decisão, o grupo contava com Marilson Roseno da Silva, um policial federal aposentado.

Roseno, de acordo com a investigação, utilizava sua experiência e contatos na corporação para obter dados sensíveis, ajudar no e realizar vigilância de alvos definidos pela organização.

"Sua participação era voltada à coleta e compartilhamento de informações que pudessem antecipar ou neutralizar riscos decorrentes de investigações oficiais ou da atuação de jornalistas, ex-funcionários e outros indivíduos considerados críticos às atividades do grupo", diz um trecho da decisão.

As mensagens reproduzidas pela PF e presentes na decisão apontam que as ordens de monitoramento dadas por Vorcaro eram diretas. Além de jornalistas e concorrentes, ele teria chegado a mandar monitorar um ex-chefe de cozinha que havia trabalhado para ele.

Na decisão, as investigações apontam que o grupo citava o uso de violência em suas atividades. A PF caracterizou a ação do grupo como "rápida, premeditada e violenta, com o uso reiterado de coação e grave ameaça por uma espécie de milícia privada".

A PF cita um episódio no qual Vorcaro teria pedido Mourão agisse contra uma empregada que o teria ameaçado.

"Tem que moer essa vagabunda. Puxa endereço tudo", diz uma mensagem atribuída a Vorcaro pela PF e endereçada a Mourão.

Mourão pediu orientação.

"O que é pra fazer?", diz mensagem atribuída a ele para Vorcaro.

"Puxa endereço tudo", teria respondido Vorcaro.

<>><> "Quebrar os dentes"

A suposta dinâmica violenta do grupo aparece, também, em uma troca de mensagens relacionada a um jornalista.

Seu nome aparece tarjado, mas uma busca simples no documento aponta que o nome tarjado é "Lauro", uma provável citação ao colunista do jornal O Globo Lauro Jardim.

Na decisão, Mendonça afirma que haveria indícios de que Vorcaro teria ordenado a simulação de um assalto para agredir o jornalista.

"A partir de todos esses diálogos verifica-se a presença de fortes indícios de que Vorcaro determinou a Mourão que forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para prejudicar violentamente o jornalista em questão e, a partir do episódio, calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados"

Em uma mensagem atribuída a Vorcaro para Mourão, o banqueiro diz querer "dar um pau" no jornalista.

"Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto", diz a mensagem.

Em resposta, Mourão teria respondido. "Pode? Vou olhar isso…"

Vorcaro, então, segundo a PF, responde. "Sim".

A ação não foi realizada, segundo relato de Lauro Jardim à rádio CBN, na manhã desta quarta-feira.

O jornal 'O Globo' divulgou uma nota comentando a operação e citando Jardim como implicado: "Os envolvidos nessa trama criminosa devem ser investigados e punidos com o rigor da lei. O Globo e seus jornalistas não se intimidarão com ameaças e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público".

•        O que se sabe sobre a prisão de Vorcaro pela PF

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, voltou a ser preso nesta quarta-feira (4/3) pela Polícia Federal (PF) em São Paulo em nova fase da operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraude na instituição financeira.

A decisão que autorizou a operação, do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), cita a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.

Em nota, a PF afirmou que estão sendo cumpridos 4 mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão na manhã desta quarta.

Também foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e de sequestro e de bloqueio de bens, no montante de até R$ 22 bilhões.

Vorcaro já havia sido preso em novembro do ano passado, na primeira fase da operação, mas foi solto na sequência. Na época, foi determinado que o empresário fizesse o uso de tornozeleira eletrônica.

Procurada pela BBC News Brasil, a defesa de Vorcaro negou as alegações atribuídas ao banqueiro. E afirmou que o empresário "sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça."

A prisão do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, também foi determinada. A reportagem ainda não conseguiu contato com a defesa dele.

Além de Vorcaro e Zettel, os mandados de prisão têm como alvos Luiz Phillipi Mourão, que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.

Segundo a decisão que autorizou a operação, Silva auxiliava Vorcaro e outras pessoas ligadas a ele com o levantamento de informações para o monitoramento de seus adversários.

O ex-diretor de fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC, Belline Santana, também são alvos da operação. Eles deverão utilizar tornozeleira eletrônica, além do cumprimento de outras medidas restritivas e do impedimento de seguirem com suas funções.

Segundo as investigações, Souza "prestava consultoria informal e contínua" a Vorcaro, "fornecendo orientações estratégicas sobre a atuação do Banco Central em processos administrativos envolvendo o Banco Master, inclusive sugerindo abordagens e argumentos a serem utilizados em reuniões com dirigentes da autarquia reguladora".

Já Belline é descrito como "uma espécie de empregado/consultor" do banqueiro em relação a temas do BC.

Ambos eram funcionários de carreira do Banco Central e já haviam sido afastados de suas funções em meio às investigações instauradas pelo BC para apurar eventuais omissões no caso Master.

Esta é a primeira ação do ministro André Mendonça como relator do caso, que assumiu no mês passado.

Na decisão, o magistrado detalha a estrutura do esquema investigado, além de indicar a existência de evidências que apontam uma tentativa estruturada de Vorcaro e aliados de interferir no andamento das investigações.

Segundo Mendonça, a polícia encontrou indícios de quatro núcleos principais de atuação: um núcleo financeiro, responsável pela estruturação das fraudes; um núcleo de corrupção institucional, voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central para o esquema; um núcleo de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, com utilização de empresas interpostas; e um núcleo de intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.

<><> 'Monitoramento' e 'intimidação'

As investigações apontam que o grupo criminoso mantinha estrutura de vigilância e coerção privada, denominada "A Turma", destinada à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação de críticos do conglomerado financeiro.

"A Turma" recebia R$ 1 milhão por mês para realizar os monitoramentos, segundo as investigações.

Sobre o sistema de vigilância, Mendonça diz na decisão desta quarta que Vorcaro comandava o grupo e contratou uma pessoa para monitorar seus adversários. O empresário teria citado a possibilidade de fazer ameaças a ex-funcionários e a jornalistas.

Em uma troca de mensagens detectada pela PF, Vorcaro chega a citar a possibilidade de simular um assalto para "quebrar todos os dentes" de um jornalista.

O nome do jornalista foi tarjado no documento do STF, mas o jornal O Globo confirmou se tratar do seu colunista, Lauro Jardim.

Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro, também teria participado do grupo de monitoramento, segundo Mendonça. Ele seria responsável por operacionalizar o pagamento da empreitada.

Casado com Natalia Vorcaro, irmã do banqueiro, Zettel é, além de advogado e empresário, pastor evangélico. Foi o maior doador pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022.

O grupo também é acusado de realizar acessos indevidos a sistemas sigilosos da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e de organismos internacionais, como o FBI e a Interpol, para obter dados protegidos.

Segundo o documento, o esquema contava ainda com a cooptação de servidores de alto escalão do Banco Central, como Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que ocupavam cargos de chefia na supervisão bancária.

Ambos foram suspensos de suas funções. Segundo a PF, eles atuavam como "consultores informais" de Vorcaro, revisando minutas de documentos que o próprio banco enviaria ao órgão regulador e antecipando movimentos de fiscalização.

<><> O caso Master

O Banco Master e outras quatro empresas do conglomerado comandado por Daniel Vorcaro foram liquidados extrajudicialmente pelo Banco Central no dia 18 de novembro de 2025. No mesmo dia, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero, quando tentava embarcar em um jatinho para os Emirados Árabes Unidos.

Segundo nota oficial divulgada pelo Banco Central naquele mesmo dia, as empresas do conglomerado comandado por Vorcaro foram liquidadas por três motivos principais:

•        crise de liquidez;

•        violações de normas que regulam o Sistema Financeiro Nacional e;

•        comprometimento da situação financeira das empresas.

A crise de liquidez do grupo empresarial de Vorcaro era um dos pontos que vinha chamando atenção de autoridades monetárias e analistas do mercado financeiro há mais de um ano.

Segundo documentos do caso envolvendo Vorcaro aos quais a BBC News Brasil teve acesso, o Banco Master expandiu suas operações entre 2019 e 2024 com base em um modelo de emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) pagando taxas de retorno aos seus investidores acima do que normalmente eram praticadas no mercado.

Os CDBs são ativos financeiros negociados por bancos ou corretoras de valores e que podem ser adquiridos tanto por pessoas físicas quanto por empresas. As taxas acima do mercado serviam para atrair mais clientes e para ampliar o volume de recursos entrando no banco. Por outro lado, o Master se viu obrigado a pagar taxas altas por esses recursos.

A estratégia de crescimento do Master, de acordo com um relatório do Banco Central, passou a enfrentar dificuldades depois que o Banco Master começou a ter problemas para captar recursos com os quais ele deveria pagar os juros dos CDBs que ele emitia.

Para reverter essa situação, ele passou a vender parte dos seus ativos, entre eles, carteiras de crédito consignado, que são empréstimos feitos normalmente a funcionários públicos cujas parcelas são descontadas diretamente na folha de pagamento.

"As cessões de carteiras foram intensificadas a partir de novembro de 2024, quando ocorreu agravamento do risco de liquidez, pois o Master passou a não conseguir rolar a totalidade dos vencimentos das captações", diz um trecho do relatório.

Em seu depoimento à Polícia Federal, Vorcaro reconheceu que o Banco Master enfrentou, sim, problemas de liquidez.

"Existia uma crise, não era de hoje, mas o Banco Master sempre foi solvente, sempre teve muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até o dia 17 de novembro", disse Vorcaro à PF.

Ainda de acordo com o executivo, o modelo de negócio do Banco Master era baseado no funcionamento do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O fundo garante o reembolso de até R$ 250 mil por investidor (pessoa física ou jurídica) por grupo econômico em caso de liquidação da instituição financeira.

"O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado nisso, essa era a regra do jogo", afirmou.

Mas a investigação sobre o caso Master não chama atenção apenas pelo aspecto econômico. Vorcaro era conhecido pelo trânsito que mantinha tanto no ambiente político quanto jurídico do país. Por isso, as revelações que podem surgir com o avanço das investigações vêm causando expectativa em Brasília.

Esse ponto foi central para que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), deixasse a relatoria da investigação em fevereiro.

A atuação de Dias Toffoli no caso vinha sendo questionada devido a supostas relações do ministro com pessoas ligadas ao Banco, entre elas Daniel Vorcaro.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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